História Blue Lagoon - Capítulo 35


Escrita por: ~

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Categorias Originais
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Palavras 5.582
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Romance e Novela, Yuri
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Boa Leitura! :3

Capítulo 35 - Borbulhando


 

— Vicky, como você está?! A Lena me contou o que aconteceu. Você está bem?!

A voz de Amanda soava quase histérica pelo outro lado, e quase podia vê-la segurar o celular com as duas mãos, coisa que sempre faz quando está nervosa em uma ligação. Sorri, sentindo uma fisgada leve no maxilar — o que me fez lembrar que havia esquecido o remédio das seis —, e desliguei o fogão quando o leite começou a subir pela panela, já fervido.

— Eu estou bem sim, Linguado, não se preocupe.

— Ela disse que a maluca quebrou seu dente e você precisou extrair. Como assim você está bem em uma situação dessas? Deve tá doendo pacas! Você foi pra universidade nesse estado?!

— Não, não fui — coloquei a panela quente sobre a mesa da cozinha com o auxílio de um pano de prato para segurar a alça e busquei meu copo pessoal no armário ao lado do fogão — Na verdade, os analgésicos e o cansaço me fizeram perder a hora, acordei um pouco tarde demais pra ir a algum lugar de qualquer jeito. Então fiquei em casa e dormi mais um pouco a tarde. Acordei não faz muito tempo.

— Ao menos isso — ela deu uma pausa, e sua respiração pesada cruzou a linha, mas era um peso de alívio, ela estava começando a se convencer de que não era o fim do mundo — Você está conseguindo comer algo além de líquido?

— Na verdade não. Estou até preparando um leite quente com canela pra mim agora, o problema é que líquidos não matam fome, e eu estou morrendo de fome — peguei a canela no armário dos ingredientes e, após despejar o leite no copo, adicionei duas colheres de chá de canela e mexi algumas vezes.

 — Tenta um Cup Noodles. São gostosos e não precisa mastigar. O de churrasco é uma delícia.

Enquanto ainda mexia o líquido, considerei a ideia. Nunca fui muito fã de Cup Noodles, talvez porque havia provado pouquíssimas vezes e há muito tempo — anos talvez — então, não era fácil lembrar se eram gostosos ou não, mas para minha situação atual, não seria nada mau, embora o dentista tenha me aconselhado ficar à base de sorvete nos primeiros dias, porém, pelo mais que eu amasse sorvete, só ele não dava conta do recado, meu estômago era exigente. E acho que o de qualquer pessoa seria.

— Tudo bem, é uma boa ideia. Mais tarde vou descer para comprar alguns. Estou acreditando em você que são realmente bons — retirei a colherzinha do copo, o peguei com cuidado pela borda por conta da temperatura, e soprei o líquido algumas vezes para esfriar.

— Ótimo. Faça isso e você vai ficar bem. Mas agora tenho que desligar, Vicky, a Lena está um pouco ocupada e você sabe, não posso ficar no celular dela por tanto tempo. A gente se fala depois, está bem? Se cuida, de verdade.

Sorri.

— Tudo bem, Linguado. Obrigada pela ligação, mas não se preocupe, estou bem sim e vou ficar. Se cuida você também, amanhã vou te ver.

— Você não deveria vir amanhã, deveria ficar descansando. Já extrai alguns dentes na vida e o repouso é meio sério, nem peso pode pegar.

Ei ri, com um pouco de dor.

— Eu sei disso, mas não é como se dirigir até aí fosse um grande esforço sabe? Não se preocupa, vou ficar bem, e eu quero te ver.

Houve uma pausa na ligação, e por um momento me perguntei se aqueles segundos de silêncio haviam a feito corar um pouco, deduzi que sim pelo modo como seu ar escapou um tempo depois. Mas juro, não foi minha intenção.

— Tudo bem, então. Amanhã à noite. Te espero — pelo menos sua voz parecia um pouco mais segura do que sua respiração sugeria.

— Estarei aí. Beijos, gatinha.

