História Blue (Malec) - Capítulo 9


Escrita por: ~

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Categorias Shadowhunters
Tags Clace, Deficiencia, Homofobia, Machismo, Malec, Morte, Racismo, Sizzy
Visualizações 194
Palavras 3.857
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Crossover, Drama (Tragédia), Ficção, Romance e Novela, Universo Alternativo, Violência, Yaoi
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Cross-dresser, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Pansexualidade, Sadomasoquismo, Sexo, Suicídio, Tortura, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


HEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEROU MORECOS, TURU BOM?! VOLTEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEI!

Músicas do capítulo (todinha BR hoje):

— Adelaide, Inimigos do Rei
— Sonífera Ilha, Titãs
— Exagerado, Cazuza
— O Bêbado e a Equilibrista, Elis Regina
— Cálice, Chico Buarque & Milton Nascimento
— Que País é Este, Legião Urbana
— Alagados, Os Paralamas do Sucesso

Enjoy it.

Capítulo 9 - Honeydew


Fanfic / Fanfiction Blue (Malec) - Capítulo 9 - Honeydew

9

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I'm so tired I can't sleep

I'm a liar and a thief

Sit and drink pennyroyal tea

I'm anemic royalty

— Nirvana, "̶P̶e̶n̶n̶y̶r̶o̶y̶a̶l̶ ̶T̶e̶a̶ "

 

αℓєc

ทα мαiσr ραrτє ∂σ τємρσ, eu não sou uma boa pessoa.

Quando Magnus me deixou sozinho no escritório, percebi o quanto vinha sendo egoísta e negligente nos últimos anos. E agora, de repente, queria reivindicar alguém que nunca poderia ser de outro porque não era nem de si mesmo. Não é apenas um capricho ou um desejo que cedi à carne, estava me deixando ser amarrado por algo que era ainda muito tolo para compreender. Dessa forma passei o resto do tempo, com a mente feita em traças por tudo o que Magnus e eu gritamos entre quatro paredes, a impossibilidade de dar certo me causando enxaqueca.

Eu não era alguém capaz de lidar com as coisas muito bem; na verdade, não passava de um homem bom em esconder o que estava sentindo. No entanto, tornei-me um mentiroso sem máscara quando Magnus surgiu em minha vida, tirando de mim o que era minha maior arma. Constantemente pensava nele, imaginava coisas que não deveria e me culpava ao chegar em casa, revirando a dor em uma garrafa de bebida âmbar.

Portanto, meu mundo não era mais o mesmo. Eu não podia sequer fingir que não havia mudado. Ficava cada vez mais difícil cumprir a promessa que fiz à Trix. Ficava mais difícil resistir ao que meu coração, tão rapidamente, começou a sentir por Magnus.

Ao que eu estiquei as pernas no sofá do escritório, virei a cabeça para o lado e encontrei Clary entrando acanhada, vestindo o mesmo estilo de macacão jeans de sempre e com os cabelos presos por um pincel. Ela não se importou com o meu estado e sentou-se na mesinha de centro, apoiando os braços nas coxas e alisando os joelhos com as mãos. Apesar da certa intimidade que tínhamos, Clary era muito tímida para iniciar uma conversa com alguém.

— Sinto muito por entrar dessa maneira — ela disse em tom suave, quase baixo demais.

— Tudo bem — eu respondi com um suspiro. — Eu estou evitando o caos lá fora, de qualquer maneira.

Clary deu um sorriso breve.

— Não se preocupe com isso, Alec. Ninguém ouviu sua discussão com Magnus aqui dentro... Bom, ninguém além de mim e Jace.

— Como? — eu resolvi me sentar, desamassando minha camisa social.

— Jace enxotou todos os alunos quando Magnus te seguiu — respondeu ela. — Não precisa se preocupar.

— Eu agradeço Jace por isso, mas a verdade é que vai ser uma bomba de qualquer jeito. Aquele moleque desgraçado fez acusações extremamente sérias.

De dentro do escritório, eu era capaz de ouvir a movimentação nos jardins ao redor do prédio. O fato de o Instituto ser uma antiga igreja doada por um velho amigo da família me deixava levemente desconfortável. Era como se eu estivesse manchando aquele solo sagrado — embora não fosse religioso — com os pecados que cometi durante a vida e continuava cometendo. Minha alma era pesada demais para meu corpo carregar.

