História Casa Cheia - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Palavras 709
Terminada Sim
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Lírica
Avisos: Linguagem Imprópria
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Escrito por mim. Também postado no Nyah! ID: 267748

Capítulo 1 - Único


Tenho vontade de tirar todos da minha vida. Um por um. Até sobrar só eu. E eu me tirar de mim.

A casa está cheia, mamãe no quarto oposto ao meu, a pirralha na sala. Papai trabalha a noite. Ele comendo pizza com um amigo. E meu amigo, meu amigo não sei. Gosto dele por não saber. E ainda assim saber tudo dele. E ele de mim. Estou sozinha no quarto, mas estar aqui não me basta; a casa está cheia. Não posso gritar, não posso colocar o volume no máximo e deitar no chão, não posso tocar, não posso esquecer. A vida que tenho me prende, me apreende. E estar apreensiva assim, me enlouquece. E me enlouquece não poder enlouquecer.

A arte está em mim, em cada pedacinho de mim, mas não sou artista. Minhas paredes velhas e sujas estão vazias. Assim como eu. E minha alma medíocre. O que eu sei sobre literatura? O que eu sei sobre música? O que eu sei sobre o céu? O que eu sei? O que eu sou? Mortal. E minha mortalidade (e minha inutilidade!) me desespera. Minha medianicidade. Mas se não escrevo, não poetizo, não sonho, não imagino, não enlouqueço dentro desse pequeno quarto, sozinha. Se não faço tudo isso, se não sou tudo isso, não me resta nada. E então a morte vem mais rápido do que vinha antes.

Como posso parecer algo tão normal, com uma casa e família, e por dentro ser essa bagunça tão grande. Essas paredes tão cheias de coisas por dentro, tão vazias por fora? Não é permitido ser velho quando se é jovem e quando se é velho suficiente para poder ser velho a vida passa num piscar de olhos e te rouba tudo. É uma vida medíocre, uma vida mortal. Uma vida que acaba e que acaba com você. Uma vida que você não vive se vive preso a uma casa e família e amigos e amantes. Amadores, socialmente conectados, perto demais para que você possa surtar, longe demais para vê-lo surtando dentro de sua própria mente.

O arquivo está tão cheio, mas ao invés de trazer orgulho isso me irrita. As coisas que eu fiz se tornam bobas diante do que eu quero fazer. Muito ingrato isso da minha parte, reconheço. Mas, ainda assim. Preferia ver isso mais limpo; poucas coisas te ajudam e organizar melhor a mente. E não é isso mesmo que me falta? Tirar coisas da minha mente. Qual o nome daquele verme que pode ir para a cabeça? Solitária? Estou tirando essas coisas da minha mente como se tirasse um verme de lá; essas palavras idiotas, medianas, medíocres… E ainda assim sinceras, puras, doloridas… Dolorosas.

Como posso sofrer assim? Por que tenho que sofrer assim? Mais que os outros, por problemas que não tenho, por problemas que tenho que criar — e que me criam! A vida foi boa demais para mim? Por isso sou tão vazia? Por isso quero estar sozinha? É por isso que eu sofro? Por ter a felicidade tão fácil quase a ponto de tocá-la com as mãos? Mesmo que eu me recrimine, mesmo que eu me odeie depois, mesmo que eu sofra por conta disso, o drama está em minha pele. Como no rosto dele, nos olhos hamletianos dele. Não sei sobre meu rosto e olhos, mas com certeza na minha alma, minhas mãos e peito.

Mãe, estou com medo. Sei que você não entenderia, sei que para tudo, na sua concepção, falta deus, sobra o diabo. Mas você não percebe, mãe, que o diabo sou eu? Que está nas minhas mãos e nos meus pensamentos fodidos perdidos? Perdidos em mim mesma, em meu próprio quarto. De paredes velhas e emboloradas. Vazias e cheias.

O que eu escrevo só cabe em mim? O que eu escrevo o escrevo para mim? Verdade. Mas verdade é algo que, na verdade, não existe de verdade. Nada existe. Nada resiste. Além da morte. E logo eu, que amparei a morte, numa tarde diluvosa em que o peito estava diluvoso também, não consigo viver. Por que é difícil estar vivo quando tem tantas pessoas olhando para você, olhando por você, esperando por você. E ainda mais difícil se manter vivo quando não há ninguém.

E nunca há ninguém.


Notas Finais


Ondulando em mim (como o som de um gongo gigante duma anã branca): Only Lovers Left Alive — maravilhosos Tilda Swinton e Tom Hiddleston.

12 de Agosto de 2017


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