História Desajustados - Capítulo 8


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Categorias Originais
Tags Ação, Drama, Família, Mistério, Romance, Super Herois, Yaoi
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Lemon, Luta, Magia, Mistério, Romance e Novela, Violência, Yaoi
Avisos: Álcool, Cross-dresser, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Desculpe a demora, e bota demora nisso, mas vida real is a bitch.

Anywho, agora que estou em um leve recesso vou tentar postar mais.

Espero que gostem, see ya.

Capítulo 8 - The universe sucks


Anos antes.

 

— Doutor Sam? — Chama Ellen dando leves batidas na porta de seu consultório.

— Pode entrar — Responde Sam terminando de escrever um breve relatório sobre seu último paciente que saíra poucas horas atrás. Era um jeito que ele tinha de reensaiar as conversas sem a presença real da criança, o que o fazia ter um olhar um pouco mais crítico sobre os fatos. A coisa sobre trabalhar com crianças que passaram por experiências traumáticas era que elas quase nunca falavam, portanto você tinha de tentar alcançá-las de outras formas, não era fácil e muitas vezes um pouco frustrante, mas era isso também que fazia o trabalho tão apaixonante. Cada criança, um pequeno universo trancado com a mais específica fechadura.

— A Irma Mary já chegou com o garoto. Mas ela pediu para conversar com você antes.

— Claro, pode manda-la entrar — Responde Sam, sentindo uma pitada de ansiedade. Ele já esperava por ela, na verdade ele vem esperando esse encontro com o garoto desde que a irmã falara com ele para marcar a consulta. O caso da criança tinha ganho uma repercussão na mídia considerável devido a suas peculiaridades.

O crime tinha ocorrido em uma casa de subúrbio não muito longe do centro de Nova York. A qual pertencia a Austin Madison um homem de 48 anos que era considerado o principal suspeito, apesar da sua fama de bom moço entre os vizinhos e em seu trabalho como corretor. As vítimas, dois garotos órfãos, Ian Martinez de dez anos e Felix Winchester de nove. Pelo menos esse era o quadro mais fácil de se pintar levando em consideração os evolvidos e a doentia atração que Austin tinha por pequenos garotos e por violência explicita, hábitos esses que foram descobertos durante a investigação. Um simples e, infelizmente, comum caso de pedofilia com um fim trágico e violento.

Mas no fim, as coisas não eram tão simples assim. Não para o caso de Ian Martinez.

Naquela noite, a polícia tinha sido chamada pelos vizinhos de Austin que alegavam terem ouvido uma arma de fogo vindo da casa do mesmo disparando um único tiro. Todos achavam que tinha sido um caso de invasão e um possível latrocínio. E foi com essa suspeita que os policiais entraram na casa, a ideia se manteve pelo menos até encontrarem o porão. Três corpos foram encontrados no local, sendo dois sem vida. O primeiro do garoto Felix Winchester, sem roupas e frio, a autopsia revelara morte por asfixia, marcas de espancamento e sinais de estupro. O segundo, do próprio Austin Madison, morto com um tiro na cabeça. E o terceiro corpo, o de Ian Martinez, encontrava-se desnudo, desacordado ao lado da poça de sangue sob o corpo de Austin e acorrentado pelo pulso ao outro garoto, mas o mais importante, vivo e sem nenhum arranhão. A única testemunha das atrocidades que ocorreram naquela casa.

Apesar dos olhos da mídia sensacionalista e até da polícia estarem em Ian, que fora até acusado em muitas das teorias que surgiram na época, ele só acordara dois dias depois. Os médicos disseram se tratar de algum tipo de reação que seu corpo teve devido ao choque, algo como um coma auto induzido. O diagnóstico não acalmara tanto quanto se era de esperar aqueles que acusavam Ian de ter participação nos crimes. As teorias eram das mais variadas, mas os fatos eram simples e escassos. Ian e Felix eram amigos e moravam no mesmo orfanato, os dois desapareceram no dia anterior ao caso ser descoberto, logo depois da escola e na véspera do aniversário de 10 anos de Ian. Aparentemente não existia nenhuma conexão entre Austin e as crianças.

Sendo assim, todos estavam esperando que Ian acordasse e explicasse o que de verdade tinha acontecido. E ele o faz, mas para infortúnio da mídia ele não tinha muito a falar deixando o caso cheio de buracos e perguntas sem respostas. Ao menos com isso a mídia resolveu deixar Ian em paz.

Alguns meses depois o garoto tentara se matar e agora, semanas depois da tentativa de suicídio, Sam teria a oportunidade de conversar com ele. Não que Sam fosse o primeiro a tentar, assim que acordara Ian fora encaminhado para um acompanhamento psicológico, mas por algum motivo o mesmo não resultara em nada. De acordo com o psicólogo em questão, tudo que Ian fazia era ficar calado e recusar todas as outras tentativas de aproximação. Talvez fosse um tanto quanto pretencioso da sua parte, mas Sam realmente esperava conseguir alcançar o garoto.

— Boa tarde Doutor — Cumprimenta a irmã entrando na sala.

— Irmã — Responde Sam levantando-se para cumprimenta-la com um aperto de mão — Como você está? Faz um tempinho que não nos vemos pessoalmente — Pergunta ele com um tom amigável. A irmã já tinha trazido muitas crianças para Sam e por algum motivo ela parecia ter gostado do resultado, o que levou ao desenvolvimento de uma relação de coleguismo bem confortável entre os dois.

