História Catcher - Capítulo 3


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Fantasia, Poderes, Universo Alternativo
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Palavras 2.654
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Colegial, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Linguagem Imprópria
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 3 - Capítulo Dois: O Tratamento


— Bom dia, senhorita Newsome — Shirley, a loirinha da recepção me saúda, com sua falsa alegria.

 Eu a respondo, mesmo que hoje seja um péssimo dia. Depois que passo por todo o Tratamento, fico complemente zonza e passo o dia vomitando, parece com a morte. Algumas vezes eu queria que fosse. Os raios que aplicam, os fios, as agulhas, a sala toda branca, as vozes, os comentários, tudo me deixa exausta. Depois de quinze anos, ainda não estou curada. Talvez eu nunca obtenha poderes. Isso me frustra.

 As pessoas tendem a descobrir seus poderes até os cinco anos, quando adquirem mais consciência. Mas comigo foi diferente, não deu certo. Então quando completei cinco anos me levaram ao Centro. Depois de quinze anos, continuo nula. Eu nunca serei como eles são.

— Ella, como está? — Doutor Abraham vem até mim.

 Tudo o que quero conseguir decidir é se aqui ou a escola é pior.

— Indo. E você? — respondo vagamente. Não quero mais injeções. Não quero mais ódio.

— Estou bem. Pronta para mais sessão? Estamos com alguns medicamentos novos! — o homem quase dá pulinhos de felicidade. Eu sou sua cobaia. Dele e de sua trupe de sádicos – entende-se médicos. — Vamos lá. Estamos esperançosos.

 Minha roupa já se foi há muito. Visto apenas uma camisola azul-claro, que amarra com três nós atrás. Meus pés estão descalços e o chão é frio. O Centro em si, é frio. Tudo branco e gelado, depois de tanto tempo, tantas visitas, mesmo sendo adulta, tenho medo daqui.

 Eles me encaminham para uma sala especial, nunca estive nessa. Há uma máquina grande. Fico com medo e dou alguns passinhos para trás, batendo nas costas do Açougueiro Klaxon – quando digo açougueiro, quero dizer enfermeiro.

— Você precisa se deitar ali, Ella. Não vai doer — tento acreditar, mas algo em seus frios olhos azuis, me diz o contrário. — Facilite para todos nós.

 Acho que o problema sou eu, talvez eu acredite em tudo o que essas pessoas dizem porque são médicos. Entretanto, a maneira frívola que me tratam, como conduzem seus exames e consultas, são tão cruéis. Será que estou doente? Ou são mentiras? Será que eu sou uma espécie nova? Será que estamos regredindo? Talvez eu seja a cura para os super humanos. Eles me odeiam por representar a incerteza. Posso ser o início do fim deles. E bem, até o momento, isso não parece bom. Sou a única no mundo todo sem nada a oferecer.

 Mordo o lábio, estou tremendo. Porém, vou para a grande máquina e me deito no colchão fino e gelado. A máquina é um arco, onde provavelmente este colchão entrará. Aperto o lençol, ansiosa e com medo. Há um enorme vidro fumê na minha frente, onde provavelmente os médicos estão vendo os resultados que essa máquina mostra. Klaxon vem até mim, cola uns fios a minha testa. Ele não me olha.

— Não vai doer — recito as palavras que ele mesmo me informou.

 O homem não diz nada. Ele amarrou meus pulsos e pernas. Naquele exato momento eu percebi o que ia acontecer. Comecei a chorar antes mesmo de iniciar o processo. A cama se moveu, entrando na máquina. Há algumas luzinhas dentro, acho que devem ser como câmeras.

 Então, os choques começaram. Eu não consigo segurar, e grito. Os choques vêm dos fiozinhos que ligaram a minha cabeça. Me debato, querendo soltar minhas mãos, mas quanto mais puxo, mais dói. As tiras devem ser couro porque parecem prestes a arrancar minha pele a cada vez que tento inutilmente retirar minhas mãos.

 Sinto cada onda elétrica descer por minha cabeça, fazem curvas, arrepia meus cabelos e pelos do corpo inteiro. Aperto mais o lençol para conter mais gritos, isso não irá me salvar. Pedir que parem, dizer que isso machuca, é inútil. Aprendi há muito tempo que quanto mais se pede por misericórdia, mais você é jogado na merda.

