História Apenas dois dias - Capítulo 7


Escrita por: ~

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Categorias Os Heróis do Olimpo, Percy Jackson & os Olimpianos
Personagens Annabeth Chase, Percy Jackson
Tags Percabeth, Romance
Visualizações 151
Palavras 4.746
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Colegial, Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Escolar, Famí­lia, Festa, Romance e Novela

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olaaaaa!
Demorei?
Nossa, demais, podem dizer.
Demorei demais mesmo.
Mas pelo menos está aqui, e vou ver se posto a segunda parte (que ainda não escrevi) o mais rápido possível!
Espero que gostem (e que não chorem!)!


Obs: Assim... Eu meio que enlouqueci nos comentários falando de uma luz.... Então foi mal ai kkkk.

Capítulo 7 - Arrependimentos.


 

Pov: Percy:

Largo a mochila no chão. Tiro os tênis, as meias, e puxo a bainha da calça jeans preta para cima. Sento na borda da piscina e coloco meus pés na água, sentindo o frio me atingir como agulhas perfurando minha pele. Chuto a água, vendo as gotas voarem no ar.

Se estou matando aula? Não, claro que não.

Ainda são oito e pouco da manhã e ainda consigo ouvir o rebanho de estudantes circulando nos corredores até suas devidas salas de aula. Um bando de gente idiota que só sabe falar da vida dos outros sem ao mesmo saber do contexto.

Ai vem aquela indignação: Você está julgando aquelas pessoas sem nem mesmo conhecê-las.

Ah, sim, estou.

Já passei por escolas o suficiente para reconhecer esse tipo de gente, e para saber o que caracteriza uma pessoa popular.

Popular.

Esfrego os olhos. Se eles soubessem... Se todos os estudantes dessa escola soubessem que nunca fui popular até entrar aqui este ano... Acontece que sempre fui problemático. Em todas as minhas antigas escolas fui expulso, cada uma por um motivo diferente:

Em uma porque, enquanto estávamos fazendo uma excursão para o campo de batalha de Saratoga, tive um acidente com um canhão da Revolução Americana. Eu não estava apontando para o ônibus da escola, mas é claro que fui expulso do mesmo jeito.

Em outra porque uma menina, Nancy Bobofit, me irritou tanto que tentei jogar uma carteira nela. (Aqui até entendo porque fui expulso). Em uma fiquei com tantas médias zero que os professores se recusaram a me dar aula. Teve uma que, quando fizemos um passeio pelos bastidores do tanque dos tubarões do Mundo Marinho, de alguma forma, acionei a alavanca errada no passadiço e nossa turma tomou um banho inesperado.

A cada escola eu ficava mais determinado a me esforçar para ter notas boas e não ser expulso. Tanto que em uma escola fiquei o ano inteiro praticamente calado, eu jurava que não seria expulso, isso até uma professora doida de matemática me considerar uma ameaça aos outros alunos, por eu nunca dizer nada.

Acho que ela pensava que eu era comunista ou algo pior...

 Nisso, todos os outros professores concordaram e... Bem... Adeus, Academia Yancy. Ou melhor, Internato Yancy, já que eu morava lá por ser uma escola de tempo integral.

Já estive em incontáveis escolas, tantas que já fui expulso de todas das redondezas de casa, e agora sou obrigado a estudar aqui. Não que eu esteja reclamando, porque pela primeira vez sou considerado bonito, tenho amigos, e me permitem participar do clube de natação.

Nas outras escolas achavam que eu afogaria os alunos na piscina, porém, nesta estranhamente confiam em mim. E então, tenho aula de natação praticamente todos os dias, isso quando não estamos no inverno...

Bem... Estamos no inverno.

Infelizmente.

Imagino o que aconteceria se soubessem que na verdade sou um garoto problemático brincando de ser popular, machucando e usando pessoas, e tentando dar uma de cupido. Os únicos que sabem são Jason e Nico, meus primos, e até esse ano nunca fomos verdadeiramente próximos ou amigos.

Logo quando entrei na escola o primeiro a se aproximar de mim foi Nico, o que me surpreendeu muito, porque ele é extremamente calado e três anos mais novo. E depois veio Jason, que me apresentou à seus amigos.

Curvo meu corpo e coloco minhas mãos na água, sentindo o frio percorrer meu corpo mais intensamente, congelar meus ossos. Não sei por que, mas ela sempre me ajudou a pensar, como se quando estivesse ligado a ela eu ganhasse um cérebro melhor.

