História Caixa de Pandora - Capítulo 3


Escrita por: ~

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Categorias Shingeki no Kyojin (Attack on Titan)
Personagens Eren Jaeger, Levi Ackerman "Rivaille"
Tags Aot, Eren X Levi, Ereri, Gay, Levi X Eren, Riren, Rivaere, Romance Proibido, Shingeki No Kyojin, Slow Burn, Snk, Yaoi
Visualizações 185
Palavras 7.689
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fluffy, Romance e Novela, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Como uma fênix, estou finalmente retornando das cinzas depois de uma quantidade embaraçosa de tempo xD Gaaaah eu sinto muito. A vida não tem sido gentil comigo ultimamente.
Enfim, estou com um computador novo agora e isso realmente é animador para escrever!
Espero que curtam o capítulo, as músicas que indico são:
The Troubles do U2 e Lykke Li, Ordinary Love do U2, Get Free do Major Lazer e Feral Hearts da Kerli (ok parei se não vou ficar falando música até não dar mais).
Músicas realmente ajudam a dar um clima na história... Creio que devo fazer uma playlist em breve :)
Nietzsche faz uma aparição especial nesse capitulo! Bem não realmente mas... Vocês vão ver.
Espero que gostem!

Capítulo 3 - Abismos


Fanfic / Fanfiction Caixa de Pandora - Capítulo 3 - Abismos

É tão estranho esse lugar, Eren pensa, encarando as paredes de pedra fria do porão onde está confinado aparentemente por muitas noites ainda por vir. Parece uma eternidade desde que ele esteve sentado esperando a hora de ser libertado e a rotina matinal começar.

É tão escuro ali que ele não consegue dizer se já está amanhecendo ou se ele acordou de novo no meio da noite, e ele já está começando a enlouquecer um pouco.

“Sentar no escuro é muito ruim.” Eren diz para ninguém em particular, apenas testando o fato de que pela primeira vez em talvez anos ele está completamente sozinho em um local de dormir. Sem colegas de quarto, sem Armin ou Mikasa. É interessante ter a liberdade de poder ficar conversando sozinho, mesmo que ele com certeza sinta falta de seus amigos sempre ao seu lado. Escutar o som da própria voz ecoando pelas paredes é solitário. 

O colchão que está deitado é um pouco mais macio do que está acostumado e tem muito silêncio. Eren está um pouco com raiva de si mesmo por não ter conseguido dormir direito essa noite. Ele estava ansioso demais para o início de seu segundo dia na tropa de exploração.

Sua vida tinha virado cabeça pra baixo em tão pouco tempo. Ele tinha descoberto sua natureza monstruosa, quase morrido com seus amigos, sobrevivido a um julgamento pela sua vida, ido para a tropa especial de seu ídolo Capitão Levi que estava preparado para matá-lo a qualquer instante.

De certa forma é difícil, essas correntes, ele pensa olhando para os próprios braços. Não porque elas machucam, mas porque elas o privam de se sentir humano de novo, são uma lembrança concreta da monstruosidade que vive dentro dele e que às vezes ele esquece que tem.

Não que ele esqueça, recentemente. Da besta que vive dentro dele. 

Não é trágico, que ele se tornaria a coisa que mais odeia? Um titã de todas as coisas? 

Talvez.

Não se isso significasse que ele se tornaria mais forte para exterminar seus inimigos. Qualquer sacrifício era válido.

Há quantas horas ele já está acordado? Eren sente vontade de marcar na parede com pauzinhos e riscos há quanto tempo já está aqui igual fazem os prisioneiros. Tristemente ele não nasceu com o talento de nunca sentir tédio igual Armin, que consegue se entreter tanto na própria mente que às vezes até esquece dos outros ao seu redor.  

Quando ele escuta passos próximos a sua cela é um alívio. Logo Capitão Levi aparece, e Eren se apruma impaciente. “Senhor!” Ele saúda. 

O Capitão não faz nenhum comentário ao ver Eren já acordado, apenas acena com a cabeça e se move para retirar as algemas dele. Eren estremece um pouco porque o toque dele não é de todo gentil, e seus pulsos estão um pouco sensíveis de passar a noite toda com um metal ali que não estão acostumados. As algemas estavam realmente doendo, mas ele achou melhor ficar calado quanto à isso.

Ele esfrega os pulsos um pouco quando está livre. 

“Obrigado, Capitão.”

“Não precisa agradecer.” Seu tom é monótono e Eren sente seu estômago cair um pouco. Foi como se estivesse começando do zero de novo com o Capitão... É verdade que eles não tiveram qualquer conversa significante até ali, mas quando estavam limpando no dia anterior e no jantar com todo mundo – em meio às lívidas conversas de todos – Eren sentiu como se pudesse se sentir mais confortável na presença dele. Mas era difícil puxar assunto com alguém que não parecia prestar muita atenção em você, ou que te fazia sentir estúpido apenas por estar no mesmo cômodo. “Como passou a noite?” O Capitão pergunta, surpreendentemente, um ato que parece ter sido pensado depois — como que por educação. 

“Bem.” Eren mente, uma das poucas ocasiões em que ele se permite não falar a verdade, em modéstia, mesmo que suas olheiras provem o contrário. 

Esse é o fim do breve diálogo. Capitão Levi anda na frente, rápido, e Eren apressa o passo para segui-lo, mesmo assim ficando um pouquinho para trás em respeito. É ótimo subir as escadas em direção a luz, o porão lentamente desaparecendo na escuridão as suas costas. 

Eren fecha os olhos brevemente quando a luz do sol filtrada pelas janelas incide sobre sua pele. 

“Ah, ainda bem que hoje está ensolarado.” Um murmúrio suave o escapa, dedos querendo pressionar contra as janelas enquanto caminha para sentir seu calor, mas sabendo que é melhor não arriscar sujá-las.

Ele observa os nuances do Sol nas costas de seu superior, camisa branca impecável estendida sobre músculos fortes e se pergunta silenciosamente sobre a estranha sensação de segurança em andar dessa forma. 

