História Angel After Death - Capítulo 17


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Categorias Originais
Tags Ceifadora, Colegial, Dead Like Me, Vida Pós Morte
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Palavras 2.732
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Colegial, Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Luta, Misticismo, Romance e Novela, Sobrenatural, Violência
Avisos: Álcool, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 17 - Conto de Bruxas


O pistoleiro Peter os observava de dentro da taverna, embora sem fazer a menor tentativa de esconder-se. Não estava a comer, nem a fumar, nem a beber. Estava ali por outra razão. Usava chapéu, botas e calças marrons de brim, como caubói. Ninguém ousava encará-lo nos olhos. Além de suas habilidades como atirador, era conhecido por ser um homem austero e de poucas palavras. Tinha olhos de lince e uma esplêndida audição. Cada pensamento, sentido e instinto estava sintonizado na mesma simples ideia: eliminar qualquer representação de ameaça. Mas por enquanto apenas se limitava a observar. Acima da cabeceira de sua mesa erguia-se um quadro que demonstrava um dos cavaleiros do apocalipse empunhando a espada alta, enquanto cavalgava por um pântano em seu cavalo cor de fogo.

Ignorante à presença do pistoleiro, ainda em pleno alvorecer, o estômago de Angeline rosnava, despertado pelo vinho e o aroma de quitutes deliciosos, que se misturavam com o cheiro da madeira rústica. Embora estivesse louca de impaciência, também estava curiosa em saber o que o tal de Bard tinha a dizer. O momento de descontração duraria pouco e por um instante, antes de retornar a si, o olhar distante de Bard perdurou. Sabia que estava sendo vago e esperavam algo mais do que apenas um “a cidade está em perigo”.

-Eu vos digo, meus caros forasteiros, esta cidade tem um antigo segredo. Algo que gostaríamos que nunca tivesse acontecido.

Desde que chegaram naquela região, tudo parecia ser rondado por algum grande mistério e não era tão impressionante imaginar que guardassem um grande segredo. Os dois ceifeiros já sentiam essa mesma inquietação e Castiel ergueu uma sobrancelha, com a expressão de quem acabou de se lembrar de algo.

-Toda cidade tem seus segredos. Alguns são apenas mais nefastos do que outros.

Angeline agora parecia surpresa e ao mesmo tempo indignada.

-Espera aí, eu conheço esta frase. Está na capa de Silent Hill. Não disse que não conhecia o jogo, sr Ocupado?

-Bem, talvez eu já tenha jogado umas duas ou três vezes. – deu de ombros antes perceber que Bard estava com uma expressão confusa que dizia do que diabos eles estão falando? – meu ponto é, todo lugar precisa ser marcado por algum acontecimento, para ser lembrado. Em todo caso, Bard, sei que acabamos de nos conhecer, mas eu garanto que seus segredos conosco estarão bem guardados.

 -Sou grato. Não sei, há algo em vocês que me inspira confiança. E digo também que parecem bem diferentes, bem... – fez uma pausa como se tivesse engolido algo indigesto - deles.

Angeline não podia mais guardar a sua curiosidade para si.

-Escuta Bard. Quem são “eles” exatamente?

Bard deu um voto de confiança a eles, mas não pudera evitar aquela pausa relutante. Deu mais gole acentuado no seu vinho, talvez no intuito perseverante de ganhar uma dose de coragem extra.

-Antes de eu contar...o que vocês já ouviram sobre este lugar?
           -Bem, apenas especulações e histórias sem muito fundamento, pelo que eu sei. – Castiel respondeu honestamente - Mas realmente não sabemos de nada concreto. Melhor ouvir diretamente de um de seus habitantes.

-Certo. Bem. – seu volume de voz agora era mais baixo e cauteloso – talvez vocês já tenham ouvido falar sobre contos de bruxas em Monnock.

-Já ouvimos algo do tipo.

- Claro que todas as histórias que propagam por aí têm suas doses de exageros e distorção, mas é sabido que no passado algumas bruxas realmente habitavam esta região.  

-E não habitam mais? – interveio Angeline.

-Dizem que todas se foram, mas...sinceramente, eu duvido.

-Mas é um vilarejo pequeno...vocês saberiam, certo?

-Bem, não é como se uma bruxa de Monnock hoje em dia quisesse aparecer. Me diga, se você em segredo fosse uma bruxa descendente de um clã que foi dizimado e clamasse por vingança, estando em minoria, talvez até sozinha, iria se revelar assim para todos de forma imprudente?

