História Intenso - Ruggarol (2Temporada profundo) - Capítulo 3


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Categorias Karol Sevilla, Ruggero Pasquarelli, Sou Luna
Personagens Karol Sevilla, Personagens Originais, Ruggero Pasquarelli
Tags Karol Sevilla, Ruggarol, Ruggero Pasquarelli, Sou Luna
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Palavras 12.275
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Colegial, Crossover, Drama (Tragédia), Ficção, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Drogas, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 3 - Capítulo 1-Part 2


O ar frio me desperta. Estamos estacionados na rua de um bairro de casas quase idênticas – todas pequenas, amontoadas em terrenos minúsculos. Ruggero está do lado de fora do carro. O rosto dele está triste, sombrio.

– A Jim está aqui? – pergunto.

– Sim. É a casa da minha avó.

Ele está segurando a parte de cima da porta do carro, inclinando-se na direção da janela, me examinando através do vidro. É como se usasse a porta como escudo para poder olhar para mim, olhar para mim de verdade, como ainda não havia feito. Ele passa o seu olhar pelo meu corpo, pairando um pouco sobre as partes que costumavam ser as suas preferidas. É como nos meus sonhos. A minha mente está confusa e lenta demais para eu me defender do calor do olhar de Ruggero. Eu só quero agarrá-lo e tê-lo sobre mim, dentro de mim, as mãos quentes, a boca molhada... e todas as coisas de que venho sentindo falta.

Algumas horas na caminhonete e os meus pensamentos puros de amizade e lealdade não passam de uma camada desagradável sobre semanas de saudade e desejo.

– Você vai ficar aqui esta noite.

– O quê, para dormir?

– Sim.

– Onde você vai dormir?

– Na casa do Bo.

– Qual é a distância?

– Trinta quilômetros.

– Quero ficar onde você estiver.

Ele puxa o assento dele para a frente, enfiando-se no espaço atrás para pegar a minha mala. Quando começa a levá-la até a calçada, entendo que essa decisão dele não é negociável. Corro atrás dele.

– Quem está aí?

– Pelos carros, acho que minha avó, minha mãe, Jim e umas duas tias minhas.

Eu não sabia que ele tinha tias ou uma avó.

– Alguma coisa que eu deva saber sobre elas?

– Tirando a minha mãe e a Jim, eu não as vejo há seis anos.

– Sério?

Ele franze a testa.

– Você acha que eu estou brincando?

Não acho. Sinto dor no estômago.

– Desculpe. Como eu... Quem eu devo dizer que sou?

– Diga a elas o que quiser.

Ele toca a campainha. Isso vai ser esquisito. Tenho tempo apenas para respirar fundo antes de a porta ser aberta e dar diretamente na cozinha.

A primeira coisa que percebo é que há uma mulher soluçando à mesa. Duas outras mulheres e três crianças estão amontoadas no ambiente com ela, mas não presto muita atenção a elas, porque a segunda coisa que percebo é que a mulher que abriu a porta tem os olhos iguais aos de Ruggero. É estranho ver os olhos de Ruggero no rosto enrugado de uma mulher. Além dos olhos, não há muita semelhança. Ela precisa levantar muito a cabeça para falar com ele, porque é baixinha. Ela é redonda em todas as direções – peitos, quadris, bumbum –, com cabelos grisalhos. Dá uma tragada em um cigarro na mão esquerda e percebo, quando ela o leva até os lábios, que seus dedos parecem seguir em uma nova direção a cada junta inchada.

– As surpresas não vão parar nunca? – pergunta ela.

Longe de uma saudação de boas-vindas. Eu meio que espero que ela exale a fumaça no rosto de Ruggero e bata a porta, mas, em vez disso, vira a cabeça para o lado e diz:

– Michelle, adivinha quem chegou.

Michelle é a mãe de Ruggero. Ela levanta o rosto. Está com os olhos inchados.

– Quem é essa?

Ela fala com uma voz rouca e assustadora. Tenho vontade de cobrir o rosto com as mãos.

– Esta é Karol – responde Ruggero.

Ela pisca. Esfrega os olhos. Pisca de novo.

– Que Karol?

Atrás de uma porta fechada entre a cozinha e o outro ambiente, ouvimos o som de uma descarga.

Ruggero pergunta à avó:

– O que ela tomou?

– Ela está assim o dia todo.

– Merda! – Ele inspira profundamente. – Podemos entrar?

– Apresente a gente – diz a avó dele.

– Karol, esta é a minha avó Joan. Vovó, Karol. – Ele aponta para o outro lado da cozinha. – Tia Stephanie, tia Heather e os meus primos Tyler, Taylor e... eu não conheço aquela ali.

– Hailey – diz a mulher chamada Heather.

– Muito prazer, Hailey. Sou Ruggero.

Aperto a mão da avó de Ruggero e digo um “oi” baixinho.

– Eu a trouxe aqui para tomar conta da Jim.

– Eu estou tomando conta da Jim – Joan informa.

– Você tem outras coisas com que se preocupar.

– Eu posso tomar conta de uma criança.

A porta do banheiro se abre e eu reconheço a irmã de Ruggero no mesmo instante em que o rosto dela se ilumina ao vê-lo.

– Rugge!

Sou tomada por alívio – mais do que estava preparada para sentir. Eu nunca havia visto Jim pessoalmente, mas quando Ruggero e eu estávamos juntos, nós duas começamos a trocar mensagens de texto. Ele não deve saber, mas nunca paramos de nos falar. Não que sejamos confidentes ou algo parecido. Jim tem apenas 10 anos. Ela me manda fotos de meninos bonitinhos e piadas ruins. Eu mando a ela links de histórias de que acho que ela vai gostar, ou simplesmente pergunto como ela está.

“Como está a escola?” ou “Como está a vida?”.

Nunca perguntei: “Como está Ruggero?”

Acho que imaginei que isso seria ultrapassar o limite, mas, ali parada, acho absolutamente hilário que eu tenha pensado que houvesse limites. Quero dizer, estou em Silt, no Oregon. Eu evidentemente não tenho limites.

Ruggero passa os braços ao redor de Jim e afunda o rosto nos cabelos dela, de olhos fechados, e eu não consigo desviar o olhar.

Ele quer que eu fique ali, então vou ficar ali.

Ele quer que eu cuide da irmã dele, então vou cuidar da irmã dele.

Não há nada que eu não faria por Ruggero Pasquarelli.

Jim e eu dormimos no sótão naquela noite. É um ambiente grande, de pé-direito baixo, repleto de caixas e sacos de lixo lotados, com uma cadeira quebrada, a tábua de passar roupa e o balde com esfregão. Quadrados de tecido forram o chão – pelúcia marrom escura e estampa turca ao lado de outra cor-de-rosa.

Minha aposta é que se trata de amostras de uma loja de carpetes. O sótão faz meu nariz escorrer. A coriza começou assim que eu me deitei e meus olhos passaram a lacrimejar. Eu não paro de espirrar. Com certeza não vou conseguir dormir. Jim está ao meu lado, cada uma em um saco de dormir sobre um catre feito de cobertores e embalagens de ovos. Toda vez que tenho certeza de que ela finalmente caiu no sono, ela se mexe.

Antes de ir embora, Ruggero levou a irmã até a varanda e conversou com ela por um tempo. Então foi até a sala de estar com a mãe e falou com ela em voz baixa enquanto a avó jogava uma manta sobre os ombros de Michelle.

Fiquei na cozinha conversando com Jim enquanto as tias de Ruggero conversavam entre si e os primos discutiam em voz alta sobre quem dormiria em qual cama quando voltassem para a casa de Stephanie naquela noite.

Depois que Michelle caiu no sono, Joan fechou uma pequena porta entre a sala de estar e a cozinha, e o grupo de tias e primos foi embora. Jim ficou feliz demais com a oportunidade de me fazer mais uma dúzia de perguntas. Como havia sido a minha viagem? Quantos aviões? Grandes ou pequenos? Onde eu havia comprado a minha blusa? E os sapatos? Por quanto tempo ficaria lá e por que ninguém tinha contado para ela que eu estava a caminho?

Fiz o máximo para responder, mas estava tensa, esperando que Ruggero voltasse. Quando ele finalmente reapareceu, foi direto para Frankie.

– Quando você vai voltar?

– Amanhã, depois do trabalho. A Karol vai ficar de olho em você.

– Alguma orientação? – perguntei.

– Fique com ela. Se alguma coisa estranha acontecer, me ligue.

Defina “coisa estranha”.

Pensei em pedir a ele que me explicasse, mas ele parecia tão cansado que decidi deixar para lá.

Pobre Ruggero. As coisas já estavam estranhas.

Espirrei alto, desejando que tivesse trazido lenços de papel. Malditas alergias. Poeira e ácaros, mofo e pelos. Nunca sei quando algum lugar vai me fazer ter uma crise. Tenho sempre um antialérgico na bolsa, mas tudo o que encontrei quando fui procurar foi uma embalagem de comprimido vazia, meio amassada. O melhor é descer a estreita escada de madeira que me levou até ali e tentar encontrar Joan. Talvez ela tenha alguma coisa que eu possa tomar. Espero que ainda não tenha dormido.

Quando me viro de lado, me preparando para me mexer, Jim diz:

– Karol?

Congelo. Na minha frente, há uma pequena janela quadrada e a lua do lado de fora, quase cheia. Atrás de mim, há uma menininha cujo pai está morto.

Ruggero me queria ali, com ela. Mas o que ele queria que eu dissesse? 

– Sim?

– Você acha que ele vai embora de novo?

– Quem, o Ruggero?

– É.