Com o Capitão a sua frente, ele sente que pode enfrentar qualquer coisa. Seria um sentimento semelhante também no campo de batalha? Ele mal podia esperar para descobrir.

Eren não estava exatamente tentando começar uma conversa, mas Capitão escuta de qualquer maneira. “Por quê?” 

Sem ter que olhar para os olhos dele devido ao jeito que estão caminhando, Eren sente que é mais fácil responder. “Eu não gosto do escuro.” Uma admissão infantil, mas ele continua. “Eu detesto chuva e trovões.” 

O Capitão apenas faz um som divertido que já faz Eren se arrepender de ter aberto a boca em primeiro lugar. “Tenho certeza que toda população abaixo de cinco anos desse reino concorda com você.”

 “Não é assim!” Eren exclama defensivo, percebendo que está sendo zombado e não querendo que o Capitão o ache um covarde ou uma criança, sentindo a necessidade de se justificar. “Não é nenhum medo, eu só... Eu só realmente não gosto de chuva, raios e trovões.” Ele respira fundo, confessa numa voz mais baixa. “Me faz lembrar do barulho da transformação dos Titãs. Do dia que a muralha caiu.”. 

“Então você gostava de dias chuvosos antes?” 

Ele pensa um pouco antes de responder, memórias de brincar de escorregar nas superfícies úmidas da chuva e de pisar com botas nas poças de lama passando pela sua cabeça. “...Sim. Eu adorava.”

Eren se lembra da sua mãe gritando para ele voltar para dentro de casa, mas ele não iria porque queria sentir as gotículas de água fresca sobre sua pele e a sensação suprema de libertação em correr sem destino em um dia em que o céu parecia que iria desabar. Não era fácil sentir algo assim vivendo como gado cercado por aquelas paredes, mas ele quase podia sentir a esperança e a liberdade que guardava o lado de fora das muralhas quando sentia o aroma de terra molhada, os gritos estrondosos dos trovões que faziam o mundo parecer tão maior do que realmente era ali dentro dos malditos muros. Impulsionado por rajadas de vento ele corria e se sentia como uma força da natureza também nesses dias de chuva, forte e impossível de ser contido.  

Capitão Levi pausa quando chegam ao final do corredor, e olha nos olhos de Eren quando ele para ao seu lado. É o tipo de olhar sério que já diz antes mesmo das palavras que algo importante será dito. “Então não deixe aqueles gigantes de merda tirarem isso de você também. Nunca escutou que se olhar demais para o abismo, ele olha de volta para você? Não se deixe dominar pelo ódio. Você pode ter ele como uma parte de você, mas nunca deixe suas ações, seus gostos, serem dominados por ele. Senão você perde para seu inimigo.”.

Os olhos de Eren se arregalam, mas antes que ele possa pensar mais sobre isso, Capitão Levi continua num tom normal, como se distribuir conselhos profundos de vida para subordinados fosse algo comum como lançar migalhas aos pombos.“Encontre-nos em cinco minutos na mesa da sala de refeições para o café da manhã, faça o que tem que fazer enquanto isso.”

Eren começa a andar mecanicamente para o banheiro depois que o Capitão o dispensa, refletindo.

Estou deixando eles tomarem conta de mim. Olhei para os Titãs, meu abismo, durante tantos anos que agora eles olham para mim também. 

Por mais que ele soubesse antes, machuca reconhecer o tanto que o ódio o destruiu por dentro. A raiva era uma parte dele, o que o dava motivação, mais até que ponto ele deveria deixar ela consumi-lo? 

A vida é como uma longa página em branco que vai sendo preenchida aos poucos com as ações de uma pessoa até o espaço acabar.  

O que teria na minha página além do vermelho do meu ódio e de frases riscadas, de coisas que os Titãs tiraram de mim?

Seria o gosto pelos dias chuvosos mais um sacrifício que Eren teria que fazer em nome do ódio? Isso não parecia certo, e o deixou com raiva ao perceber como ele deixava sua obsessão pelos Titãs influencia-lo até nos mais pequenos aspectos da vida, envenenando o pouco que ainda existia de bom. 

Capitão Levi era um homem inesperadamente sábio, não é verdade? O tipo de inteligência que vem com muitas experiências de vida... Levando em conta o que Petra tinha dito ontem, sobre o Capitão ter sido um habitante do submundo que virou militar, era de se imaginar que ele guardaria muitas reflexões que a maioria das pessoas não tinham. Quantas coisas o Capitão tinha deixado de ter a oportunidade de gostar por causa do lugar em que vivia? Por causa dos titãs quando finalmente conseguiu sair de lá?

Para o Capitão que teve tanto tirado de si pelo lugar que foi obrigado a crescer pelos humanos, ele não deixaria os titãs privarem dele ainda mais do que já tinham tirado. 

Eren pensa sobre isso várias e várias vezes.

 

 

 

 

 

 

Depois no café da manhã, todos estão conversando sobre assuntos triviais, e Eren e Capitão Levi estão calados, o Capitão por opção e Eren porque ele não sabe muito bem o que dizer. Mesmo assim, ele não se importa em apenas acompanhar o diálogo, que de alguma forma é bem diferente do que ele imaginava que iria ser em uma mesa cheia de adultos.

“— E é por isso que elas gostam de mim. Vocês tem que admitir que tem algo sobre homens loiros que as mulheres não conseguem resistir. É a verdade meu amigo, admita.” Eld estava falando para Gunther com uma expressão de superioridade, que mesmo sendo obviamente de brincadeira, pareceu irritar o colega ainda mais. 

“Deixa de ser ridículo. Como você diz uma coisa dessas numa mesa que você é o único loiro?”

“Porque aí eu consigo me gabar mais. Se o Comandante estivesse aqui eu com certeza não iria conseguir competir nessa questão de mais amado pela população feminina.” 

O Capitão que tinha ficado em silêncio até então pousa a xícara na mesa com um clique alto e levanta uma sobrancelha para Eld. “Você percebe que está falando de um superior na frente de outro superior, certo?”

“Eu ainda acho o Capitão muito melhor!” Oluo exclama com os olhos brilhando para o homem em questão.