 A única forma que deixo saberem que dói são minhas lágrimas e meu nariz escorrendo. Os choques ficam mais fortes, as lágrimas também. Parece que vai me matar. Acho que rasguei o lençol. Meus pulsos irão ficar com marcas terríveis. Acho que a luz da máquina está mais forte, sou obrigada a fechar meus olhos. Me rebato, mais uma vez. Eu só quero acabe.

 Depois, eles me arrastam, literalmente, me arrastam para fora. Dois homens, um de cada lado pega um braço e apoia em seus ombros e me levam. Minha cabeça está baixa e meus cabelos tapam a frente, só posso ver o chão limpo e branco passar bem rápido. Minha cabeça está confusa. É como se tivessem fritado alguma coisa importante. Meus pés raspam no chão, produzem um som chato de pés tocando um chão liso.

 Entramos em outra sala. Mais uma vez, fico deitada em uma cama. Amarrada. Não sou capaz de impedir, meus membros parecem pesados, como se correntes amarradas a toneladas estivem me arrastando, me levando para baixo. Me sinto tão fraca, mais fraca que nunca. As luzes são claras demais, as vozes são altas demais, é tudo borrado. Está me deixando mais confusa ainda.

— Ache uma veia — alguém fala, é tudo o que consigo entender.

  Prendem algo meu braço, apertando para que possam me espetar como se fosse petisco. Consigo mover meu pescoço e vejo quatro pessoas vestindo jalecos brancos me olhando e uma outra injetando algo em mim. Ela me olha, seus cabelos são ruivos, tento ler seu nome – apesar da minha vista estar embaçada, como se eu estivesse vendo através de um espelho lotado de vapor. Não consigo identificar.

 Sinto como se o liquido queimasse. Onde a agulha está injetada parece arder. Trinco os dentes para evitar protestos. Quero me comportar para que eles terminem logo. Se eu me debater, pode demorar mais. Então fico parada como uma boa menina, sendo a cobaia obediente que eles querem. E precisam. Parece que sou capaz de sentir os resquícios dos choques e a queimação me derrubam.

 Aquela vontade terrível que sempre sinto de vomitar aparece. Eu tento segurar, mas não consigo, acabo me engasgando e eles precisam se acelerar para me limpar e levantar minha cabeça para que eu não me afogue em meu próprio vomito. Que morte vergonhosa e suja. Colocam panos molhados em minha testa, porém não ajuda muito. Seja lá o que tiver nesse soro, está mexendo em todos meus sistemas internos. A reação que tive sobre o medicamento é terrível. Meu corpo treme, sinto o suor frio escorrer pela minha testa, sinto minha pele fria. A náusea me atinge forte. Minha visão fica turva, meu estomago se revira. Tudo escurece.

 Eu não aguento.

[...]

 Eu apago depois de tudo. Não sou capaz de aguentar tanto sofrimento. Acordo, mas não abro os olhos. Aos poucos, meus sentidos voltam. Primeiro sinto meus dedos da mão, depois o calor de uma coberta, o ambiente claro, a presença de uma pessoa.

 Consigo abrir meus olhos, para então ficar piscando, tentando adequar a claridade excessiva para meus olhos sensíveis. Movo minha cabeça um pouquinho, virando para minha direita. Vejo doutor Abraham me observando, é levemente assustador.

— Você desmaiou — ele diz, o que já é óbvio para mim.

 Eu queria dizer: Sei disso, filho da mãe! Você está me matando! Pare com o Tratamento! Você não é um bom médico! Não é capaz de me curar.

— Sei que os choques te deixaram mal. Mas eles serviram para acordar você. Pensávamos que talvez isso fizesse seus poderes surgirem, como um mecanismo de defesa. Talvez...

— Talvez eu pudesse morrer. Ou ter algum tipo de dano — eu respondo, minha voz sai rouca. — Poderia ter dado errado.

— Poderia — ele aperta bem sua prancheta. — Mas todos seus sinais vitais estão bons.

 Eu queria manda-lo ir se ferrar, mas sou fraca demais. Me resumo em chorar um pouco. Paro de olhar para ele e fico da maneira que estava antes.

— Só quero ir para casa.