Antes de Amanda surgir na linha, foi Lena que me ligou e disse que ela queria falar comigo, e após a nossa conversa rápida, a ligação foi finalizada e não tornei a falar com Lena. Provavelmente ela estaria um pouco encrencada aquele dia por conta do atraso de consideráveis três horas — talvez um pouco mais —, e não tinha tempo para gastar comigo dando um breve resumo de como foi quando ela chegou lá. Eu entendia, mas estava louca para saber que ela não estava realmente ferrada. Bem, pelo menos ela disse que me ligaria à noite, agora era só esperar e deixá-la trabalhar sem interrupções.

Após a ligação, enfiei o celular no bolso e fui até a varanda com meu copo em mãos. A noite não estava exatamente fria, mas o vento estava um pouco mais presente aquele dia e foi de grande ajuda no resfriamento do leite. Quando o mesmo estava pronto para ser digerido sem causar algum ferimento de primeiro grau à minha língua, comecei a bebê-lo. Poderia ter esperado para esfriar um pouco mais, mas, havia um incômodo em mim aquele momento, um incômodo que não me permitiu abusar da paciência aquela noite. A mensagem que April havia me mandado ainda estava piscando na minha mente, como uma grande placa em neon, pedindo gritantemente por atenção. A verdade é que eu tentei ignorar, preferi achar que April estava inventando alguma coisa para que eu cismasse com Lena, por qualquer motivo. Ela ainda é uma sociopata no fim das contas, e sociopatas são manipuladores, mas, por que algo dentro de mim dizia que essa não era sua intenção, e que na verdade eu deveria tentar entender o que ela queria dizer?

Suspirei fundo, a cabeça começando a palpitar, e sem querer esperar mais na agonia da dúvida, puxei o celular do bolso e liguei para ela. Chamou até cair na caixa de mensagens, dei um estalo com a língua, irritada, e então tentei outra vez. Mas novamente, caixa de mensagens.

— Que droga, April, onde você está? — murmurei, de cenho franzido, enquanto fitava o CHAMADA ENCERRADA na tela do celular.

Aproveitei para verificar o horário, eram 19h30, será que ela estaria em alguma sessão de fotos? Mesmo que fosse isso, não seria no Bellmont’s, como Hellmont havia dito, ela só voltaria ali em uma ou duas semanas. Mas, ah, céus, onde aquela garota estava?! Balancei a cabeça inconformada e enfiei o celular no bolso outra vez. Devolvi minha atenção à paisagem e lutei para me concentrar no copo de leite sem me perder em devaneios estúpidos e perturbadores. Um grande defeito meu, é que minha mente é muito criativa para teorias mirabolantes, e isso é realmente desgastante. As pontadas na cabeça com certeza só iriam piorar dali para mais tarde caso April não desse as caras logo e me explicasse o que queria dizer com aquela mensagem. Mas conhecendo April como eu conheço, era bem possível que ela só desse sinal de vida em um ou dois dias.

Céus...

Quando o relógio marcou 20h30, eu estava largada de qualquer jeito no sofá da sala, com uma tigela de sorvete sobre a barriga, assistindo Scream na Netflix. Nada melhor para acalmar as teorias mirabolantes de alguém como eu do que tentar desvendar o assassino em série... Ou talvez isso só piorasse minha situação, mas aparentemente estava me distraindo, e era isso que importava. Quando o episódio acabou e estava contando os segundos para passar automaticamente para o próximo, meu celular tocou sobre a mesinha de centro. Levei um pequeno susto e me estiquei com preguiça até alcançá-lo. O nome APRIL apareceu no visor, e, imediatamente, me sentei em um súbito.

— Alô, April?

— O que posso dizer? É uma delícia ver duas ligações suas perdidas no meu histórico de chamadas. Significa que queria mesmo falar comigo, não?

As palpitações na cabeça tinham amenizado, mas desta vez, era uma veia na testa que queria continuar o trabalho.

— Sério, April, não é hora pra piadas. Eu te liguei por um motivo importante. E céus, onde você estava pra não atender o telefone? Sessão de fotos?

Então o ar bem humorado se desfez com o peso da respiração que soou pelo outro lado da linha,

— Não. Delegacia.

Delegacia?

Então minha ficha caiu.

— Ah. Calena?

— Sim.

Ao menos ela teve a boa vontade de ir visitá-la... eu acho.

— Ela te pediu pra ir ou foi por conta própria?

— A segunda opção. Queria ver mais de perto o que você fez com a cara dela e como ela estava agora depois que a realidade foi um pouco mais dura. Sinceramente, ela precisava de uma lição. Mas não posso dizer que me emocionei ao vê-la, pra mim ela ainda merece estar ali.