“Vocês realmente não vão pedir a opinião da única mulher da mesa?” Petra exclama cruzando os braços.

Eren e os outros se viram para ela. Petra cora, não esperando que realmente receberia toda a atenção. 

“Bem,” Eld passa a mão pelos cabelos loiros um pouco ondulados, dando uma piscadela para ela que faz Oluo franzir a testa, “Qual é seu veredito?”

“Você poderia ter sido legal se não tivesse esse cavanhaque. Faz você parecer um bode pervertido.”

Eld finge que tomou um tiro colocando uma mão sobre o coração e todos começam a rir – menos o Capitão, porque a felicidade é uma emoção que seu cérebro parece incapaz de expressar na face.

Eren abre a boca para contribuir para a conversa, mas o Capitão o interrompe antes que consiga dizer qualquer coisa. “Certo, chega de papo furado. Como vocês sabem, é impossível fazer uma construção desse tamanho ficar limpa em apenas um dia, então vamos continuar com as tarefas domésticas até acabar com tudo o que precisamos antes. Os cavalos também precisam de cuidado, vamos dividir as funções.”

Eren admira o resto do esquadrão em não gemer em protesto com as notícias definitivamente não empolgantes do Capitão sobre os planos do dia.

Ele acaba ficando com Oluo no dever de lavar todas as roupas de cama, e Oluo faz uma careta em relação a ter que ficar na companhia de Eren, mas não se arrisca desafiando as ordens do Capitão. 

Os outros se dividem entre cuidar da cozinha, estábulos, e tudo mais que precisava de manutenção.

Cada um segue na sua direção e Oluo não espera por Eren, andando na sua frente sem nem um olhar para trás. Eren franze a testa enquanto aperta o passo para alcançá-lo. Eles levam o máximo de coisas que conseguem para lavar e saem do castelo andando pela grama verde por alguns minutos até um lugar na lateral da construção em que Eren vê que um extenso varal foi montado próximo à um poço, útil pensando na quantidade de água que eles precisariam para aquela tarefa.

Eles enchem duas grandes bacias de madeira com água e começam a lavar, Eren dobrando suas calças e ajoelhando na grama. 

O ar é quente e pesado, e Eren quase consegue sentir o peso dele sobre si, quase que o cozinhando lentamente. Entrar em contato com água nesse momento é um alívio, os respingos do liquido fresco sobre sua pele enquanto lava lençóis. É uma pequena, porém bem vinda distração do clima sufocante. 

São poucos momentos de paz, até Oluo resolver perturbá-lo.

“Preste atenção! Você está fazendo errado, é assim que o Capitão gosta que os lençóis sejam lavados.” O mais velho rudemente empurra Eren para o lado e demonstra na bacia dele o jeito que ele queria que o novato lavasse. É seriamente um detalhe tão idiota, que Eren não consegue deixar de soltar com uma pontada de sarcasmo,

“Você sabe muito sobre o Capitão hein?"

Oluo não capta a parte do sarcasmo respondendo de peito inflado, “Com certeza! Quer dizer, o máximo que um subordinado desse esquadrão pode saber, pelo menos. Eu sou o preferido, no final das contas.”

Eren escondeu um riso. Isso definitivamente não era o caso, no pouco tempo que ele estivera ali ele já percebera bem que manter favoritos não era uma coisa do seu superior — e mesmo se fosse, esse cargo com certeza seria de Petra. 

“Eu sempre presto atenção no Capitão, você sabia por exemplo que ele sempre faz um som de ‘Tch' quando está irritado? Que não sobrevive um dia sem ao menos uma xícara de chá, mesmo em expedições? Que tem um movimento de girar com o 3DMG em batalha que apenas ele consegue fazer?” Oluo diz empolgado enquanto volta para sua própria bacia.

“Hum.” Eren pausa, incrédulo e divertido ao mesmo tempo. “É claro que eu não iria saber de nada disso.”

Eles ficam em silêncio por alguns minutos, concentrados em suas tarefas, até que Eren sussurra,

“Porque você gosta tanto do Capitão? Você não acha ele assustador?”

Oluo, pela primeira vez, parece refletir um pouco antes de falar. “Sabe, ele foi a razão que entrei para a Tropa de Explorações. Antes, eu era mais um homem resignado e acomodado da policia militar, com a minha única preocupação arrumar uma esposa para me cozinhar uma refeição todos os dias e conseguir fazer dinheiro o suficiente para uma boa cerveja no final do expediente. Eu era um daqueles que achava a Tropa de Explorações inferior e um desperdício de dinheiro do povo, que não via um futuro além dessas muralhas.”

Eren franze a testa. Esse era um dos tipos de pessoa que ele mais detestava… Como alguém podia viver sem a ambição de viver de verdade, fora dessas muralhas em um mundo que não fossem tratados como gado, ele não tinha ideia. E ainda ter a audácia  de falar mal e não apreciar os esforços de quem dava a vida para salvar a deles. As pessoas realmente podiam ser podres e ingratas.

“Mas então os titãs atacaram.” Ele continua. “Comecei a ver os horrores que eu tinha ignorado que existiam, focado demais na minha patética vida como estava. E então eu vi o Capitão Levi, defendendo vidas e derrubando titãs com sua espada como uma fileira de dominós, e então eu pensei, ‘Ah! Então é assim que se é ter um propósito na vida, algo para lutar.’ Ele me mudou nesse sentido. Me transferi de ramo militar e hoje é um dos meus maiores orgulhos fazer parte desse Esquadrão! Quem diria que eu era tão bom soldado quando motivado, haha.”

Eren sorri, sincero, ainda sem levantar os olhos da sua tarefa. Ele nunca pensou que Oluo ia voluntariamente contar um pouco de si mesmo, e escutar historias assim do que motivava as pessoas a lutar pela liberdade sempre era algo que Eren amava. Ele sente que conhece melhor seu companheiro militar agora, e que uma nova forma de respeito começara a se formar. Oluo não era apenas o colega mais velho irritante perseguidor que tinha cabelo esquisito e se achava, ele era alguém que também tinha certa profundidade atrás disso tudo.

