História A Maldição de Levítico - Capítulo 42


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Fanatismo, Preconceito, Religião, Romance, Tragedia, Violencia
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Palavras 2.108
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Lemon, Romance e Novela, Violência, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 42 - Indo atrás do mauricinho


Ângelo

Depois de uma noite muito mal dormida pensando no Dante e em todas as palavras horríveis contidas naquela carta que eu já estava tentado a rasgar, decidi que aproveitaria o dia ímpar para tirar toda a história do namorado nojento da minha irmã a limpo. Tava precisando espairecer, socar alguma coisa e como o namorado dela estava merecendo uma boa surra, vi que era a minha chance.

Seria tudo perfeito se Lipe não tivesse insistido de que iria comigo, ainda mais depois que contei os detalhes.

Falando nele, as coisas ficaram meio esquisitas no café da manhã quando desci as escadas acompanhado por ele. Ninguém o viu invadindo meu quarto e muito menos notou que ele estava lá. O babaca usava uma de minhas camisas ainda por cima, minha família já pensou merda com toda certeza.

Buenos Dias! — Lipe disse alegremente enquanto descia as escadas e bocejava de uma forma teatral e pra lá de exagerada. Ainda tinha purpurina na cara dele.

Todo mundo tava olhando pra gente e minha irmã semicerrou os olhos, deu pra notar as narinas dela inflando.

— Nada aconteceu — tranquilizei-a, embora tenha falado alto para que todo mundo ouvisse. — Lipe e eu só dormimos. Ele tá com dor de cotovelo.

— Comparado a você eu até estou bem, flor do dia — Começou a domar os cabelos, penteando-os com o dedo. — Você tem laquê? Sempre passo quando acordo.

— Eu tenho cara de que usa laquê, Lipe? — grunhi, revirando os olhos pra ele e me sentando ao lado do meu pai, que desviou a atenção de nós para ler o jornal.

— E você...? — A pergunta se interrompeu enquanto ele apontava para a minha irmã. — Qual é o nome dela mesmo, Ângelo? Tenho uma péssima memória.

— Nina — ela respondeu por mim, bufando de raiva. Só não sabia se estava com raiva de mim ou do Lipe por ter esquecido o nome dela.

— Isso aí, você tem laquê? Meu cabelo não sobrevive sem laquê!

— Tenho — pareceu entediada enquanto se levantava da mesa indo em direção as escadas com Lipe em seu encalço.

— Quando foi que ele chegou aqui? — Minha mãe perguntou, um pouco espantada.

— Ele entrou pela minha janela — soltei sem cerimônia.

— Minha nossa!

— Ah, relaxa. Lipe é assim mesmo —Dei de ombros enquanto pegava as torradas.

Poucos minutos depois, um Lipe maquiado com o cabelo impecável desceu as escadas como se estivesse num concurso de beleza ou algo do tipo, pude até mesmo imaginar uma trilha sonora bem brega para acompanhar a lentidão com a qual ele descia.

— Sua irmã é uma fada, Ângelo — murmurou pra mim enquanto se sentava entre meu pai e eu arrastando minha cadeira de uma forma nada amigável. Julio vincou a testa, analisando com curiosidade as unhas pintadas de Lipe.

— Gostou? — Lipe perguntou, mexendo os dedos como se estivesse tocando piano. — Todo dia pinto de uma cor diferente, depende muito do meu humor. Hoje to mais pra vermelho. Ângelo, você tem esmalte vermelho? 

— Por que caralhos eu teria esmalte vermelho? — Acabei soltando uma risada forçada, balançando a cabeça com descrença.

— Já vi que tá de mau humor.

— Vocês estão juntos? — quis saber meu pai, nos encarando de soslaio.

Lipe explodiu numa gargalhada que acabou me assustando de tão exagerada que era.

— Britney que me livre! — grasnou em meio a risos. — Tenho bom gosto, senhor Neves!

Julio apenas assentiu enquanto tentava esconder o vislumbre de um sorriso com o jornal. Ele adorava o Lipe, mesmo que ainda não tenha se acostumado com sua vestimenta nada convencional e as invasões noturnas pela minha janela.

— Cadê a Nina? — questionei, quase na mesma hora em que ela apareceu no alto da escada e começou a descer.

— Tava no banheiro! — gritou ela antes de sentar ao meu lado.

— Qual será a boa do dia? — perguntou Lipe, enquanto cruzava as pernas e devorava uma torrada da forma mais lenta possível. — Me diga que você programou alguma coisa, Neves!