Eu me viro para ela e me apoio em um cotovelo. O saco de dormir dela está suficientemente perto de mim para que eu consiga vê-lo subir e descer com sua respiração.

O dela é do Meu Querido Pônei. O meu é do Homem-Aranha.

Os olhos dela estão imensos à luz fraca. Ela tem os olhos castanhos e o queixo marcado da mãe, mas o resto dela é Ruggero: as mesmas maçãs do rosto, sobrancelhas arqueadas, boca larga e o cabelo escuro e espesso. Ela é linda e muito novinha, os dentes da frente um pouco grandes demais para o rosto.

– Não sei – respondo sinceramente.

– Mas o que você acha?

– Eu acho... que ele vai fazer o que achar que é melhor.

Ela fica quieta.

– Ele pediu para você vir?

– Não.

– Então por que você veio?

– Eu achei... que poderia ajudar.

Ela se apoia no cotovelo, espelhando a minha posição.

– O que você pode fazer?

– Não muita coisa – admito. – Fazer companhia a você, se você quiser.

– Posso confessar uma coisa?

Não. Não me conte nada. Eu não sei o que estou fazendo. Mas isso é apenas covardia. Eu aprendi a ignorá-la.

– Claro.

– A mamãe contou que eu não estava lá, mas eu estava. Eu vi o que aconteceu.

Os olhos dela brilham, úmidos.

– Eu vi.

– Você quer... falar sobre isso?

Ela balança a cabeça. As lágrimas começam a correr. Solto os braços do saco de dormir e os passo ao redor dela, puxando-a para perto e acariciando seus ombros magrinhos.

– Shh, shh, shh, vai ficar tudo bem.

Mas eu não faço ideia se vai ficar.

Depois de um tempo, a respiração dela se acalma e fica mais lenta. Percebo quando ela cai no sono.

Eu vinha segurando um espirro fazia um tempo, inspirando profundamente e apertando os olhos fechados. Assim que consigo, eu me afasto dela e desço a escada.

A avó de Ruggero está sentada à mesa com uma caneca à sua frente, tricotando. Uma TV pendurada na parede exibe um noticiário sem som. Um rádio toca músicas antigas, enquanto um aparelho que eu suponho ser um rádio de polícia fica emitindo um barulho com chiados.

A palavra “San Francisco” está escrita em rosa-claro na frente da camisola comprida dela. Ela tem os braços pálidos, a pele frouxa e cheia de veias estouradas.

– Ela dormiu?

– Dormiu.

– Menina durona.

Acho que é mesmo. Precisa ser.

– Quer um pouco de café? – pergunta Joan.

– É descafeinado ou...?

– Eu não tomo descafeinado.

– Não, tudo bem. Eu só vou ao banheiro rapidinho.

O assento do vaso sanitário está gelado. Há um buraco no gesso um pouco acima da banheira, posicionado de tal modo que eu imagino que alguém o está criando com a parte de trás do crânio. Batendo até amassar a placa de reboco, com mais força até chegar ao gesso.

Espirro três vezes no banheiro.

– Está resfriada? – pergunta ela quando saio.

– Alergia.

– Precisa de algo para isso?

– Qualquer tipo de antialérgico seria ótimo.

Ela se levanta com cuidado, os movimentos de uma mulher que não se sente mais confortável no próprio corpo. Um minuto depois, está de volta com um pote de remédio genérico para alergia e um copo d’água.

– Obrigada.

Tomo os comprimidos e espirro de novo. Ela serve mais café para si e senta.

– Você e Ruggero são próximos?

Minha cabeça está doendo. Está tarde demais para eu me sentir esperta, escuro demais lá fora para bobagens.

– Fomos.

– Ele confiou Jim a você.

– Ele não me quer aqui.

Ela me lança um olhar compassivo.

– Ele finge que não quer você aqui.

Ficamos em silêncio. A cozinha se enche com o chiado do rádio de polícia e o tom meloso de alguma cantora antiga no rádio.

– Ele contou a você há quanto tempo não nos víamos? – pergunta Joan.

– Ele disse seis anos, mas não disse por quê.

– O pai dele... meu filho. A última vez que ele ficou com Michelle, as coisas terminaram mal e Ruggero estava no meio. Ruggero veio até aqui e me obrigou a escolher um lado. Todo mundo precisava escolher. Ninguém mais seria neutro.

Ela puxa o açucareiro para mais perto e põe mais algumas colheres na caneca.

– Você escolheu o seu filho.

– Achei que Ruggero fosse voltar atrás.

Sorri.

– Ruggero não volta atrás.

– Durante seis anos, não voltou.

Queria ter aceitado o café. Dormir ali seria impossível e eu estava com inveja da caneca fumegante dela.

– Meu filho não prestava. – Ela dirige a observação à xícara de café, a qual gira lentamente. – Não sei por quê. Não acho que tenha sido algo que eu tenha feito. Os outros três saíram direito. Mas Bruno sempre foi muito cheio de si. Um valentão.

Ela toma um longo gole de café e franze a testa.

– Agora ficou doce demais.

Sinto como se devesse dizer algo.

– Eu sinto muito.

– Michelle não é melhor do que ele. Você a viu. Ela vai ficar se lamuriando durante semanas, meses talvez, e jamais pensará uma vez sequer no que isso fará com a filha ou o filho.

É assustador quando Joan finalmente olha para mim. Os olhos de Ruggero. O rosto de uma estranha. Uma força familiar com que sei que posso contar.

– Você veio para levá-lo com você?

– Não sei.

Ela toma o resto do café e se levanta para deixar a caneca na pia. Olha para a lua pela janela.

– Tire ele daqui – diz ela baixinho. – Ele não vai ter outra chance.

Passo a manhã seguinte lavando louça e descascando ervilhas com Jim na mesa da cozinha de Joan. Depois disso, ela tenta nos ensinar a tricotar. Jim aprende mais rápido do que eu. Fico enganchando a linha na agulha, fazendo buracos na linha. Joan diz que eu sou boa fazendo buracos.

Para o almoço, ela aquece sopa de tomate em lata e prepara sanduíches de manteiga e queijo branco. Há um movimento constante de gente entrando e saindo da cozinha dela – amigos, vizinhos, parentes, uma mulher com quatro filhos que, pela conversa, compreendi se tratar de uma colega do grupo de Alcoólicos Anônimos de Joan.

Eu não sou apresentada à mulher. Ela chega e vai embora. Joan sai para fumar um cigarro e volta, liga a torneira da pia, fala ao telefone, aumenta o volume do rádio. Se não está com as mãos ocupadas com outra coisa, tricota. Tem uma sacola vermelha presa ao cós da calça onde guarda as agulhas. Ela tricota sem olhar, quadrados de 30 centímetros em marrom e azul, verde e vermelho. Sua sala está coberta por tricôs: duas mantas sobre o sofá, uma sobre a poltrona, uma cesta transbordando de linhas no canto. Há uma pilha de livros sobre pontos de tricô embaixo da mesa de centro.

Sento-me perto de Jim e faço um pequeno afago na cabeça dela. Ela parece precisar um pouco disso. É uma mistura espantosa de menina e mulher. Maquiagem cuidadosa nos olhos e postura encurvada. Eu entendo por que Ruggero a ama. Jim é tudo o que há de bom nele. Barulhenta e divertida, cabeça quente e rápida em perdoar.

“Seus cabelos são tão lindos”, ela me diz.

“Como faz sua maquiagem?”

“Você me ensina a arrumar a echarpe desse jeito?”

Ela não diz mais nada sobre o que testemunhou. Não chora.

Eu me pergunto se deveria contar a alguém. A mãe dela sabe a verdade, qualquer que seja. Não consigo me imaginar traindo a confiança de Jim, entregando a outra pessoa o que ela me contou.

A única pessoa a quem consigo me imaginar contando é Ruggero, mas ele não está ali. À tarde, ficamos sabendo que Bo foi levado para ser interrogado mais uma vez. A mãe de Ruggero cai no choro. Ela chora por Bruno estar morto e por Bo estar na cadeia. Jim olha fixamente para a TV, os olhos arregalados e cheios de lágrimas. Passo os braços ao redor dela enquanto vemos novelas. Ruggero não manda nenhuma mensagem. Não liga. E não aparece, embora tenha dito que apareceria. Naquela noite, leio a versão on-line do jornal local depois que Jim cai no sono, tentando preencher as lacunas. Tiros foram ouvidos no parque de trailers. Um ferimento à bala no peito. Morto ao chegar.

Os vizinhos alegam que foi uma discussão que saiu do controle. O jornal diz que havia apenas duas testemunhas: Michelle e Bo. Bo foi interrogado, liberado e interrogado novamente.

Eu quero construir uma narrativa a partir desses fatos simples e objetivos. Quero uma história que eu mesma consiga contar, mas tudo o que vejo é o rosto marcado por lágrimas de Michelle.

Jim enrolada no sofá, com a cabeça no meu colo enquanto assiste a TV. Pessoas entrando e saindo pela porta da cozinha, conversando com Joan, deixando comida e ajudando de alguma maneira.

Mando uma mensagem de texto para Ruggero: O que você está fazendo? Quando vem aqui? Devo alugar um carro?

Ele me ignora.

Mesmo quando estávamos namorando, Ruggero nunca quis que eu soubesse nada sobre Silt. No entanto, aqui estou eu, e antes que ele me obrigue a sair de sua vida, vou descobrir o máximo possível sobre este lugar e essas pessoas.

Meu segundo dia em Silt é praticamente igual ao primeiro, só que eu ouço com mais atenção, fico mais alerta e mando quatrocentas mensagens para Ruggero.