Angeline deu de ombros.

-Não sei. Talvez eu te responda assim que ouvir toda a história.

Bard assentiu, alisando a sua barba e reunindo os pensamentos. E depois começou a contar a sua história.

                                               ***

 Antigamente, quando os atuais anciões do vilarejo ainda sugavam o leite materno e usavam fraldas, existia um vilarejo vizinho de Monnock, chamado Wingren. Apesar de naquela época esta região ser muito atormentada por ataques indígenas, principalmente por disputas de terra, por vários anos os dois vilarejos coexistiam pacificamente e obtinham ajuda mútua, até um fato marcante acontecer. Um fatídico acontecimento que fez a região se tornar um campo de guerra entre os dois vilarejos.

                                               ***

-Desculpa...mas dá pra chegar logo na parte que interessa? faz parecer que estou ouvindo o meu professor de história.

A pressa provocava o lado azucrinante da garota, o que era compreensível, se pensar que tinham uma missão com hora marcada e que talvez não tivessem tempo para longas histórias. A história de Bard poderia ser uma completa perda de tempo, mas por outro lado, poderia fornecer pistas. Em todo o caso, teriam que ouvir para descobrir.

-Garota, não interrompa, deixe o homem falar.

Castiel, compenetrado, fez um sinal com a mão para que Bard continuasse.

-Obrigado. Essa parte era necessária, mas vou tentar não me prolongar muito.

-Não se preocupe. Conte tudo o que precisar.

                                               ***

Antes de a discórdia ser semeada, na floresta em pleno crepúsculo, uma mulher jovem muito atraente dançava sozinha, completamente nua em volta de um círculo de fogo. A floresta que separava Wingreen de Monnock era escura e vasta, um perfeito esconderijo para práticas proibidas. Mas por uma acintosa brincadeira do destino, um jovem caçador monnoquiano que passava por ali a surpreendeu. Todos sabiam que na época, a realização de rituais daquela natureza era considerado um ato repugnante, hediondo e imperdoável, além de uma afronta à Igreja, punível com a morte.

                                               ***

-Bolinhos de queijo saindo.

O prato com a porção de bolinhos era servido de uma forma rude e estrondosa pelo grandalhão Ted, o balconista, enólogo e dono da taverna. Naquele momento de interrupção, Angeline se deu conta de que a atmosfera ao seu redor parecia mais sombria. Era como se cada olhar até então de figurantes desinteressados, agora estivessem concentrados ali, como abutres vigilantes. Não conversavam em vozes tão elevadas a ponto do som do ambiente não abafar, mas tocar naquele assunto parecia um tabu, algo que exigia o mínimo de precaução ao ser compartilhado. Ted chegou bem perto de Bard, murmurante, antes de se retirar.

-Cuidado Bard. As paredes têm ouvidos.

Tudo ainda era muito inconsistente e o mistério era algo que mexia com a mente de Castiel. Podia não parecer em alguns momentos, mas o ceifeiro levava o seu trabalho muito a sério. Desde que botou o primeiro pé em Monnock, estava mais cuidadoso. Embora se mantivesse calmo, seu comportamento era de alguém que sentia uma ponta de preocupação dentro de si.

-Não prefere terminar essa história em um lugar mais reservado, Bard?

-Se é que existe algum lugar reservado por aqui. Me sinto desconfortável desde que cheguei. – completou Angeline.

Bard negou com uma careta engraçada que combinava displicência e confiança no que estava fazendo.

-Não se preocupem. Aqui está bom.

Castiel assentiu, em dúvida, e pôs a tomar outro gole de seu vinho. Ter um bom vinho para beber naquela ocasião era uma benção. E Bard continuou a narrar a famigerada história da bruxa de Wingren.

                                               ***

A mulher, ao perceber que era observada, interrompeu o que fazia, subitamente saindo do aparente estado de transe. Sua primeira reação foi de espanto, a deixar escapar um gritinho agudo e abafado. O jovem, tomado pelo fascínio, absorvia o que o seu cérebro processava como algo inteiramente novo. Ela ficou em silêncio e imóvel por alguns segundos. Ele, embora com o impacto inicial, logo entendeu o que estava a fazer. Já tinha ouvido rumores de como as bruxas agiam. Ela então de repente sorriu. Não havia medo ou vergonha em seus olhos. Ele recuou voltando a si, com olhares julgadores e antes que virasse as costas, ela o chamou.

