História Darkness - Capítulo 11


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Famí­lia, Romance e Novela, Violência
Avisos: Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Spoilers, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


"Onde posso ir?
Quando as sombras estão chamando?
Sombras estão me chamando
O que posso fazer?
Quando ela está me puxando para baixo?
Me puxando para baixo."
-Ruelle, Deep End

Capítulo 11 - CAPITULO ONZE: Ferida


         Como isso doí! Meus deuses!

          Depois que o sangue se espalhou por todo lado eu esperei uns segundos até voltar a me mover, assistir um suicídio de camarote não é algo lindo. Abaixei pegando a chave da corrente que prendia meu pulso no bolso do soldier morto e joguei na direção do rapaz, ele abriu minha corrente e ela caiu com um baque seco contra o chão, a única coisa que ele fez foi olhar em meu único olho aberto. Meus pulsos estavam em carne viva e latejavam tanto quanto meu rosto, empurrei minha dor para um canto escuro da minha mente, podia sentia mais tarde, não tenho tempo para isso agora. Agilmente eu peguei as correntes que eles tinham me prendido, prendi um lado no pulso de Jolene e o outro em uma das pernas do soldier morto, ia atrasar a saída dela atrás de mim. Catei a foto do filho da suicida e enfiei no bolso junto com as chave das correntes, a chave do meu carro que estava no bolso da ruiva. Peguei todas as armas espalhadas no local. Saímos de lá e ao pé da escada estava duas mochilas, peguei a minha e ele provavelmente a dele, tranquei a porta atrás de mim e os mantive presos lá dentro. Quando Jolene sair, vai sair com sede do meu sangue por ter matado um dos seus amiguinhos e pelo fato dela estar trancada em um quartinho miúdo com dois cadáveres. Com apenas um olhar nos corremos para fora daquele lugar como se o próprio diabo estivesse mordendo nossos calcanhares.

          Foi apenas o tempo de eu jogar a chave do carro para o rapaz e me sentar no banco do carona, ele ligar o carro sair igual a um louco da cidade miúda e quando ele entrou na pista para New Castle meu corpo relaxou, a adrenalina me deixou e tudo começou a latejar. O lado direito do meu rosto parecia em chamas, meu pulso queimava em carne viva e o ombro doía, espero que não tenha aberto os pontos, seria muito ruim. Gemidos escaparam dos meus lábios, mas o mordi para conte-los. Muito legal! Agora vou fazer uma coletânea de cicatrizes, a linha fina do ombro a clavícula, duas argolas nos pulsos, uma ponte atravessando minha cara e uma linha fina nos lábios que eu tenho certeza que acabei de piorar. O rapaz, que eu nem tive o trabalho de perguntar o nome, (não que eu não me importasse, por que na verdade eu não me importo) me olhava constantemente, talvez estivesse preocupado com meu lindo rostinho que foi estragado, ou talvez os gemidos estivessem o incomodando. Apertei o pano preto sobre o lado direito e grunhi, eu nem sabia que pano era aquele, o rapaz apenas puxou da mochila e me entregou, podia ser uma cueca. Mas isso pouco me importava, eu queria apenas estancar o sangramento.

-Quer, por favor, olhar para frente.- ele enrijeceu o corpo e voltou a se concentrar no caminho.

-Desculpe!- ele mordeu os lábios e segurou o volante com as duas mãos.

-De boa, mas acabamos de sobreviver de dois soldiers pirados, seria meio estupido morrer numa pista.- ele sorriu e cortou um Corola que ia bem lento na nossa frente.

-Você está certa.- ele acelerou e manteve os olhos na estrada.

      Puxei o pano do rosto e me olhei pelo espelhinho no para-sol, senti repulsa de mim mesma, o sangue estancou mas o lado direito ainda estava coberto dele. O corte era uma linha fina e rala e como eu presumi não afetou a visão que ainda estava perfeita, mas aquilo ia inchar e sem dúvidas eu vou ter uma linda cicatriz quando isso acabar.

     Se acabar...

     Repreendi a mim mesma, eu tenho pelo menos que acreditar que isso vai ter um fim um dia. Usei o outro lado do pano que já estava ensopado para tentar limpar o sangue mas não funcionou, é claro!