Senti um incômodo apertar o peito aquele momento. Para mim também Calena realmente merecia o que aconteceu, mas o modo como April expressava isso era carregado de uma frieza que nem eu com todo o meu ódio à Calena era capaz de ignorar. Mas não é como se eu pudesse reclamar, April era diferente... e aquele era seu modo de desprezar alguém, mesmo alguém que já tenha lhe dado prazer durante muito tempo em sua vida.

— E como ela está?

— O nariz foi remendado com gases e esparadrapo. A cirurgia é amanhã. Até lá, está tomando alguns analgésicos pra dor. O estrago que você fez foi realmente grande. Não sabia que era tão forte.

Senti a nostalgia da adrenalina que irradiou meu corpo no momento em que meu punho acertou o nariz de Calena, e suspirei fundo.

— Quando estou com raiva nem eu me reconheço.

— Todos nós lidamos com um demônio, não é? Faz parte. O seu é só um pouco... forte demais. — ela estava séria, mas deu para perceber a sugestão de uma piada. Não contive o sorriso risonho.

— Acontece. Mas, o que ela fez ao te ver? Quis pular nos seus braços?

— Na verdade, parecia mais envergonhada do que nunca. Acho que nunca pensou que eu pudesse vê-la naquelas condições algum dia. Ficou encolhida a maior parte do tempo, e depois desabou em choro. A última vez que realmente falei de verdade com ela foi na noite em que você nos encontrou em frente a farmácia. Depois disso, só hoje. Ela está arrasada, não que eu me importe, mas é isso. Ao menos aprendeu alguma coisa na vida.

— Ah. É...

Por um momento, senti algo perto da culpa se instalar em mim, e isso só se tornou um incômodo porque eu sempre estava pouco me fodendo para a Calena. Mas quando April me disse que ela estava arrasada, principalmente por não vê-la há tanto tempo, lembrei do quanto a própria April estava do mesmo modo, mas por minha causa. Calena poderia ser a vadia que fosse, e até a louca obsessiva que era, mas era mais que óbvio que ela realmente se importava com April — do seu modo desconexo —, mas se importava, e se eu parasse por um momento para me por no lugar dela, pelo mais que eu ainda achasse que ela merecia tudo o que aconteceu, eu reconhecia que no fundo também era doloroso, muito doloroso. Mas não era algo que eu poderia falar à April, primeiramente porque ela jamais entenderia, sua pouca (praticamente nenhuma) empatia não lhe permitia tanto, e segundo, porque aquilo era completamente ridículo.

— Mas então, você não me ligou para falarmos da Calena — April disse, fazendo-me despertar do leve devaneio — Sobre o que queria falar?

Pisquei algumas vezes, colocando as ideias em ordem novamente, e então desliguei a TV com o controle. Em seguida, descansei os cotovelos sobre as coxas e deixei que minha mão caísse entre elas. Suspirei fundo.

— Tá, tudo bem. Eu te liguei pra falar sobre a mensagem. A que me mandou mais cedo. O que queria dizer com aquilo?

— Ah, bem... exatamente o que eu disse.

A veia agora palpitou.

— Como assim, April? Por que eu deveria ter cuidado com a Lena? Da onde tirou isso?

— Eu observo. É só isso.

— Observa? Do que está falando? Observa o quê?

April suspirou.

— Na próxima vez que ela for à sua casa, procure dentro da bolsa dela. Você vai encontrar.

É o quê?

— Encontrar? Encontrar o quê?

— Você vai ver.

Os nervos já estavam ficando a flor da pele.

— April você não tá ajudando. Se não me disser o que é, não tem como eu saber o que estou procurando!

— É a única coisa quem com certeza vai te chamar a atenção. Não se preocupe, te garanto que vai achar.

Vai se foder!

— April, por Deus, isso não é dica!

— Se eu contar agora não só vai perder a graça como você vai ficar martelando sobre. Quer dizer, não que já não vá ficar martelando pelo o que falei, mas vai ser pior se eu contar. Espere até a próxima vez que vê-la, procure dentro da bolsa, em todos os bolsos. Se tiver algum interno, provavelmente estará lá dentro.