Retiro minhas mãos da água e as passo em meu pescoço, sentindo as gotas geladas escorrerem por ele, molhando a gola de meu casaco azul. Sinto calafrios, mas continuo com minhas pernas na água. Não que eu não queira tira-las dali.

Mas eu preciso arranjar uma forma de resolver essa situação.

Odeio isso.

Odeio o que eu fiz com ela.

Odeio que tirar uma foto e ser honesto tenha a machucado tanto a ponto de fazê-la deixar de vir para a escola.

Faz seis dias que ninguém a vê ou tem alguma notícia. Aproximadamente 108 horas desde que a vi pela última vez. Todos os professores perguntam pela prestigiada Annabeth Chase, mas ninguém sabe responder por que ela desapareceu.

Ninguém exceto por mim.

Já liguei mais de vinte vezes, mas seu celular encontra-se desligado. Já perguntei para Piper, sua amiga, porque ela não atende, mas esta também não sabe dizer. E então, deixei de lado. Porque se ela não atende, provavelmente não quer falar com ninguém, então talvez seja melhor não insistir.

Odeio o que estão falando dela.

Hoje de manhã eu pretendia entrar em sala e assistir à chata aula de cálculo que eu teria no primeiro tempo. Mas então, ouvi aquelas vozes. Aquelas pessoas chamando Annabeth por aqueles nomes terríveis. E Leônidas Valdez foi a única coisa que impediu que eu começasse a gritar com elas no corredor, a dizer que não valem nada e que são apenas porcos inúteis.

Se ele não tivesse me segurado alguns hospitais receberiam pacientes, e não quero nem saber se seriam mulheres.

Flashback on:

Tento me soltar, mas ele me segura com mais força.

 E então, desisto, o deixando me guiar pelos corredores até chegarmos à sala do grupo de teatro, cujo tamanho é três vezes maior que o de uma sala normal, com diversas cadeiras dispostas na frente de um palco de madeira escura e cortinas vermelhas sangue. Há grandes janelas com cortinas pretas, agora fechadas, deixando o lugar quase no escuro, isso se não fosse pela única cortina aberta e pelas lâmpadas que Leo acendeu quando entramos.

Leo me puxa até ficarmos de frente para o palco, provavelmente porque não quer que eu fuja, e então, me solta.

–Olha só, você precisa se controlar. –Ele diz com uma seriedade antes nunca vista por mim.  

–Como você quer que eu me controle ouvindo aquelas coisas?!

–Não sei, mas você precisa dar um jeito nisso. Nada vai se resolver se você ficar partindo para cima de todo mundo.

–Ah, então você quer que eu fique parado sem fazer nada? Ouvindo chamarem a Annabeth de prostituta, oferecida, dizendo que ela dorme com qualquer um? Quer mesmo que eu fique parado ouvindo isso?

–Nem eu ficaria parado ouvindo isso. Você só tem que provar que ela não dormiu com você.

–Como?

–Eu não sei... Você não é todo popular, bonitão? Imagino que qualquer um compraria suas mentiras.

–Cansei de mentir, Leo.

– Cansou de mentir, mas ainda não negou que é gay.

Fico em silêncio por um bom tempo.

–O que você faria no meu lugar, Leo?

Agora é ele quem fica em silêncio.

–No seu lugar eu iria atrás dela e pediria desculpas por tudo que estão falando sobre vocês terem dormido juntos. –E então ele me encara, esperando que eu negue.

–Nós não dormimos juntos. – Nego. –E afinal de contas, o que essas pessoas tem a ver com o fato de termos ou não dormido juntos? Mais da metade delas já dormiu com alguém! E nunca falam mal dessas pessoas!

–Exatamente. Porque elas mantêm isso para si mesmas. Não saem divulgando fotos das duas juntas numa cama.

–Eu não divulguei as fotos! Um idiota tirou foto da tela desbloqueada do celular enquanto eu estava no banheiro.

– E a culpa não continua sendo sua, Percy? – Não digo nada. –De qualquer forma, ninguém sabe. E se sabem, você vira uma pária. Ela na verdade, até porque, mais metade dessa escola te ama.

Mais da metade da escola também ama ela. A garota que estuda aqui há anos, simpática, com notas altas, e corajosa. Como podem deixar de amar alguém do nada? Como podem achar que eu sou melhor que ela?