— Bem... Na medida do possível considerando os acontecimentos dessa semana — Responde a freira com um longo suspiro e uma expressão cansada.

— Yeah, eu acabei ouvindo sobre o acontecido... Sinto muito. — Oferece Sam gesticulando para que ela sentasse na cadeira em frente a sua mesa — Vamos sente-se.

— Aprecio o sentimento doutor, mas sinceramente estava esperando que você me ajudasse de outra forma — Fala ela aceitando o convide de Sam.

— Como ele está? — Pergunta Sam.

— Fisicamente? Bem, os médicos disseram que ele perdeu uma quantidade razoável de sangue, o suficiente para fazê-lo perder a consciência, mas não foi nada que não pudesse ser revertido rapidamente e sem sequelas.

— Eu suponho que eu esteja aqui para julgar a outra parte... Mentalmente — Completa Sam.

— Se o senhor puder. Sam, por mais que me doa dizer isso tem algo de muito... Errado com esse garoto, não me entenda mal, o pobre não tem culpa de nada, mas ele só tem 10 anos Sam. Que tipo de trauma leva a uma criança de 10 anos a tentar suicídio? — Sam se assusta com o uso de seu primeiro nome. A freira perguntara com tanta preocupação e empatia em sua voz e em seu rosto que quase fizeram ele responder; compartilhar as coisas terríveis que ele já escultura e estudara feitas a esses seres tão inocentes e como as vezes era impossível de recupera-los.

Mas Sam sabia mais do que simplesmente assustá-la sem motivo. Apesar de ser uma pergunta válida, afinal as crianças tendem a ter um senso de sobrevivência e adaptação muito maior que os outros o que torna a ideia de suicídio quase incogitável para elas. Porém, se tem uma coisa que Sam aprendeu em seu trabalho é que tudo é possível e imprevisível quando se trata da mente humana.

Com isso, ao invés de reponde-la ele a direciona uma expressão solidária e depois pergunta já tentando mudar de assunto — Para dizer a verdade eu fiquei um pouco surpreso quando soube que você achou o garoto. Não sabia que o Santa Clair tinha começado a aceitar crianças com esse tipo de bagagem.

— Nós não recebemos — Responde a freira — Ele não é do Santa Clair, atualmente ele está em um desses lares para jovens órfãos que saíram do centro de recuperação para jovens delinquentes — A freira dá um longo suspiro antes de continuar — O que eu sei que não é a solução ideal e que reflete como o sistema é falho, mas eu espero que isso não dure por muito tempo, estou fazendo o possível para trazê-lo para o Santa Clair. A única razão de ter sido eu a encontra-lo foi por que eu estava lá a pedido de uma conhecida que trabalha no local, mas estava fora resolvendo alguns problemas. Ela me pedira para fazer umas compras básicas para o mês e quando eu cheguei eu resolvi arruma-las na cozinha já que não era tantas assim. Foi aí que eu ouvi um barulho de agua correndo, o que era estranho já que supostamente a casa estava vazia. Todas as crianças deveriam estar na escola. Quando eu fui investigar o som, que vinha do banheiro, ninguém respondera meus chamados e o som insistia em continuar... Por isso eu resolvi abrir a porta e... Eu o encontrei.

— Entendo. Você realmente acha que consegue uma vaga no Santa Clair? — Pergunta Sam intrigado, o lugar onde Ian se encontrava no momento era definitivamente um erro, mas por outro lado ele nunca tinha ouvido do Santa Clair aceitar alguém assim — Por que não o Santa Marta? — Pergunta ele referindo-se à conhecida como “irmã gêmea do mal” do Santa Clair.

— Não é como se fosse muito melhor de onde ele está agora... A última coisa que esse garoto precisa é de contato com drogas ou prostituição — Responde ela com determinação.

— Você parece apegada ao garoto — Observa ele.

— Como não sentir compaixão por uma criança com uma história tão triste? — Responde ela, e Sam realmente se pergunta se Mary já percebera que corações como o dela eram as exceções.

— Ele já conversou algo com você? Sobre...

— Não — Admite ela com um triste sorriso— O sentimento não parece ser mútuo.

— Entendo.

— De qualquer forma, eu só queria esclarecer os fatos — Fala ela se levantando— Eu vou manda-lo entrar agora... Eu realmente espero que nós consigamos fazer algo por essa criança.

Surpreso com as palavras tudo que Sam consegue dizer é — Eu também — Ele realmente queria assegurá-la de que tudo ia ficar bem, mas profissionalmente ele sabia que nem sempre é possível ajudar alguém, tudo que ele podia fazer era tentar.

A freira se retira da sala e pouco tempo depois volta com um pequeno garoto atrás dela, seguindo-a por uma distância segura. Sam sabia como ele era, ele tinha visto fotos. Mas vê-lo pessoalmente era como colocar sal na ferida, realmente apenas uma criança...

Ian mantem os olhos fixos no chão, só os levantando quando Mary se dirige a ele dizendo que ela estaria esperando do lado de fora e que estava tudo bem. Após a saída da freira Sam se levanta para ir em direção a criança que voltara a olhar para baixo.

— Ian? — Chama ele se abaixando para ficar no mesmo nível da criança — Eu me chamo Sam. Como você está? — Cumprimenta ele estendendo a mão, os olhos negros do garoto finalmente encontram os seus com uma intensidade quase palpável.