Como estão as coisas?

O que está rolando?

Precisa de alguma coisa?

Como ele não responde, tento declarações aleatórias.

Vendo novela c/ Jim.

Tomando creme de ervilha.

“Creme de ervilha parece ranho, mas é gostoso.” Comente.

Então desisto e simplesmente começo a digitar qualquer coisa que me venha à mente.

Quando você sai do trabalho?

Vou ver você esta noite?

Acho que vou sair para tomar uma cerveja.

Jogar sinuca de saia curta.

Conferir a noite local.

Você gosta mais de chocolate com passas ou amendoim?

Balas de leite ou de hortelã?

Mar ou serra?

Quero ver você.

Venha para o jantar.

Para minha surpresa, ele vai. As tias e a avó dele se reúnem ao redor da mesa da cozinha com sua mãe. Primos com pratos de papel, salada de frutas com creme batido e marshmallows, frango cozido durante todo o dia em panela de barro.

Quando ele leva o prato até o sofá, vou atrás. Sento ao lado dele e pergunto:

– Como foi o seu dia?

– Recebi um monte de mensagem de texto.

– Alguma interessante?

Ele fica olhando para a TV com o prato equilibrado no colo e morde um pedaço de pão cheio de manteiga.

– Não.

Mas ele me olha de lado e o entortar malicioso da boca dele me faz corar. Eu já vi aquele sorriso na cama, jantando, no carro dele, na padaria, em todas as partes da nossa vida juntos.

Sentia falta daquele sorriso.

– Você não pode me ignorar – digo.

Ele apenas mastiga e engole, olhando fixamente para a frente. Eu me inclino para mais perto e sussurro de modo que apenas ele consiga me escutar.

– Eu não vou embora enquanto não souber que você está bem.

Ele fica completamente paralisado. Ele nem respira e eu prendo a respiração em solidariedade, tão absorvida por ele que nem sequer me dou conta disso até ele se virar para mim. O rosto dele está a poucos centímetros de distância. A coxa dele está ao lado da minha. Os olhos dele, o nariz, a boca, o rosto.

Meu Deus.

Não pode haver outra mulher. Se houvesse, eu não me sentiria assim. Eu não poderia me sentir assim. Tão viva. Tão real.

Ele se sente assim também?

– Então você vai embora se eu disser que estou bem?

– Eu preciso acreditar.

Minha camisa branca está refletida nos olhos dele, um clarão em contraste com as pupilas escuras. Sei que ele está sentindo alguma coisa. Sei que há coisas que ele quer me dizer. Então por que não diz?

Depois que foi embora de Putnam, Ruggero bloqueou qualquer conversa que incluísse as palavras “mudança” ou “transferência”, qualquer conversa sobre nos vermos novamente. Tudo é preto ou branco para ele. A mãe dele voltou para o pai, então ele teve que voltar por Jim.

Tudo o que conseguiu com ela foi uma tarde por semana no McDonald’s perto da escola. Uma hora para Ruggero examinar a irmã e a mãe atrás de hematomas, interpretar as respostas delas, esperar pelo dia em que descobriria que alguma coisa estava errada.

No resto do tempo, ele trabalhava. E dormia. Ia a bares com Bo e, de vez em quando, ficava bêbado o bastante para me ligar. Nós havíamos terminado. Eu não devia continuar tentando ser amiga dele. Eu não devia mandar mensagens de texto. Não devíamos ficar conversando pelo telefone às duas da manhã, só que ficávamos. Porque ele me ligava. E depois que começávamos a conversar, nos pegávamos fazendo piada, divagando até um de nós dizer alguma coisa errada. Deslizávamos juntos no escuro, as mãos onde não deveriam estar.

“Sinto a sua falta.”

“Quero você.”

“Preciso de você.”

“Ainda amo você.”

“Gata, eu não posso. Não posso.”

Ele me dizia que eu merecia coisa melhor, mas nunca conseguia convencer a mim mesma de que havia qualquer outra pessoa além de Ruggero. Vejo o rosto dele corar. Ele engole em seco. Sinto o calor vindo dele, o desejo.

Ele pode mentir para mim por mensagens. Pode mentir pelo telefone. Mas não pode sentar ali e mentir para mim com o corpo.

– Eu preciso acreditar que você está bem. Diga que não sente a minha falta. Que não me quer. Que não está pensando em mim o tempo todo, tanto quanto eu estou pensando em você.

Estendo a mão até a coxa dele e o agarro acima do joelho. Os músculos da perna dele se contraem sob meus dedos. Ruggero passa uma mão pela minha nuca.

E se inclina para perto de mim.

Acho que ele tem a intenção de dizer algo ríspido, para transmitir a dura verdade da nossa situação. Eu deveria me preparar para isso, só que não consigo. Aquela mão na minha nuca me amolece imediatamente, por tudo. Era assim que ele me beijava. Exatamente assim. E quando ele me deixa assim tão próxima, olha para mim desse jeito, eu vejo dentro dele e sou capaz de catalogar todos os sentimentos que atravessam seu rosto.

O desejo. O tesão.

A necessidade que sente de mim, a vontade de me tocar, de ter algo de suave nessa vida dura dele. Posso ver agonia também. Angústia. Vejo a angústia vencer a suavidade, ganhar a frente e fechar sua expressão, de modo que tudo o que resta são os seus olhos furiosos.

– Fique com a Jim. É tudo o que quero de você.

Ele se levanta e sai da sala, como se fosse algo normal a fazer. Levantar-se no meio de tudo, passar por cima do bebê engatinhando, atirar o prato na lata de lixo e ir embora.

Ir para onde quer que seja. Algum lugar aonde eu não possa segui-lo. Penso em pegar um carro emprestado e perguntar onde fica a casa de Bo. Eu poderia bater à porta, encontrar Ruggero e encurralá-lo. Poderia colocar as mãos no peito dele e empurrá-lo.

Diga o que você está pensando. Admita o que eu significo para você. Fale comigo sobre o que você vai fazer agora que ele está morto. Prometa que está voltando para mim, me convença de que me ama, diga que sente muito.

O que me impede é quanto eu o desejo. Quero segui-lo da mesma maneira que Jim me segue. Busco conforto nele. Só que, neste momento, ele está sofrendo muito mais do que eu. Essa casca que ele criou é a única defesa que tem.

Eu estou ali por ele. Não por mim mesma. “Fique com a Jim”, ele disse.

É o que faço.

Meu terceiro dia em Silt é como os dois primeiros.

Ruggero se mostra ausente e se recusa a responder às minhas mensagens de texto. Meu pai me liga e eu o ignoro. Quatro vezes. Não posso ficar pensando no que está acontecendo em casa, não se eu quiser permanecer sã. É demais.

Na verdade, não suporto a ideia de conversar com meu pai no momento. Ele está obcecado com o julgamento. Conversar com ele sobre o mesmo assunto consumiu todo o meu verão. Ao acordar, às vezes eu me sentia como se estivesse desaparecendo. Como se não fosse nada além do que sobrou do ano anterior: do que aconteceu com Lionel, do que aconteceu com Ruggero.

Em vez de atender as ligações do meu pai, volto ao meu trabalho de detetive, me insinuando nas conversas, aprendendo os nomes de todos os primos de Ruggero, conhecendo as personalidades das tias e dos tios dele, as disputas subjacentes e as complicadas redes de animosidade que alimentam os dramas diários daquela família.

Há muitos dramas. Entendo por que Ruggero escolheu se afastar por seis anos.

Michelle precisa ir até a delegacia para ser ouvida. Joan nos ensina a jogar gamão e fazemos um torneio na mesa da cozinha enquanto ela prepara chile, tricota e conversa ao telefone com as filhas, uma depois da outra, cada uma furiosa com alguma coisa.

Michelle volta para casa com dor de cabeça, chora quando Joan pergunta o que a polícia queria saber e cai no sono no sofá. Jim fica entediada e pede para jogar baralho. Quando Joan explica que não tem baralho em casa, Jim retruca que tem um no trailer. Também estão no trailer as roupas, os objetos de higiene, o celular, o cobertor e tudo o mais de que uma menina de 10 anos de idade necessita.

– Podemos ir buscar? Por favor, Karol?

– Eu não tenho carro, lembra? Mas posso pedir ao Ruggero.

– Ele vai dizer que não. Todos vão dizer que não.

Ela cruza os braços e se joga no chão, desesperada.

– Você sabe por que não podemos ir lá, querida.

No fim daquela tarde, Joan atendeu uma ligação na varanda. Quando voltou para dentro de casa, nos contou que a polícia classificou a morte de Bruno Pasquarelli como acidental. O corpo seria liberado e o funeral aconteceria no dia seguinte.

Naquela noite, depois que Jim caiu no sono, Joan subiu a escada que leva ao sótão.

– Olá. Posso entrar?

– Sim.

– Você pode me acompanhar em uma pequena viagem de carro?

Depois de um trajeto curto, estacionamos na frente de um trailer escuro cercado por fitas amarelas de cena de crime. A maçaneta girou facilmente na mão de Joan. Ela me mostrou como passar por baixo da fita. Legal. Arrombamento e invasão, penso.

Tecnicamente, não é mais uma cena de crime. Mas, mesmo que fosse, acho que eu estaria ali. Preciso ver esse lugar. Preciso conhecê-lo, porque faz parte de quem Ruggero é.

Este é o passado dele.

Analiso tudo – o cheiro de mofo, o revestimento barato das paredes finas. O tampo da mesa arranhado, a madeira descascada, revelando o branco do forro.

Joan sai do quarto com os braços cheios de roupas.