O sinal toca, como se gritando para eu ir para aula de cálculo e Leo de qualquer que seja a matéria que ele tem agora. Mas nenhum de nós se move, nenhum de nós diz absolutamente nada.

–Algo me diz que ela não está faltando apenas por causa do que estão falando. Então... Se eu fosse você... Iria atrás dela para pedir desculpas.

Assinto.

–E para dizer que a amo. –Ele acrescenta.

–Cale a boca, Leônidas. Eu não amo ela.

–Vou fingir que acredito. Ah, eu também construiria algo para ela. Agora o que não sei... Talvez uma flor de metal, quem sabe?

Típico de Leônidas Valdez, cujo pai e mãe são mecânicos habilidosos que ensinaram ao filho uma boa parte do que sabem. Eles tem uma oficina mecânica em sua garagem, e é lá que mais da metade da cidade vai quando quer consertar algo.

–Como se eu conseguisse construir algo desse tipo.

–Pois é... Ah, e eu a converteria para o Time Leo.

E comecei a rir.

Porque se existisse um Time Percy, ninguém entraria para ele.

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(Dia seguinte – Sete da manhã):

– Começou a chover... Trouxe seu guarda-chuva hoje?

As gotas de chuva escorrem rapidamente pelo vidro das janelas do ônibus, tanto que vários passageiros ligeiramente sonolentos, por nem sequer ter amanhecido direito, fecham suas janelas. O céu antes nublado agora se encontra em um cinza escuro.

Nego com a cabeça.

– Eu te empresto o meu. –Ela diz mexendo na bolsa.

–Não precisa. Até mais tarde com certeza já vai ter parado de chover, e qualquer coisa posso pegar um emprestado.

Ela relutantemente aceita minha resposta.

Olho ao redor, analisando os passageiros do ônibus semivazio com mais atenção, vendo um homem dormindo com o rosto encostado no vidro, uma mulher segurando a bolsa no colo enquanto olha pela janela, duas senhoras conversando nos fundos sobre um reality show que lançou noite passada, um garoto da minha idade mexendo no celular.

O ônibus é quase silencioso, tem cheiro de chuva e desperta minha vontade de dormir.

Pego o celular na bolsa, e sem mais o que fazer, abro na internet, e em seguida, no feed de notícias. Leio sobre o jogador de futebol que machucou a perna, sobre um animal “atacando” a Ana Maria Braga, sobre uma apresentadora de televisão com um novo namorado...

Cada noticia mais interessante que a outra...

Até que...

“Morreu no sábado passado Atena Chase, uma das melhores professoras da universidade Hipocampo.”

Teria sido uma notícia qualquer se não fosse pelo nome da universidade.

E pelo sobrenome da mulher.  

Chase.

“Qualquer coisa relacionada com Atena, é o nome da minha mãe.”, lembro-me de Annabeth falando quando foi à minha casa.

Não pode ser coincidência. Não pode mesmo.

Clico na matéria, apenas para descobrir que a mulher deixou para trás uma filha de dezessete anos, que a visitava todos os dias no hospital. Definitivamente não é coincidência.

Tudo parece se encaixar. A tristeza de Annabeth quando mencionava a mãe, ela sem ir à escola...

E pensar que eu estava preocupado com ela me odiando para sempre...

Sou um idiota mesmo.

E antes que eu possa sequer digerir a matéria, estou levantando. Guardo o celular no bolso e pego minha mochila, que estava no chão. Aperto a cordinha, indicando ao motorista que descerei no próximo ponto.  Pego meu casaco, que estava na mochila, e o coloco, puxando o capuz para cobrir os cabelos.

– O que aconteceu? Para onde você vai? – Minha mãe pergunta, extremamente preocupada e alarmada.

–Desculpa, mãe. Eu... Eu tenho umas coisas para fazer antes da aula. Mas prometo que vou à escola, nem que seja para chegar ao último tempo. – Digo me segurando com força num banco quando o ônibus freia bruscamente ao alcançarmos o ponto.

Ela me encara, sem entender absolutamente nada, mas então assente, apenas me pedindo para ter cuidado.

Desço do ônibus, imediatamente sentindo a chuva encharcar minhas roupas em questão de segundos. Corro para debaixo da cobertura que o ponto de ônibus oferece, e pego o celular, que quase escorrega em minhas mãos molhadas.

Digito o número e ligo.

– Instituto Ogígia, Hebe, em que posso ajudar?