— Bem. — Responde o garoto ignorando a mão em sua frente. Seus pequenos membros soltos com as bandagens ainda enfeitando seus pequenos pulsos. O garoto rapidamente esconde seus braços atrás das costas ao perceber que Sam desviara rapidamente seu olhar e Sam se repreende por se deixar levar por uma coisa tão simples, mas que obviamente significava algo para o garoto, a última coisa que ele precisava era que o garoto se sentisse desconfortável em sua presença.

— Que bom, fico feliz em ouvir isso. — Fala Sam se levantando — Porque não nos sentamos para conversarmos mais à vontade? — Pergunta ele gesticulando para o Divã.

Ian não hesita, como Sam achava que ele faria, indo sentar-se no divã de forma a ficar de frente para Sam ao invés de se deitar.

— Você não prefere — Começa Sam.

— Não. Eu estou bem assim — Interrompe Ian, seus olhos negros não deixando Sam desde que eles o viram, encarando-o como se vessem através dele.

— Eu suponho que você saiba o que nós estamos fazendo aqui — Fala ele recebendo um movimento de cabeça afirmativo como resposta do garoto — Mas eu sinto que posso ser direto com você, eu sei que você preferia estar em qualquer outro lugar que aqui, mas as coisas nem sempre são como queremos Ian. Se nós não demos certo eles vão te mandar para outra pessoa até que funcione, além disso você realmente não tem nada a dizer sobre o que aconteceu? Qualquer coisa Ian, eu prometo que independente do que você diga tudo vai ficar nessa sala, entre eu e você. Sem julgamentos.

— Você está dizendo que se eu não dizer nada, eles vão achar que o problema é com você? — Pergunta Ian inclinando levemente a cabeça.

— Não exatamente. Funciona mais como um teste de resistência, até você desistir de manter tudo para si mesmo e falar com alguém.

— Claro, contanto que esse alguém seja alguém que eles escolheram — Devolve Ian com uma expressão de desprezo.

— Não necessariamente. Porque? Você achou alguém que confiasse o suficiente? — Pergunta Sam pensando em Mary.

— Não — Responde Ian perdendo um pouco da atitude de antes.

— Você não precisa desabafar com um psicólogo ou um psiquiatra Ian. Contanto que você fale com alguém isso já seria um grande avanço e eu garanto que iria te fazer se sentir melhor.

Ian o encara em silencio por longos minutos antes de perguntar alguns tons acima de um murmuro — Porque você se importa?

— O que? — Fala Sam sendo pego de surpresa pela pergunta do garoto.

Depois de um longo momento de silêncio— Eu não gosto de falar de mim mesmo. E eu odeio que sintam pena de mim. Então porque sou obrigado a fazê-lo? — Admite Ian desviando o olhar para suas mãos que começavam a mexer ansiosamente nas bandagens em seus pulsos.

Sam tenta esconder a felicidade que ele sente ao perceber que esse encontro poderia, no fim das contas, ser produtivo — Ian eu não sinto pena de você.

— Mentiroso — Acusa Ian com os olhos franzidos.

— Ok — Admite Sam, reconhecendo que ele deveria mudar sua tática de aproximação, Ian definitivamente não era uma criança normal, na verdade o jeito com que falava não se assemelhava a de uma criança de nenhum jeito possível — Você ganhou. Provavelmente todas as pessoas ao redor de você, inclusive eu, sentem alguma coisa próximo a isso. Mas você precisa entender que é quase impossível não o sentir Ian, nós não controlamos o que sentimos, e você é uma criança de 10 anos que passou por tanta coisa... Eu sei que você não precisa da nossa pena ou sequer da nossa ajuda, mas a maioria das pessoas ao seu redor nesse momento realmente só tem boas intensões.

— O que aconteceu não me define — Responde Ian ainda na defensiva, mas Sam ao menos estava ganhando respostas.

— Eu sei — Confirma Sam — Eu sei que as vezes tudo que elas veem é seu passado, e eu tenho certeza que por traz disso existe um ser humano incrível, com seus próprios medos e sonhos. Mas ninguém nunca vai conhece-lo se você não permitir Ian.

Ian suspira profundamente fazendo seu pequeno corpo tremer. Por mais um longo tempo ele se mantém em silencio olhando para seus pulsos, até o ponto em que Sam tinha começado a desaminar quando de repente o garoto pergunta — O que você quer saber?

— Qualquer coisa que você quiser contar Ian. — Responde ele rapidamente, agarrando sua chance antes que ela lhe escapasse— Eu estou aqui para ouvi-lo, não importa o que seja.

Ian dá outro longo suspiro, mas logo em seguida ele começa a falar, mesmo que seja sobre o como ele odeia a bagunça que seu companheiro de quarto faz e o quanto ele acha quase que incabível a ideia de que alguém consiga viver daquele jeito.

 

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Ian

 

— Então, você acha estranho que minha ex tenha achado que estou tendo um caso com um jovem de 17 anos, no caso você? — Pergunta Sam sentado no sofá com os pés no centro (fazendo uma bagunça na sala que Ian tinha limpado e arrumado a poucas horas atrás... Ao menos ele tinha tomado banho antes de se esparramar no sofá) e com uma cerveja gelada sem álcool na mão (fato que ele fizera questão de deixar claro quando Ian o confrontara sobre o assunto) enquanto esperava Ian terminar de preparar a janta.