-Doí muito?- perguntou o rapaz com os olhos fixos na estrada.

-O suficiente para eu querer bater minha cabeça no teto!- isso é verdade! Estava dando fisgadas e eu não sabia qual dos três pontos doía mais.

-Acho que devo te levar num hospital.- arregalei os olhos e o direito doeu então voltei ao normal.

-Você é maluco?- ele sorriu, aposto que estava pensando que eu sou a maluca- O que vou dizer ao médico? "Ahh doutor, eu escorreguei com uma faca e dei um talho na minha própria cara!"- o sorriso dele aumentou.- Isso não tem graça!

-Eu sei que não! Mas seria muito estranho para o médico, duvido que acreditaria.

-Claro que não acreditaria. Você acreditaria?

-Nop.

-Então!- alisei meus cabelos- E o que eu diria se ele visse os pulsos?- ele pareceu pensar.

-Que tal que suas pulseiras de ferro encolheram e você precisou serra-las?- me sentei de lado e o fintei tentando manter um ar de incredulidade, foi meio em vão.

-Você só pode está brincando com a minha cara.

-Não mesmo, senhorita! Quero distância da sua cara...- falou gesticulando com a mão na minha direção apontando diretamente para o meu rosto, arregalei o olho fingindo ultraje.

-Só porque ela foi cortada? Que preconceito.- ele negou com a cabeça.

-Eu sou asiático, eu sofro preconceito, não cometo...- revirei o olho e ele sorriu.-Mal acredito que conseguimos sair de lá.- dei de ombros com um sorriso malicioso.

-Digamos que eu sou boa no que faço.- ele ergueu as sobrancelhas.

-O que você fez mesmo?- deitei a cabeça no banco e me estiquei colocando os pés sobre o painel, um pouco de distração era bem vinda.

-Sei lá, algo como salvar sua vida, suponho.- falei ironicamente.

-Eu teria me virado!

-Não, não teria- ele deu de ombros com um leve sorriso, mas ele voltou ao olhar normal.- Agora sério, e se precisar de pontos?- revirei o olho.

-Não precisa de pontos, precisa apenas de água para lavar, álcool e gaze para esterilizar. E talvez uma pomada para evitar o inchaço.- comecei a mexer nos bolsos- E tudo isso se encontra em um hotelzinho beira de estrada e uma lojinha de posto de gasolina.- fechei os olhos respirando fundo e esperando pacientemente a dor da uma trégua.- E talvez um analgésico para a dor.

-Então devo ficar na primeira estalagem que aparecer?- neguei com a cabeça.

-Vai nesse ritmo até um posto de gasolina qualquer, ali você compra o que for necessário, os medicamentos e coisas para comer porque eu não sei você, mas estou com fome, já que Jolene estragou meu café da manhã.- ele sorriu.

-Ela também estragou o meu, e já passou a hora do almoço.- ergui a cabeça apenas para ver o visor, uma e quarenta da tarde.

-Já?- olhei para ele- Fiquei quanto tempo apagada lá?- ele deu de ombros.

-Não faço ideia, eles me mantiveram apagado por um bom tempo, também.- voltei a encostar a cabeça.- Quer almoçar?- ele disse meio relutante, talvez temeroso.

-Acho que biscoitos e cocas é o suficiente. Me recuso a entrar em qualquer lanchonete ou restaurante nesse lugar.- ele sorriu fraco.

-Então partilhamos o mesmo pensamento.- assenti.- Vou parar no primeiro posto de gasolina que aparecer, comprar o que precisamos e partir para o mais longe possível.

-É melhor ficar na primeira estalagem que aparecer.

-Como?- revirei o olho novamente, como eu disse, é como respirar.

-Possivelmente eles vão deduzir que escolhemos ir para longe e não vão nem imaginar que ainda estávamos próximos.- Seus olhos ainda estavam arregalados.- O que? Suicida?

-Esperto, e louco!- fingi ultraje de novo.

-Louco? É brilhante! Olha no meu olho e repete.- me ergui o fitando.