— Foram somente acusações? — Clary colocou seus olhos verdes em mim, usando aquela mesma expressão irredutível que exibia ao querer arrancar algo de Jace.

Eu não tinha para quê correr, para quê negar. Estava claramente no meu rosto, nos meus olhos e nas minhas ações.

— Você ouviu minha conversa — disse. — Ou melhor, escutou minha discussão. Nada do que Imasu disse é mentira, mas acabou, Clary. Pelo menos precisa ter acabado.

— Você está tentando me conversar ou se convencer? — Clary suspirou profundamente, retirando uma mecha ruiva do rosto. — Todas as pessoas que te conhecem sabem o mentiroso astuto que se tornou, Alec. Mas há apenas uma pessoa a quem não pode enganar: si mesmo.

— Está dizendo que eu estou tentando dar fim a uma coisa que não teve realmente um fim?

— Por acaso vou precisar desenhar? — ela revirou os olhos. — Seja sincero, você não sente nada por ele?

— Não.

Nada, mesmo? Minha mente me provocou, a voz de Magnus ressoando com a pergunta. Engoli em seco e encarei minhas mãos, os dedos longos costumavam tocar piano com uma leveza inquietante, mas, com o passar do tempo, fecharam-se em punhos e agrediram pessoas sem qualquer motivo. Eu era bom em fazer escolhas ruins, e algo me dizia que deixar Magnus ir fazia parte delas.

— Como você explica tudo o que disse a Magnus, então? — Clary abaixou o tronco, cerrando os longos cílios para mim. Seus olhos podiam ser intimidantes quando ela queria. — Aquilo foi o máximo que já ouvi de seus sentimentos.

— Não era para você ter ouvido minha conversa.

— Você não devia ter gritado, oras — ela balançou o indicador para mim. — Deixou bem explícito como se sentia em relação ao que está acontecendo. E, além disso, nunca ouvi nada mais confuso antes.

— E tem como não ser confuso? — murmurei com o tom mais baixo.

— Antes de taxar uma coisa como confusa, você precisa entender o que é confusão — disse Clary com sua simplicidade de sempre. — Sentimentos não são confusos, seres humanos que são. Tenha isso em mente na próxima vez em que “conversar” com Magnus, vai facilitar muito a sua vida.

Enterrei os dedos entre os cabelos e abaixei a cabeça, deixando o ar sair e entrar em meus pulmões.

— Não pretendo mais ter qualquer tipo de conversa informal com ele.

— Você está com medo, isso é normal.

— Medo? — a encarei. — Medo de quê?

— Como de quê? — ela deu uma risadinha. — Está com medo do que está sentindo.

— Por acaso você é psicóloga?

— Não, sou apenas uma amiga. — Clary se levantou e apoiou a mão quente em meu ombro, apertando de leve. — Uma que está te aconselhando a esquecer o passado, superar o presente e aceitar o futuro.

Mais tarde, após trancar o escritório e me dirigir pelo corredor até a saída, encontrei-me com Jace, que anunciou ir me acompanhar até em casa naquela noite. Eu apenas assenti e entrei no carro, acionando a ignição após ele se ajeitar no banco do passageiro. Após a conversa breve com Clary, eu devia ter imaginado que não demoraria muito para Jace dar as caras também.

— Você quer muito que eu te agradeça, não é? — perguntei a ele enquanto parava no semáforo, encarando-o de esguelha.

— Olha, eu acho que mereço um obrigado. — Jace sorriu. — Você poderia ter se colocado em maus lençóis se alguém tivesse ouvido aquela discussão.

— Eles ouviram o que Imasu disse e isso significa que a bomba já foi montada — dei de ombros. — Além disso, precisarei me apresentar ao fórum amanhã, justo meu dia de folga.

— Eu pensei que juízes estivessem no topo da cadeia alimentar.

— Ser juiz não é um trabalho fácil. E por causa desse imprevisto hoje, atrasei a revisão de alguns documentos enviados pelo promotor.

— Quando é o julgamento? — Jace perguntou.

— Eu preciso verificar a data novamente, ela foi alterada algum tempo atrás — respondi ao entrar no estacionamento do meu prédio. — Dirigir o Instituto e cuidar dos julgamentos não é algo simples de equilibrar.