 Minha mãe chega uma hora depois. Nunca fiquei tão feliz em vê-la. Corro em sua direção, chorando, mais uma vez, dessa vez de felicidade. Eu a aperto tão forte com meus braços. O corpo de minha mãe parece tão magro e frágil. Mas ela me retribui com um abraço tão forte quanto o meu. Ela não parece se importar com meu choro e como estou fazendo uma bagunça em sua roupa, sujando com lágrimas.

 Como uma criança boba, fico pensando que minha mãe irá me proteger. Que se alguém ruim vier atrás de mim, ela irá queimar tudo, utilizar seu poder para incinerar todos os que desejam injetar vacinas e me dar choques. 

— Por favor, eu nunca mais quero voltar aqui — me separo um pouco.

 Ela é só um pouquinho mais alta que eu, me olha um pouco e então para o Centro e balança a cabeça. Concordando. Eu torno a abraça-la.

— Eles me machucam, mãe — digo, abafado. Meu rosto está na curva de seu pescoço. Posso sentir o cheiro dela. Cheiro de mãe, suave. Me acalma um pouco.

— Preciso falar com seu pai, Ella — ela acaricia meu cabelo.

— Não, ele não vai permitir.

— Eu vou conversar com ele. Geoff precisa entender o que estão fazendo com você.

 Nos soltamos. Puxo a manga da jaqueta e limpo meu nariz com ela. Minha mãe se movimenta, beija minha testa e segura meu rosto. — Eles te machucam. Não posso permitir isso. Mesmo você sendo... Assim — sua boca torce. Ela nunca sabe exatamente o que dizer quando o assunto é minha doença.

— Catelina! — Nora, uma Caeli, capaz de controlar o ar vem até nós. Eu simplesmente a detesto. Ela e sua filha Anastasia. A garota é namorada de Connor. Meu maior perseguidor. — Como você está? — a mulher me ignora completamente. É infantil e humilhante. — Os meninos? — ela olha bem rápido para mim, mostrando que não se importa com minha presença.

— Estamos todos bem. Geoff tem trabalhado muito. Os meninos crescem cada dia mais. Thunder entrou na escola hoje. — murmura, cansada. Nem minha mãe gosta dela.

— O que, mas já? Lembro-me de quando o vi. Parecia um pequeno tomate, todo vermelhinho — Nora tem um jeito irritante de falar. Sempre alto e gesticula muito. Adora uma fofoca.

— Vamos embora? — tomo minha voz.

 Ela finalmente me olha de verdade, seus olhos escuros me encaram lotados de raiva. Nora nunca gostou de mim. E eu jamais fiz algo contra sua pessoa. O simples fato de eu ser incomum a faz ter uma coceira na bunda. Talvez Anastasia conte muitas coisas sobre mim. O quanto sou esquisita.

— Estou conversando com sua mãe, Isabella! — seu tom é exigente e ela se inquieta, esquentando. — Tenho certeza que sua mãe lhe deu educação o suficiente para se manter quieta.

— Meu nome não é Isabella — minha voz sobe algumas alturas. — É apenas Ella.

— Do que importa? — do nada, ventos fortíssimos aparecem e fazem nossos cabelos balançarem.

— Importa — minha mãe diz, firme. — Nós estamos indo. Ella está cansada. Teve Tratamento hoje. 

— Quem sabe um dia fique normal — ela ri de sua piada suja.

 Minha mãe, enfurecida, joga uma pequena bola de fogo aos pés de Nora, que pula assustada e invoca seus ventos para apagar as chamas em seus sapatos.

— Ops — é tudo o que minha mãe diz.

 Acho que a amo.

[...]

 Na hora do jantar, eu me sinto melhor, sou capaz de me juntar a todos na mesa. Meu pai está aqui, sua barba está grande, grossa e preta. Geoff Harolds é um homem bruto, isso posso afirmar. Ele tem super força, seus músculos brigam com o tecido da camiseta preta. Normalmente, ele utiliza jeans, tênis e camisetas brancas ou pretas. Nunca o vejo sorrindo muito, ele parece endurecido pela vida. Não é lá muito amoroso com seus filhos e com sua esposa.

 Assim, não sei como minha mãe será capaz de fazê-lo desistir do Tratamento. A discussão nem começou e eu sei que é uma batalha perdida.