Ele abre a boca para contar para Oluo algo de suas próprias experiências também, quem sabe começar uma trégua, quando o outro o interrompe:

“Sabe, é por isso que não gosto de você. Acho que você está colocando em risco tudo que construimos até agora, e que o Comandante está meio louco em pensar que um pirralho que surge do nada se transformando em uma aberração de titã, que deixa eu só lembrar que são nossos piores inimigos, merece nossa confiança. Eu acho que você é só uma bomba prestes a explodir e levar todas nossas cabeças junto!”

Eren morde os lábios com força, o sorriso morrendo neles. 

Isso não deveria ter machucado. Ele sabia de tudo isso. 

Mesmo assim, ele consegue sentir uma mistura de culpa, arrependimento e raiva se misturando no seu estômago. Oluo não precisava ficar jogando na cara dele o que ele já sabia! 

Ele se sente estúpido. É claro que simpatia não é algo que alguém como ele vá receber facilmente na sua posição de monstro, quase prisioneiro naquele Esquadrão.

Antes que o temperamento de Eren vença da sua racionalidade e ele acabe dizendo algo que se arrependa, como sempre acontece, Oluo levanta. 

“Acabei, vou ver se tem mais coisas para lavar no castelo.”

Enquanto ele vai embora, Eren se levanta com agressividade e tira o lençol da bacia, esparramando água para os lados e depois o pendurando no varal.

“'Aberração de titã',” Ele infantilmente repete a fala de Oluo, com uma voz irritante e aguda. “Aberração é esse seu cabelo.” Ele chuta uma pedra próxima do seu pé com raiva.

Eren suspira e levanta sua mão para o nível de seus olhos, a observando. Tanto poder concentrado neste corpo humano. Tanta monstruosidade. Como era possível? Tantas perguntas…

Ele se pergunta se sua mãe o teria segurado nos braços com tanto carinho se soubesse o que ele pode se tornar. Ela não sentiria medo, nojo, em ter algo assim ter crescido e saído de seu próprio ventre?

Eren se surpreende com a crueldade de seus próprios pensamentos, sua mente se voltando contra ele mesmo. 

Ele olha para a bacia ao seus pés. 

Sua imaginação deturpada o supre com mais do que apenas sua imagem refletida na superfície da água, e é como se o Abismo que o Capitão tinha mencionado, o sorrateiro, venenoso, espelho detestável que mora na mente de cada ser humano, tomasse forma humana e o encarasse pelos olhos do seu reflexo.

Você odeia demais, o Eren refletido na água diz com olhos negros como o mais profundo vazio, e agora esse ódio está se voltando contra você mesmo.

“Isso não é verdade.”

Caindo, caindo, esse pode ser um sentimento?

Odiando a si mesmo. Ao ponto de afetar a percepção da forma que os outros ao seu redor o veem. Se perguntando se sua própria mãe iria te amar? O outro Eren diz arregalando seus olhos, que lembram o desespero do fim de um precipício. Como você vai saber o que é real ou não? Como saber o que é amor quando você já esqueceu, sufocou o que conheceu desse sentimento no meio da sua ira? Da sua ambição sem fim por vingança?

“Estou fazendo tudo isso por ela!” Ele, o Eren de verdade, diz com a voz trêmula de raiva, medo. “Pela minha mãe!”

Usar mamãe como desculpa não cola mais. O Abismo nos olhos do Eren refletido cresce, cresce, derrama dos seus olhos como um líquido preto viscoso até que começa a tomar conta de toda a sua face em uma negritude assustadora, se dissolvendo na água ao redor. Você esta usando a morte dela como justificativa para perseguir o sonho que você sempre teve, mesmo quando ela estava viva e queria algo diferente para você. Como pode dizer que é por Carla, quando ela detestaria quem você esta sendo agora? 

Machuca. Ele quer que pare.

Está tudo dentro da sua mente, mas ele não consegue parar com os cruéis pensamentos e duvidas que o possuem lentamente como a infecção em uma ferida — ferida que nunca vai se fechar, nunca irá se curar, porque como ele poderia superar sua própria mãe—

Ela nunca quis que fosses um soldado. Tem algo feio dentro de você, uma sede de sangue… Você que tirou a vida até de humanos… Você gostou de ter um pretexto de salvar Mikasa para saber como é esfaquear alguém, de tirar uma vida…

“CALE A BOCA!” Ele grita e joga um emaranhado de roupas sujas que ainda tinha que lavar dentro da bacia, esparramando água por toda a grama e com sucesso dissipando o reflexo.

Eren ofega por alguns instantes, vendo vermelho, e depois que recupera sua respiração começa a rir com um certo tom de incredulidade, quase histeria. 

“Deus. Eu sou louco. Completamente, totalmente louco.”  Falando com uma versão de si mesmo que ele próprio inventou, era como ter pesadelos acordado... E não era nem a primeira vez que algo assim tenha acontecido.

Ele se ajoelha e passa um pouco da agua na cara, inspira, expira. Um minuto se passa, talvez dois.

Quente.

O Sol queima, e ele queria que queimasse mais, queimasse até que chegasse até seus ossos e talvez então ele descobriria finalmente se tem uma alma ou não ali dentro. 

Volta a lavar com uma careta. Ás vezes ele tinha momentos assim, surtos de frustração em que sua imaginação se voltava contra ele e trazia todas as suas dúvidas e feridas interiores  à luz da forma mais cruel possível.

“O que essas roupas fizeram pra você as tratar assim? Continue cm essa agressividade e vai rasgá-las.”

Eren se vira assustado e se depara com Capitão Levi atrás de si, com os braços com uma montanha de coisas para lavar. Ele está com uma sobrancelha levantada encarando Eren com uma mistura de ceticismo e divertimento.

“Senhor!” Eren exclama, sua voz quebrando um pouco. Ele engole em seco se perguntando se algum dia na vida não vai se sentir surpreendido toda vez que se encontrar com o Capitão. Bem, não era culpa dele que o homem vivia se movendo silenciosamente por detrás das pessoas, como alguma espécie de bandido. 

