História As Cores Do Meu Viver - Capítulo 3


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Eunãotinhamaisoquefazer
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Palavras 2.875
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Ficção, Musical (Songfic), Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Linguagem Imprópria
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Aloha! Desculpa, eu demorei, mas foi por uns bons motivos!
Boa leitura :3

Capítulo 3 - Dia Louco


Eu e Bea estávamos acordados desde às sete horas da manhã de um sábado (sim, isso mesmo. Desde esse horário). Estávamos passando um pouco o tempo no mesmo sofá em frente da bancada da cozinha e virados de cabeça para baixo, fazendo um jogo sobre "quem vê o quê primeiro de cabeça para baixo em cada canto do apartamento".

Quem teve essa ideia? Bea, óbvio.

- O que você está vendo? - perguntou Bea pela quinta vez.

- Uma cozinha de cabeça para baixo. - respondi baixinho, sentindo o sangue latejar na minha testa - E você?

- Um timer de galinha portuguesa de cabeça para baixo enfeitada com um babador de coraçãozinho bem em cima da geladeira. - Bea assobiou enquanto abria um sorrisinho de escárnio - Não sabia que você tinha um lado tão másculo assim, En.

Senti o meu rosto esquentar e virei-me para a minha amiga, falando:

- Ei! I-Isso não é meu! É-É da minha mãe! Ela que colocou ali sem minha permisão!

- Tudo bem, En. - Bea sorriu com meiguice - Não há problema nenhum admitir o seu amor incondicional por galinhas portuguesas. - então ela juntou as mãos em concha nos cantos da boca -Cocoricóóó!

- Ah, cala essa boca!

Joguei uma almofada pequena do sofá na minha amiga, que ria enquanto se sentava. Eu fiz o mesmo e senti uma pequena tontura, mas logo depois passou.

- Vamos terminar esse jogo por aqui? - perguntei ao checar as horas no meu celular e me levantei - Já são nove horas.

- Nem vi as horas passarem. - ela se ergueu em um pulo e foi pegar sua bolsa - Podemos tomar um café da manhã sem ser na Starbucks? Até mesmo os chocolates de lá têm gosto de café. Não curti muito.

- Por que será que tem o gosto semelhante de café? - resmunguei, suspirando.

- Já sabe onde tomaremos café da manhã? - perguntou Bea, voltando do quarto com sua bolsa.

Tomei um susto com a pergunta. Eu esperava que fosse ela que escolheria, mas acabei por lembrar que a garota não conhecia muito dessa cidade.

Então, uma lâmpada se acendeu no meu cérebro e eu não consegui conter um sorrisinho.

- Ei, Bea. Você gosta de livros?

Bea inclinou a cabeça e ergueu uma sobrancelha, como dissesse "óbvio, senhor galinheiro".

~ x ~

Estava começando a achar (não, ter certeza) de que trazer Bea para a maior livraria da cidade não foi lá uma boa ideia, não.

A minha melhor amiga ficou de queixo caído ao passar pelo hall de entrada da livraria e começou a andar saltitante, sem esconder o brilho intenso de euforia em seus olhos escuros. Ela olhava do térreo até o terceiro andar como estivesse no Paraíso e muito menos acreditava estar lá em carne e osso.

Eu também não esconderia jamais a minha surpresa ao entrar naquele lugar. Livros, livros e mais infinitos livros preenchiam as estantes, mesas e chãos de todo o lugar. Pessoas sentavam nas poltronas ou até mesmo nos degraus da enorme escadaria apenas para ler. Já a cafetaria nos fundos estava cheia e quase ocupada por completo, apenas sobrando uma mesa.

Bea estava indo subir as escadas, perdendo completamente o foco sobre o café da manhã. Soltei um suspiro e agarrei o seu braço sem fazer força, puxando a minha amiga até a cafeteria. De início, ela arregalou os olhos com surpresa, mas depois de pouquíssimos segundos, ela agarrou o meu braço com um sorriso mínimo.

Por isso eu falei que não foi uma boa ideia trazê-la para cá. Ela estava tão próxima que tive fazer um grande esforço mental para não ficar tenso.

Sentamos na mesa desocupada e eu fui pedir o meu café e um sanduíche com um suco naturais para Bea (ela que pediu). Sentei na poltrona em frente da minha amiga, que estava com os joelhos no assento e de costas para mim, olhando para a seção da banca - seção de revistas, jornais, mangás, coleções bestas e essas coisas.