– Pegue um saco de lixo debaixo da pia.

Obedeço, imaginando onde Ruggero guardava suas coisas. O que ele chamava de seu e como o protegia. Ele nunca quis que eu visse isso.

Meu celular toca. Tiro o aparelho do bolso toda atrapalhada, aceitando a chamada sem querer.

– Karol? – pergunta meu pai.

– Oi, papai.

– Eu estou ligando para você o dia inteiro!

Joan sai com mais uma carga de roupas. Apoio o telefone no ombro e abro o saco de lixo. Ela enfia as roupas lá dentro.

– Desculpe, estou ocupada.

– Fazendo o quê?

Arrombando. Invadindo a privacidade do homem que eu amo. Dando murro em uma ponta de faca. Só que eu não acho que Ruggero seja mesmo uma ponta de faca, embora aja de maneira tão inflexível quanto uma.

– Não posso falar agora – digo a meu pai.

– Quando você pode conversar?

– Não sei. Eu ligo para você.

– Você vai ter que fazer melhor do que isso. Eu marquei uma reunião para terça, porque tenho algumas perguntas sobre a queixa. Preciso que você avalie algumas coisas antes. Você estará de volta? Ou...

Não consigo escutar. Do lado de fora, ouço o barulho de alguém se aproximando. Luzes atravessam a janela e iluminam o local, revelando um detalhe sombrio no papel de parede.

Vários respingos.

Sangue.

Desligo o telefone.

Joan sai com um punhado de bijuterias e o baralho de Jim.

– Vamos sair daqui – diz ela.

Quero me mexer. Fugir. Mas fico parada mais um minuto na mesma frequência que os pesadelos de Ruggero, porque, durante muitos anos, fugir também era impossível para ele. Voltamos para a casa de Joan com as janelas do carro abertas. Fico revirando o celular na mão, pensando no meu pai.

O pai de Ruggero está morto. Eu vi o sangue dele. Joan deve ter visto também. A vida do filho dela, respingada nas paredes. Desperdiçada. Fui até ali para ajudar, mas havia tão pouca coisa que eu podia fazer. Tudo o que posso fazer é ficar. Amá-lo. Esperar.

Levo os sacos até o sótão para que Jim os veja quando acordar.

Haverá um funeral em meu quarto dia em Silt.

Ruggero está parado ao lado do caixão com a mãe. Tento não olhar, mas não consigo evitar. Suas coxas estão justas na calça do terno. O paletó está tão apertado nos ombros que ele parece um capanga de filme de gângster. Quando ele se abaixa para abraçar um dos priminhos, fico com medo que rasgue a calça.

Talvez ele tenha pegado a roupa emprestada, mas algo me diz que não. Aquele é o melhor terno dele. Talvez seja o terno que ele usou na formatura, no baile de fim de ano, não sei.

O terno não serve mais nele e eu quero chorar. Ele parece tão furioso. Obviamente não queria ir.

A mãe dele não conseguiu convencê-lo. A avó sabia que era melhor nem tentar.

Mas Jim o queria ali.

Ela está do outro lado da sala com sua tia Heather, que tem três filhos com pais diferentes e vive de pensão por invalidez no oeste de Idaho. Heather esfrega a lombar, demonstrando dor. Ficar tanto tempo parada conversando com as pessoas também me causa dor nas costas, mas eu não fui atingida por um pallet em um armazém dez anos atrás.

Estamos ali há seis horas. Está quente e seco demais, estamos cansados e não há nada para beber ou comer. De vez em quando, Jim olha ao redor até encontrar Ruggero. Os ombros dela relaxam.

Ele está se esforçando muito para fazer aquilo funcionar. Como se, caso o faça, ele próprio não precisará lidar com a situação. Mas o rosto dele me diz a verdade quando baixa a guarda. Quando deixa aquela máscara de raiva cair por um segundo, meio segundo, um instante, eu vejo.

Eu o vi olhando para Jim enquanto ela conversava com um primo adolescente mais velho, com tudo de mais sensível em Ruggero exposto em seu rosto – proteção, agressividade, medo, amor.

Meu Deus, como sinto falta do rosto dele.

Sinto falta das manhãs em que acordava antes dele e decorava seu semblante: os cílios emaranhados, o formato da boca, a cicatriz na sobrancelha.

Sinto falta das noites em que ficava sentada no sofá com ele no meu colo, o livro aberto diante do rosto. Sua cabeça pesando sobre a minha coxa. A forma como lia alguma coisa interessante e se virava para me contar, o sorriso torto e alegre, meu mundo todo repleto dele.

Quando seus olhos encontram os meus, seguro o olhar, e é o desejo que me leva até ele. É o encaixe da nossa conexão, mais forte do que nunca. É a minha esperança de que talvez eu possa dizer alguma coisa, talvez...Mas um casal chega a ele antes de mim, a mulher tocando no cotovelo de Ruggero e lhe dando as condolências. Uma mulher bonita de cabelos negros, uma década mais velha do que eu, perfeitamente arrumada. Invejo sua postura, seus seios, seu vestido fúcsia transpassado, mas, principalmente, invejo que ela esteja tocando Ruggero, e eu não.

Afasto o olhar.

Vejo o caixão aberto.

Não sei de quem foi essa ideia. Eu imaginava que estaria fechado, devido à forma como ele havia morrido, mas ali estava o pai de Ruggero, deitado como se...Nossa. Ele se parece tanto com Ruggero. A semelhança é assustadora.

Meu Ruggero, morto.

Não sou impressionável, não sou burra, mas meu coração aparentemente é. Meu corpo sente um pânico galopante. Eu começo a suar frio e lágrimas brotam dos meus olhos.

Desvie o olhar.

A mulher está abraçando Ruggero. Na ponta dos pés, pressionando os seios contra ele. É um pouco de abraço demais, não? Quadris não deveriam se tocar quando nos abraçamos em um funeral.

Desvie o olhar.

Separado deles por alguns metros, um homem conversa com a mãe de Ruggero. Mais velho, cabelos grisalhos distintos, belo terno. Michelle está chorando de novo, embora seja um digno choro de funeral. Ele lhe oferece um lencinho, enquanto o abraço ainda está rolando à sua direita. A boca dele está como a minha: os cantos caídos, como se desejasse que aquele abraço tivesse um fim rápido.

Como se quisesse arrancar o abraço deles, atirá-lo no chão, pisoteá-lo.

Desvie o olhar.

Caixão novamente. Arroto, sinto gosto de vômito, vacilo um pouco nos calcanhares e cambaleio, estendendo a mão para me segurar para recuperar o equilíbrio.

Forro de cetim branco, frio contra a minha pele.

Lembro ter lido que casas funerárias cobram uma fortuna dos enlutados por coisas como forros de cetim e urnas para guardar as cinzas. Bem, não há escolha. Eles não deixariam alguém aparecer com um pote reutilizável dizendo: “Ei, pode encher.”

Tudo custa dinheiro. A avó de Ruggero vive de pensão do governo e dos benefícios médicos que o marido morto tinha junto a um sindicato da ferrovia. Se não fosse proprietária da casa onde vive, não conseguiria sobreviver. Hoje, Michelle é quem lhe dá dinheiro para as compras da casa.

Michelle “toma emprestado” cerca de 500 dólares por mês de Ruggero, às vezes mais. Não está trabalhando desde a morte de Bruno. O tapete cor-de-rosa pálido, o silêncio de bom gosto, as fileiras de mesas laterais cobertas de flores – tudo está sendo pago por Ruggero. Ele pagou para embalsamar o homem cujos punhos acertaram seu rosto.

Olho para o cadáver de novo, porque é tudo o que ele é agora: um cadáver. Encaro o rosto dele até conseguir ver a maquiagem – rímel nos cílios, base, blush. Não é Ruggero. Apenas um cretino que doou o esperma. Fico feliz por ele estar morto.

O homem que conversava com a mãe de Ruggero toca no cotovelo da esposa e se abaixa para dizer algo em seu ouvido. Ela finalmente solta Ruggero, sorrindo e assentindo.

Eles se despedem e vão embora. Ruggero olha para mim. Vira para o caixão. Murmura:

– Fique com a minha mãe.

Pois ele que se dane. Ele que se dane por mentir para mim, por não conversar comigo e por fingir que algum dia houve outra pessoa.

Havia apenas Ruggero ali, convencendo a si mesmo que jamais poderia voltar para mim. Que jamais haveria uma forma de voltarmos a ficar juntos. Que eu ficaria melhor se ele me deixasse ir.

“Como ela é?”, eu havia perguntado uma vez a ele. “Ela faz você rir? Você a ama?”

Sem resposta. Passei um dia ruminando, analisando, conversando, bebendo e liguei para desabafar mais: “Os joelhos dela amolecem quando você a beija? Ela sorri quando você trepa com ela? Ela diz o seu nome?”

Eu estava bêbada e corajosa naquela noite. Cheia de mim, aos berros. Ruggero desligou na minha cara.

Minha melhor amiga, Carolina, teve de arrancar o telefone da minha mão, porque eu tremia de raiva. Não senti as lágrimas até ela secá-las. Examino suas costas tensas, os ombros retesados se movendo pelo salão. Eu o compreendo melhor do que qualquer outra pessoa. Eu só não sei que porra fazer com ele.

A avó de Ruggero me libera.

– Vá lá – sussurra ela, segurando o braço de Michelle.

Eu serpenteio as fileiras de cadeiras dispostas para a cerimônia que ocorrerá em meia hora, saio do salão e desço o amplo corredor principal da casa funerária, com seus sofás antiquados e os quadros a que ninguém jamais poderia se opor – na maioria, cenas bucólicas com vacas ou paisagens marinhas.