O que parando para pensar fazia um pouco de sentido com todo o passado dele, e ele se lembra das palavras de Petra sobre o Capitão.

“Você está pensando em algo estúpido, não está? Você deveria parar de ter devaneios no meio de conversas.” O Capitão semicerra seus olhos e Eren percebe que estava encarando ele esse tempo todo com a mão pausada na saudação militar, que ainda por cima molhou um pouco sua camiseta. 

“Desculpe.” Eren murmura com as bochechas em chamas enquanto seu superior se posiciona na bacia ao seu lado com a pilha de roupas. 

“Por ignorar os outros no meio de uma conversa ou por pensar coisas estúpidas?” 

“Hã? É-é, hum, pelos dois?” Eren está confuso e envergonhado, e termina sua resposta como se fosse uma pergunta. Era isso que seu superior queria ouvir?

Ele não olha, mas consegue praticamente escutar o Capitão revirando os olhos. “Eu estava apenas te provocando. Não leve as coisas tão a sério.”

Eren arregala os olhos. Então Capitão Levi tinha a habilidade de fazer brincadeiras assim?

Que estranhamente fora de caráter. Mas como você pode dizer que é fora de caráter se você nem o conhece direito?

Inesperado, estranho, mas legal. 

O peito de Eren se sente um pouco mais leve, a escuridão de seus pensamentos de antes do Capitão aparecer dissipando-se lentamente. Ele pensa um pouco para responder, sorrindo e se virando para Levi.

“Desculpas por ignorar os outros no meio de uma conversa, então. Meus pensamentos podem até ser estúpidos, mas não machucam ninguém.”

Pelo menos não além de mim mesmo.

Capitão sobe os olhos para ele. Sua expressão parece neutra como sempre, mas de alguma forma, afiada em observação. 

“No que você estava pensando?” 

Em como minha monstruosidade está me deixando louco. Em você sendo um ladrão no passado. Certo, só que não que ele diria isso. Está vendo, por isso Eren era tão ruim em interações sociais. 

Ele pensa rápido, uma meia mentira. “Em Oluo. Ele disse que ia pegar mais coisas e nunca voltou.”

Capitão desvia os olhos para seu trabalho, indo de uma roupa para a outra. “Bem, ele está em outra função agora.” 

Eren faz um som de entendimento. Era um alívio, realmente. 

Eles trabalham em silêncio, um ao lado do outro, e é pacífico e estranhamente bom. Bom não era um adjetivo que Eren daria para ficar no Sol quente lavando coisas, mas de alguma forma a companhia mesmo que quieta do seu Capitão atraía mais seus sentidos que o desconforto do trabalho e dos sussurros maldosos da sua mente.

Mesmo que parte dele sempre ficasse alerta e um pouco nervosa na presença do outro, era muito melhor ter o mais velho ali que Oluo.

Ele esquece por alguns momentos sobre titãs, se concentrando apenas na calma presença humana ao seu lado, nos sons de mãos se remexendo na água.

Uma gota de suor escorre pela testa de Eren. Pensando no Sol, ele olha de relance para o Capitão, reparando não pela primeira vez como a pele dele era branca. No Sol ali, não era ruim para ele? Certamente seria ruim se ele se queimasse.

Eren não tinha problemas com isso, já que sua pele parecia absorver qualquer raio de sol e transformar em bronzeado, e ele também nunca sofrera insolação na vida.

Ele observa como o Capitão subiu e abotoou as mangas de sua camiseta branca, deixando os antebraços a mostra até o cotovelos enquanto os mergulha na água ensaboada com destreza e praticidade. 

Eren percebe com uma espécie de mórbida curiosidade a musculatura forte, rígida do outro enquanto contrai os braços lavando as roupas, que apesar de não ser exagerada expressa a força de uma pessoa que se sobressai no ramo militar.

Eren olha para os próprios braços, vagamente deprimido, se perguntando se vai demorar muito tempo para superar essa magreza da adolescência. Não é como se ele fosse um graveto como Armin, mas sua musculatura apesar de definida ainda é muito magra. 

E mesmo assim tem tanto poder dentro desses meus braços magros. É realmente estranho esse mundo. 

“Senhor,” Eren engole em seco, mas continua, olhos ainda fixados no seu trabalho. “Você poderia me contar mais sobre o que significa ‘olhar demais para o abismo’, aquilo que me disse antes? Se não for um incômodo?” 

Eren escuta Levi pausar por um instante, até continuar lavando novamente.

“Não pensei que você ficaria interessado por aquilo. Era isso que estava fazendo você fazer uma cara de quem quis cagar e não conseguiu quando cheguei?”

“Algo assim.” Eren faz uma careta para a metáfora.

“Hm.”

Alguns longos instantes silenciosos se passam. Eren não se aguenta.

“… Senhor?” Ele pergunta com voz hesitante.

“Soldado?” Levi rebate conseguindo soar monótono e sarcástico em uma palavra só. 

“Hum… Você não vai me responder?” 

“Você está me cobrando?” 

“D-de jeito nenhum!” Eren encolhe os ombros, arrependido de ter perguntado algo em primeiro lugar. É claro que ele não iria responder uma besteira dessas.

O Capitão olha para ele por apenas um instante e suspira, coçando a nuca e parecendo cansado.

“… Eu li isso em algum lugar. 'Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.' Me impactou de verdade, por mais que eu não tivesse entendido muito bem da primeira vez. Já olhou para o fundo de um penhasco, Eren?”

“Já.” Ele sussurra se lembrando de uma vez em que chegou perto de um lugar assim, e pensa no homem ao seu lado, que nasceu e viveu tanto tempo em um lugar que não parecia muito diferente de um abismo, o Subterrâneo infinito de escuridão.

“E como se sentiu?”

Eren se lembra de se aproximar do final da floresta perto da sua casa, o lugar que sua mãe sempre o alertava para não ir porque era perigoso, mas que depois de uma briga por algo qualquer ele fora até lá de qualquer maneira com raiva imatura apenas para contrariá-la. Um penhasco que parecia sem fim, a escuridão embaixo aterrorizante pelo medo do incerto.