— Você aceitou ser diretor do Instituto mesmo odiando aquele lugar...

Jace me encarou.

— Você quer chegar a algum lugar? — pressionei o botão do meu andar quando entramos no elevador e recosto-me à parede espelhada, me recusando a encarar minha imagem refletida.

— O que te convenceu, afinal? — voltou a falar quando paramos em frente à porta e eu, ignorando-o, empurrei-a e entrei. Jace me seguiu de perto, não se importando em encarar em volta com curiosidade.

As cortinas da sala estavam completamente abertas e a visão para Nova York era de tirar o fôlego. As paredes brancas, sem qualquer quadro ou fotografia, pareciam mais vazias do que nunca. Os móveis de cores escuras e neutras davam ao ambiente um ar gelado, distante. Percebi o desconforto de Jace, mas não dei à mínima. Eu sempre havia sido impessoal, mesmo antes de todo o desastre acontecer, e não deveria ser surpresa o fato de que eu não me apego a memórias ou objetos de grande valor sentimental.

— Isabelle consegue ser bastante persuasiva para alguém tão jovem — minha resposta foi direta e eu caminhei para o quarto, deixando a pasta sobre a escrivaninha e os sapatos rente os pés da cama. Se havia algo que eu detestava era bagunça.

— Ela se preocupa com você — ele estava no cômodo também, os braços cruzados e a expressão não definida. — E por tocar no assunto... Quando pretende visitar ela e Max?

Dei dois passos para frente cambaleando. Jace havia me pegado de surpresa e minha garganta arranhou. Eu era especialista em fugir de perguntas que não queria responder, mas qualquer assunto relacionado aos meus irmãos me desarmava. Tinha sido um dia pesado aquele em que os vi pela última vez, durante e após o velório de Maryse. Num momento em que deveria ter oferecido solidariedade, eu, na verdade, não ofereci nada.

Jace suspirou, mas antes que eu pudesse dizer alguma coisa, o telefone tocou. Amassou meu coração como papel quando atendi, as palavras da moça do outro lado da linha estapeando meu rosto. Jace se mostrou preocupado e eu deixei que minhas mãos caíssem ao lado do corpo. Demorei cerca de dois minutos para agir, voltando a calçar meus sapatos e correndo porta afora, com as passadas de Jace atrás de mim enquanto ele gritava para que eu dissesse o que estava acontecendo.

Eu ainda estava tonto quando cheguei ao hospital. Minhas costas pareciam latejar e o meu peito comprimia. Ao que eu parei diante da recepcionista, quase não conseguindo falar, percebi que Jace ainda estava ali em sua teimosia. Não esperei que a mulher colasse o papel de visitante em minha camisa, disparei pelos corredores até encontrar o que procurava. No leito, pálido e quase inerte, estava meu pequeno irmãozinho, que começara a dar indícios de uma forte gripe.

Isabelle olhou para cima, para mim, e se levantou. Seguiu em minha direção com os olhos vermelhos, parecendo muito mais velha do que sua idade. Todo o meu corpo estremeceu quando eu olhei melhor para Max. Ele parecia saudável quando o encontrei pela última vez, mas tratando-se de Max qualquer cuidado era pouco.

— O que houve? — perguntei com a voz mal saindo.

— Max pegou um resfriado — respondeu minha irmã. — Mas quando ele começou a ter dificuldades para respirar, o trouxemos para o hospital.

— Ele está muito mais magro — eu disse. — E parece... Ele parece tão frágil.

— A doença está avançando, Alec. — Isabelle piscou os longos cílios, olhando para mim com os olhos inundados. — Não há cura e os tratamentos são inúteis no caso de Max.

Olhei para ele mais uma vez. Max era portador de uma doença conhecida como ELA — Esclerose Lateral Amiotrófica — e, pouco a pouco, eu o assistia se deteriorando. Lembro-me do que o médico disse a minha mãe quando ele foi diagnosticado: “É uma doença rara onde os neurônios se desgastam ou morrem e já não conseguem mais mandar mensagens aos músculos. Não há cura e é mortal.” Eu era um moleque na época e, assim, usei a doença do meu irmão como desculpa para fazer merda. Eu tentava esquecer isso na maioria das vezes, mas era impossível quando eu olhava para ele naquela cadeira de rodas, emagrecendo, perdendo a facilidade em falar aos poucos, quase sempre precisando de ajuda para respirar. Em meu íntimo sentia-me impotente, assistindo Max morrendo e sendo incapaz de fazer alguma coisa para reparar isso.