Graças aos bons deuses que a saia do seu vestido não era curta.

- Será que é a caneta dele... ? - ela murmurava alto suficiente para eu ouvir, mas baixo para os outros ao redor - Não, não é da mesma cor que vi na internet... Oh, porra... Por que não tem...?

- Não tem o quê? - perguntei.

Bea quase pulou de susto na poltrona e virou-se em minha direção, arregalando os olhos enquanto suas bochechas tingiam uma cor avermelhada. Ela sentou-se rapidamente na poltrona e pigarreou.

- Não é nada! - respondeu rapidamente e seu rosto ficou mais vermelho - Bem, erasóumacanetadeediçãolimitadaquenãoestouencontrandoemlugarnenhumequeromuitoela... - ela se interrompeu e seus olhos foram tomados de preocupação - Você está bem? Está fazendo uma careta estranha igual de quem está com prisão de ventre.

- Um pouco mais devagar, por favor. - pedi lentamente, tentando ignorar a última parte do que dissera.

Bea suspirou e largou-se na poltrona, deitando de lado e colocando as pernas por cima de um dos encostos para os braços. Antes, eu teria a repreendido sobre o seu modo, mas ignorei sem nenhum problema. Ela só tinha até amanhã. Eu não iria ficar brigando com ela a cada cinco minutos.

Eu queria aproveitar essas últimas horas ao seu lado.

- Uma caneta tinteiro. - respondeu Bea com um "quê" de tristeza na voz - Tinha saído ontem, mas não consegui comprar. Parece que esgotou mais cedo do que esperava...

- Caneta tinteiro? - repeti, impressionado - Sério?

Bea assentiu.

- É de uma coleção em homenagens a músicos, escritores, físicos, filósofos... Por aí. - explicou ela e afundou mais ainda na poltrona - A que eu queria era a do Lewis Carrol. Alice no País das Maravilhas é o meu livro favorito.

- Ah...

"Que inteligente, Enzo, dizer apenas 'Ah...'. Não tem algo melhor a falar, não?!", disse para mim mesmo, me repreendendo.

- V-Vamos ver nas bancas pela rua. - sugeri um pouco tenso, mas me controlei - Podemos acabar por encontrar em algum lugar.

Bea ergueu lentamente os olhos, que brilhavam como um céu estrelado tão distante da realidade urbana na qual vivíamos agora.

Céu estrelado...

- Talvez... Você tenha razão. - falou Bea um pouco animada de novo - Mas primeiro, eu quero ver essa livraria. - ela olhou em volta com um sorriso - É fantástica! Obrigada por me levar até aqui!

- Não precisa me agradecer... - ela voltou a me encarar - Eu não fiz nada demais...

Bea exibiu um sorriso sereno e meigo, o que me pegou de surpresa ao mesmo tempo em que uma sensação calorosa se espalhava pelo meu peito.

- Se é o que você pensa... - falou lentamente - Quem sou eu para contradizer?

Decidi guardar a resposta dessa pergunta para mim mesmo.

~ x ~

Após passar uma hora inteira dentro da livraria, finalmente saímos para a avenida. Eu nunca imaginei que um dia ficaria no mesmo local por uma hora. Isso era uma novidade.

Mas a maior novidade era que nem parecia ter passado tanto tempo assim. Eu estava me divertindo, muito. Fazia quanto tempo que não me divertia ao ponto de não ter mais noção do tempo? Eu estava doente? Se sim, então eu já sabia qual seria o diagnóstico.

Eu não era cego em relação a mim, afinal.

Bea passou mais uma vez pelas barracas de quinquilharias e eu não me importei. No começo, ela hesitava se devia pedir a minha opinião ou não sobre alguns colares e algumas pulseiras. Eu dava a minha opinião, falando se ficava bom nela ou não e explicando o motivo por achar isso.

Não era tão ruim como eu pensava. Afinal, por que eu achava essas coisas tão insignificantes? Elas eram inúteis, mas possuíam alguma coisa que se tornavam necessárias nas vidas dos outros. Era inúteis, não mudariam em nada na sua vida ou te salvaria de algo. Então por que pareciam haver algo tão peculiarmente diferentes? O que as tornava tão legais e atraentes? Talvez nunca descobriria.

Também não estava me importando em descobrir.

Seguimos pela avenida, conversando normalmente e sem preocupações algumas além de procurar algum lugar para comer. Ao contrário de Bea, eu me mantinha em alerta para algo incomum e suspeito acontecesse, mas consegui não me manter tenso.