-Estou dirigindo! Seria estupido sair das garras de soldiers para morrer no transito.- arregalei o olho, desgraçado esperto, usando minha fala contra mim.

-Touché!

        Ficamos em silêncio, fechei os olhos e deixei o corpo relaxar mas tentei bloquear qualquer pensamento que queria vir agora. Não é um bom momento para pensar na minha mãe, Ollie e Tommy, ou na Jay, quem dirá a Jay. Mesmo que eu achasse um absurdo sorrir ou brincar enquanto ela nem existe mais, foi uma das formas que eu encontrei de extravasar o nervosismo que eu sentia. Por mais suja que eu me sentisse, era um jeito de sobreviver a isso.

-Eu ainda não sei seu nome!- ele interrompeu meus pensamentos depressivos. Não abri os olhos.

-Bond. James Bond.- soltei séria e ele sorriu

- Valeu 007...- sorri.

-Pietra. Pietra Clarkson!- falei depois de uns minutos de silêncio.

-O meu é Piero. Piero Alexander. Caso queira saber!

-Não queria.- ouvi ele sorrir- E, só para constar, seu nome é ridículo.

-O seu também é!- foi minha vez de sorrir.

-Touché again!- é impressão minha ou ele esta desacelerando?- Você pode ir logo? Quero muito arrumar minha cara. Depois vamos descansar e seguir nosso caminho para o mais longe desse inferno...

-Você quer que eu vá junto com você?- voltei-me pra ele. -Você é aparentemente legal, mas não nos conhecemos e não me culpe por não confiar em você... Mesmo legal você tem tendencias suicidas e autodestrutivas. Você é perigosa!- sorri.

-Entendo o que está dizendo, eu não sou confiável e você também não é, mas saiba de uma coisa, no momento eu preciso de você como meu olho direto e você precisa de um carro para te levar para longe daquela cidade. Você tem o olho, eu o carro. Eu não vou te matar já que preciso de você. Nos separamos assim que não formos mas necessários um para o outro. O que acha?- ele ficou tenso. Senti certa desconfiança, mas era de se esperar.- Olha, eu sei que não confia em mim, e nem tem motivo para isso, não nos conhecemos. Mas também não confio em você, ambos estamos em uma situação terrível, já que pelo menos na minha mente pessoas que são perseguidas por Magnus são pessoas ruins ou que já fizeram algo muito ruim. Mas a única coisa que eu peço a você é que por hoje trabalhemos juntos, eu quero sobreviver a esse inferno e no momento preciso da sua ajuda. Eu não sou louca, suicida ou maníaca, eu só mostro as pessoas o que eu quero que elas vejam. É só essa tarde!- a postura dele relaxou e soltou um suspiro. Ele assentiu.

-Só essa tarde, a noite, quando você tiver arrumado sua cara rachada e puder se virar por si só, eu vou embora.

-Não te pediria mais do que isso.

         Ele estacionou no posto de gasolina, deixei o pano cair no colo e me abaixei para pegar minha mochila que estava aos meus pés. Abri ela e lá do fundo retirei 50 pilas.

-Sabe o que é pra comprar né?- ele assentiu.

-Álcool, gaze, pomada para inchaço, analgésico, cocas e biscoitos!- concordei com a cabeça e sorri.

-Traz também água.- entreguei a nota em sua mão.

-Para limpar o rosto?

-Para limpar a garganta que esta queimando por causa daquele líquido que estava no pano.- ele assentiu abrindo a porta.

-Volto em cinco minutos!

        Ele saiu do carro e assim me deu espaço para avalia-lo por inteiro. A minutos atrás eu estava ocupada demais me sentindo culpada ou usando o humor negro para repara-lo, e também eu não faço o tipo de pessoa que sabe disfarçar, então ficar olhando fixamente para ele não é algo aceitável. Piero tem a pele cor oliva, os cabelos lisos e negros extremamente bagunçados como se ele tivesse acabado de acordar, os olhos castanho-escuro levemente puxados lhe dando a atribuição asiática, o corpo magro longilíneo e aparentemente ágil. Ele é silenciosos, o que faz dele uma companhia agradável, e sensato já que tem medo de mim, sabe que não pode confiar em qualquer um o que faz dele esperto, e por essa esperteza eu tenho que ficar atenta. Posso não ser confiável mas ele também não é. Ele pode ser um assassino. Assim como você! Acrescentou meu cérebro inconveniente. Eu sei, não sou confiável e sou assassina, mas ele pode não ser flor que se cheire. Mesmo ficando com ele por apenas essa tarde eu devo...