Mas para dizer a verdade Ian não podia ligar menos, o fato era que no momento ele mal ouvira o que Sam dissera. Desde que chegara do encontro com Michael e Josh tudo o que ele conseguia pensar era no quão estranho Michael tinha agido, e quando Ian usara seus poderes para dar um leve toque na mente do outro em busca de respostas ele se deparara com uma enxurrada de sentimentos: indo de alivio, passando por leve pânico e terminando numa quantidade enorme de ressentimento e tristeza, os últimos grandes o suficiente para ofuscar a presença dos outros.

Tudo isso deixara um amargo sentimento de medo em Ian. Ele temia por Michael, mas principalmente Ian se sentia culpado por não ter percebido antes, por ser tão teimoso e relutante quando o assunto era usar seus próprios poderes. Tudo que ele precisava era tentar alcança-lo pelo menos uma vez nesses últimos dias que ele saberia que algo estava errado, grande “amigo” você é...

Mas voltar no tempo não estava entre seus poderes, com isso o que ele podia fazer era tentar ajuda-lo agora. O que era um problema, Ian estava lidando com tanta coisa ultimamente... —A quem estou tentando enganar? — Murmura ele para si mesmo. Assim que a ideia lhe surge ele sabe que vai segui-la, ele não podia simplesmente arriscar deixar Michael com esses sentimentos e perde-lo para as drogas (não que ele fosse sua propriedade para perder) ainda mais com Josh na história, de qualquer forma o ponto era que Ian não conseguiria se concentrar em nada enquanto não resolvesse esse assunto. Procurar um emprego podia esperar.

— Ian — Chama Sam encostado na porta da cozinha, fazendo Ian pular de susto.

— O que? — Responde ele virando-se para encará-lo inocentemente.

— Você ouviu o que eu disse? — Pergunta Sam se aproximando para jogar a lata vazia no lixo.

— Não... — Admite Ian oferecendo um sorriso de desculpas.

— Perdido em pensamentos? — Observa Sam com um leve sorriso sarcástico — Tenho certeza que será um tópico interessante para nossa próxima sessão.

Ian rola os olhos em desdém enquanto volta a cortar os vegetais para a salada, talvez ele estivesse passando muito tempo com Josh — Porque eu concordei com isso mesmo? — Pergunta ele não esperando uma resposta.

— Minha ex acha que estamos dormindo juntos — Diz Sam abruptamente sem mais nem menos.

Como reação tudo que Ian consegue fazer é lhe direcionar uma expressão de incredulidade com a boca aberta por alguns segundos até que a memória lhe surge — Ohh, então ela era sua esposa, sabia que eu tinha a visto em algum lugar — Fala ele mais para si mesmo — Mas como ela chegou a essa conclusão? Não é como se ela tivesse me pego pelado ou se quer de cueca na sua cama.

— Eu não sei — Responde Sam — Ela veio aqui para buscar algo que a Nat tinha esquecido e aparentemente lá estava você deitado na cama, logo em seguida ela me liga gritando o quão nojento eu era e que eu nunca mais veria minha filha de novo.

Tirando a parte de “nunca mais ver minha filha” a situação era um tanto quanto engraçada, pelo menos do ponto de vista de Ian — Nojento? — Repete ele com uma sobrancelha levantada em indignação — Eu não sabia que sua ex é homofóbica, se você me perguntar só por isso eu acho que a separação valeu a pena — Fala ele optando sempre pela piada.

— Ian, esse não é o problema — Responde Sam apesar do sorriso em seu rosto — Não é o fato de você ser homem... Eu passei quinze anos casado com aquela mulher, ela sabe do que eu gosto. O problema é que ela acha que eu voltei a beber, aparentemente o suficiente para levar um garoto menor de idade para a cama. — Conta Sam pegando outra cerveja e sentando-se a mesa.

— Bem, não é como se eu não tivesse consentido. Então não temos nada que nos preocupar querido — Responde Ian voltando sua atenção para a salada — Ela não pode te impedir de ver a Nat só porque você descobriu que se sente atraído por garotos de dezessete anos.

— Sério? — Responde Sam atrás de Ian, mas o que ele podia fazer? Era difícil parar de provocar uma vez que você começara. — Não importa mais, eu já expliquei o que estava acontecendo para ela.

— E por explicar você...

— Menti dizendo que você era o filho de uma amiga que veio estudar e precisava de um lugar para morar— Responde ele sem hesitar.

— E ela acreditou? Não é à toa que ela passou quinze anos casada com você.

— Hey! Eu sou um bom mentiroso — Protesta Sam soando magoado.

Não algo para se orgulhar, pensa Ian — Ela não acreditou, não foi?

— Não, o que é a razão de ela querer conhecê-lo. Ela realmente é boa em dizer quando alguém está mentindo e ela sabe disso... Uma habilidade que ela deve ter adquirido durante nosso casamento, eu suponho. — Explica Sam soando mais entretido pelo fato do que envergonhado.

— Bem, mesmo que você soe como um completo babaca no seu último casamento se você me perguntar eu prefiro interpretar o papel de seu injustiçado novo namorado.

— Porque?

— Porque me parece bem mais divertido, além disso eu sempre quis ser pai, ou padrasto no caso.

— Hey, hey, hey! Nós só dormimos juntos uma vez, de jeito maneira eu vou deixar você chegar perto da minha filha.