-Espere, não vá por favor!. – ele paralisou. A gravidade em torno de suas pernas parecia ter aumentado dez vezes e seu coração acelerava exponencialmente. – Eu me chamo Esther, de Wingren. Qual é o seu nome?

Ah, Esther. Seus longos cabelos negros batiam nos quadris. Seus olhos, da mesma cor dos cabelos, literalmente enfeitiçavam. Sua graça, um convite para os desejos mais tácitos e obscuros. As pernas do jovem caçador agora estavam oscilantes. No fundo já sabia que não podia resistir por muito tempo aos seus perturbadores encantos. Mesmo com a coragem de um caçador, ainda era um jovem sem muita experiência de vida, cheio de sonhos, ilusões, criado por uma importante família rica de Monnock. Esther maliciosamente se aproximava cada vez mais até chegar a uma distância íntima. Nenhum esforço fazia para esconder-se. Seu olhar era penetrante como a deusa da primavera ou quem sabe a rainha do submundo. Talvez fosse a reencarnação de Perséfone, senhora da magia e dos conhecimentos ocultos. Numa voz sufocada que o fez parecer um pato de desenho animado, o homem disse:

-M-meu nome é Sebastian, de Monnock.

-Gosta do que vê, Sebastian de Monnock?

Ela lentamente levou a mão do homem até os seus seios nus. Ele, confuso e inexperiente, quase sem consciência do que fazia, em um primeiro instante permitiu. Uma força de atração intensa, porém efêmera. Uma parte do homem inutilmente ainda tentava resistir, ao retrair as mãos de forma brusca.

-P-pare. Eu sei o que você é. Não toque em mim, bruxa!

Ela não se intimidou e tampouco recuou. Sua especialidade era manipular as palavras e as mentes mais fracas. Faria tudo o que fosse necessário naquele momento, a seu bel-prazer.

-As pessoas não gostam do que elas não entendem, por que sentem medo. Abra sua mente e entregue-se aos seus desejos, Sebastian. Eu sei que você quer.

            A resistência do caçador estava a se desmoronar de vez. Ela ousadamente tocou em seu rosto, seu olhar parecia cada vez mais imerso e invasivo. Sob a influência de uma força irresistível, o homem elevou ambas as mãos firmemente até a cintura de Esther. Tentava falar, mas nada saiu além de um grunhido abafado. Nenhuma palavra de rejeição seria mais ouvida dali em diante. Semelhantemente a um golpe de misericórdia, ela sussurrou em seu ouvido e aos pés de uma grande e sinuosa árvore de carvalho, ele a possuiu.

            Em volta deles havia apenas a fogueira, o barulho da floresta e dos animais. Ficaram ali até o anoitecer e a noção de tempo de Sebastian fora totalmente deturpada até finalmente voltar a si.

-Preciso ir embora. Já escureceu e eu não devia estar aqui.

As palavras dela em seguida não foram nenhuma surpresa.

-Querido, ninguém pode saber que você me viu aqui. Você promete?

-Eu prometo. – respondeu levianamente. – mas só se eu puder encontrá-la outra vez.

-Na hora certa. Escute o que eu digo. Me espere que um dia eu irei até você, mas não venha mais para este lado da floresta, para o seu próprio bem.

-Mas...

-Por favor me prometa. Isso é muito importante, apenas confie em mim.

E mesmo sob contestações, assim foi decidido. Diariamente os habitantes de Wingren apareciam em Monnock para conversar sobre negociações e assuntos políticos, mas Esther desapareceu, como se nunca tivesse existido. Sempre que voltava à floresta para caçar, Sebastian lutava contra a cruciante tentação de retornar àquele lugar. Sua distração quase sempre o fazia voltar da caça com as mãos vazias. Não precisou que muitos dias se passassem para começar a enlouquecer. Deixou de ser o mesmo por não conseguir esquecer aquele momento único com Esther, a primeira mulher com quem estivera. Chegou até a pensar se tudo aquilo não fora a sua imaginação pura e simplesmente. Além de seu nome e de onde viera, o homem apenas sabia de seu segredo, que havia prometido guardar. Uma promessa que não resistiria por muito tempo.