-Comprei tudo o que você pediu!- ele falou entrando no carro. Estendi a mão e ele me entregou as duas sacolas e entrou fechando a porta e ligando o carro.-Perguntei a balconista aonde era a estalagem mas próxima daqui, ela disse que daqui a dois quilômetros virando a direita tem uma pequena estalagem.- concordei com a cabeça já pegando a garrafa de água e entornando aquele líquido divino garganta abaixo. Pelas minhas cores! Eu não sabia que água podia ser tão boa.

-Então vamos para lá.- respirei fundo ao sentir a lixa sumir da minha garganta, apontei a garrafa na direção lhe oferecendo um pouco ele aceitou e bebeu enquanto dirigia.

       Ficamos dois quilômetros em total silencio o que era bem confortável e foi muito bem aceito por mim. Mas vi que estávamos nos aproximando da estalagem então fiz ele parar o carro e eu desci deixando o pano sobre o banco, inclinei meu rosto ao chão e despejei o resto da água para limpar o sangue, passei as mãos úmidas pelo pulso e puxei as mangas da jaqueta para cobri-las. Voltei para o carro e com apenas um aceno de cabeça ele voltou a ligar o carro. Me olhei no espelhinho novamente, abri o porta-luvas e peguei um retalho qualquer ali dentro e passei no rosto retirando a água e qualquer vestígio de sangue. Fechei o zíper da jaqueta para cobrir as gotas de sangue que haviam escorrido para minha blusa. O corte ainda estava vermelho e ardia mas ignorei a dor, mesmo que meu cabelo estivesse sujo de sangue eu o joguei para o lado buscando cobrir um pouco o corte, foi inútil, ainda bem que as pontas do meu cabelo estavam na tonalidade normal não cinza como eu havia pintado uns tempos atrás.

-Estou apresentável?- perguntei o olhando de esguelha, ele me olhou e ergueu uma das sobrancelhas.-Na situação em que nos estamos, mentir não é mas algo condenável.- uma sombra de humor surgiu nos seus olhos.

-Então, sim, está apresentável!- revirei os olhos.

-Sabe que não perguntei se estou bonita. Perguntei se é possível eu aparecer em público sem parecer que acabei de sair de uma briga de foices.

-Sim!- ele disse sério- Você pode aparecer em público.- assenti com a cabeça e voltei a ficar séria.  

         Demorou menos de cinco minutos para chegarmos a estalagem, ele entrou a direita já entrando no estacionamento.

-Atrás do caminhão.- soltei- Tapa a visibilidade de qualquer pessoa que passar na estrada.- ele assentiu e estacionou.

       Trocamos um olhar rápido antes de cada um pegar sua mochila e sair do carro, ele travou e jogou a chave na minha direção e eu a enfiei nos bolsos da jaqueta e coloquei minhas mãos junto enterrando os pulsos em carne viva. O dia estava ficando cada vez mas escuro, mesmo sendo apenas duas da tarde, e um vento gelado fez meu corpo se arrepiar então usei esse pretexto para jogar o capuz na cabeça. Com as mochilas nas costas atravessamos o estacionamento e entramos na estalagem acinzentada, essa ainda era maior que a primeira que eu estive, essa era de dois andares, cheirava um pouco melhor e a atende parecia mais saudável, ela tinha aparentemente seus 20 anos, cabelos acobreados num corte curtinho, pele corada, corpo robusto e um sorriso, era falso mais bem convincente, se eu não o usasse tanto desde o dia que meu pai morreu eu acreditaria que havia verdade nele.

-Boa tarde!- o sorriso aumentou, os olhos da mulher estavam em Piero, o que era ótimo porque não é necessário olhar para a aberração com a cara cortada, abaixei mais a cabeça. Abri os lábios para falar mas graças aos céus Piero falou antes de mim.