— Mas que porra, April, você só tá me deixando nervosa! Se for alguma brincadeira não tem graça!

— Eu sei que sou filha da puta com muita gente, Victorie, mas não com você, não faria isso com você. Sei que se importa com ela, por isso tenho a obrigação de abrir seus olhos. Você pode estar se envolvendo com uma pessoa completamente diferente de quem pensa que é, completamente diferente de quem ela diz ser.

Aquilo não fazia sentido. Aquilo não fazia o menor sentido!

— Mas... do que está falando?

— Apenas abra os olhos. Talvez você perceba alguma hora. Tenho que desligar, a gente se fala depois, tudo bem? Se cuida, Victorie. Eu amo você — e antes que eu pudesse dizer algo mais, ela desligou.

Olhei para o celular por um tempo, sem acreditar que ela havia realmente desligado daquele jeito. Algo ali estava errado, e não era só uma coisa, eram várias! Era April dizendo que eu deveria tomar cuidado com Lena, era eu sentindo as primeiras pontadas de culpa pelo o que fiz com Calena, era April usando enigmas para me fazer encontrar algo que eu nem se quer podia imaginar o que seria... Céus, como minha vida se complicou daquele jeito? Sentia como se eu houvesse mexido em uma colmeia e agora as abelhas estavam todas atrás de mim.

Saco...

Por volta das 21h, meu estômago se rebelou outra vez. Enjoada demais para me absorver de sorvete novamente, criei coragem, troquei de roupa e desci para comprar os Cup Noodles, rezando para que realmente fossem bons. Não queria gastar dinheiro a toa, mas, caso fossem mesmo ruins, não teria mal algum em levá-los para Amanda no outro dia, afinal, ela adorava eles, não é? A única coisa ruim é que eu ficaria com fome.

Assim que meus pés tocaram a calçada fora do edifício, meus olhos foram automaticamente guiados até a esquina onde havia visto o homem mal encarado outra noite. Ele não estava ali — o que imaginei ser óbvio —, afinal, não é por que ele estava em um dia que significaria que estaria em vários outros, não é? É. Tinha que ser, porque se eu realmente pensasse daquele jeito, eu estaria paranoica, muito paranoica. Embora, no fundo, eu achava perdoável eu ceder à paranoia, afinal, aquele sujeito estava olhando diretamente para mim, eu tinha certeza disso, ele me observava, como se planejasse ou quisesse dizer algo, e aquilo realmente me assustou.

 Mas tudo bem, Victorie, são águas passadas, se concentre na sua fome e esqueça isso. Apenas, esqueça!

Afundei as mãos nos bolsos do moletom e me neguei a olhar para trás enquanto caminhava até o mercadinho ali próximo.

Cheguei em casa com uma sacola com três Cup Noodles de churrasco e dois pacotes de lâmens tradicionais — esses eu lembro que eram realmente gostosos, mas por falta do hábito de comê-los, não mantinha alguns em casa, então fiz uma nota mental para comprá-los junto dos Cup Noodles. Preparei o primeiro copo de acordo com as instruções na embalagem e não pude negar o medo de provar e me decepcionar quando estava levando a primeira garfada à boca, mas, por sorte — ou pelo simples fato de ter sido uma recomendação de Amanda, e nós costumamos compartilhar do mesmo gosto para praticamente tudo — delirei quando o salgadinho do churrasco desceu com o macarrão garganta abaixo. Céus, no meio da fome e da dor, aquilo parecia um prato de restaurante francês.

Obrigada, Amanda!

O relógio marcou meia noite e Lena ainda não havia ligado, pelo horário, imaginei que não ligaria mais. Deveria ter chegado em casa e apagado como sempre faz quando o dia é pesado. Eu fiquei um pouco sentida, queria falar com ela, perguntar se estava tudo bem, mas não adiantava mais àquela noite, então, apenas deixei o celular de lado e me preocupei em dormir.

Na noite do sábado, como prometido, fui visitar Amanda. A primeira coisa que ela disse quando me viu foi:

— Céus, tá feio mesmo hein!

Estava se referindo ao inchaço e o hematoma no meu maxilar. De fato, ainda estava feio, mas estava um pouco melhor do que o pós-cirúrgico e do que no dia anterior, bem melhor, na verdade. Eu pensei em fazer alguma piada de humor negro sobre aquilo, algo como “Pelo menos estou melhor do que você”. Não seria por mal, ela sabia disso, era para ser apenas uma piada, mas, mesmo assim, desisti, e optei por falar algo mais normal.