Com isso Ian se vira inspirando dramaticamente e colocando a mão no peito de forma a expressar seu choque — Como você se atreve. Eu pensei que você me amava.

— Deus... Tem tantas coisas de errado nessa conversa que eu não sei nem por onde começar — Diz Sam apesar do sorriso ainda estar em seus lábios — De qualquer forma você não tem o direito a escolha, portanto não “namorado injustiçado” para você. Eu até já falei com Mary para interpretar a “velha amiga” por telefone. E como você dever ter percebido eu disse a ela que você estaria aqui.

— Yeah — Afirma Ian lembrando-se do encontro que tivera com a freira — Ela estava bem chateada com minha mentira — Continua ele começando a arrumar o jantar na mesa — Mas mais ainda com o fato de eu não lhe dizer o motivo de eu estar me mudando.

— Ela se preocupa com você garoto — Responde Sam.

— Eu sei — Ian realmente odiava desapontar a Senhora Mary, mas ele não podia simplesmente dizer a verdade.

Despois disso eles caem em um silêncio confortável enquanto Ian termina de arrumar a mesa, com Sam começando a comer no mesmo instante e nesse momento Ian é grato por ter conseguido reatar o contato com Sam. Ele tinha que admitir que provocar seu ex-psicólogo era uma das suas atividades prediletas, interessante o suficiente para fazê-lo se esquecer um pouco de Michael, da Genesis e de toda essa bagunça. Mas pelo visto o universo, ou seja lá que força maior controlasse sua vida (Ian não era exigente), tinha outros planos para ele diferentes de um simples e calmo jantar com trocadilhos sarcásticos e ofensivos, porque logo que ele se senta para comer a campainha toca surpreendendo tanto ele quanto Sam, que parecia muito ocupado comendo como se não houvesse amanhã. Com isso, Ian vai atender a porta com Sam logo atrás trazendo consigo uma coxa de frango.

Abrindo a porta Ian só tinha uma coisa a dizer, o universo ou seja lá quem controlasse sua vida não passava de um grande de um filho da mãe.

— Olá Ian. Não me olhe assim, eu disse “mais cedo que você imagina”, lembra? — Diz Anne, a elegante mulher que, com seus olhos negros e penetrantes formando uma combinação intimidadora com seu cabelo afro e sorriso branco, fizera Ian ter um ataque de pânico não 24 horas atrás. Nada mais nada menos que a razão em pessoa para ele estar morando com seu ex-psicólogo e claro, temer por sua vida a cada nova esquina.

 

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Max assiste através das lentes de seus óculos escuros seu alvo enquanto ele conversa amigavelmente com a bartender, claramente flertando com a mulher, assim como fizera com outras três moças que chegara perto o suficiente dele quando foram pedir algum drink no bar. Max tinha que admitir que ao menos o cara era persistente, mesmo sendo rejeitado logo de cara em todas as suas tentativas ele não parecia desaminar quando partia para próxima, mas também isso poderia ser efeito da quantidade de álcool que o cara tinha ingerido.

— Você está bêbado, sem mais doses para o senhor. Vá para casa — Diz a bartender negando o pedido do homem por mais uma rodada. Ele grunhi em resposta, mas obedece a moça seguindo para a noite da cidade, como se já tivesse acostumado a escutar isso e sabia mais do que começar uma discussão como qualquer outro bêbado faria sobre o quão bêbado ele não estava.

Pode parecer difícil tentar filtrar o que seu alvo dizia do resto das outras centenas de vozes no bar quando se tem super-audição, mas Max já estava acostumado. Ele passara a vida tentando adequar seus poderosos três sentidos a uma sociedade que definitivamente não era para ele, principalmente em Nova York que era barulhenta a todas horas do dia e fedia na maioria das vezes a monóxido de carbono, estresse e ansiedade, sem falar claro dos gostos artificiais da comida. Para Max era mais uma questão de tentar manter sua sanidade ter controle sobre seus poderes do que qualquer outra coisa. Quando criança fora difícil, mas o passar do tempo facilitou as coisas. Agora ele usava seu dom em prol da família Matta e da Gênesis, ele podia até não se dar bem com Daniel, mas ele era grato pelo que sua família lhe proporcionara.

O fato era que... Era difícil escutar a cidade ao seu redor. Max passara a infância e juventude irritado na maior parte do tempo com a dor de cabeça que isso lhe proporcionara o que não ajudara na convivência com praticamente ninguém. Também, ele podia ouvir cada crime sendo cometido, cada grito de desespero das vítimas e por fim o silêncio que a morte trazia consigo, como um buraco sem cor manchando o quadro que a cidade pintava com seus sons. Uma voz, um coração, uma vida que simples assim sessava sua existência.

Desde criança Max aprendera que ninguém era capaz de salvar todo mundo. As vezes ele considerava seus poderes uma maldição muito mais que um dom, ouvir tanto sofrimento sem poder fazer nada era no mínimo excruciante. Com isso Max crescera acostumado com a morte, acostumado com a violência que lhe cercava e por muitas vezes com o ódio que ele sentia de si mesmo por não ter a capacidade de fazer algo e com a sociedade que acordava no dia seguinte com cada um vivendo sua vida como se nada tivesse acontecido. Max sempre sonhara em poder fazer isso.