-Boa tarde! Queríamos uma suíte.- ela assentiu e digitou algo no computador.

-Casal?- olhou nos olhos de Piero piscando os enormes cílios, os olhos castanhos tinham uma pitada de humor. Sem perceber eu soltei um risinho quase maléfico o que atraiu o olhar da mulher para mim por alguns instantes, já era de se esperar a reação, ela conseguiu disfarçar a repulsa em seu rosto mas eu pude vê-la em seus olhos.

-Duas camas.- constatou sério, nenhuma expressão passava por seu rosto o que me deu mais vontade de rir. Eu só não sei se a sua possível irritação era por causa da péssima forma que a atendente esta tentando flertar com ele ou o meu sorrisinho.

-Primeiro andar ou segundo?

-Primeiro.- soltei com a voz rouca e maravilhosamente grave, ela disfarçou a careta com um sorriso anormal.

-Documento para cadastro.- trocamos olhares mas ele se moveu e pegou sua identidade e colocou no galpão e percebi que era para que a mulher não lhe tocasse. Sorri. Pode ser maldade, mas a rejeição é adoravel aos meus olhos, e não me venham com críticas, okay? Já fui rejeitada como qualquer outra pessoa, e não é isso que está tentando me matar. Demorou pouco tempo até que ela abriu uma gaveta e estendeu a chave para Piero que não queria pegar, peguei a chave sorrindo.

-Quarto 27, segundo corredor a esquerda.- assenti.

-Obrigada!- respondi com uma pitada de humor.

          Entramos no corredor lateral e caminhamos suavemente até o quarto 27, abri a porta e entramos e eu a tranquei caindo na risada enquanto o garoto mal o humorado colocava sua mochila na cama próxima ao banheiro. Caminhei até a que estava embaixo da janela e coloquei minha mochila ali enquanto ria.

-Não consigo ver a graça!- ele começou mexer na mochila.

-Eu vi a graça no seu mal humor e na cara que a mulher fez ao perceber que você não ia corresponder o flerte dela.- ele revirou os olhos. Peguei a bolsa com as coisas para limpar o corte.

-Não curto o tipo de mulher atirada.- ele disse de cara fechada e eu ergui uma das sobrancelhas.

-Não curte quando uma mulher vai até você? Só vocês homem que podem tomar a iniciativa?- arregacei as mangas e me apoiei na cama com os cotovelos o fitando. Mais um machista? Serio que vou ter que aturar mais um bacaba machista?

-Não é isso que eu disse! Você gosta de ser assediada?- ergui uma das sobrancelhas.

-Aquilo foi assedio?

-Responda a minha pergunta, por favor!

-Não, nenhuma mulher gosta de ser assediada.

-Então pronto! Eu posso não ter dito um não para ela porque ela não perguntou nada, apenas se insinuou. Acho legal quando uma garota vem até mim, mas assim como vocês mulheres eu tenho direito de dizer não e não ser julgado por isso. Não sou gay por não querer ficar com uma garota, apenas algo nela não me atraiu, e isso não é errado. Vocês vivem lutando por direitos iguais, e eu apoio totalmente isso, mas acho que para sermos iguais nos, homens, também devemos sermos aceitos quando não queremos ficar com alguém ou quando não achamos legal um tipo de comportamento. É direito nosso também.- ergui os olhos e sorri.

-Temos um revolucionário aqui!

-Vai me zoar, agora?- perguntou mal- humorado.

-Na verdade eu ia te dizer que a sua linha de raciocínio é ótima, é raro achar um homem com princípios baseado no respeito, igualdade e aceitação.- dei de ombros e me pus de pé com a sacola. Ele franziu a testa.

-Isso foi um elogio?- sorri.

-Definitivamente não- entrei no banheiro trancando a porta atrás de mim.