— Nada que remédios e sorvete não ajudem. Ah, e Cup Noodles também.

A visita foi relaxante, me tirou um pouco do estresse de passar dois dias em casa com dores, analgésicos e sorvete, além do tempo que passei me torturando sobre o que April havia me dito para fazer quando me encontrasse com Lena. Aquilo ainda me soava completamente ridículo, principalmente pelo fato de eu não fazer a menor ideia do que supostamente deveria achar dentro da bolsa da Lena, mas, já era tarde demais para repensar no assunto. Se tinha uma coisa que sempre dava certo entre mim e April, era sua capacidade de por coisas na minha cabeça, e a minha capacidade de me perturbar com elas e não descansar até tirar a prova.

E era isso que eu iria fazer, tirar a prova!

Quando sai do quarto de Amanda, pensei em passar na recepção da torre de negócios e pedir para falar com Lena. Imaginei que naquela situação um pedido pessoal seria melhor que via mensagem ou ligação, embora ainda assim eu achasse muito escroto da minha parte, afinal, eu estava bem no habitat natural do seu não amado David, mas, a mensagem e a ligação de April estavam me deixando inquieta demais, e eu sinceramente não queria esperar muito até descobrir o que diabos tinha dentro da bolsa de Lena. Se é que tinha mesmo alguma coisa. April ainda poderia estar inventando tudo ou viajando na Hellman’s Airlines — embora isso não fosse muito o tipo dela —, mas caso ela estivesse redondamente enganada, e eu mexesse na bolsa de Lena e não encontrasse absolutamente nada comprometedor, nossa... April estava ferrada comigo! Porém, a minha sorte não poderia ser maior, e assim que dobrei o corredor do primeiro andar para pegar o elevador, Lena vinha caminhando em minha direção com algumas pastas e documentos na mão. Estava tão distraída verificando alguns dos papéis que não me viu parar no meio do caminho e quando menos esperou, seu corpo se chocou contra o meu e algumas folhas ameaçaram cair, mas ela as segurou antes que pudessem e me olhou meio desconcertada.

— Ai, meu Deus, me desculpa, eu tava distraída e... Vicky?

— Bu — eu sorri, com as mãos enfiadas nos bolsos do moletom. Primeiramente meus olhos se concentraram nas pastas mais uma vez, e imaginei que ela estivesse bastante ocupada, mas mesmo assim arrisquei — Será que você tem um tempinho?

Suas sobrancelhas se curvaram em desculpa, ela sorriu meio sem jeito e ergueu alguns dos papeis para mim.

— Desculpa, meu amor, hoje tô entupida até o pescoço com documentação. Pra você ter uma noção nem almocei ainda, estou morrendo de fome, mas ainda não posso parar. Será que dá pra ficar para outra hora? Talvez, mais tarde? Eu te ligo.

— Você também disse que ia ligar ontem e não ligou. E não falei com você o dia inteiro desde então.

Suas pálpebras vacilaram e ela encheu os pulmões, em seguida fitou os próprios pés e soltou todo o ar acumulado. Parecia desgastada, mas também um pouco culpada, e antes que eu pudesse perguntar o que houve, ela olhou para os lados rapidamente e me puxou pela mão.

— Vem comigo um minuto.

Ela me levou até o banheiro feminino daquele andar. Quando entramos, uma mulher um pouco mais velha que nós duas estava terminando de lavar as mãos, e quando por fim as enxugou no papel toalha, deixou o banheiro para nós duas, mas antes de qualquer coisa, Lena se certificou que todos os boxers estavam realmente vazios. Por fim, se aproximou de mim.

— Meu anjo, eu juro que não esqueci de você. Mas eu não sei que porra tá acontecendo que o filha da puta do David tá me sobrecarregando ultimamente. Quando eu penso que estou livre de alguma coisa, ele me aparece com mais duas pilhas de relatórios e burocracias para resolver. Nos últimos dias, com exceção do que dormi com você, tenho precisado tomar analgésicos pra dor de cabeça pra conseguir dormir. Eu chego em casa e não tenho forças nem sequer para tomar um banho, e às vezes nem para comer algo, eu chego no ápice do limite do cansaço. Eu sei que fiquei de te ligar ontem, mas pra falar a verdade eu nem lembro de que horas dormi, só lembro de chegar em casa, e depois disso, de acordar de manhã. Me perdoa, galante da noite, não é minha intenção te “ignorar” — ela desenhou aspas no ar — Mas é que nos últimos dias está sendo um inferno isso aqui. Estou quase surtando.