 O ponto era que violência e remorso eram presenças constantes na vida de Max e em seu crescimento, e com o tempo ele começou a perceber que a morte não era tão assustadora assim, muitas pessoas mereciam morrer. Ele não sabia se era o fato de conseguir sentir o desespero das vítimas, mas em algum momento algo quebrara em sua alma, algo que lhe dizia que todo mundo tinha uma família e que todo mundo tinha o direito à vida. Conseguir controlar seus sentidos ajudava ainda mais a ignorar essa pequena voz.

E foi assim que ele se tornou um assassino. Ele não se enganava dizendo a si mesmo que ele matava apenas pessoas más. Max não era ingênuo, ele era um assassino, ele matava pessoas e ponto final. Ele tentava não analisar muito com medo do que acharia, mas muitas vezes era isso que o fazia conseguir dormir à noite.

Outra coisa que Max aprendera durante sua vida era ter paciência e almejar grande. Minions eram descartáveis e fáceis de serem substituídas. Claro, sempre que ele assassinava algum chefe do tráfico o mesmo também era substituído, Max sabia que sua missão não tinha fim, mas ao menos ele conseguia desestabilizar as coisas e mais comumente que não ele conseguia por gangs para acabarem umas contra as outras. Era impressionante como medo e ambição cegavam um ser humano.

Porém, no momento ele não estava atrás de nenhum chefe do tráfico ou coisa assim. Na verdade, ele passara os últimos dias atrás de um vigilante mascarado a pedido dos Matta, tentando descobrir quem era a pessoa por trás dos boatos e se tratava-se da garota desaparecida do pequeno grupo de treze mutantes, que incluía ele, criado pelo projeto meta-humanos. Apesar do tal vigilante ser escorregadio devido a sua impressionante habilidade de se esconder nas sombras e consequentemente desaparecer (Max não sabia exatamente do que o vigilante era capaz, mas levando em conta seus encontros a possibilidade dele realmente poder se teleportar era bem plausível) Max já tinha alguns suspeitos, todos homens e em sua maioria entre 17 e 19 anos, o que levantava outras milhares de perguntas. Sinceramente ele ainda não sabia o que iria fazer quando descobrisse a identidade do vigilante, Max tinha até uma certa admiração pelo jovem estar tentando agir como um herói como manda o livro, além disso, Max já tinha visto tanta coisa em sua vida que mutantes eram o menor dos segredos que se escondiam no mundo atual. Estava mais que na hora da sociedade lidar com isso.

Contudo, Daniel havia pedido para ele dar uma pausa em sua investigação sobre o vigilante para ajudar ele e John na busca pelo garoto Josh. Filho da única pessoa com a qual Max conseguira se abrir quando jovem, pessoa essa que agora se encontrava em um caixão, só mais outra vida que Max não conseguira salvar... Não qualquer vida, ele sabia que essa morte tinha muito mais peso que outras em sua consciência... Max empurra o pensamento o mais fundo possível em sua mente e se concentra na missão.

Depois de Daniel lhe explicar o que acontecera com todo o lance da mão negra, Max logo sentira que algo não se encaixava. Até onde ele sabia a mão negra era pouco atuante em Nova York e mesmo sendo uma organização terrorista razoavelmente conhecida, ninguém sabia quais eram suas verdadeiras intensões. Alguns diziam que era algum tipo de organização religiosa, porque não tinham outra explicação para os atos cometidos. Mas Max ainda tinha suas dúvidas, a organização não parecia mirar uma população qualquer ou sequer uma minoria, eles atacavam aparentemente sem motivo e nunca nenhum de seus membros efetivos fora preso.

O fato era que a mão negra sabia do projeto meta-humanos, o ataque deixara claro ao menos isso. Mas se eles sabiam, porque sairiam sem Josh do laboratório? O que eles ganharam com o ataque? Talvez eles só quisessem deixar uma mensagem. Talvez eles não soubessem como o garoto podia facilmente ser usado como uma arma, ou até mesmo que ele era um mutante... Porém, toda vez que Max pensava dessa forma ele tinha uma voz persistente lhe dizendo o contrário, chame de instinto, mas ele tinha quase certeza que tudo que a mão negra fizera até agora tinha uma razão e um objetivo. Ele só não sabia quais.

Um dos motivos para que a organização não passasse de um fantasma que todo mundo ouviu falar, mas que ninguém nunca realmente viu era que eles trabalhavam na maioria das vezes terceirizando o serviço, o que explica a polícia nunca ter conseguido prender alguém que realmente pertencia ao grupo. Sempre contratando pequenos grupos de meliantes desesperados o suficiente por dinheiro. Max não se orgulhava, mas ele sabia exatamente como encontrar informações sobre o que acontecia no submundo da sua cidade.

Era por isso que, no atual momento, ele estava seguindo Bernard Madoff, uma das pessoas que tinham sido contratados para o serviço da mão negra no laboratório da Gênesis e se suas fontes estavam corretas (o que era o usual), o chefe do grupo. Max não tinha grandes expectativas para que tipo de informação o homem podia lhe dar, mas ainda assim valia a pena a tentativa. Não que ele fosse compartilhar a informação com John na reunião que eles tinham marcado amanhã para decidir como agiriam na procura de Josh. Mas se o garoto estava sendo alvo de algum tipo de esquema da mão negra Max não podia simplesmente deixar isso acontecer, não com o filho do Zack.