         O lugar era mal iluminado porque o dia estava escuro então não entrava nenhuma luz pelo pequeno basculante perto do box. Liguei a luz e tirei a jaqueta com todo o cuidado do mundo por causa dos pontos, abaixei um pouco a minha blusa para que o corte que vinha do meu ombro até a minha clavícula aparece-se e respirei aliviada ao perceber que ele não tinha aberto e que já estava na hora de tirar, pendurei a jaqueta em um dos ganchos, arregacei as mangas da blusa e abri a torneira enfiando meu rosto embaixo. Senti um latejar fraco então coloquei os pulsos, sequei eles na toalha branca que estava pendurada na parede. Agora ia começar a parte dolorosa. Abri a embalagem da gaze e destampei o álcool, coloquei um pouco na gaze e passei de leve no corte. Grunhi alto até demais. Ia ser doloroso demais fazer desse jeito. Virei um pouco do álcool em sua tampinha, inclinei o rosto em direção a pia, fechei um dos olhos e despejei o conteúdo no corte. Engoli o grito então minha garganta acabou soltando um rosnado muito estranho.

-Tudo bem ai?- o rapaz perguntou tímido.

-Viva!- falei soltando o ar assim que a dor deu uma trégua.

        Peguei a gaze a passei o álcool que escorria pelo rosto no corte o que o fazia queimar, fisgar e a dor cegava mas me recusei a perder os sentidos por causa desse corte. Com o frescor que queima se espalhando pelo lado direito do meu rosto eu repeti o procedimento no meu pulso, a dor foi menor que a do rosto mas um palavrão escapou antes que eu sequer pudesse impedir. Quando terminei peguei um dos analgésico e joguei para dentro com um pouco de água da pia mesmo e finalizei com a pomada. Assim que a dor aliviou um pouco eu pensei em como eu ia retirar aqueles pontos.

-Piero?- chamei.

-Sim?

-Você pode pegar minha mochila para mim?

-Uhum.

       Não demorou nem um minuto até que ele bateu na porta com os nós dos dedos e eu abri uma brecha para que a mochila passasse. Tirei minha blusa e a lavei para retirar o sangue, o que demorou muito até eu ter um resultado razoável. Só de sutiã eu peguei a minha necessarie e retirei de lá um alicate de unha, ia ter que servir, esterilizei ele com o álcool e mas uma vez começou a parte difícil. Eu não ia sentir dor, disso eu sabia, mas retirar os pontos sozinha ia ser complicado porque além de estabilidade motora para pegar um pedaço dessa linha macabra eu ia precisar ver o que eu estava fazendo e puxar toda aquela linha para fora. Eu não sei nem limpar minha própria unha, quem dirá retirar um ponto.

        "Vai da merda, Pietra!"

    Belo recadinho que meu cérebro me mandou, mas era real e eu sabia disso então abri minha mochila e tirei dali a única blusa leve que eu trouxe, ela é preta, manga curta e gola V. Coloquei no corpo e puxei um pouco a manga deixando os pontos expostos, eu ia ter que pedir ajuda. Coloquei tudo dentro da mochila, a jaqueta eu pendurei no braço, o alicate foi na mão e eu sai dali levando a mochila junto. Piero que estava deitado e fintava o teto de PVC levou os olhos até mim.

-Que bom que ainda está viva!- atravessei o quarto o coloquei tudo sobre a cama.

-Espero continuar por um tempo.- ele riu com escárnio.

-Tarefa árdua!- exclamou levando os braços para trás da cabeça.

-Nem me fala!- olhei para o alicate na minha mão e fiquei em dúvida se pedia ou não. E no final das contas eu decidi pedir, eu tinha que tirar aquilo dali e precisava de ajuda.-Sabe aquele discurso sobre precisar de você?- o corpo dele se enrijeceu na hora e ele se sentou me olhando meio espantado. Sorri e ergui as mãos para mostrar que não estava armada.-Não vou te matar, okay.- ele permaneceu tenso- É que eu preciso de mais uma ajuda.- só assim sua expressão suavizou.

-Para?- ergui o alicate.

 

                                                     ⚜⚜⚜⚜

 

Piero estava ajoelhado ante mim e em sua mão estava o alicate, mesmo depois de tentar argumentar que não sabia tirar um ponto eu o convenci de retirar aquilo para mim. Mesmo que parecesse meio inseguro ele segurava as o alicate com uma precisão cirúrgica.