–Oi, aqui quem fala é Perseu Jackson. Acontece que eu tenho alguns trabalhos para entregar à Annabeth Chase, mas eu não sei o endereço dela, você poderia me informar? – Uso minha voz mais amigável e convincente.

–Não posso entregar essa informação por telefone, senhor. –Ela fala com dureza.

–Eu sei... Mas está chovendo tanto que acho que não vou conseguir ir à escola hoje. Então pensei que quando a chuva diminuísse eu poderia ao menos entregar os trabalhos para ela.

Ela fica em silêncio.

–Por favor, esses trabalhos são mesmo importantes. E aposto que a escola não quereria sua melhor aluna com as notas um pouco mais baixas.

Ela fica um longo tempo em silêncio antes de responder.

–Sinto muito, mas não posso entregar essa informação.

Agora é a minha vez de ficar em silêncio, pensando no que fazer.

–Ok, quanto você quer?

–Como?

–Vamos lá, Hebe. Quanto você quer para me dar o endereço?

–O senhor está tentando me comprar?

–Não! Não estou! Estou apenas te dando um incentivo para me dar o endereço.

É claro que estou tentando compra-la. Porque não?

–Isso significa que está tentando me comprar!

–Não exatamente... Vamos lá, vinte. Ofereço vinte. Quem recusaria vinte?

–Se o senhor acha que pode me com...

–O que acha de trinta? –Interrompo. –Vamos lá, Hebe.

Ela fica em silêncio.

–Sinto muito, mas...

–Trinta e cinco. –Interrompo novamente. – Tenho certeza que mais tarde você vai se arrepender por não ter aceitado e...

–Quarenta! –Ela grita baixinho, como se não quisesse que descobrissem que foi comprada.

E então, fácil assim, ela me dá dois endereços, que anoto nas notas do celular. 

Dois.

Como eu vou saber em qual ela está nesse minuto?

Mas antes que eu possa perguntar, a mulher desliga, afirmando que anotará o valor ao lado da ficha com meu nome, acrescentando que cobrará na segunda, em três dias (se contarmos hoje).

Suspiro e encaro o primeiro endereço, decidindo que passarei nele primeiro. Coloco-o no gps, vendo que o apartamento fica um pouco longe daqui.

Guardo o celular, me preparo para tomar um torrencial banho de chuva, e começo a me dirigir para lá, sentindo minhas roupas começarem a pesar conforme ficam encharcadas.

Minutos depois, passo na frente de um supermercado e paro de andar.

Porque não?

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Pov: Annabeth:

Encaro o teto. Minha visão está embaçada de tanto chorar, o que considero algo bom, porque não preciso olhar para as coisas do quarto e lembrar dela.

Tudo me lembra dela.

A colcha cinza com flores amarelas que ela comprou quando a minha antiga ficou pequena demais. Os troféus de concursos de soletração que recebi quando ela me incentivou a participar de cada um. As medalhas que ganhei em atletismo numa olimpíada escolar, na qual ela me prometeu um jantar tão bom que corri mais rápido que uma Ferrari.

No final acabei por ganhar apenas um cachorro quente que comemos sentadas em uma mureta que fedia, no meio da noite.

Minha mãe era incrível...

Sinto que estou me afogando, sufocando.

Não consigo parar de soluçar, não tenho forças para levantar da cama. Em alguns momentos não consigo respirar, e não tento lutar por ar, pela minha sobrevivência.

Só quero morrer.

O curativo em minhas mãos começa a coçar, como um lembrete horroroso de que estou viva, e ela não. Minhas mãos ardem, e suspeito que estejam infeccionadas, pois não troco os curativos há dias... A quantidade de vezes que tomei banho é proporcional.

Eu a visitava quase todos os dias. Sempre levava comigo um livro de sua estante, apenas para na manhã seguinte leva-lo de volta porque ela não se sentia bem o suficiente para ler. Ela agia como se não quisesse que seus livros pegassem sua doença.

Como se eles fossem pegar...

Mas eu levava os livros do mesmo jeito, vendo o brilho em seus olhos ao passar as mãos pela capa gasta, folheá-los e então, me contar sobre o que tratavam, mesmo que ela já tivesse feito aquilo milhares de vezes.

Mesmo que eu já tivesse lido o livro.

Mas a maneira como ela contava era mágica. Deixava-me extasiada para lê-lo. E na manhã seguinte, eu contava a história, contava os detalhes que ela havia perdido. Contava o que eu havia descoberto em minha releitura sobre o modo como o autor escrevia.