Ruggero não está à vista. Deve ter saído para fumar. Perto das portas de saída, vejo o homem que estava conversando com a mãe de Ruggero ao lado do caixão.

– Você é Karol, não é?

– Sou.

Ele estende a mão.

– Evan Tomlinson. Posso falar com você um instante?

Tomlinson. Dr. Tomlinson. Ruggero o chama de Dr. T. É o homem que pagou para Ruggero ir para Putnam.

– É claro.

Da sala onde está o pai de Ruggero, ouço uma porta bater. Alguém saindo para a rua?

– Fiquei surpreso de encontrá-la aqui – diz o Dr. Tomlinson. – Achei que Ruggero havia rompido todos os laços com Putnam.

– Ele tentou.

Ele coloca as mãos nos bolsos da calça. Os olhos dele percorrem o meu rosto, avaliando. Acho que encontra o que quer, porque diz:

– Irei direto ao ponto. Ruggero Pasquarelli trabalhar com madeira é um desperdício de vida. É um desperdício de inteligência e não gosto de ver potencial sendo jogado fora. Tenho tentado mandá-lo de volta para Putnam e espero que possa me ajudar.

Sim, eu posso ajudar. Eu quero ajudar.

– O que tem em mente?

– Como ex-aluno e grande doador, recebi a oportunidade de recomendar um aluno para uma bolsa de estudos. É uma ótima oportunidade: cobre anuidade e alojamento, e tudo o que Ruggero teria de demonstrar seria a capacidade de se beneficiar disso. Até agora, tudo certo. Não consigo pensar em outra pessoa com maior capacidade de se beneficiar dessa formação do que Ruggero. 

– Por que não recomendou Ruggero para isso antes? Em vez de pagar o senhor mesmo por tudo?

– É uma coisa nova que eu venho desenvolvendo com o escritório de auxílio financeiro desde que mandei Ruggero para Putnam. Acho que foi o meu financiamento dos estudos dele que chamou atenção.

– Entendo. E já falou sobre isso com Ruggero?

– Já e ele recusou. Não quis me dizer por quê.

– Quando falou com ele?

– Antes de o pai dele... – Ele faz um gesto ao redor, abrangendo tudo o que nos cerca.

... levar um tiro.

... morrer.

– Chegou a falar na irmã dele quando fez essa oferta?

– Não.

– Ele não vai deixá-la para trás.

– Ele é jovem demais para ser responsável por aquela menina.

Balanço a cabeça, sem querer concordar ou discordar. Claro, Ruggero é jovem demais, mas o que isso significa, de qualquer maneira? Ele tem a idade que tem. É a pessoa que é. É responsável pela irmã há muito tempo e vai cuidar dela independentemente do que o Dr. T. e eu pensemos.

Independentemente do que qualquer um pense.

– Dr. Tomlinson...

Neste instante, o diretor da casa funerária entra pela porta da frente. Está com o rosto vermelho.

– Onde está a Sra. Pasquarelli?

– Ela estava no velório.

– Não está agora. Pode me fazer o favor de ver se ela está no banheiro? É importante que eu a encontre.

– Por quê? O que está acontecendo?

– Há... algo desagradável acontecendo no estacionamento. Se alguém puder impedir...

Já estou de saída. Estou acostumada com Ruggero e coisas desagradáveis. Ele tem o mau hábito de bater em vez de pensar. Eu tenho o mau hábito de ir de encontro a seus socos.

Do lado de fora, encontro uma pequena multidão amontoada entre duas fileiras de carros. Tento descobrir o que está acontecendo, mas não tenho certeza do que estou vendo.

Ruggero está segurando o tio Jack longe de um homem que eu não conheço.

– Falta de respeito! – O tio dele está gritando. – Não há desculpa para esse escroto!

O cara com quem ele está gritando tem a cabeça raspada. Parece um muro dentro de um terno.

Tenho uma ideia de quem se trata quando ele se encolhe diante da palavra assassino.

Bo.

Outros também estão gritando, aumentando o coro de vozes. Jim está no meio das pessoas atrás dele, pálida, calada.

– Acalme-se! – Ruggero diz para o tio.

Jack é filho de Joan e irmão do pai de Ruggero. Ele não trabalha. Ouvi a mulher dele, Stephanie, dizendo à tia de Ruggero, Laura, que ela pôs as crianças na cama na noite anterior e depois passou duas horas andando de carro atrás dele para poder arrastá-lo para casa e deixá-lo sóbrio para o funeral.

Porém, ele parece bem longe de estar sóbrio.

– Eu vou me acalmar quando esse filho da puta for embora da porra do funeral do meu irmão!

– Ele veio prestar sua homenagem.

– Ele devia estar na cadeia!

– Isso é a polícia que deve decidir.

– Ele matou o Bruno, Ruggero! A sangue-frio, porra! Não acredito que você está do lado dele. Morando com ele, andando por aí na caminhonete dele!

Consigo sentir o cheiro de bebida vindo de Jack. Procuro a mãe de Ruggero, sabendo que Bo e ela são os dois polos de todo este conflito. Dois pontos em um triângulo cujo terceiro ponto foi removido.

Quando a encontro, entendo que a situação vai piorar.

Uma vez, saí com o meu pai depois de uma tempestade e vi um poste de telefone caído na rua. A ponta de um fio de energia soltava eletricidade na noite escura. Era assim que estavam os olhos da mãe de Ruggero. Um monte de energia solta e faiscando. Faltando apenas um mínimo toque para provocar danos além de qualquer medida.

– Você tem coragem de vir aqui? – pergunta Michelle.

Ela levanta o queixo. Por um brevíssimo instante, vejo uma forte semelhança com Ruggero. Está no maxilar dela. No fogo em seus olhos.

– Depois do que fez, você tem coragem de vir aqui?

Ela está falando cada vez mais alto.

– Depois do que me disse, do que prometeu, está perturbando o funeral dele? A porra do funeral dele, Bo? Você o tira de mim e não consegue me deixar sequer isso?

Ela está andando a passos largos na direção dele, cada vez mais exaltada. Os protestos de Bo são baixos demais para afetar o ímpeto crescente dela. Seus xingamentos caem sobre ele como chuva.

Sombrios e frios.

Eles o cobrem e ele endireita os ombros. Olha à distância, para além dela. É só quando ela tenta lhe dar um tapa que Bo a segura. É o suficiente. Ela tenta arrancar o braço, grita de dor ao não conseguir, e a pequena multidão é dominada pela sede de sangue, uma verdadeira onda de impulsos medonhos.

Eu queria evitar que a situação piorasse ainda mais, mas como? Ninguém tem chance de impedir aquilo. Eu esperava que fosse possível contar com Stephanie para evitar que o marido se comportasse como um cretino, mas a empolgação em seus olhos diz que ela adora aquilo. Heather não é alguém com quem se possa contar. Os primos são estranhos para mim. O diretor da casa funerária desapareceu.

Meu olhar cruza com o de Ruggero. Ele apenas sussurra “Jim”.

Procuro a maneira mais rápida de chegar a ela. Atravesso o espaço vazio entre Bo e Ruggero e passo por baixo dos braços estendidos de Ruggero.

– Venha comigo. Precisamos encontrar a sua avó.

Ela está olhando para Bo.

– Ele não deveria estar aqui.

– Eu sei. Vamos.

Puxo o braço dela. Juntas, entramos na casa funerária, à procura de Joan. Saguão, banheiro, corredor, sala do caixão. Nós a encontramos em uma sala reservada. Quando conto a ela o que está acontecendo, ela simplesmente fica sentada lá, olhando para uma cruz iluminada.

– Por favor – imploro.

Os olhos dela encontram os meus. Ela parece estar acostumada com esse tipo de coisa. As pessoas lá fora são sua família. Ela os fez com o próprio corpo, ela os viu fazendo outras pessoas, desgastada por anos desse tipo de comportamento.

Problemas com bebida, problemas de saúde, abuso, alienação, violência, morte.

Gostaria que ela ao menos tivesse a chance de enterrar o filho imprestável com alguma dignidade, mas quero mais ainda que ela interfira e ajude Ruggero.

– Ele está sozinho lá fora.

Ela fecha os olhos. Suspira. Fica de pé. Quando passa pela porta, quero ir junto, mas fico preocupada com Jim. Não posso protegê-la e ficar com Ruggero ao mesmo tempo.

Morro um pouco por dentro por não saber como ele está.

– Você fica aqui? – pergunto para Jim.

Ela morde o lábio. Balança a cabeça.

– Eu preciso deixar você longe dos problemas, mas o seu irmão...Está lá fora. É a única coisa que me importa.

– Você realmente o ama, né?

Sinto as lágrimas subindo, mas respiro fundo e as engulo de volta.

– Sim.

– Eu não vou sair daqui. Vou ficar na porta, para ver o que está acontecendo.

– Está bem.

Corremos até a parte da frente da casa funerária. Estou na metade do saguão quando Jim segura o meu cotovelo.

– Karol?

– Sim?

– Eu sinto muito.

“Sinto muito.” Como se aquilo fosse culpa dela.

Ouço sirenes ao longe. O diretor da casa funerária chamou a polícia? Parece um exagero até eu sair pela porta e deparar com um desastre. Vejo um homem de terno dando um soco. Uma mulher se balançando de salto alto, dobrada ao meio. Ouço um apito agudo e o barulho de osso contra osso.

Vejo sangue espirrando.

Isto é uma briga, penso. É assim que é uma briga.