-Aonde você conseguiu isso?- perguntou assim que começou. Eu demorei para responder porque estava meio sem graça, é estranho para mim essa proximidade. Ele estava ajoelhado na minha frente, a manga da minha blusa estava abaixada deixando a alça de meu sutiã exposta e a mão dele se movia agilmente na minha clavícula.

-Um soldier atirou no meu ombro.- optei pela verdade, que mal faria? Íamos nos separar daqui a três horas.

-Relaxa o corpo! Eu posso acabar te machucando se você continuar tensa.- respirei fundo e deixei o corpo relaxar. Era tão estranho, apenas três pessoas tinham essa proximidade comigo. Ollie, Tommy e Jay. Minha mãe era distante, eu não visitava minha avó constantemente, meus amigos de infância a última vez que vi foi no enterro do meu pai. Ninguém sem ser eles entravam na minha bolha, era muito estranho ter um estranho a atravessando.- Achei que esse era o seu primeiro dia de fuga.

-E é!- constatei e ele colocou a ponta da língua para fora e aparentou morde-la, ele estava concentrado, cada louco com a sua mania- Aconteceu antes da fuga.- ele franziu a testa e olhou nos meus olhos por segundos até voltar para o meu ombro.-Longa história.

-E não é da minha conta.- sorri.

-Você está me ajudando, então eu não ia te responder assim, obrigada por entender sem eu precisar dizer.- ele deu de ombros como se dissesse um tanto faz. Ele não voltou a falar apenas continuou seu trabalho.

-Acabei!- ele disse alguns minutos depois e me entregou o alicate e os pontos pretos.

-Obrigada!- respirei aliviada.

              

                                                   ⚜⚜⚜⚜

        

Eu estava deitada de barriga para cima fitando o teto de PVC, meu corpo estava mole por conta dos analgésicos que fizeram efeito aliviando as minhas dores, mas eu não conseguia adormecer. Piero ressonava baixinho na cama ao lado e o assistindo durante a inconsciência ele não parecia ser uma pessoa perigosa, mas isso não quer dizer nada! Psicopatas geralmente são belos, gentis e silenciosos, afinal, ninguém planeja um assassinato em voz alta. Respirei fundo e deixei minha mente seguir o ritmo dela, eu sabia aonde ela ia me levar e não a impedi, uma hora ou outra eu teria que pensar sobre isso. Será que eles estão bem? Como minha mãe esta lidando com isso? Será que ela se fechou de novo? Será que voltou a depressão? Será que minha avó está bem? Será que sua saúde suporta isso tudo? E Tommy? Quase pude sentir seus lábios contra os meus, seus dedos no meus cabelos e alisando meu rosto. Foi errado pedir a ele que me esperasse? Foi egoísta lhe dar esperança de que eu voltaria e que viveríamos felizes? É errado ama-lo desse jeito e deixa-lo preso a mim? Foi errado eu ter me declarado? E Ollie? Será que ele esta chateado comigo por eu não ter me despedido? Ele é meu melhor amigo a anos! Somos como Chris e Greg*, Fred e Jorge*, Jace e Alec*, éramos como Rumpelstiltskin* e sua adaga. E é horrível não poder falar com eles.

         Tantos Serás... Tantos e se... Poucas coisas são tão devastadoras que os “e se...”

                      Jayne!

     Ela era a única que eu não queria pensar, só a visão de seus olhos opacos já encheram meus olhos de água mas me recusei a chorar na frente do cara adormecido. Olhei para o meu relógio de pulso, seis da noite, e eu não havia feito quase nada depois que Piero tirou os pontos, só comemos em silêncio e deitamos, o rapaz dormiu automaticamente enquanto eu sentia a dor aliviar aos poucos. Contei os foros, repassei as cenas de hoje com o foco de evitar ser pegar despercebida novamente, li o arquivo do meu pai e não achei nada a respeito de Magnus, nenhuma menção, só falavam sobre roubos absurdos, assassinatos constantes e as medidas que foram tomadas em relação a elas mas meus olhos pesaram e eu não consegui continuar. Cansada demais para ler, desperta demais para dormir.