Tudo naquele ambiente parecia triste. Meu pai, sentado ao canto, jazia miserável com as mãos segurando o pulso de Max enquanto mantinha a cabeça baixa. Eu mesmo estava com dificuldades para controlar as batidas do meu coração. Recordei-me de quando ele ficou chateado comigo, no dia do velório, temendo que eu não gostasse dele por causa de sua condição. Mas ele não sabia que, na verdade, eu o amava ainda mais exatamente por isso.

— Eu vou conversar com o médico — disse a ela e então saí.

Do lado de fora, Jace estava ao telefone, usando o braço para se apoiar na parede. Era o aparelho fixo do hospital e eu pensei que talvez ele estivesse avisando a Clary onde estava e o que tinha acontecido. Deixei-o lá e segui pelo extenso corredor, colocando as mãos atrás das costas. Andando com a cabeça erguida e com os olhos retos, sentia como se minha mente estivesse girando. E no meio do caminho quase tropecei em alguém que deixava uma sala de consulta. Olhei-o e o espanto surgiu, mas não deixei que ficasse exposto.

Imasu me encarou com a expressão confusa, parecia levemente desnorteado e segurava um algodão na veia do braço, estacando o sangue. Carregava consigo um papel e eu, mesmo não sendo o alvo dos olhares, fui capaz de sentir o julgamento que as enfermeiras retinham sobre ele. Ficou pouco tempo parado diante de mim e então acelerou os passos, desaparecendo pelo mar de pessoas. Eu ainda o procurei, no entanto deixei de lado logo depois. Não era incomum encontrar alguém no hospital, afinal, mesmo em Nova York.

Quando encontrei o médico que atendeu Max, conversamos por cerca de trinta minutos. Eu tentei controlar meu nervosismo e ansiedade, mas o medo crescente de perdê-lo estava me atrapalhando.

— O melhor para Max agora é se recuperar do resfriado no hospital — disse o médico de cabelos grisalhos e peito largo como um barril. — Aqui podemos ter certeza de que não há mais nada de errado.

— Quanto tempo? — cruzei meus braços, esbanjando a posição mais séria que adquiri com a carreira de juiz.

— O quanto for necessário, senhor Ligthwood. — Ele abriu um sorriso, seus lábios entortaram-se como se ele estivesse fazendo uma careta. — Assim que tivermos certeza de que ele se recuperou, ele poderá ser liberado.

Isso podia significar vários meses, quem sabe um ano. Meu coração doeu mais uma vez naquele dia. Despedi-me do médico com um aceno de cabeça e voltei para o quarto, estacando na porta quando percebi que Max estava de olhos abertos e encarava Isabelle. Eu não me movi, talvez ele ainda estivesse chateado comigo e eu não queria causar nenhuma complicação maior. Mantive-me ali, assistindo-o fraquejar e quase chorar quando ao menos conseguiu segurar a colher para comer. Suas mãos — a direita mais do que a esquerda — estavam moles, sem forças, e caíam para o lado como se não houvessem ossos ali. Precisei me afastar da cena alguns minutos depois, fechando os olhos e encostando a cabeça na parede.

Naquela posição o sangue corria com mais rapidez para o meu cérebro e eu sentia que era capaz de pensar melhor. No entanto naquele momento foi diferente. Minha mente parecia ter sido afetada por uma descarga elétrica de enorme voltagem e agora estava apagada. Talvez fosse uma consequência da ansiedade e do medo, talvez todos esses sentimentos e emoções estivessem me prejudicando. Mas como eu poderia não me preocupar com meu irmão? Como eu poderia ficar inerte diante disso? Embora tenha resistido à morte de Maryse, com Max era diferente. Se ele morresse, uma parte minha morreria junto. 