 

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— E então? Não vai me convidar para entrar? — Pergunta a mulher com um sorriso inocente enquanto observava Ian arregalar os olhos e entrar em um pânico silencioso.

— E você é? — Pergunta Sam atraindo a atenção da mulher.

— Eu me chamo, Anne. Eu suponho que você seja Sam, o psicólogo camarada.

Ian logo entra em modo de defesa, começando a suar frio e sentindo a adrenalina em suas veias — O que você quer? — Pergunta ele. Dessa vez sem pensar duas vezes ele tenta sentir a mente da mulher em sua frente, se ela fosse realmente uma ameaça ele não poderia permitir que algo acontecesse com Sam. Ian não sabia ainda como exatamente ser agressivo com sua habilidade, pelo menos não conscientemente, mas ele estava preparado para tentar. Porém, a primeira coisa que ele percebe emanando da mente da mulher é curiosidade e um pouco de... Apreensão?... As vezes Ian duvidava do que sentia.

— Conversar... — Responde ela, seu sorriso sumindo perdendo assim um pouco do seu ar intimidador de superioridade. Apesar dos sentimentos que Ian estava captando na mente da outra, ele ainda tinha medo que a paciência da mulher estivesse encurtando e ela puxaria uma arma para matar ele e Sam a qualquer momento. Ele realmente precisava ter mais controle dos seus poderes, até mesmo para que pudesse confiar neles — Eu vejo que você ainda está assustado então irei direto ao ponto. Eu estive investigando você e Michael desde que vocês entraram em contato com o garoto chamado Josh, por razões que poderão ser explicadas se você aceitar me ajudar.

Ajuda? Tá ai algo que Ian nunca pensou que a mulher em sua frente iria lhe pediria. Mesmo que ele ainda não soubesse se tratava-se de uma situação “Me ajude se quiser que você e as pessoas ao se redor saiam ilesas” ou um simples pedido de ajuda ele resolve arriscar — Com o que? — Pergunta Ian mesmo temendo a resposta.

— Eu preciso que você me ajude a matar um homem — Responde Anne como se esse fosse o pedido mais natural de se fazer para um estranho (pelo menos da parte de Ian, considerando que ele não tem nem certeza se sabe o nome real da mulher). Ao menos o instinto de Ian estava certo, havia morte no assunto, e sinceramente era uma pergunta um tanto quanto fácil de responder. Ele só precisava saber se “não” era uma resposta que lhe permitiria ver a luz do amanhã.

 

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Daniel acorda ofegante e com um doloroso aperto no peito, como se algo fisicamente o estivesse impedindo de respirar. Institivamente ele tateia o outro lado da cama a procura da única coisa que conseguia lhe confortar depois desse pesadelo, mas ao invés de encontrar o sólido e caloroso corpo de John ao seu lado, ele se depara com apenas lençóis gelados e intocados. Por um segundo o pânico de estar sozinho misturado ao pesadelo tomam controle, mas Daniel logo se recompõe lembrando-se do dia anterior — Foi apenas um pesadelo — Fala ele para si mesmo tentando se fixar na realidade.

Todos os dias em que Daniel acordava sozinho ele se arrependia da sua escolha de não morar com John. Mas pouco tempo depois que eles começaram a ter um relacionamento amoroso Daniel passara a ser assombrado pelo mesmo pesadelo, e essas manhãs eram as mais difíceis de acordar sem John ao seu lado. Ele sabia que John estava bem, que fora só um pesadelo, mas não custava nada verificar.

John atende antes do terceiro toque terminar.

— Bom dia, baby. Como você dormiu? — Cumprimenta John.

Deus, como era bom ouvir essa voz — Eu acordei sem você ao meu lado — Responde Daniel mesmo sabendo até demais como a culpa disso era dele mesmo.

John permanece em silêncio por algum tempo, o qual é acompanhado por alguns sons de fundo que Daniel logo reconhece, pelo horário John provavelmente estava fazendo seu café da manhã depois de sua corrida matinal. O silencio serve apenas para piorar a sensação de culpa e o aperto no coração de Daniel e logo quando ele decide se pronunciar, John responde — Eu não sei o que você quer que eu diga.

— Você não precisa dizer nada — Como Daniel poderia exigir algo de John quando tudo que ele fazia no relacionamento dos dois era tomar sem nunca ceder? Por mais que doesse admitir a relação entre os dois não era uma via de mão dupla.

— Daniel, eu te amo e eu não duvido dos seus sentimentos... Mas eu sei que você tem outras prioridades. Eu já aceitei isso. É simplesmente quem você é, a pessoa pela qual eu me apaixonei, sem tirar nem por.

— Eu não te mereço — Responde Daniel, porque, o que mais ele pode dizer? Pedir desculpas? Pelo que? Por ter herdado um império? Daniel não se sentia culpado por ser quem era, ele só desejava que as coisas fossem diferentes, que a comunidade corporativa e empresarial não fosse um bando de preconceituosos hipócritas. O mundo estava mudando aos poucos, mas essas pessoas pareciam caminhar ainda mais lentamente. Em um mundo tão dinâmico como o dos negócios, onde inovar é quase uma necessidade para a sobrevivência, é impressionante como as pessoas que o comandam sejam tão medievais.

— Você teve aquele pesadelo de novo? — Pergunta John, atento como sempre.