E nós debatíamos o que ele estava sentindo quando escreveu parágrafo tal em página tal. E então, eu começava a falar das descrições que havia em algum deles. E eu sorria, meu sorriso ultrapassava meus olhos e chegava aos dela.

Será que algum dia serei capaz de sorrir novamente?

Será que um dia algo aliviará essa dor?

Será que um dia eu voltarei a me sentir bem? A parar de chorar? A não estremecer toda vez que penso nela, morrendo sozinha naquele quarto, enquanto eu ria com um desgraçado?

Eu me sinto morta.

Como se minha alma tivesse sido arrancada do corpo e levada com ela, deixando na terra um receptáculo vazio com apenas um resquício do meu ser.

No primeiro momento eu sentia culpa por não ter estado com ela, arrependimento por ter saído com Perseu, entre outros milhões de sentimentos diferentes. Hoje eu só me sinto vazia, como um buraco negro que vai sugar a felicidade de todos ao meu redor.

Se tivesse alguém ao meu redor e eu não estivesse trancada no apartamento.

Imaginar que agora, nesse minuto, o corpo dela está debaixo da terra apodrecendo aos poucos me da ânsia de vômito. Não que haja algo para ser vomitado.

Há muito tempo que não como direito. Que não tenho forças para levantar da cama, exceto para ir ao banheiro. Por um momento parei de beber água para ver o quanto eu demoraria a definhar, para testar se eu me sentiria melhor com a morte me levando lentamente.

Até que me senti culpada por isso. Eu desperdiçando minha vida quando a dela foi tomada sem seu consentimento.

Fecho os olhos e me concentro em respirar, porque sei que ela gostaria que eu me mantivesse viva.

Ainda lembro-me do dia em que recebi a notícia, vivido em minha mente.

Meu pai estacionando o carro atrás de mim, os faróis ligados passando pelo meu corpo e formando sombras na terra, Frederick Chase correndo para mim e me abraçando com força, eu retribuindo com mais força ainda.

Lágrimas escorriam pelo meu rosto, mas não as sentia, não sentia o calor do corpo dele, muito menos a terra ferindo meus joelhos cobertos pela calça jeans. Eu não sentia absolutamente nada, sentia apenas um vazio, estava destruída. Não aguentava mais chorar, mais sentir dor, e haviam se passado apenas cinco minutos desde a ligação!

Minha alma se partiu.

Sinto meu corpo tremer, e me cubro com o cobertor.

Alguém me ajuda. Alguém traga ela de volta, por favor. Eu quero falar com ela uma última vez,  olhar no rosto dela um último momento, pedir desculpas por não ter estado ali todos os dias, por nunca ter sido a filha que ela merecia ter tido, por sempre ter criticado sua rigorosidade.

Eu quero pedir desculpas por tudo.

Eu quero ver minha mãe, eu quero ver minha mãe.

Eu quero parar de chorar, de sentir dor, de lamentar, de soluçar, de me sentir tão mal a ponto de odiar viver.

Fecho os olhos.

Depois daquilo, meu pai me levou para sua casa.

Flashback on:

Estou deitada em uma cama de madeira escura. Há um armário ao meu lado, e ao lado deste, uma escrivaninha. Tudo da mesma madeira. Tudo vazio, como se não possuíssem dono. Mas eles possuem. Esse quarto possui. Foi feito para mim há anos, quando meu pai começou a sugerir que eu passasse mais tempo nessa casa para que pudesse conhecer meus irmãos.

Nunca ocupei esse quarto até a doença de minha mãe. E ainda assim, não o preenchi com nada.

Imaginei que ela fosse melhorar.

Ainda uso as mesmas roupas de ontem, percebendo que manchei o lençol imaculado com terra.

Dane-se o lençol.

Preciso sair dessa casa. Preciso sair desse projeto de lar. Porque esse nunca vai ser meu lar, minha casa. Eles nunca vão ser minha família. Preciso chegar em casa, minha casa de verdade.

Sento na cama.

A porta do quarto é aberta. Minha madrasta aparece, com seu cabelo solto, usando uma calça jeans escura e uma blusa branca. Ela segura um vestido e um casaco pretos nos braços.

Preto.

O enterro.

–Não quero ir. Não me faça ir nisso, por favor. – Digo como uma criancinha assustada de sete anos, com a voz aguda, lágrimas escorrendo pelo rosto.