☵​

É possível falar com Deus? Ou melhor, Deus realmente existe? Se há alguma prova além da fé e da Bíblia, eu nunca ouvi falar. Mas, contra os meus votos nada honrosos, eu estava na varanda do meu apartamento após Isabelle me pedir para ir para casa, dizendo que Max ficaria bem. Eu sabia que ela estava me expulsando porque ele não queria me ver, mas nunca doeu tanto fingir. Eu segui meu rumo e alcancei uma garrafa pura de uísque, debruçando-me no parapeito e encarando o céu. Eu não via nada além de estrelas e uma cor escura, então me perguntei como deve ser olhar para cima e acreditar fielmente de que alguém está olhando por você. Perguntei-me como é ter esperança, como é entregar seus temores nas mãos Dele e viver cada dia agradecendo por não ser o último.

E sem mais nem menos, em algum momento eu estava falando:

— Por que com ele? — a minha voz mal soava aos meus ouvidos, mas eu tinha certeza de que estava arrastada e quebradiça, talvez irritada. — Eu sei que ele desenvolveu a doença por causa de um gene hereditário, então por que não comigo? Por que com ele? Por que com alguém tão jovem e tão puro?

Quem sabe as pessoas costumassem ficar com raiva Dele às vezes. Eu não era religioso e muito menos me importava com as crenças, sempre deixei que acreditassem no que quisessem desde que não me importunassem pela falta disso em mim. Mas eu precisava de alguém para culpar, precisava de alguém para jogar todo o meu ressentimento... E quem melhor do que, de acordo com a religião predominante no mundo, o Criador, para tal coisa? Eu não teria nada a perder com aquilo de qualquer maneira.

— Você deveria curar, não é? Deveria salvar, não matar. A vida é apenas um joguinho em suas mãos? — eu bufei, balançando a garrafa e mexendo o líquido, logo o entornando de novo. — Quem é você para decidir quem vive e quem morre? Quem é você para se meter em uma família dessa forma?

Eu olhei em volta quando ouvi passos, calando a boca no momento em que uma sombra surgiu pelas portas duplas. Magnus estava enrolado em um casaco grosso e parecia frágil, sem todo o seu brilho costumeiro. Mas para mim ele ainda brilhava. E meu coração entrou em colapso pela milésima vez no dia, mas agora por um motivo diferente. Ele se aproximou de mim calmamente, deixando que seu cheiro me envolvesse em um torpor muito mais forte do que o da bebida. Sua pele dourada foi iluminada pela luz da rua e pelos letreiros de Nova York, ele, não dizendo nada, colocou-se ao meu lado e apoiou os braços no parapeito, assim como eu fazia.

Ficamos em um silêncio quase infinito. Eu senti-me constrangido por estar gritando com as estrelas, mas não deixei que ele percebesse. Magnus estava com a expressão nublada e também gentil. Era característica dele conseguir envolver tantas facetas e formar uma única, deixando a outra pessoa com receio de chegar perto.

— Eu soube o que aconteceu — disse ele, interrompendo minha insensatez. Eu tentei ficar sóbrio, mas a voz dele chegava a mim como se estivesse a metros de distância. — Sinto muito.

— Não precisa — eu respondi. — Não foi você que o deixou doente, foi minha mãe e o amante dela.

Se Magnus ficou surpreso com a revelação, ele não demonstrou. Continuou parado, os dedos com unhas pintadas me deixando zonzo enquanto se moviam na direção do vendo. Ele pareceu entretido e estava sorrindo, aquilo me fez sorrir por um segundo também. Era bom quando ele sorria, significava que, apesar do caos, os dias límpidos chegariam. Mas aquele sorriso não me enganou, não me deixou iludir. Havia algo por trás de seus olhos. Algo que o estava dilacerando. E isso apenas se confirmou ao que ele se virou para mim com seus olhos vermelhos. Eu não precisava estar sóbrio para saber que o que ele diria a seguir me atingiria como uma bomba.

— Eu não queria dizer nada, principalmente depois de saber o que aconteceu com Max — disse ele de uma maneira que me fez querer colocá-lo em meus braços e protegê-lo do mundo. — Mas por algum motivo eu quis te contar, eu quero te contar.

Magnus cruzou os braços e se encolheu, baixando o rosto. Eu, quase não reconhecendo meus movimentos, ergui-o novamente com dois dedos e o fiz me encarar. Olhar para o rosto de Magnus sempre me deixava com raiva ou me fazia sentir carinho; às vezes eu sentia como se o amor estivesse batendo à minha porta mais uma vez. No entanto, nada poderia explicar o que me fez ficar apreensivo com o que ele disse, o que me fez ficar com mais medo do que eu já vinha sentindo durante o dia.