— Já te contei o que iríamos fazer — tentei lembrá-lo sem colocar em palavras para não acabar complicando a minha irmã. Meus pais não faziam ideia de que ela namorava.

— Ah sim — Por sorte, ele não disse nada a respeito, apenas continuou comendo. — Preciso de uma roupa, não posso ir desse jeito. Pareço um mendigo. Um mendigo bem descolado, mas não deixa de ser um.

— Ei, essa camisa é minha então não ouse falar mal dela.

— Sim, mas eu pareço uma vela derretida quando uso qualquer roupa sua. Você tem um gosto muito duvidoso, usa camisas largas demais. Essa por exemplo — Deu uma puxada na camisa vermelha com mangas. — Tem uma propaganda de manteiga nela. É uma decadência. Não me diga que você sai na rua com isso?

Quando eu estava prestes a responder, ele me cortou.

— Quer saber? Nem responda! Tenho medo da resposta.

— Eu te empresto outra mais apresentável, tá bom? — grunhi, não querendo perder a paciência na frente dos meus pais por uma razão besta.

— Nem pensar, suas roupas me dão calafrios — Colocou um pouco de café da xícara e começou a bebericar. Meus pais assistiam a discussão segurando a risada. Que bom saber que uma humilhação daquelas estava entretendo pelo menos alguém. — Nina! — disse com um gritinho, embora ela estivesse a poucos metros dele. — Você pode me emprestar uma roupa, não pode?

Ela quase engasgou com o café.

— Não uso roupa de menino — Ela pareceu confusa.

— Relaxa, o Lipe também não — falei, rindo.

— Cala a boca, Neves! — Virou-se para Nina. — Uso dependendo do meu humor, mas se for pra escolher entre o seu guarda roupa e o do Ângelo, só de olhar pra ele já dá pra notar qual será a minha escolha, né?

— Seu amigo é uma figura, Ângelo — Meu pai disse, dando batidinhas nas costas dele enquanto ria. — Quando você acabar de comer a Nina te empresta alguma coisa. Você tem esmalte vermelho, querida?

— Tenho, por quê? — ergueu apenas uma sobrancelha. Ia demorar um pouco para ela digerir o gosto nada convencional de Lipe, era até engraçado para alguém que se dizia apaixonada por ele durante tanto tempo.

— Lipe vai querer emprestado — falou como se não fosse nada de mais.

Nina fitou as unhas dele com um ar descrente como se tivesse vendo aquilo pela primeira vez.

— Tá bom — arfou em meio ao choque e aquela estranheza perdurou por toda a manhã.

 

                                                                 ***

Pegamos um táxi porque eu não estava com paciência para enfrentar transporte público a aquela altura do campeonato. Minha cabeça estava a mil, meus neurônios queimando, meu coração estraçalhado em um milhão de pedacinhos e nem mesmo se eu quisesse muito, conseguiria juntar todos os cacos que Dante deixou.

Por mais que eu não quisesse pensar nele a cada segundo do meu dia, era impossível. Quando eu ia para escola, minha cabeça automaticamente virava só para me decepcionar ao ver sua cadeira vazia. Isso sem falar do nosso tão famoso beco. Eu ficava horas ali, ignorando o cheiro terrível de lixo e fumando como uma chaminé sabendo que ele não viria — que nunca mais viria, na verdade.

Imundo.

Foi assim que ele classificou nosso relacionamento, nossa troca de experiências, meu amor por ele. Dava vontade de berrar só de pensar nessa palavra. Eu estava tão pilhado que se chegasse perto de uma igreja era capaz de eu tacar fogo nela sem dó.

Encostando a cabeça no vidro e ouvindo uma música bem depressiva da Lana Del Rey, comecei a chorar bem baixinho, abraçando meu corpo como se estivesse com frio. Nem ouvi as lamúrias de Nina ou a cantoria desafinada de Lipe no banco da frente ao lado do motorista, apenas a desgraça contida em meu peito, inflando-o e trazendo uma angústia tão grande que ficava difícil respirar.  

 Estava morrendo de saudade dele, tanto que um maldito nó se instalou em minha garganta deixando ainda mais visível e mais transparente esse sentimento.

Fiquei me perguntando se ele realmente achava que estava doente, que iria se ‘‘curar’’. Era uma coisa horrível de se pensar, até porque era impossível curar o amor, nem sequer era uma doença.