O caos é aleatório e eu não consigo encontrar Ruggero, não consigo sequer penetrar a primeira camada de corpos arfantes, o que para mim é difícil compreender. Há... vinte pessoas ali? Vinte e uma? Eu deveria conseguir ir para o meio delas.

Tento, mas o meu instinto de autopreservação ainda funciona. Toda vez que um quadril, um punho ou um cotovelo vem na minha direção, eu recuo.

Então, de repente, a muvuca explode e vejo a mãe de Ruggero e Bo. Ele a segura por trás. Ela está completamente enlouquecida nos braços dele, gritando obscenidades, tentando se soltar. Seus cabelos estão desgrenhados, a voz rouca, rímel escorre pelo seu rosto.

Olho para a entrada. Jim está onde disse que estaria... assistindo àquilo.

Eu sinto muito também, Jim.

Bo está tentando tirar Michelle do meio do tumulto. Percebo que a avó de Ruggero está ajudando – foi ela quem abriu caminho, é dela o apito agudo que fica atravessando o barulho. Ruggero está mantendo a multidão longe de Bo.

Ele empurra alguém. Dá um soco. Alguém o acerta no rosto, atirando sua cabeça para trás, e eu saio correndo na direção dele.

Os gritos da sirene cortam o céu.

Um policial força Ruggero para dentro de uma viatura. A testa dele está sendo empurrada contra o metal, a costura dos ombros do paletó do terno aberta, exibindo o branco da camisa.

– Com licença – agarro o braço de uma policial que está passando. – Com licença!

Ela me dispensa, falando no rádio. Chego mais perto do carro e tento atrair a atenção do cara que está segurando Ruggero.

– Ele está sendo preso? E os direitos dele? Ele não fez nada, não foi culpa dele, ele não é um criminoso... Caramba, você não está me escutando...

– Ka! – grita Ruggero.

Como ele parece mau com aquele hematoma crescendo no rosto. Muito parecido com o homem que acham que ele é. Um valentão brigando em um funeral.

– Pare com isso – diz ele. – Deixe os policiais fazerem o trabalho deles.

– Mas não foi culpa sua!

– Eles vão entender isso, porra, se você lhes der alguns segundos de paz.

Quando um terceiro policial segura meu braço com força e me leva para longe de Ruggero, mordo a língua. Acabo encostada no prédio, ao lado de Joan.

– Eu não acredito nisso. Ele estava tentando impedir isso.

– Se ele controlar o gênio, vai ficar bem.

– Não há nada bem na situação.

Pressiono a parte de trás da cabeça na lateral do prédio e tento respirar. A mãe de Ruggero está amontoada na traseira de uma viatura, onde deixa abruptamente o estado catatônico para começar a gritar novamente com sua voz rouca e furiosa.

– O funeral dele! – grita ela. – A porra do funeral dele!

Bo é levado para a delegacia em outro carro. O tio de West, Jack, vai para o hospital com um nariz quebrado, e o resto de tias, tios e primos se dispersa. Não sei se vão para o hospital, a delegacia ou se apenas cansaram da cena toda.

Ruggero ganha permissão para se levantar e dá o seu depoimento no estacionamento. Um policial se aproxima para falar comigo. Digo a ele o que sei. Levo mais tempo do que imaginaria e, quando termino, não sei onde Ruggero está.

O estacionamento está quase vazio. O diretor da casa funerária segura o meu cotovelo.

– Vamos entrar, senhorita?

Não consigo pensar em nenhum motivo para não segui-lo. Meus pés funcionam sozinhos e por conta própria. Sinto o rosto tenso. Acho que devo estar um pouco assustadora.

Ele me leva até a sala do velório, onde um pequeno grupo está parado diante do caixão: Ruggero, Joan, Frankie, os Tomlinson. Foi tudo o que restou dos presentes, suponho, porque assim que ele me deixa ao lado de Ruggero, assume seu lugar no púlpito ao lado do caixão.

– O que está acontecendo? – pergunto a Ruggero.

– O funeral.

– Agora?

Ele encontra a minha mão, aperta uma vez com força e solta.

Logo fica claro que a programação havia sido atirada pela janela quando somos todos convidados a ir para o outro lado da sala, para trás de um painel coberto de tecido, enquanto o caixão é fechado.

Os Tomlinsons mantêm uma conversa meio irritada, meio sussurrada no canto. Se me perguntasse, eu diria que o Dr. T. queria voltar para casa, mas a esposa se negava a ir. Não consigo imaginar por que ela ficaria.

Jm está encolhida em uma cadeira, com os braços ao redor dos joelhos. Ruggero está sentado ao lado dela. Toda a raiva dele foi substituída por uma máscara impassível. Lembrei por um segundo quando ele vivia em Putnam e nós dois estávamos negando o que sentíamos um pelo outro.

Eu não quero nada de ninguém, diz aquela expressão.

Ela me faz querer entregar o mundo de bandeja para ele. Dar a ele absolutamente tudo que ele poderia desejar. Faz com que eu queira me desculpar pela carga que ele recebeu na vida e pelas diferenças entre os nossos mundos, porque Ruggero é incrível, e a vida dele, uma droga. A vida dele vai ser sempre uma droga se ele continuar ali, ao redor da mãe, dando a si mesmo o trabalho de manter a ordem. Não há nada que eu possa fazer quanto a isso.

Depois de um tempo, o caixão é levado para fora em uma espécie de pallet. Ele é colocado dentro do carro fúnebre, para seguir colina acima até o cemitério, que fica logo atrás da casa funerária.

Ruggero permanece impassível até que somos convidados a atirar flores sobre o caixão. Então ele se afasta do círculo de presentes, agarra uma pá e começa aos poucos a cobrir o caixão de terra.

Não era isso, evidentemente, que o diretor da casa funerária tinha em mente, mas ninguém parece inclinado a interrompê-lo. Joan leva Jim de volta para dentro. A Sra. Tomlinson a acompanha. O Dr. Tomlinson nem se aproximou do túmulo.

Ruggero e eu continuamos ali, com o diretor da casa funerária, que me lança um olhar de súplica.

Encolho os ombros.

Ruggero continua manejando a pá. Tem os olhos febris e o rosto vermelho. Começo a me perguntar quanto tempo leva para se encher uma cova. Não consigo me imaginar deixando-o ali sozinho.

Vendo uma segunda pá na traseira da caminhonete, eu a pego e a levo até o monte de terra. O olhar de Ruggero trava no meu. Nós nos encaramos. Não há carinho em nossos olhares. É um confronto de vontades.

“Fique fora disso, porra”, é o que ele diz com o olhar dele.

“Quero ver você me obrigar”, é o que respondo com o meu.

“Eu não quero você aqui. Você não pertence a Silt. Eu não preciso de você.”

“Você não sabe de que porra precisa. Pare de ser tão teimoso. Aceite a minha ajuda.”

O que eu quero é largar a pá e ir até onde ele está. Passar os braços ao redor dele, pressionar o corpo contra o dele, beijá-lo até ele não ter outra escolha a não ser me beijar de volta – como costumava fazer, as faíscas se transformando em chamas tão rapidamente que às vezes não conseguíamos tirar as roupas rápido o bastante, não conseguíamos fazer mais do que abrir os jeans e empurrar as roupas de baixo para fora do caminho.

É inacreditável como eu quero aquilo de volta. A urgência com que eu gostaria que conseguíssemos nos perder um no outro, encontrar alegria novamente.

Mas eu compreendo que não é o que ele quer de mim.

Tiro os sapatos de salto, afundo a lâmina na terra, carrego-a pelo ar até ela pairar sobre a superfície preta brilhante da caixa em que o pai de Ruggero irá apodrecer.

O barulho da terra pousando no aço me dá uma satisfação barata.

Fico atrapalhada com a pá, perdendo mais terra do que carregando, deixando um pouco cair sobre meus pés, onde ela penetra entre meus dedos, úmida e lamacenta. Depois de poucos minutos, minhas costas começam a doer. E então as minhas mãos.

Ruggero se move fluidamente, o corpo agindo graciosamente. Ainda assim, leva muito tempo. Bolhas começam a se formar nas minhas mãos, mas não paro.

O sol cai na direção do horizonte.

Quando terminamos, ele pega a minha pá e devolve as duas à caminhonete. Fica parado ao lado do túmulo, as mãos soltas e vazias.

Parece um menino, tanto que eu compreendo visceralmente que ele já foi tão jovem quanto Jim um dia. Ele foi um menino que queria um pai e não teve nada além de decepção. Um garoto que foi socado, chutado, abandonado e então orientado a parar de se fixar no passado. A deixá-lo ir.

A mãe dele, a avó, toda aquela família – todos pediam sempre que ele desse mais uma chance ao pai. Quem sabe dessa vez Bruno fosse diferente. Quem sabe dessa vez a vida fosse justa e boa, e a felicidade fosse possível.

Mas nunca era. Não para Ruggero.

Não sei como ele consegue sobreviver ali.

Não sei como ele não está destruído. Todo este lugar é lindo. A estrada sinuosa do aeroporto, as árvores nas montanhas, os montes e o mar. Não é justo que seja bonito, porque é absurdamente cruel com o homem que eu amo.

Se Ruggero ficar ali, este lugar irá matá-lo.

Eu me aproximo, dou a volta na cova até sentir o calor emanando do braço dele. Eu o toco, encostando a mão na curva de seu ombro.

– Ruggero.

Não é justo pedir qualquer coisa a ele no momento, mas quero que ele se apoie em mim. Quero lhe dar descanso, esquecimento, fuga. Alguma coisa. Eu venho tentando lhe dar espaço, tentando não desencavar sentimentos com os quais ele não pode lidar quando ele já tem tanto com que lidar, mas não suporto mais. Não acredito que não ter conforto seja melhor para Ruggero. Como isso pode ser melhor? Para quem?Certamente não para Ruggero.