— Porque? Eu não posso te ligar para dizer o quanto te amo e o quanto eu queria acordar todos os dias ao seu lado? — John não responde e Daniel não sabe se ri ou chora da situação — Sim — Responde ele por fim.

— Eu estou bem, baby. Foi só um pesadelo.

— Eu te amo.

— Bem, eu aprecio o sentimento, mas conhecendo você eu diria que ainda está deitado na cama. Esqueceu que a essa hora os Makadas devem estar chegando? Como anfitrião eu não aconselho que os deixe esperando, ainda mais considerando os planos que eles têm para você — E simples assim a vida real desferia seu golpe mortal. Devido ao bom relacionamento dos antepassados de Daniel com os Makadas, como acontecera todas as outras vezes, eles estariam se hospedando na mansão até o dia da reunião, ou seja, até quinta. Daniel sabe que não fora de propósito, porque John era simplesmente muito gentil para seu próprio bem, mas ainda assim ele não nega que doeu um pouco quando ele dissera “os planos que eles têm para você” se referindo ao casamento que as duas famílias tanto idealizavam entre Daniel e Naomi Makada, a futura herdeira da rica família japonesa.

— Eu não vou me casar com ela Jay, eu ainda tenho o poder de escolha ao menos disso. Nós dois sabemos que a única pessoa que vai colocar um anel nessa mão é você — Assegura Daniel ouvindo a respiração do outro pausar ao ouvi-lo. Ele consegue facilmente imaginar o rosto de John adquirindo um leve avermelhado de vergonha — Apesar de você estar certo, eu ainda tenho tempo para uma coisa. O que você está vestindo?

— O que? — Pergunta John soando claramente confuso com a repentina troca de assunto.

— Vamos lá, você me ouviu. O. que. Você. Está. Vestindo. — Repete Daniel da maneira mais sexy possível — Aposto que ainda está suado.

— Daniel, eu não vou fazer isso por telefone com você.

— Okay, eu começo. Eu estou atualmente pelado, porque você sabe que é assim que gosto de dormir, e apenas de ouvir sua voz eu já estou duro feito uma pedr-

— Tchau Daniel — Interrompe John, porém os dois sabiam que ele não conseguiria resistir por muito tempo.

 

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Michael

 

— O que estamos fazendo aqui? — Pergunta Michael estudando a área com curiosidade.

Assim que Michael terminara seu turno, faltando pouco para as 21:00 da noite, Josh dissera que tinha planos para a noite e simplesmente com essa justificativa arrastara Michael para uma pista de skate abandonada bem ao lado das docas. Isso por si só já despertava muitas perguntas. Mas, desde o último encontro que ele tivera com Ian, Michael estava apenas existindo. Tanta coisa estava acontecendo de uma vez só... Michael sentia como se tivesse perdendo o controle da sua vida novamente, mas dessa vez, sem o êxtase que a droga lhe proporcionara. Ele só desejava que as coisas pudessem ser como antes, ele e Ian tendo pequenos encontros casuais vivendo como duas pessoas normais, dois amigos normais.

Não que ele culpasse Josh por tudo que estava acontecendo, mas ainda assim ele desejava que aquele sábado à noite não passasse de um sonho estanho, que tudo isso não passasse de um sonho e que mais cedo ou tarde ele acordaria de volta para sua pacata, e talvez um pouco fudida, vida. Onde tudo que ele precisava se importar era em como se aproximar mais de Ian sem parecer um pervertido.

O que o fazia lembrar que a partir de agora ele veria Ian com menos frequência ainda e que, sim, ele era um pervertido, considerando o que acontecera na segunda dois dias atrás.

— Você vai ver. Eu falei com Ian ele já deve estar chegando — Responde Josh e simples assim o coração de Michael passa de “batendo apenas para garantir sua existência” para “batendo feito louco como uma garota de 15 anos que iria encontrar seu crush”.

— Ian está vindo? ­— Pergunta Michael desistindo de lutar contra o sorriso em seus lábios.

— Yeah ­— Responde Josh devolvendo-lhe o celular, então foi assim que ele chamou Ian pensa Michael — Não vai adiantar muito para ele, mas ainda assim eu acho que devemos fazer isso juntos.

Michael não fazia ideia do que Josh estava falando, mas, de que importava isso quando Ian estava em seu caminho para se encontrar com ele? Como um sinal divino seu celular vibra em sua mão indicando que uma mensagem chegara, Michael olha para tela e sente seu coração acelerar novamente ao ler o “estou aqui” que Ian mandara.

— Ele chegou? — Pergunta Josh

— Sim.

— Fale a ele que estamos em frente à rampa, eu mandei a localização, mas esse lugar é um pouco grande.

— E um pouco escuro — Completa Michael já escrevendo a mensagem até que ele recebe outra de Ian dizendo “Não precisa” antes mesmo de terminar a sua.

Antes que Michael conseguisse fazer sentido da situação Josh rouba sua atenção — Lá está ele — fala o garoto apontando para atrás de Michael.

Michael se vira e enquanto assiste Ian se aproximar tudo que passa pela sua cabeça é “o que diabos acabou de acontecer”.

— Hey pessoal — Cumprimenta Ian direcionando a Michael um sorriso o qual deixava claro que ele sabia e mais precisamente estava se divertindo com a expressão confusa de Michael — E então quem está pronto para treinar?

— Espere, o que? — É tudo que Michael consegue dizer como resposta, enquanto Josh comemora entusiasmado ao seu lado.



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