Em pleno século XXI ainda tinham pessoas que traziam aquela maldição nojenta contida num livro dito como sagrado para os dias atuais. Isso me fazia querer subir pelas paredes e dizer que nem todo mundo tinha que acreditar naquelas coisas e mesmo que acreditassem, não deveriam ser condenadas por não seguir cada palavra gravada ali.

Eu tinha a impressão de que a maioria dos pseudo cristãos não leram a bíblia — não por inteiro pelo menos. Isso porque esse tão famigerado livro condenava coisas que eram banais e ao mesmo tempo tão praticadas no nosso dia a dia que me deixava boquiaberto.

Talvez por isso eu não seja um cristão. Me dei ao trabalho de abrir a bíblia e lê-la de cabo a rabo, tentando realmente entendê-la, interpretá-la. Vi o quão absurda eram determinadas coisas, o quão machista, retrograda para os dias atuais e era por esses e outros motivos que nem fodendo iria deixar que se tornasse uma verdade absoluta na minha vida.

Na hora de comer carne de porco, alguns cristãos não lembravam da bíblia, não hesitavam em matar o pobre animal. As mulheres falavam na igreja e não se trancavam num quarto quando menstruavam, porém, alguns deles enchiam a boca para falar da abominação dos homossexuais e isso me dava tanta raiva que tinha vontade de socar a cara de cada um.

Era pura hipocrisia. Não deviam levar um livro daqueles ao pé da letra, mas era exatamente isso que alguns faziam, porém, pegavam apenas os trechos que mais lhe agradavam e que serviam para condenar determinado grupo de pessoas.

Voltei à realidade apenas quando o táxi parou e Nina me deu uma cotovelada nada gentil, fazendo com que eu desse língua para ela como uma criança mimada.

Pagamos o táxi e saímos. Fiquei meio inseguro naquele bairro nobre tão distante do meu. Era a Rua dos Tronos e apenas os ricos moravam ali e sinceramente, eu não tava com paciência para lidar com filhinho de papai.

Dei a mão para a minha irmã, como se quisesse protegê-la do mundo e andei na frente dela, enquanto Lipe nos seguia sem falar nada, apenas checando o quão brilhantes e perfeitas suas unhas eram. Ele era bem fútil às vezes!

 — É por aqui — sussurrou Nina, me guiando para o lado oposto.

Estava um sol de rachar e as pessoas que andavam ali eram meio diferentes das que perambulavam pelo meu bairro. Todas usavam ternos caros e recatados, andavam com pressa e sem olhar para nada além do relógio e quase todo mundo portava pastas imensas daquelas que empresários importantes usavam.

Não havia quase nenhum adolescente a vista, e os que tinham, não estavam fumando ao ar livre como eu e Lipe fazíamos, mas sim conversando e rindo como se a vida fosse um maldito filmezinho da sessão da tarde.

O cara morava num condomínio chiquérrimo, daqueles que você precisava assinar para poder entrar e onde tinham aqueles porteiros de luvas brancas que usavam o interfone por você.

Acredita que até tinha alguém para apertar o botão do elevador? Sério, que coisa mais invasiva e inútil! Tudo bem você ser podre de rico, mas não podia nem apertar a porra de um botão? Precisava mesmo ter alguém para fazer isso por você? Daqui a pouco as pessoas estariam carregando umas as outras!

As portas metálicas se abriram, nos levando a um imenso corredor que se iluminou no momento em que demos o primeiro passo.

Nina se encolheu ao meu lado, apertando suas mãos nas minhas e olhando de soslaio para Lipe, que continuava olhando para as unhas. Tava na cara que ela ainda era caidinha por ele, o que me deixava surpreso já que estávamos indo na casa do seu namorado tirar satisfação e revelar uma bomba. Acredito que não foi uma boa ideia levar o Lipe junto. Se bem que do jeito que as pessoas eram preconceituosas era bem capaz de pensarem que nós éramos namorados. Imagina a decadência!

Paramos numa porta de madeira com detalhes dourados e Nina se prontificou para bater, se escondendo atrás de mim como uma ratinha.

Houve alguns gritos de uma voz masculina bem grossa, falando algo sobre como os empregados eram incompetentes e a porta se abriu. Forcei um sorriso amarelo na mesma hora, meio assustado com o tamanho do brutamontes que estava parado na minha frente, só que meu coração parou no momento em que vi seu rosto.

O cabelo preto, aquele porte físico de dar inveja e a confiança com a qual exibia isso. Tinha esperanças de nunca mais ver aquele babaca de novo, mas pelo visto, eu estava errado.

 — Vitor? — indaguei, pálido como se tivesse visto um fantasma.

 

 

 



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