Ele voltou para casa depois de alguns minutos com a cabeça baixa.

“… Aterrorizado. Senti como se estivesse encarando um nada tão profundo que todos os meus sentidos se calaram e aquilo era tudo o que eu conseguia prestar atenção. Acho que foi uma das primeiras vezes que tive medo. E não foi por causa da altura, mas pelo incerto. ” 

“Eu penso,” Capitão diz com um tom baixo e contemplativo, e a breve falta de autoridade monótona na sua voz faz com que Eren se vire para ele, o observando enquanto ele fala ainda concentrado no que está lavando. “que quando olhamos demais para o fundo de um penhasco, um abismo, damos de cara com o nada. Já pensou sobre o nada? É algo que permite suas percepções, que toma conta do nosso entorno de uma forma que faz você voltar seus pensamentos para si mesmo… E o que você pode achar dentro de si mesmo é assustador, encarar seus próprios monstros que se luta diariamente." 

Ele respira. Eren vê o movimento de suas omoplatas ao se espreguiçar brevemente. 

"Então, eu diria que o Abismo, de uma forma abstrata, não é muito diferente de uma consciência.” 

Capitão Levi se vira para ele e Eren está paralisado em fascínio. É como se a voz grave e calma do seu superior enquanto lhe contava essas poderosas reflexões o tivessem envolvido com linhas invisíveis prendendo seu corpo no lugar. 

Enquanto Eren olha em olhos cinzentos, ele pensa, é realmente verdade.

Quando criança, ele não voltou para casa depois de encarar o abismo, encarar sua própria consciência?

Sua consciência. Isso é o que o machuca. Ele se sente tão culpado e preso ao passado, e não consegue parar de encarar tudo o que fez. 

“Eu me tornei um monstro?” Eren olha para o chão e sussurra, não percebendo que as palavras de sua mente escorregam para seus lábios.

“Sim. Você é um monstro.”

O coração de Eren aperta, mas o Capitão continua.

“Mas eu também sou. Todos que estiveram lutando com os titãs esse tempo todo, sofrem com suas consciências, perdem a sua humanidade aos poucos.” Ele coloca um dedo ligeiramente úmido da água da bacia debaixo do queixo de Eren, guiando seus olhos para ele novamente. "É por isso que acredito que é importante sempre tomar as escolhas que você não irá se arrepender menos depois. Porque se não a culpa irá devorar você com mais crueldade que qualquer maldito titã poderia fazer.” 

Capitão retira o dedo da pele quente de Eren deixando apenas um singelo frescor para trás, e o garoto engole em seco, de repente é apenas ele e Levi no mundo — Um mundo sem arrependimentos, quão perfeitamente impossível, ainda assim a ideia mais linda que ele já escutara—

O paraíso.

Ele tem certeza que é assim que se parece, um lugar em que não existe culpa, nem arrependimento, nem preocupações —apenas uma boa conversa em um largo campo de grama verde. 

“Capitão,” Eren começa, voz carregada de emoção, “Isso que você disse, eu acredito que—”

“Ei, seu merda,” De repente o Capitão o interrompe com um tom tão ríspido que Eren se move instintivamente para trás. “Até agora você só lavou isso? Não me diga que parou para escutar a historinha.” 

Bem, isso era exatamente o que tinha acontecido.

Mas de qualquer forma, como o Capitão esperava que fosse diferente?! Ele estava falando algo tão interessante… Corte isso, ele estava falando, e isso era algo tão fantástico por si só que ele poderia estar descrevendo o clima que Eren ainda iria parar de fazer qualquer coisa para escutar.

Mas não é como se ele pudesse dizer isso. Desculpas, onde estão vocês quando se precisa?

“É, bem, na verdade—” 

De repente Eren sente algo úmido em sua bochecha. 

Por um segundo dois pensamentos absurdos passam pela sua cabeça, será que o Capitão ficou com tanta raiva que cuspiu em mim? e, será que uma pomba me fez de banheiro?

Mas então ele percebe.

É uma gota de água que veio do céu.

Água. 

Céu.

Isso só pode dizer uma coisa. 

Eren olha para o céu e começa a murmurar, cruzando os braços como se estivesse expressando para ele todo o  seu mau humor. “Não entendo. Isso é totalmente ilógico. O tempo estava parecendo de um deserto agora a pouco!”

“Mas do que diabos você está—” Capitão começa olhando para a mesma direção de Eren, mas logo interrompe sua fala e passa a encarar seu próprio braço, onde acabou de pousar uma grossa gota de água. 

“Está chovendo.” Eren acrescenta a conclusão silenciosa de Levi desnecessariamente, com desgosto na voz. 

“Então o que porra você está fazendo? Vamos!” Capitão cospe as palavras com urgência, levantando e começando a pegar as coisas do varal, enquanto as gostas começam a cair com freqüência cada vez maior. 

Eren começa a pegar o máximo de coisas que consegue, entupindo seus braços enquanto a chuva começa a engrossar num céu estranhamente claro com o Sol ainda quente. 

“Rápido! Temos que chegar ao castelo antes que piore!” Capitão comanda por sobre o ombro, e Eren corre para alcança-lo, amaldiçoando na sua mente a situação. 

Enquanto Eren se apressa ele sente o vento bater na sua face, a chuva engrossa e ele escuta o Capitão xingar, mas ele está muito focado em não derrubar nada e não tropeçar nos próprios pés para prestar atenção.

Essa situação.

Correndo segurando lençóis na chuva com Capitão Levi.

É tão ridículo que ele não aguenta e solta uma risada baixa.

Gotas de água pura o refrescam cada vez que entram em contato com sua pele quente e suada, e enquanto ele mais corre e mais precisa de oxigênio, mais ele inala o cheiro que a natureza já começa a dar de resposta a chuva — terra molhada, grama úmida, flores se preparando para desabrochar. 

Um trovão baixo e grave soa distante, mas no lugar de enche-lo de horror ele apenas aumenta a adrenalina de Eren e o faz correr mais rápido, e logo ele não está atras do Capitão mas sim ao seu lado. 