 Sete longos dias haviam se passado desde então. Obcecado, nem a aparência daquele fim de tarde o ajudou a se acalmar. Embora o céu acima fosse azul sem nuvens, translúcido, era um céu muito escuro para as cinco horas. Não podia mais esperar. Sem se importar, disse à família que sairia para caçar e se embrenhou novamente na floresta, naquela direção em que fora advertido a não retornar. O dia ecoara para um crepúsculo prematuro e mesmo com a chance alta que qualquer um teria de se perder naquela vastidão, a floresta era uma conhecida sua de longa data e estava confiante quanto aos seus instintos de caçador. Já havia memorizado o seu trajeto e quando chegou ao seu destino, suas pupilas se dilataram e logo seu coração acelerou. Esther era real, não apenas uma alucinação no final das contas. Ela dançava nua mais uma vez, em uma perfeita sintonia com a natureza, novamente em volta do círculo de fogo, a cultuar e invocar os deuses. Mas agora algo se mostrava diferente da primeira vez. Esther não era mais a única. Outras jovens, alheias ao conhecimento de Sebastian, a acompanhavam na dança, como se unidas a um laço místico, físico e fraternal. O homem contou e havia pelo menos mais quatro mulheres ali. Todas muito jovens, mal saídas da adolescência. Agiu pelo instinto e reflexo de ocultar a sua presença atrás de uma árvore. Lamentavelmente, não levou muito tempo para ser descoberto. Uma das mulheres, a quinta, estava fora do seu campo de visão. Como se surgisse das trevas, a voz que veio de trás se dirigia a ele nítida e claramente. Era grave, dolorosa e acusatória, de alguém com idade avançada e ao mesmo tempo de arrepiar os cabelos.

-Homem imundo de Monnock. Sua presença é indesejada aqui.

Não se moveu. Seu sangue quase congelou por um instante. O mesmo arrepio subiu pela espinha. O homem se virou devagar e viu uma figura envelhecida e meio macabra, parcialmente envolta em sombras. Diferentemente das outras, usava um longo vestido preto abotoado, com um capuz. Era como se fosse a própria personificação das bruxas clássicas, dos contos de fadas. Sebastian pesadamente recuou dois passos, pisando em um amontoado de folhas secas, acusando a sua presença e logo sendo notado pelas outras, que no mesmo instante interromperam o que faziam. Com o comando da bruxa mais velha, todas começaram a cerca-lo, em total silêncio e sincronia. O fogo sibilava e nem um único olho se desgrudou do rosto do caçador, que engoliu um seco e pegou o seu rifle, a arma que sempre o acompanhava.

-Esther...- sua voz saía acompanhada de um sorriso nervoso - o que está havendo?

O olhar de Esther era melancólico, completamente diferente da primeira vez. Os rostos das outras eram belos, porém hostis e ameaçadores, como um bando de lobos prestes a atacar.

 -Não se aproximem. – ele, nervoso apontava a arma na direção de cada uma. – Esther, por favor, diga para elas se afastarem.

-Esther. Você o conhece? – disse a bruxa mais velha, em tom de surpresa.

-Não, Velha Mãe. Nunca vi este homem.

A Velha Mãe, que era como todas a chamavam, elevou a voz num grito estridente.

-Me tomas por uma tola? Não minta pra mim! Ele disse o seu nome. Sabia que você estaria aqui, não sabia?

As chamas da fogueira se elevaram ainda mais, como se respondessem à força repentina dos olhos faiscantes da velha bruxa. Todos os olhares agora miravam em direção de Esther.

-Ele já deve ter me visto no nosso vilarejo, Velha Mãe. A senhora sabe que esses homens estão sempre por lá.

-Eu vejo através de suas mentiras, criança. Você botou todas nós em um grande perigo.        

-Ele nos viu. Não podemos deixar que vá embora. – disse outra bruxa.

Sebastian enrijeceu-se. Mesmo ciente de sua desvantagem numérica, segurou sua arma mais firme, disposto ao combate, se necessário.

-Eu prometo que não vou dizer nada. Por favor, não me obriguem a atirar em vocês.

-A palavra de um monnoquiano como você pra mim vale tanto quanto um punhado de nada. – disse a velha bruxa, cuja voz ressoava com ferocidade e amargor.

Esther impulsivamente estendeu-se a frente e ficou entre a arma de fogo e a Velha Mãe. Ouviu-se um arquejo chocado das outras que estavam ali.

-Por favor. Eu sinto muito por minhas mentiras, velha Mãe. Eu aceito qualquer punição, mas deixe-o viver. Eu me responsabilizo por ele.

Muitas coisas estavam em jogo. Mal sabia Esther o quão caro a sua benevolência iria custar.



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