Eu poderia dizer que aquele discurso todo poderia ser uma grande mentira, se não fosse a leve profundidade que percebi ao redor dos seus olhos: olheiras, claramente disfarçadas com maquiagem. Mas não só isso, sua fisionomia parecia um pouco mais cansada também, e seu olhar preocupado em me explicar tudo aquilo e torcer para que eu acreditasse e evitasse uma desconfiança desnecessária também era claramente visível. Ela estava falando a verdade, e estava desesperada para que eu entendesse sem ruídos, e, pelo mais que April quisesse que eu desconfiasse dela por algum motivo, eu não podia fingir que não estava vendo o seu estado, ela realmente estava cansada. Mas mesmo assim, também não deixei de ignorar April.

— Tá, tudo bem, eu acredito em você. Quer dizer... — gesticulei com as mãos fazendo menção a sua imagem, como se fosse muito óbvio — Não tem como não acreditar.

Ela suspirou aliviada e deu um passo a frente, um pouco mais perto de mim.

— Obrigada, meu amor, você é sempre tão compreensível — ela sorriu.

— É o mínimo para uma relação dar certo. Mas você também é assim.

Ainda sorrindo, ela acariciou meu rosto do lado machucado com cuidado.

— E como você está hoje?

— Estou melhor — peguei sua mão e a segurei entre as minhas, então as fitei — Mas escuta, você tem um tempinho pra gente se ver? Pode ser amanhã. — eu a olhei — Você está livre amanhã? — então percebi que pedir aquilo de uma maneira relativamente seca não seria convincente, então melhorei o argumento — É sério eu... eu estou com saudades. Foi tão boa aquela noite que dormiu comigo, queria passar mais um tempo daqueles com você, nem que seja só uma tarde. Topa? — eu sorri, para encorajar-lhe um “sim”.

E por sorte e alívio, seu sorriso apenas alargou, de maneira iluminada.

— Claro, Vicky! Amanhã vou estar livre sim, e se não estiver, eu desmarco o que tiver e vou ficar com você. Não se preocupe, amanhã você vai ser minha única prioridade, está bem?

Fechei o punho em comemoração e Lena riu.

­— Está ótimo! Às 14h, pode ser?

— Às 14h. Combinado.

— Vou te esperar. E... — dessa vez, meu sorriso foi um pouco mais desconcertado. Em partes era encenação, mas em outra parte era verdade — Obrigada, obrigada mesmo.

— Não há de que, bobinha — ela se ergueu na ponta dos pés e me deu um selinho, e, em seguida, esfregou a ponta do nariz na minha algumas vezes — Também estou morrendo de saudades. A gente se vê amanhã então. Mas agora tenho que ir. Se cuida meu amor, e melhoras — ela me deu outro beijo, um pouco mais demorado, e em seguida, saiu rapidamente do banheiro.

Meu coração se aqueceu com aquele beijo e com a sua presença, como sempre fazia quando ela estava por perto, porém, mesmo com aquele calor no peito, uma outra sensação tentava abrir espaço ali, e um espaço um tanto ganancioso: medo. Medo de no outro dia, em meio a um momento agradável, descobrir algo sobre ela que talvez eu não quisesse.

Por favor, April, esteja errada...

 

Uma das melhores qualidades de Lena em relação a mim é a sua pontualidade. Exatamente às 14h do domingo a campainha tocou. Eu já havia dado uma geral na casa como de costume — mas sem fazer muito esforço por conta do dente —, e após isso, tomei um banho e vesti roupas bem mais frescas que as habituais para um encontro em casa, porém, considerando que Lena em partes já era de lá, não tive problemas com isso. Quando abri a porta, deparei-me com uma Lena tão menos habitual quanto eu, parecia até que havia sido combinado. Rimos um pouco quando percebemos as vestimentas leves e frescas uma da outra e após um beijo ela entrou.