Ele olha para cima e há um arco íris nascendo fruto dessa união incomum de chuva e Sol, e é realmente lindo.

Coração acelerado, sentidos aguçados, é como se ele fosse uma criança de novo por um momento, o mundo se abrindo diante dele pronto para ser desbravado e o peito se enchendo de coragem. 

Está certo, ele pensa, essa é a sensação de correr — ter um propósito, enfrentar seus limites quando sua mente te diz para parar — vivo. É a sensação de estar vivo.

Eles chegam na proteção do castelo e despejam rapidamente as coisas que estão carregando na mesa mais próxima. 

Eren enrosca uma mão na camiseta úmida na região do peito, viver. Ele esqueceu de algo assim perdido no seu emaranhando de culpa e ódio? 

Ele joga a sua cabeça para trás e ri alto, livremente, um som que suas cordas vocais já tinham se desacostumado a executar há muito tempo. 

“Você é louco?” Capitão pergunta com um olhar de desgosto, suas roupas brancas molhadas pregando ao corpo e os cabelos negros desarrumados sobre os olhos. 

Eren vira a cabeça sutilmente para o lado encarando seu Capitão com um brilho nos olhos, um sorriso de lado quase malicioso nos lábios. 

“Devo ser,” Ele ri, passa a mão pelo emaranhado de cabelos castanhos, uma gota de água escorre lentamente pelo pescoço, "Por ter esquecido o que era isso.” Ele aponta para a chuva do lado de fora. 

“Que merda você está falando?” O Capitão está irritado, Eren consegue ver, mas não consegue parar de sorrir ainda mais.

“Estou falando de viver!” Ele gesticula com as mãos, fecha os olhos e respira fundo o cheiro de terra úmida, abre de novo olhos verdes, em chamas e verdes, “Não apenas sobreviver. Sentir a chuva, correr com um propósito diferente de medo de morrer numa batalha. Tão estúpido, são apenas roupas, mas— mas correr e se divertir. Se refrescar na chuva. Se sentir como uma criança de novo, como se o mundo estivesse ao seu favor e não contra você.” 

Eren se vira para a porta e coloca sua mão para fora, deixando as gotas de chuva pousarem ali enquanto diz decidido, “É hora de lutar com o Abismo. Não quero que os Titãs me tirem mais do que já tiraram.” 

Ele tira a mão lentamente da chuva e sobe seu olhar para o Capitão de novo, o fogo nos seus olhos se dissolvendo em ternura, dizendo com um tom que quase se parece com carinho, “Vou começar com algo simples assim. Eu amo a chuva. Amo.” 

Seu coração é como uma caixa, que ele está tentando abrir e preencher com coisas boas. Amor a uma coisa odiada por uma ferida causada pelos seus inimigos parece uma ótima coisa para se começar. Ele quer provar para si mesmo que é capaz desse sentimento.

A—mo.

Duas sílabas, três letras. Deixa quase que um sabor estranho na sua boca, doce demais para alguém desacostumado com sons não nascidos da raiva e do sofrimento. 

Eren olha para o Capitão e ele está olhando para sua boca também, será que é porque ele também não acredita no que acabou de sair dali?

Olhos cinzentos sobem pelo seu rosto até se prenderem no seu olhar, um encarar que se intensifica assim como a chuva caindo lá fora. 

Talvez é porque o Capitão está molhado, cabelos bagunçados pelo vento e pela água que Eren consegue sustentar o olhar dele dessa forma. Que ele conseguiu ter se expressado dessa forma. Porque o Capitão parece humano, falho, e não a figura idealizada da infância de Eren que travava sua língua e seu raciocínio. 

O Capitão dá um passo para frente e Eren não recua, porque no momento ele se sente tão seguro de si com a sua revelação que não se sente intimidado pelo espaço entre eles que diminui.

Olhando desse ângulo vantajoso por alguns centímetros de altura, Eren consegue ver quão afiadas são as feições de Levi, bochechas altas que parecem esculpidas em mármore.

Capitão diz a ele, “Você é esquisito. Agindo como a pessoa mais óbvia e avoada do mundo e de repente vomitando merdas filosóficas assim. Você é daquelas pessoas que são como um livro aberto ou apenas estava fingindo?” 

“Talvez eu seja um livro aberto com algumas passagens secretas?” Eren franze a testa. “Nossa. Isso foi brega.” 

“Não mais do que o resto das coisas que você disse hoje.” A cor sobe nas bochechas de Eren, é quase como se o Capitão estivesse—

“Haha,” Ele diz estralando os dedos e apontando para Levi. “Provocando. Legal, entendi dessa vez.” 

O Capitão revira os olhos e se afasta, Eren tem a estranha sensação que o leve tremor no canto da boca do Capitão é um sorriso lutando para nascer. Se,  hipoteticamente falando, o Capitão fosse fisicamente e emocionalmente capaz disso.

“Ainda bem que você voltou a agir estupidamente. Estava ficando assustador.” 

Eren inclina o queixo e se apoia no batente da porta com uma mão na cintura e toda uma pose. “Então isso significa que eu não estava sendo estúpido antes?” 

Uau.

Isso, isso é tão estranho mas tão satisfatório, agir assim com o Capitão. 

“Oh não se engane,” Ele olha para Eren do canto dos olhos, umedece os lábios de leve. “Antes você não estava sendo estúpido, apenas agindo como um maníaco que fica excitado com fenômenos meteorológicos. Essa foi a parte assustadora.” 

Misericórdia,  Eren pensa arregalando os olhos, porque diabos ele pensou que provocar o Capitão seria uma boa ideia? Ele não estava nem perto do nível de conseguir lidar com uma resposta. 

“Hum.” De repente um som leve os interrompe. “Vocês estão bem?” 

Eles se viram para ver Petra com uma mistura de espanto e divertimento supremo na face os encarando. 

“Fomos pegos de surpresa pela chuva,” O Capitão se afasta virando as costas para Eren. “Vou me secar, e você deve fazer o mesmo, Eren. Petra, ajude a cuidar dessa bagunça.” Ele aponta para as coisas encharcadas que eles trouxeram antes de sair.