Fomos comer num restaurante a grill durante o almoço e depois passamos boa parte da tarde no shopping, vendo alguns computadores e celulares sem intenções de comprar e comemos mini cupcakes de sabores diferentes. Também caminhamos pela avenida em silêncio, apenas para apreciar o momento de relaxamento juntos.

Volte e meia os meus olhos se voltavam involuntariamente para as pessoas a minha volta. Mesmo sendo um final de semana, elas corriam para lá e para cá a passos rápidos e gritando nos celulares em seus ouvidos. Pastas nas mãos, roupas formais e desarrumadas no corpo, celulares nos ouvidos e olhos em direção ao chão junto com uma expressão emburrada por conta do estresse.

Por outro lado, havia as pessoas humanas com suas barracas de quinquilharias e despreocupadas ao redor, conversando entre si aos risos e conversas calmas e naturais. Se elas estavam drogadas ou não, realmente não era problema meu, mas eu ainda possuía um pouco de inveja ao ver a felicidade simples estampada em seus rostos.

Voltei os olhos para Bea, que andava calmamente ao meu lado e olhava tudo ao seu redor com os olhos negros brilhantes e um sorriso sereno em seus lábios. Ela me parecia interessada, e eu gostaria de entender, mas tinha a impressão que demoraria uma vida para isso.

Então deixei tudo seguir ao seu ritmo.

O mundo era louco.

~ x ~

Bea disse que precisava ir a algum lugar e pegou um táxi. Pedi para ir junto com ela, mas a mesma recusou antes mesmo de eu terminar a frase e ela entrou no táxi, me deixando de boca aberta e sem palavras durante dois minutos.

Eu não esperava essa rejeição...

Senti o meu celular vibrar no bolso e o peguei, checando as chamadas da minha mãe. Volte e meia ela me ligava, mas passei a ignorar suas chamadas quando botei no modo de vibrar. Depois do que dissera para Bea, eu não queria mais falar com a minha mãe.

Como pude ter sido tão... escroto? Como pude esquecer sobre os pais de Bea? E como pude dizer uma coisa daquelas? O quão vazio me tornei?

Voltei o caminho inteiro para o apartamento, me sentindo solitário naquela avenida. Havia me acostumado em tão pouco tempo com a presença da minha melhor amiga ao ponto de sentir a sua ausência. Ela voltaria - eu precisava acreditar nisso -, então não havia muita coisa para me preocupar.

Olhei para o céu entardecendo. Haviam alguns pássaros negros a longe e nuvens de um tom laranja claro devido aos raios do pôr-do-sol. Diziam que, quando alguém olhava para os pássaros no céu, sentia uma enorme vontade de viajar para algum lugar. Também dizia que quando sonhava com pássaros ou se sentindo como um, você tem o desejo de se libertar de algo; de ser livre. Eu tivera esse sonho havia um tempo.

Mas do que eu iria querer me libertar? Do cinza que via a minha volta? Do vazio que sentia em meu peito? Ou desse mundo trágico, entendiável e podre?

Eu não sabia mais, era um grande vazio em mim.

Fui até o prédio onde estava morando de aluguel, subi o elevador e entrei no meu apartamento, logo depois me largando no sofá, cansado. Andar naquela avenida não era nenhum pouco fácil.

Não sei por quanto tempo fiquei vegetando no sofá, mas apenas levantei quando alguém bateu na minha porta por volta das sete horas da noite. Abri a porta e me deparei com uma Bea sorrindo de orelha a orelha como estivesse tramando uma surpresa gigantesca, o que me fez franzir a testa. A garota deu a sua risadinha típica.

- Você saberá agora. - disse ela, rindo levemente - Vamos sair.

Mal tranquei a porta com a chave e a garota agarrou o meu pulso até as escadas, me levando junto com ela. Acabei quase tropeçando e caindo no chão, mas segui com o ritmo dela. Descemos correndo os degraus, sem me importar muito para onde ela estava me levando.

Minha amiga tinha esses momentos de surpreender qualquer um. Ela poderia te agarrar e te levar para algum lugar sem perceber o seu movimento. Ela era discreta. Ela poderia surgir de algum ponto com sombras com uma caixa de presentes ou até mesmo com um chicote.

Pode parecer um exagero, mas não duvidaria de uma coisas dessas vindo dela.

Bea era louca.