— Ah nossa, que saudade da sua casa pela tarde. O clima aqui em cima é tão bom e relaxante — ela disse, varrendo o apartamento com os olhos e aspirando o ambiente com nostalgia — Prevejo uma tarde de filmes e besteiras pra comer — ela disse sorrindo, e deixou sua bolsa sobre a mesa da sala de estar como sempre faz. Mas se eu precisava mexer nela, não podia deixa-la ali aquele dia.

— Ah, Lena — eu deslizei para seu lado e peguei sua bolsa — Será que posso levar suas coisas lá pra dentro hoje? Tô pensando em fazer algum tipo de lanche especial e vamos precisar da mesa.

Que desculpa esfarrapada...

— Ah, claro meu bem, fique a vontade — ela sorriu, simpática.

Naquele momento senti um pouco de culpa, ela estava animada por conta do nosso encontro e de um suposto lanche especial, enquanto eu inventei aquilo — provisoriamente — para manter sua bolsa longe dela enquanto eu a bisbilhotava. Sim, bisbilhotava. Porque o que April me pediu para fazer nem de longe era uma simples “confiscação”.

— Ah, tudo bem — sorri para disfarçar e caminhei pelo corredor. Então parei e me virei — Ah, Lena, deixa eu te perguntar. Você sabe fazer pudim?

Ela franziu o cenho, achando graça.

— Pudim? Quem não sabe fazer pudim?

Eu pensei em responder, mas fiquei calada, meu silencio desconcertado o faria por mim. E quando ela entendeu a mensagem, me olhou mais desconcertada ainda.

— Ah, desculpa, não sabia que você... bem, eu sei.

— Ah, ótimo! Eu estava com uma vontade louca de comer pudim hoje. Será que você poderia, com a toda a gentileza do mundo, fazer um pra gente? Prometo que vou caçar alguma coisa na internet pra fazer também. Mas é que não quero me arriscar a fazer pudim e estragar tudo. Sabe como é, amo pudim — bem, era verdade, além de que, pudim era mole e dava para mastigar sem problemas.

Lena me olhou por um tempo e depois riu, com certeza estava estudando meu amor desajeitado por pudim nas minhas feições.

— Tudo bem, galante da noite, eu vou fazer o seu pudim.

— Muito obrigada! — dei-lhe um beijo rápido e, para disfarçar, peguei o casaquinho que ela havia levado e o coloquei sobre a bolsa — Vou lá dentro guardar essas coisas. Preciso terminar de arrumar uma bagunça que esqueci hoje mais cedo, então, volto já. A cozinha é sua, mestre cuca, sabe onde fica tudo, não é?

Ela pensou um pouco.

— É, acho que sim — então sorriu — Tudo bem, vai lá.

Agradeci e então rumei para o quarto, enquanto ela foi para a cozinha. Ao entrar no cômodo, encostei a porta deixando apenas uma pequena fresta aberta — achei que fechar completamente seria totalmente suspeito —, em seguida, coloquei sua bolsa e seu casaco sobre uma mesa de canto e então parei. Olhei para o objeto, aparentemente inocente bem em frente aos meus olhos e respirei fundo.

— Eu juro que se a April estiver errada, ela está muito, mas muito ferrada...!

Então, após encher o peito com ar mais uma vez, tomei aqueles últimos segundos para me absorver de coragem, e então abri a bolsa. Se eu não estivesse com a ideia de que algo comprometedor estaria lá dentro, aquela ação seria tão inocente quanto dizer que não sei fazer pudim — o que sim, é quase uma vergonha —, mas já que eu buscava algo ali dentro, me senti uma intrusa, e a sensação só aumentou o receio no meu peito, receio Lena por um acaso abrir a porta a qualquer minuto e me ver ali. Se eu não fosse completamente tomada pelo nervosismo, poderia mentir dizendo que precisei de alguma coisa que talvez só ela teria, e talvez estivesse na bolsa dela. Somos namoradas, então, é normal eu mexer ali sem parecer suspeito, não é? Afinal, devemos confiar uma na outra, não é?

Mais que merda, não é?

Minha mão vasculhou o interior da bolsa e não encontrou nada de interessante. Documentos, maquiagem, chave do carro, folhetos amassados, dois pares de óculos escuros...

Merda, merda. Aqui não tem nada!