 Quando meu pai está em casa, jantando conosco, os meninos ficam quietos enquanto comem. Kart fica ereto e calado, parece um bom soldado, ainda mais com esse corte de cabelo. Max é quieto por natureza, mas na presença de nosso pai, ele fica até mais introspectivo. A grande surpresa é Thunder ficar sem palavras, o garotinho sempre tem algo para dizer.

 Hoje, eu quero falar.

— Pai — o chamo, fazendo-o interromper sua refeição. Ele posa seus talheres lentamente e trazer aqueles intensos olhos escuros para cima de mim. Olhos escuros com os meus.

 Pela minha visão periférica, minha mãe se agita. Ela não quer falar sobre isso agora. Nunca se deve irritar um homem enquanto ele se alimenta, é como mexer com um leão, é o que ela diria. Minha mãe me dá um chute no pé. Não olho para ela.

— Quero parar o Tratamento — anuncio.

 Todos param de comer. Um silêncio horrível deixa todos em estado alerta. Meu pai está bem na minha frente, considerando que nós dois gostamos de ficar na ponta da mesa.

— O que? — a voz dele é grave.

— Eles machucaram ela, Geoff — minha mãe entra em minha defesa.

— Isso é por um bem maior, Catelina — agora uma raiva começa a surgir em seu tom e olhar. — Ela está doente! — varia entre olhar minha mãe e eu. — Não há discussão.

— Eles me deram choque! Me dão injeções! — não suporto e grito.

 Meu pai arregala os olhos. Jamais levante a voz a seu pai.

— Eu disse antes, mas irei dizer novamente: não.

— Eles vão acabar me matando — encaro meu prato e fico pensando nas consequências de joga-lo na parede, joga-lo acima da cabeça dele.

 Ele mexe os ombros, sem se importar. — Precisam descobrir o que há de errado com você.

 Aperto com tanta força o garfo que ele marca minha mão. Isso me faz olhar meus pulsos marcados, minha pele está roxa pela força que apliquei tentando me soltar das amarras.

 Me recuso a permanecer no mesmo ambiente que ele. Jogo os talheres na mesa e me inclino nela quando levanto, com tanta raiva que minha cadeira cai. Fazendo Thunder pular com o susto.

— Como pode fazer isso comigo? Você deveria me amar. Talvez devesse ir lá. Levar alguns choques e medicamentos. Quem sabe poderia sentir o que eu sinto e perceber o quão ruim é ser tratada como um animal. Você deveria passar pelo o que eu passo, só assim entenderia.  

 Eu saio da cozinha, com passos firmes, mesmo que por dentro esteja fraca. Puxo a cordinha que dá para meu sótão. Pela primeira vez, eu fico feliz por meu quarto ser muito isolado da casa. Talvez Geoff me coloque para dormir na casinha de ferramentas do lado de fora de casa.

— Ella, me espere, me espere — uma vozinha doce me chama, desesperado. É Thunder. — Eu quero ficar com você.

— Irei subir, Teddy — recuo alguns passos para ficar perto dele.

— Sei disso, quero ficar lá também. Papai me deixou muito zangado — bate seu pequeno pé no chão.

 Um som oco e distante retumba em meus ouvidos. O som de um trovão. Thunder é muito forte. Poucos são aqueles que são capazes de trazer tempestades tão rápidos como ele faz. Meu irmão será muito poderoso.

— Quer mesmo subir?

— Quero.

 Thunder gosta de meu quarto. Fazia muito tempo desde de sua última vez aqui. Ninguém gosta muito de ficar aqui em cima. Afinal, passo grande parte do tempo aqui. Quem mais se juntaria a mim?

 Kart é muito ocupado com sua vida social. Max parece distraído. Thunder é uma criança lotada de energia. Minha mãe precisa cuidar da casa. E meu pai, bem, meu pai é ocupado, para dizer pouco.

 Nos aconchegamos na cama. Me encosto na cabeceira e Teddy fica encostado em mim, com suas costas em minha barriga, olhando para o teto enfeitado de estrelas. Os pequenos pontos brilham quando fica escuro. De alguma forma, me fornece alguma esperança.

— Gostei daqui. Acho que vou me mudar — inclina sua cabeça para trás, para me olhar.

— Eu adoraria ter você aqui — passo meus braços em volta de seu corpo e respiro fundo. — É a única pessoa que tenho certeza que eu amo. 


Notas Finais


twitter: @silvermanxx


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