       Por já ser seis horas eu me levantei e levei minha mochila comigo até o banheiro. Coloquei minha mochila no sanitário e tirei dela uma blusa de manga azul-marinho, troquei-as e coloquei a jaqueta de couro por cima, guardei a blusa que eu lavará e já estava seca, parei na frente do espelho e ajeitei meus cabelos com os dedos. E fitando meu reflexo eu tive uma única certeza, eu nunca mais seria a garota que fui um dia, é incrível pensar que a mais ou menos uns 9 dias atrás eu era uma coisa e que agora eu sou algo completamente diferente. Uma pessoa rachada, quebrada, destruída e totalmente perdida! Mesmo que o humor-negro continuasse, a antiga Pietra se foi, parte morreu com seu pai e a outra parte se foi com a Jay. E agora restou apenas um corpo que luta para sobreviver e retornar para as pessoas que ainda ama, mas a antiga Pietra morreu. Eu morri, mas ninguém notou ainda e não estou disposta a ser enterrada.

        Sai do quarto e voltei para a minha cama, substitui os tênis pelos coturnos, enfiei o punhal da atendente no coturno, as duas armas que eu tinha eu coloquei na mochila. As chaves que prendiam Jolene ainda estavam no meu bolso e eu jogaria o mas longe possível dali, mesmo que ela já estivesse solta a essa altura. E no mesmo bolso estava a foto do pequeno rapaz, os olhos dele parecia me fintar de volta.

-Conhece ele?- perguntou Piero que tinha acabado de acordar e estava sentado na cama.

-Nop.- mas queria, quase acrescentei.

-Vou me trocar.

             Assenti sem tirar os olhos da foto, o menininho é lindo! Estava em um lugar desconhecido por mim. Ele tem aproximadamente seus 11 ou 12 anos, a pele pálida como a da mãe, os cabelos castanhos levemente ondulados, os olhos que pelo que eu pude analisar eram um misto de topázio com esmeralda, ele é magro e transmite certa calma. Tentei pensar nas palavras daquela mulher que eram um completo mistério para mim, eu queria entender, ela falou com uma convicção absoluta e assustadora. Ela sabia de coisas que eu sequer poderia imaginar, o que ela sabia?

"Quando tiver oportunidade, e eu sei que vai ter. Poupe-o. Salve-o dele..."

          Oportunidade? Oportunidade de que? Salva-lo como? Eu sabia que devia salva-lo de Magnus, mas que oportunidade? Como poupar essa criança? Mesmo que eu não quisesse eu sabia que se essa oportunidade aparecesse eu iria ajuda-lo, mas não o procuraria. Sou egoísta sim, é a minha vida ou a de um menino que esta em algum lugar dessa América gigante, o que eu poderia fazer? Vou continuar minha fuga com os olhos abertos e esperar essa oportunidade e pedir a Wyrd que me ajude e me dê a chance de salvar esse menino. Porque eu realmente quero. Se fosse alguém da minha família eu ia gosta que alguém tivesse a oportunidade de salva-lo, vou fazer isso pelo menino. Por algum motivo eu senti uma falta de ar absurda então me levantei para abrir um pouco a janela em frente a pista e assim que abri vi uma picape negra estacionada, fechei a cortina e olhei por uma pequena frestinha assistindo dois homens enormes caminharem até a entrada lentamente olhando ao redor.

       Tinha soldiers aqui...

 

*Chris e Greg, são melhores amigos e fazem parte da série Everybody hates Chris (Todo mundo odeia o Chris);

*Fred e Jorge são irmãos gêmeos inceparáveis (que são separados no final –spoiler-) dos livros de Harry Potter;

*Jace e Alec são personagens dos livros Instrumentos Mortais que tem uma ligação que é mais forte que a ligação de irmãos, eles são Parabatais, irmãos de alma;

*Rumpelstiltiskin é o vilão de um conto de fadas alemão, mais aqui ele é citado como um dos personagens principais da série americana Once Upon a Time. 


Notas Finais


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Sugestão de Música:

Ruelle, Deep End
https://www.youtube.com/watch?v=6C3ND1nitRs

Kissus


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