— Alguns dias atrás, talvez a uma ou duas semanas, eu fui a uma festa... — Magnus comprimiu os lábios, a garganta fazendo movimentos bruscos como se ele não conseguisse respirar. — Fui com Imasu e nós transamos completamente chapados... E-Eu não me lembro do que aconteceu, mas hoje eu vi algo no quarto dele. Um exame.

Lembrei-me do momento em que trombei com Imasu no corredor do hospital e senti meus sentidos se esvaírem. Eu estava temendo o que ele diria a seguir.

— Imasu tem... ele tem aquela doença... — Magnus fungou, levando as mãos aos olhos. — E ele já tinha há um tempo antes daquela noite... E n-nós... nós não usamos camisinha.

Aquilo deveria me atingir? Não sei por qual intermédio veio, mas eu senti. Senti em todos os meus ossos e articulações, senti o desespero de Magnus e sua tristeza. Queria ampará-lo, mas não conseguia segurar nem a mim mesmo. E ele me olhou novamente, aqueles olhos lindos repletos de sonhos quebrados, de falta de esperança. Ele jazia como um anjo sob as estrelas, olhando-me como alguém que estava prestes a ser arrancado de seu caminho sem antes conseguir chegar ao fim. A garrafa de bebida escorregou da minha mão, ou eu talvez a tenha derrubado. Rolou pelo chão, manchou-o com o líquido e espalhou o cheiro forte pelo ar, este que não era intenso o bastante para apagar o de Magnus.

Ele ficou em silêncio, provavelmente pensando em como dizer mais alguma coisa. Eu não sabia como estava minha expressão, mas senti-me deplorável. Minha cabeça confusa e sem trilhos mal conseguindo pensar, no entanto não precisando de muito para chegar a uma conclusão dolorosa. Uma conclusão terrível.

Magnus voltou a se apoiar no parapeito, não se importando em enxugar suas lágrimas. Diferente de mim, ele não era covarde a ponto de sentir vergonha de fraquejar. Ele não era covarde a ponto de desistir da vida por alguém que você sabia que te destruiria. Mangus, apesar de jovem, era inteligente, tinha vivido o suficiente para saber o melhor para si mesmo. E a inconsequência havia sido sua escolha. Por algum motivo oculto, ele precisava desesperadamente ser tocado, precisava desesperadamente sentir prazer, como uma válvula de escape. Cada ser humano tem a sua, mas eu não conseguia definir a minha agora. Eu não conseguia se quer respirar.

E ali, olhando-me pelo canto dos olhos enquanto chorava suas dores, Magnus disse:

— Eu estou doente também, Alec — a voz soou baixinha. — E isso quer dizer que, como todos os outros, eu irei definhar e morrer.

Paralisei completamente. Meu coração também. Meus músculos estancaram e eu não mais sentia o chão sob meus pés. Caiu em mim a realidade que vivíamos: qualquer um podia sofrer os maus da década. A imensidão conturbadora me fez escorregar pelo vidro da porta, deixando uma marca de mão. Eu sentei sobre o líquido que havia sido derrubado e então percebi que estava chorando. Meus soluços cresceram gradativamente e as lágrimas pingaram nos meus pés.

Magnus continuou de pé e chorou junto comigo. Não parecia real, mas era. Era real como qualquer desgraça servida de graça. Como as cores sendo jogadas pelo céu, expressando a atrocidade de cada dia. E eu percebi que a vida é azul. Um azul escuro e dramático, com sombras emergindo de dentro. A vida é azul. A vida é azul.

A vida é azul. Mas azul é a cor mais fria.


Notas Finais


*Me perdoem pelos errinhos que sempre escapam!

P.S: Só gostaria de lembrar que Alec (e eu) não estava ofendendo religião alguma, crença alguma. O personagem apenas estava expressando seus sentimentos da única maneira que podia no momento; sempre respeitou a religião das pessoas e nunca criticou, mesmo que não entendesse nada de fé ou esse tipo de coisa. Então se isso ofendeu alguém, eu sinto muito. Mas não foi a intenção.

DEMOREEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEI, MAS VOLTEI! Espero que tenham gostado desse capítulo, fiz com todo o amor e carinho ♥ Obrigada por tudo aí!

Até loguinho!

XOXO


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