– Não vou te obrigar a ir a nada, acalme-se. Só passei para dizer que será às dez, e que agora são oito e meia. Não vou, nem seus irmãos. Nós não conhecíamos sua mãe... Então... Não temos direito de ir... Mas, caso você mude de ideia, imagino que essa roupa caiba em você.

Ela deixa a roupa em cima da escrivaninha e começa a sair.

–Se... –Ela se vira. –Se você precisar de alguma coisa, qualquer coisa... Pode contar comigo.

Quando ela está prestes a fechar a porta, solto:

–Preciso sair dessa casa.

Ela coloca a mão no bolso e tira dali trinta dólares. Então ela os coloca ao meu lado no colchão.

–Não sou eu quem vai te impedir. –E então, ela sai.

Flashback off.

Horas depois disso meu pai começou a me ligar incessantemente, me pedindo para sair dessa casa e ir para a dele, porque eu me sentiria melhor com pessoas ao meu redor.

Pessoas vivas.

Ela morreu.

Aonde vou me sentir melhor? Como?

No segundo dia a bateria do celular acabou e não me preocupei em liga-lo na tomada. E no mesmo dia meu pai veio ao apartamento e começou a bater na porta deste, querendo que eu a abrisse e o deixasse entrar.

Mas não o fiz.

Apenas gritei para que fosse embora.

Gritei com todas as minhas forças, gritei como faço todos os dias quando ele bate na porta.

Gritei até enlouquecer.

Só quero ficar em paz.

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Pov: Percy:

Continua chovendo, e muito. Encontro abrigo debaixo do toldo de um brechó, apoio a sacola do mercado no chão, e pego o telefone, abrindo no gps para ver o quanto falta. O aplicativo afirma que já cheguei ao meu destino, e olho ao redor.

Estou em um cruzamento. A rua é escura e as pessoas se abrigam debaixo de toldos ou dentro de prédios, que observo cuidadosamente à procura do número certo, que encontro em um prédio de tijolos na esquina à minha frente. Ele possuiu uma escada de incêndio marrom na lateral, que dá para um beco, combinando com as molduras das janelas.

Pego a sacola e guardo o celular, atravesso a rua e aproximo-me do prédio, e vejo que este possui um zelador na porta.

Como sei disso?

Ele usa um uniforme safari, no qual está escrito em letras grandes no peito a palavra ‘zelador’, e embaixo o nome “Argus”.

Estou prestes a abrir a porta e passar pelo zelador quando ele segura meu pulso.

–Ah... Bom dia! Eu vim visitar Annabeth Chase. Sou um colega dela e tenho alguns trabalhos de história para entregar. –Digo engolindo em seco.

– Não fui informado de visitas em nenhum dos apartamentos.

–Não? Que estranho, eu...

–Cai fora. –Ele me interrompe.

–Não. Espera. Eu tenho que entregar para ela os trabalhos!

–Não, você tem que sair daqui, garoto.

–Vamos lá, cara. – Sinto meu celular vibrando, indicando uma ligação. Apoio a sacola no chão e o pego em meu bolso, vendo que esta é de Jason. –Olha! Ela está ligando!

Encaro a mão dele ainda segurando meu pulso, e atendo.

–Ei, Percy! Cadê você? O segundo tempo já vai começar e você ainda nem chegou! Aconteceu alguma coisa? –Jason pergunta, preocupado.

–Ei, Annabeth! Então, o seu porteiro está me impedindo de entrar, o que eu faço?

Jason fica em silêncio, e o ouço perguntar para alguém se eu enlouqueci. No segundo seguinte, Frank pega o celular de Jason e começa a falar comigo:

–Percy, olha... Se você estiver perdido, por favor, nos fale o endereço, nos vamos te tirar dai. Acalme-se. Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem. – Ele diz lentamente.

Tenho que me controlar para não rir.

Da onde ele veio com essa de que estou perdido?

–Sim, Annie. Ele não me deixa entrar. Você se importa se eu passar para ele, ai vocês resolvem. Pode ser?

–Ok, acho que estou entendendo alguma coisa. –Frank diz para alguém no fundo. E no segundo seguinte, Hazel, irmã de Nico, namorada de Frank e minha prima, pega o celular para si.

–Percy? Pode passar para o cara?

–Ok, vou passar.

E então coloco o celular no viva voz, por precaução, e o coloco nas mãos do zelador, que acaba por soltar meu pulso.