— Oh, Vicky, onde você guarda o leite condensado? — a voz de Lena veio da cozinha.

Parei de mexer por um momento, no ímpeto do susto, e pensei rápido, mas não direito.

— Ah, er... na geladeira! — então voltei à bolsa.

— Já olhei na geladeira, amor, não tem nada.

Parei outra vez, nesta, com algumas moedas na mão.

Pensa Vicky, pensa!

— Então olha no armário. Aquele do lado do fogão!

Ela não respondeu, então imaginei que estava procurando no armário, e, para não perder tempo, continuei vasculhando. Frasco de perfume, cartões de crédito escondidos em um dos bolsos externos...

Merda, April, merda! O que exatamente estou procurando? Não tem nada aqui! Eu estou fazendo o papel de trouxa e ainda por cima...

Então lembrei do que ela disse: “Procure dentro da bolsa, em todos os bolsos. Se tiver algum interno, provavelmente estará lá dentro”.

Bolso interno! Dei uma última checada nos bolsos externos e, ao não achar absolutamente nada de estranho — além do excesso de coisas, típico de bolsas de mulher — voltei para o interior do objeto e procurei os bolsos internos. Achei um pregado à parede interna da bolsa, e quando o abri, com o coração batendo um pouco mais forte agora, deparei-me com dois pares de brincos de argola. Quando os objetos foram decifrados pelo meu cérebro, não evitei um suspiro de alívio. Depositei o peso do corpo sobre uma das pernas e levei uma mão à cabeça, sentido a pontada da angustia.

— Eu sabia, não tem nada aqui — murmurei a mim mesma — Isso é coisa da cabeça da April, eu nem sei porque eu... — as palavras se cortaram no momento em que meus olhos avistaram outro bolso interno, bem mais escondido que esse último.

Ele ficava quase no fundo da bolsa, e o zíper corria toda sua extensão interna. Era um bolso incomum, provavelmente feito com o intuito de se guardar objetos pequenos, como moedas, brincos e anéis. Nunca havia visto um bolso daqueles, mas também nunca tive uma bolsa daquelas, nem convivi com garotas adeptas do modelo. Porém, eu já estava quase convencida de que não haveria nada e de que April, ou estava surtando, ou brincando com a minha cara — embora fosse pouco provável —, mas no momento era no que eu mais queria acreditar.

— Tudo bem, Vicky. Não tem nada, não tem nada... — abri o zíper sem muita pressa e coloquei os dedos ali dentro.

Toquei o interior e não senti absolutamente nada, provavelmente, era só mais um bolso vazio, o que fazia sentido, com tantos outros pela extensão da bolsa, usar aquele era quase ridículo. Provavelmente ele era fruto de um mau design, porém, quando estava quase desistindo e preparando o pulmão para uma respiração profunda de irritação com April, meus dedos correram até um dos cantos do bolso e esbararam em alguma coisa. Meu cenho franziu, estava surpresa pelo fato de realmente haver algo lá dentro. Peguei o objeto com cuidado e percebi que era pequeno e circular, mas foi quando minha mão foi retirada de dentro da bolsa com o objeto agora sob a luz ambiente entre meu indicador e o polegar, que meus olhos se arregalaram e meu coração parou por um segundo, e nesse mesmo segundo, pareceu que tudo à minha volta simplesmente estacionou.

Uma aliança.

Eu não podia acreditar do que estava vendo. Era mesmo uma aliança, dourada, inconfundível. Eu nunca havia visto Lena com aquela aliança, o que faria sentido se ela a mantesse escondida em um bolso tão escondido quanto a própria. De repente, senti raiva começar a borbulhar no sangue, e lágrimas de revolta se prepararem para marejar meus olhos.

— Eu... eu não acredito...

A porta do quarto se abriu, e Lena entrou, banhada em dúvidas.

— Vicky, não consegui achar o... — e então se calou, subitamente, como se o que houvesse presenciado fosse como uma faca no pescoço.

Demorei alguns segundos ainda fitando o objeto entre meus dedos, em seguida, olhei para ela devagar, e não havia nada além de inconformismo e penumbra em meu semblante.

— Você é casada?

 

Continua...


Notas Finais


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Para quem leu até aqui, desde já agradeço ♥
Até depois de amanha! Yay!


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