Vou até a frente dele e deslizo as minhas mãos para o espaço entre os braços e as laterais do corpo dele. Repouso o rosto no peito arfante dele.

– Sem compromisso. Sem nada... Só, se você quiser esquecer por uma hora. O que quer que você queira.

Aperto os braços ao redor dele. Ele está mais fechado do que costumava ser. Toda aquela armadura entre ele e o mundo. Quero que ele saiba que eu a vejo ali. Se quiser tirá-la comigo, ele pode.

Eu o amo, e isto é tudo o que tenho a oferecer. Eu o aperto contra o meu corpo o mais forte possível, até ele ceder. O peso dele recai sobre mim. Não todo, mas uma parte. Uma pequena rachadura no muro de concreto impassível de sua abnegação.

A mão dele vai até a minha nuca, pressionando meu rosto contra o som áspero de sua respiração.

– Ka – diz ele contra os meus cabelos.

É a primeira vez que ele diz meu nome como costumava dizer. Como se fosse precioso. Como se eu fosse importante.

– Eu posso ir até a casa do Bo – sussurro. – Ou podemos encontrar um motel. O que você precisar.

Quando levanto o queixo, ele está de olhos fechados. Eu beijo sua boca. Ao redor dela. O inchaço do machucado na maçã do rosto. Os lábios macios, os cílios abaixados. O garoto que eu amo.

Beijo abaixo do maxilar dele, pondo a língua para fora para sentir o sabor do suor dele. Ele levanta o meu queixo e, quando noto, está me beijando de volta.

Não é um reencontro suave – é um mergulho direto até onde costumávamos estar, uma imersão no desejo cego, na tensão e no sexo. A língua dele, a frustração, o gosto, o calor, os lábios dele nos meus, as mãos dele me guiando, me dando tudo aquilo, tudo, e eu me deixo levar.

Inebriada com o gosto dele, viajando nas possibilidades, digo a ele:

– Vai ficar tudo bem. Vamos passar por isso.

E é o que basta para destruir tudo. Ele se afasta. Quando abre os olhos, posso ver meu erro escrito ali. O que para mim parece esperança não é para Ruggero. É apenas um lembrete de que ele não pode ter tudo o que quer.

– Não existe “nós”. – Ele dá um passo para trás. Passa as mãos sobre as coxas. – Eu não preciso de nada de você.

Eu sei o que ele está fazendo. Claro que sei. Ele sabe também. Afinal, suas palavras são absolutamente ridículas. Ainda estou com o peito arfando. Meus lábios estão úmidos e inchados.

Todo o meu corpo sente desejo, mas Ruggero diz:

– Você precisa voltar para casa.

Isso dói. Meu Deus. Dói demais.

Mesmo que doa, eu não acredito nele. Eu tive Ruggero dentro de mim. Nossos olhares travaram um no outro naquela primeira estocada profunda. Sei como ele fica quando me quer. Sei como beija quando está sofrendo, quanto deseja o esquecimento que nossos corpos conseguem produzir juntos, o conforto que sentimos depois, o espaço silencioso para conversar, para ele me dizer o que o está afligindo.

Eu sei melhor do que ninguém ler a linguagem de Ruggero negando a si mesmo o que quer. Então eu o deixo descer a colina sozinho. Observo suas costas largas ficando menores, eu o vejo tirar o paletó, enrolá-lo e atirá-lo na lata de lixo do lado de fora da casa funerária. Eu o vejo desaparecer no canto do prédio e conto o tempo mentalmente.

Dez minutos.

Depois vou atrás dele.

A casa funerária está em silêncio, como um consultório médico ou uma capela, lugares em que as pessoas não devem se divertir.

A porta para uma das salas de velório está aberta, mas não há ninguém ali. Ninguém no corredor, ninguém na área de convívio familiar.

Caminho até o estacionamento. Embora ainda haja luz suficiente para enxergar, está escurecendo.

Quero um banho quente e uma cama, e vou fazer Ruggero me levar para a casa de Bo esta noite. Mesmo que ele não me toque, estou cansada de dormir sobre quadrados de tapete em um sótão que me faz espirrar. Não quero acordar amanhã com os olhos vermelhos e remelentos.

O sedã de Joan não está mais ali. Ela deve ter levado Jim de volta para casa.

Vou até a caminhonete e confiro a porta. Destravada. Sentada no banco do carona, mando uma mensagem de texto para ele – Onde você está? – então olho para minha caixa de e-mails.

Cansada e sozinha, envio uma mensagem para o meu pai: Só para dizer que está tudo bem.

Penso em como tenho sorte, como sou extraordinariamente sortuda. Estar com a família de Ruggero, ver como eles são, me ajuda a lembrar que a minha vida foi basicamente incrível de todas as formas que importam. Claro, perdi a minha mãe, mas eu era pequena demais para lembrar como era tê-la.

Meu pai sempre esteve presente para mim e para as minhas irmãs. Mal-humorado e controlador, é verdade, mas nunca duvidei de que ele sempre quis o melhor para mim. Nem por um segundo. E quaisquer que sejam as pequenas diferenças que tenho com ele, elas sempre serão apenas isto: pequenas.

Mando mais uma mensagem: Que bom que você é meu pai. Amo você.

Espero um minuto, mas ele não responde. Nem Ruggero.

Deito a cabeça no assento e fecho os olhos, esperando que Ruggero apareça antes de ficar frio demais. Mesmo no verão, faz frio aqui à noite. Alguma coisa a ver com as montanhas. 

Se eu perguntar, Ruggero deve saber por quê.

Pego os fones de ouvido na minha bolsa e ponho uma música de que gosto repetindo em volume baixo. Lentamente, o sono me pega, me levando para dentro da canção, fazendo com que eu me sinta segura.

Desperto com uma batida. Aperto o celular na mão. Quando sento e olho pelas janelas, não vejo nada. Está totalmente escuro agora. O estacionamento não passa de uma faixa de cascalho semi iluminação

Ouço uma risada de mulher, baixa e íntima.

Mais uma batida – um corpo fazendo contato com a lateral da caminhonete.

Um barulhinho contra o vidro. Levanto mais a cabeça para ver alguma coisa. Uma sombra com as bordas indefinidas. Percebo se tratar de cabelos de mulher quando ela diz:

– Ninguém pode nos ver aqui.

Uma nuvem de cabelos pretos e as costas de um vestido que seria roxo se houvesse luz suficiente para diferenciar a cor da sombra. A mulher que o abraçara por tempo demais ao lado do caixão. A Sra. Tomlinson.

A voz de Ruggero responde:

– Você precisa ficar quieta.

– Sabe que eu não consigo.

– Precisa de alguma coisa para enfiar na sua boca?

Ela ri.

– Vire-se – ordena ele.

Uma batida na janela. A aliança de casamento dela.

É a aliança que torna tudo real. A faixa branca dos dentes dela. Estou zonza. Tão desorientada que fecho os olhos.

Isso piora a situação.

Por um longo instante, sinto que estou caindo. Uma carga de raiva, de desgosto. Isso não pode estar acontecendo. A aliança dela bate contra o vidro de novo.

– Isso. Isso, eu senti falta dessa boca.

Não ouço o que Ruggero diz. Não consigo vê-lo. Não consigo vê-lo porque ele está ajoelhado com o rosto entre as pernas dela.

Quando eu tinha 3 anos, caí em um lago no inverno. Fomos até uma doca para jogar farelos de pão para os patos e meu pai deve ter tirado os olhos de mim por um segundo. Recordo a surpresa ao cair, mas não me lembro de sentir medo na água. Apenas de afundar num frio absoluto, uma descida tão inevitável que eu a aceitei.

É como estou me sentindo no momento. Sei que está acontecendo. Estou com raiva. Minhas mãos estão tremendo e estou nauseada. Mas tudo isso é tão desimportante quanto os gritos frenéticos das minhas irmãs.

Estou com frio.

Envolvida.

Afundando.

Eu me sinto à deriva e não me mexo enquanto os sons que ela faz se tornam mais frenéticos.

Poderíamos comparar impressões.

Ele está fazendo aquela coisa com a língua, Sra. Tomlinson?

Quantas vezes vocês fizeram isso? Começou quando ele era seu caddy?

Que idade ele tinha na época? De quantas formas diferentes você o usou?

Ele a está usando agora.

Não são os meus pensamentos. É apenas uma defesa aleatória. Um guarda desbocado na porta. O eu verdadeiro está inundado de raiva, vergonha e tristeza.

Preciso afundar. Deixar a água tomar conta de mim. Fico incomodada quando o celular vibra na minha mão. Olho para a tela e vejo que tenho mensagens novas do meu pai e de Ruggero.

No escritório da casa funerária, diz o primeiro texto de Ruggero. Ainda vou demorar alguns minutos.

Concluindo tudo c/ o diretor.

Se estivéssemos dentro da casa funerária, eu teria de sentir alguma coisa no momento. É para isso que servem esses lugares que criamos para receber a dor, para permiti-la e calá-la ao mesmo tempo.

Mas na cabine da caminhonete dele, sendo dominada pelo frio com o cheiro de tabaco nas minhas veias, estou protegida de precisar sentir. Suspensa, por ora.

Leio a mensagem do meu pai enquanto Ruggero leva a Sra. Tomlinson ao orgasmo: Amo você também, C. Quais são as novidades aí – alguma ideia de quando voltará para casa?