Por isso a cor preta combinava tanto com ela, pois a loucura era uma junção de várias cores enquanto o vazio era a ausência dela, ou seja, era tudo branco e também era a cor que os outros diziam que combinava mais comigo.

Branco não era só pureza assim como preto não era só sujeira.

Chegamos na garagem, sem entender absolutamente nada. Bea olhou para mim por cima do ombro e sorriu risonha. Isso estava começando a me dar um pouco de medo, mas também uma certa adrenalina por querer descobrir o que era.

Ela me puxou para um canto iluminado da garagem, onde havia uma moto preta e branca com dois capacetes da mesma cor. A garota me soltou e jogo um molho de chaves em minha direção, que eu peguei com um pouco de lerdeza. Fiquei olhando boquiaberto para aquilo, completamente surpreso.

- Quando éramos menores, nós fizemos uma lista de desejos, lembra? - começou Bea com um sorriso calmo no rosto - Você tinha dito que queria uma moto e eu disse que andaria junto contigo para algum lugar com ela. - então ela virou-se para mim - Você sabe dirigir uma, não? Eu sei que você é motoboy algumas vezes no seu trabalho.

Eu não consegui deixar de abrir um sorriso de canto.

- Você é... - acabei soltando uma risada - Eu já volto. Vou pegar os meus documentos.

Virei-me de costas para ela, indo em direção dos elevadores. Inacreditável... Ela era inacreditável. Como ela conseguiu lembrar de algo quando tínhamos seis anos? Lembrava-me que estávamos assistindo um desenho animado na televisão e decidimos fazer uma lista de desejos. Cada um colocou três coisas e uma seria secreta.

Eu tinha colocado que queria uma moto e ela colocou que queria viajar junto comigo numa. Eu disse que queria ver um céu estrelado porque as luzes elétricas da cidade cinzenta impediam de ver alguma estrela. Bea tinha rido e colocou a mesma coisa, alegando que seria uma experiência divertida.

O último desejo, nenhum dos dois contou.

- NÃO ME TOQUE!

Congelei no instante em que ia abrir a porta da garagem após reconhecer a voz de Bea. Virei-me para a direção do grito. Bea estava sendo importunada por três caras estranhos bem ao lado da moto. O do meio sorria com malícia para a garota.

- Não vamos fazer nada de mal contigo. - falou ele, se aproximando mais da minha amiga - É só ficar caladinha e obediente que tudo vai dar certo.

Alguma coisa estalou na minha cabeça e começou a me deixar enfurecido.

Fui até o cara, andando devagar e sem assustar o trio, que estavam olhando para a minha amiga. Cutuquei o ombro do que tinha falado antes, que se virou para mim com uma cara feia e abriu a boca para falar algo, mas o interrompi com um soco forte bem na cara dele, que soltou um urro de dor. Os outros dois exclamaram de surpresa.

Não perdi tempo. Subi na moto e coloquei a chave para ligá-la. Virei-me para Bea, que estava parada em estado de choque. Gritei para ela vir, o que a despertou do seu estado e subiu rapidamente atrás de mim na moto. Ignorei o momento embaraçoso quando entrelaçou os seus braços com força na minha cintura.

A moto cantou os pneus no exato momento em que os três caras prestaram a atenção na gente e correram atrás, mas já estávamos na saída da garagem para a rua.

Eu conhecia aqueles três. Eles eram famosos por darem algumas festas no prédio com permisão de bebidas, cigarros e drogas. Ninguém tinha coragem de confrontá-los.

Eu não tinha nenhum pingo de coragem também, mas não admitia uma cena como aquela, ainda mais quando Bea estava no meio.

Porque...

- Lembra o último desejo que era segredo?! - perguntei alto para ser escutado enquanto guiava a moto pela avenida - O da lista?!

- O que tem?! - perguntou ela

- Eu lembrei o que era! - respondi com um sorriso no rosto - Fazê-la feliz até nos seus últimos momentos!

Parei a moto quando deparei com um sinal de trânsito no vermelho. Olhei a minha amiga por cima do ombro.

Não, a minha amada.

Ela sorria com os olhos marejados, o que tornou as suas íris negras num verdadeiro céu recheado de estrelas, ou apenas os olhos de uma louca eufórica se divertindo ao máximo.

Ela respondeu com apenas três palavras. Se foi ou não pela força do momento, eu guardei essas palavras comigo.


Notas Finais


Espero que tenha gostado e desculpa pela demora :3


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