Petra olha para Eren como se estivesse esperando uma explicação. 

“Você escutou o chefe! Vou me secar!” Eren diz se apressando para longe dela, as bochechas em chamas. 

 

 

 

Eren esfrega a cara na parede do corredor.

“Ugh.” Ele geme pressionando a bochecha quente ali, esperando que seu corar diminua. “Não acredito que falei tudo isso pro Capitão.” 

Ele já tinha tomado banho e se secado, cuidado de outros deveres durante o dia, já era de noite na hora do jantar e ele ainda estava envergonhado por tudo que tinha acontecido antes. 

Mikasa e Armin, as pessoas que ele tinha mais convívio na vida estavam acostumadas com ele agindo assim, dizendo coisas aleatórias que às vezes só faziam sentido na sua mente, mas agora ele estava longe deles e convivendo com gente diferente que definitivamente não estava acostumada com esse lado dele. 

Principalmente Capitão Levi! Deus, se ele já achava que Eren era louco agora ele tinha certeza. 

“Garoto, você está bem?” 

Eren se vira com um susto vendo Eld parado atrás dele no corredor confuso, mas divertido ao mesmo tempo (parecia ser a reação padrão dos colegas de Eren a ele ultimamente). 

“Hum. Eu só estava… Bem—” Eren se embaralha todo.

“Não se preocupe, todos temos vontade de nos esfregar em superfícies inanimadas às vezes. Agora, vamos jantar!” 

Eren abaixa a cabeça e segue Eld para a sala de jantar, aonde todos já estão sentados. 

Eles comem conversando trivialidades, Eren em silêncio contemplando sua sopa como se ela guardasse todos os mistérios do universo, sendo que na verdade ele só está tentando evitar o perigo de cruzar seu olhar com o do Capitão e ter um flashback de toda a cena em que ele vomita reflexões que provavelmente só faziam sentido na cabeça dele. 

Eles estão recolhendo os pratos quando de repente, um barulho estrondoso chama a atenção de todos. Alguém está esmurrando a porta da sala, e Eren quase se levando ficando em posição de ataque, mas quando ele olha para seus outros companheiros fica surpreso com suas reações.

Eles estão tentando esconder sorrisos. 

Capitão Levi, surpreendentemente, é o único que parece alarmado. “Oh não, não, ninguém avisou que essa desgraça vinha—” 

A porta finalmente cede se abrindo escandalosamente, revelando Líder de Esquadrão Hanji com o sorriso exagerado na cara de sempre.

Os cabelos dela estão uma bagunça, os óculos meio caídos de lado na face, não muito diferente da primeira vez que Eren a viu — ainda no julgamento.

“Olá queridos colegas!” Ela praticamente grita, e no momento que seus olhos pousam em Eren os olhos dela brilham com um entusiamo maníaco que faz Eren engolir em seco. 

“Hey! Eu vim dar uma olhada em você, garoto titã~! Erwin autorizou que eu visitasse para fazer alguns experimentos. Amanhã você—”

“Está no dever de limpeza comigo.” Capitão completa. Eren não sabia disso, mas quando ele olha para o Capitão ele o responde com um olhar que praticamente diz só cale a boca.

“Ótimo!” Hanji bate palmas. “Nada importante então, como imaginei. Amanhã já vamos começar com os experimentos.” 

“Nada importante? Como você ousa—” 

Capitão e Hanji discutem por mais alguns minutos, enquanto o resto do pessoal limpa a mesa.

O Capitão finalmente parece cansado e diz, “Certo, chega. Está na hora do recolhimento, você chegou num péssimo horário, Hanji. Vamos, Eren, tenho que te levar ao porão.” 

“Não! Quero conversar um pouco mais com ele, por favor.” Hanji geme agarrando o braço de Eren.

“Sim, está tudo bem.” Eren intervém, achando que seria melhor ceder a insistência de Hanji antes que eles discutissem mais e o Capitão realmente cometesse um assassinato como estava insinuando fazer minutos antes.

Capitão encara Eren que entende naquele momento a sensação de ser fuzilado vivo. 

“Assim que acabarmos eu levo ele até o porão, não se preocupe.” Hanji tenta apaziguar Levi. 

“Você vai acabar se arrependendo.” Capitão avisa Eren. 

“Não se preocupe… Estou fazendo a escolha que me arrependerei menos.” Ele cita as palavras do próprio Capitão, mas com um tom de brincadeira. Hanji olha para ele surpresa enquanto Levi o encara por mais alguns segundos.

“Certo.” Ele finalmente diz, e entrega a chave a ela. 

Antes de sair completamente do cômodo, ele diz sem se virar. “Hanji. Afrouxe as algemas quando for prendê-lo, ele não vai te falar nada mesmo que tiver machucando, então tenha certeza que está confortável.” 

Eren arregala os olhos, surpreso que ele tinha percebido seu desconforto hoje de manhã, surpreso que ele se importava o suficiente ao menos para não lhe causar mais dor desnecessária. 

Hanju fala, fala, e fala, por horas e horas enquanto a noite passa lentamente entre eles, e Eren pretende escutar enquanto pensa no Capitão, em metáforas para culpa, e em quão bom seria se chovesse de novo.


Notas Finais


Vamos celebrar a vida como o Eren na chuva nessa época que todo mundo quer morrer por causa do Enem haha.
E a frase que Levi leu era de Nietzsche (sim tive que pesquisar como escrevia o nome dele), que eu acho que tem tudo a ver com SnK! Sempre gostei muito dessa fala dele.
Queridos, desculpem pela demora descomunal 😰 Pelo menos posso dizer que estou definitivamente de volta agora, e que finalmente cumpri esse capítulo pras coisas realmente começarem a se desenvolver daqui pra frente. Quem achou tudo muito parado aqui, não precisa se preocupar que Ereri vai engatar mais do próximo capítulo em diante.
E até o final desse mês irei lançar o segundo capítulo de E O Universo Conspirou ao Nosso Favor )O)
Beijos, até a próxima <333 E boa sorte pra todo mundo que vai fazer prova no 2 Round domingo!


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