Chega uma terceira mensagem: Avise quando vier, vou buscar você.

Ela faz muito barulho ao gozar. Eu não sabia que as pessoas faziam tanto barulho assim fora dos filmes. Esta cena é uma paródia, um filme terrível que eu não consigo desligar.

Barulho de cascalho. Ruggero se levantando. Ele deve ter visto o interior da caminhonete iluminado pela tela do meu telefone. Ela também, agora que os dois estão de olhos abertos.

Os sons que eles estão fazendo provavelmente significam alguma coisa.

Eu deveria me importar. Deveria dizer alguma coisa quando Ruggero abre a porta da caminhonete e olha para mim com uma espécie de orgulho inflamado, as sobrancelhas levantadas de um jeito arrogante que me diz que ele sabia.

Ele sabia exatamente o que estava fazendo.

Não digo nada. Nem mesmo quando ele me chama:

– Karol – diz ele. Meu nome inteiro, que ele raramente usa.

Eu me recuso a falar mesmo quando ele me segura pelos ombros e me sacode.

– Diga alguma coisa, porra.

Estou afundando e não preciso falar com ele.

Eu não preciso fazer nada.

Ele me leva para o aeroporto de manhã.

Subimos a montanha. Descemos a montanha. Sem uma palavra. É apenas quando vejo uma placa dizendo que estamos a 30 quilômetros de Eugene que começo a pensar como acabou. Quero dizer, como realmente acabou.

Quando Ruggero deixou Putnam no ano anterior, eu o levei até o aeroporto e não sabia se voltaria a vê-lo. Foi horrível, mas não tão horrível como esse trajeto de carro, porque o que eu não compreendia no ano passado era que tudo naquela partida estava cercado de esperança.

Eu não sabia se veria Ruggero novamente, mas esperava que sim.

Ele não sabia se voltaria a Putnam, mas eu sabia que ele esperava também. Nós tínhamos esperança de que pudéssemos ser amigos. Pudéssemos ser mais. E a lenta morte dessa esperança – a asfixia de um futuro – é algo difícil de enfrentar. Não é de admirar que ele não tenha suportado.

Não é de admirar que ele tenha me dito que havia conhecido alguém, apenas para dar a si mesmo um motivo para parar de ligar. Para me dar um motivo para parar de esperar o telefone tocar. Tudo aquilo foi difícil.

Mas não tão difícil como isto.

Isto é a desolação de uma erupção vulcânica – tudo quente e negro, coberto de enxofre, o céu da cor das cinzas. Não há nada de que a esperança possa se alimentar neste carro. Ele acabou com tudo.

Ele matou tudo de propósito.

– Eu sei o que você fez – digo no silêncio.

As mãos dele pressionam o volante.

– Diga o que você precisa dizer, Ka.

– Você está esperando que eu grite. Aposto como seria mais fácil se você pudesse se lembrar de mim assim. Você poderia pensar em como terminou, e então não se lembraria do resto.

Ele fica em silêncio. Eu não.

Eu nunca fui uma pessoa quieta, e tudo o que aconteceu comigo no ano anterior acabou com qualquer resquício de quietude que poderia haver em mim. Eu gostaria de ter um microfone naquele momento. Um sistema de som e uma multidão de mil pessoas.

Queria que todo o mundo pudesse escutar.

– Eu amo você.

Essa é a primeira coisa que eu tenho a dizer a Ruggero Pasquarelli, e ouço sua surpresa no som que faz sua respiração.

– Eu vim para cá porque amo você, e ajudei você da melhor forma que pude porque amo você. Eu preciso que você saiba que não há nada que eu não faria para que as coisas dessem certo entre nós. Eu não sabia disso quando cheguei aqui, mas certamente sei disso agora. Se você me pedisse para ficar um tempo fora da faculdade, para eu me mudar para cá, ajudar a sua irmã a entrar nos eixos, eu teria feito. Por você. Se me dissesse que queria que eu a criasse, diria que sim, claro, mesmo sendo assustador. Por você, eu faria isso. Tudo o que eu disse para você foi sim, e eu ia continuar dizendo sim, porque você valia a pena. A forma como você fazia eu me sentir. A sua cabeça, o seu coração e você. Tudo em relação a estar com você valia a pena.

Como ele está com os olhos na estrada, eu olho para ela também, mas não há nada lá.

– Olhe para mim.

Ele não olha.

– Olhe para mim – repito. – Eu mereço isso de você.

A caminhonete diminui a velocidade. Ele sinaliza e para no acostamento. Desliga o motor. Ele se vira para mim e tudo fica mais difícil. Mas já está tão difícil que não há por que recuar agora.

– Você precisa ir embora de Silt – digo a ele. – Leve a sua irmã, porque Deus sabe que você não a deixará, mas você não pode ficar. Você nunca será feliz aqui. Não sabe como ser feliz aqui.

Ele desvia os olhos de mim. Olha pela janela, na direção das montanhas.

– Um dia, quando eu precisava escutar, você me disse que eu não havia feito nada de errado. Agora é a minha vez: você fez uma coisa errada. Aquele teatro ontem à noite? Foi um teatro. Eu não vou fingir que era algo que você queria, que você se deixou levar pelo desejo ou alguma merda dessas, porque tudo foi absolutamente calculado. Foi maldoso e foi errado. Mas eu sei o que você fez, Ruggero. Eu sei por que você fez. E da mesma forma como eu precisava ouvir que eu não havia feito nada de errado com Lionel, que eu não estava errada mesmo enquanto dezenas de cretinos na internet ficavam falando na minha cabeça todos os dias...

Ele olhou para mim.

– Eu nunca contei isso a você? – pergunto. – É. Vozes na minha cabeça, insônia, tristeza. A coisa toda. E foi você quem me arrancou daquilo. Foi você.

– Você fez isso sozinha.

– Todo mundo faz tudo sozinho, Ruggero. Todo mundo. Mas as pessoas fazem as coisas porque têm um motivo. Você foi o meu motivo. Você me disse que eu estava bem, que eu não estava estragada, que eu não estava errada. E eu acreditei em você. Você fez uma diferença.

Cruzei as mãos no colo. Sem saber se deveria estar dizendo aquelas coisas. Sem saber, na verdade, se faria alguma diferença para ele.

– Acho que não sou a pessoa de quem você precisa ouvir isso.

Há um avião voando baixo no céu. Pousando no aeroporto. Olho para ele de novo.

– Mas posso ser a única pessoa que vai dizer. Seu pai era uma droga. Sua família... bem, ninguém quer ouvir nada de ruim sobre a própria família, mas, Ruggero, eles nunca vão parar de tirar coisas de você. Nunca. Você nunca vai olhar para a sua mãe, a sua irmã e a sua avó e pensar que pode seguir com a sua vida. Isso não vai acontecer, assim como eu não vou conseguir tirar as minhas fotos da internet. Você precisa encontrar uma forma de sair dessa. Se não fizer isso, simplesmente não terá vida alguma. E essa é a pior coisa que eu posso imaginar.

Não sei como ele se sente, mas esta é a única chance que eu vou ter. Eu vou expor tudo, porque ele me ensinou a deixar de bobagem.

– Sabe o que realmente me fez chorar ontem à noite? Mesmo estando furiosa e enojada, pensando em como você me obrigou a escutar aquilo, é ainda pior pensar que vou embora e você vai voltar para Silt e acabar morrendo por lá.

Seco o rosto. Minha mão está toda suja de rímel. Que desastre.

– É um horror, sabia disso?

– Não estou entendendo por que você está sendo...

– Porque eu amo você. Eu não quero, está bem? Acho que algumas coisas são tão difíceis que não deveríamos sentir, só que ninguém consegue tirá-las de nós. Há sentimentos tão ruins, tão obviamente doentes, que não deveríamos ter de senti-los. Mas eles existem. Eu ainda amo você e eu nunca mais vou vê-lo, nunca mais. Você fez isso conosco. Não foi o seu pai, nem a sua família, apenas você. Para eu poder atingi-lo. Eu poderia ficar furiosa com você ou sair deste carro e pedir carona até o aeroporto, porque, puta que pariu, puta que pariu Ruggero, como você pôde fazer isso comigo? Como?

Ele seca as palmas das mãos na nuca. Deixa a testa cair sobre o volante e cobre o rosto com os antebraços.

– O que eu não posso fazer é fingir que não sei o que você fez. Ou fingir que não me importo mais com você.

Olho mais uma vez para ele. A cabeça baixa e os ombros caídos, o torso coberto por uma camiseta azul, aquelas pernas compridas saindo do short.

Estamos tão longe de onde estávamos quando nos conhecemos.

Perdidos na confusão, e não há como voltar.

– Não desperdice toda a sua vida.

Atirado sobre a direção, ele liga a ignição do carro. Posso ouvir sua respiração. Inspirações e expirações fortes, profundas. Ele demora cinco minutos inteiros para dominá-la novamente.

Estou calma agora.

Quando ele levanta a cabeça, abre o porta-luvas, cuidando para não tocar no meu joelho, e tira os cigarros de lá. O isqueiro está fora de alcance. Eu o pego e dou para ele. Encontro a pulseira dele na minha bolsa e a deixo no porta-luvas. Parece um símbolo infantil.

– E largue essas porcarias cancerígenas também.

Quando ele exala fumaça pela janela, eu a vejo desaparecer no céu. Lembro a mim mesma que aquele lugar onde estamos – todo aquele verde ao redor – veio depois de fogo e cinzas.

Há esperança no mundo. Eu só preciso encontrá-la.




Notas Finais


Espero que tenham gostado ❤
Até o próximo capítulo


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