–Alô?

–Annabeth? –O homem pergunta.

–Sim! Então, eu queria saber por que você não quer deixa-lo entrar no prédio. Eu convidei ele para vir aqui, então o deixe entrar, por gentileza. –Ela diz calmamente.

–Claro, claro. Perdoe. –E então ele me devolve o celular, que desligo depois de me despedir e agradecer.

Graças aos deuses consegui.

Então, o homem pega uma chave e a coloca na fechadura da porta, que antes eu pensava estar aberta.

E a tranca.

–Olha, não se você me acha idiota ou algo do tipo... Aquela definitivamente não era Annabeth. Então sugiro que você vá embora antes que eu chame a polícia.

Fala sério!

–Além do mais, nunca em minha vida vi alguém salvar o contato dela com o nome ‘Jason’ ou mesmo chama-la assim.

Putz grila.

– Garoto, você só vai conseguir entrar nesse lugar pela escada de incêndio, e antes mesmo que consiga subir um lance de escadas a polícia já estará aqui.

E então, simplesmente vou embora.

Pelo menos é isso que ele acredita que fiz.

– Sinto muito, zelador Argus, mas não caminhei por mais de uma hora até aqui para sair sem ver Annabeth. –Murmuro. –Ah, e obrigado pela ideia.

Viro a esquina, e observo o beco, onde há a escada de incêndio. Só de olhar, sei que nunca vou conseguir alcançar a escada vertical e retrátil, que me permitiria continuar subindo e acessar as janelas dos apartamentos. Mas então, observo as caçambas de lixo, que ficam na parede oposta à escada.

Abro a mochila e jogo a sacola ali, sabendo que demorarei apenas alguns minutos para subir essa escada e que o conteúdo da sacola plástica não ficará tão amassado assim nesse período de tempo. Jogo a mochila nas costas, e subo em uma das caçambas.

Rezo para não escorregar, porque continua chovendo em tudo à minha volta, incluindo eu mesmo, há muita água.

Chego para trás, até encostar-me à parede.

Respiro fundo, rezo e corro.

Escorrego bem no finalzinho, mas consigo de alguma forma me impulsionar para frente e cima.

Por pouco consigo segurar uma barra da escada, a penúltima. Sem querer, olho para baixo, sentindo meu sangue esfriar com a altura. Porque se eu cair, vou me quebrar inteiro. E então, começo a subir, lentamente, tomando muito cuidado.

Até que chego à escada de verdade, e sento num dos degraus desta por alguns segundos, respirando profundamente. E então, observo a primeira janela, vendo através das gotas no vidro um senhor tomando café da manhã enquanto lê jornal.

Sinto que não é esse apartamento.

Subo mais um lance de escadas. No meio do caminho escorrego e caio de bunda no chão. Levanto após alguns segundos e observo a próxima janela.

E também sinto que está não é a correta, então passo por ela e subo um lance de escadas para a próxima. E assim em diante, vou subindo, procurando, e não encontrando.

Chego à janela do oitavo andar.

Vejo apenas uma sala normal, com um raque e uma televisão pretos, um tapete peludo marrom claro, um sofá vinho virado de costas para mim. Uma estante de livros marrom num canto, tão abarrotada que mais livros estão entulhados em pilhas pela sala.

Em pequenas e enormes pilhas.

Grudo o rosto no vidro molhado.

Vejo no outro canto uma mesa de vidro com uma cadeira azul escura. As paredes são cinza, com vários quadros de paisagens e de pessoas da família.

Três pessoas. Um homem loiro, que aparece em apenas uma das fotos. Uma mulher de cabelos castanhos e cacheados e olhos cinzas que aparece em outra e... Uma menininha de cabelos loiros cacheados e olhos cinzas...

Annabeth.

Toco na janela gelada, que convenientemente está com uma brecha aberta. Puxo a janela para cima, e ela range de um jeito violento. Em seguida, entro no apartamento congelante.


Notas Finais


Então, galera.
Vou ser bem sincera.
Escrever esse capítulo (ou essa metade dele) foi um desafio para mim, porque eu precisava estar triste para isso, para sair algo bom, mas eu não ficava triste com nada!
E bom, preferi não ficar esperando meses até algo me deixar triste, então tentei meu máximo aqui, ok?
Quero comentários, ouviram?
Sejam legais comigo kkkk
E favoritem!
Beijos e até o próximo (que não sei quando sairá...)!


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