História Iridescente - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias The GazettE
Personagens Aoi, Kai, Personagens Originais, Reita, Ruki, Uruha
Tags Aoi, Cores, Drama, Emoções, Fantasia, Gazette, Iridescente, Kai, Kouyou, Matsumoto, Reita, Romance, Ruki, Sépia, Shiroyama Yuu, Shounen Ai, Show, Sinestesia, Suzuki Akira, Takanori, Takashima, Tanabe, Uke, Uruha, Yaoi, Yutaka
Visualizações 38
Palavras 3.703
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fantasia, Fluffy, Lírica, Magia, Musical (Songfic), Romance e Novela, Shonen-Ai, Universo Alternativo, Violência, Visual Novel, Yaoi
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


7ª fic. Olá, pessoas! Apareci com uma nova história. Bem, este enredo surgiu de meus devaneios literais, contudo,não era para ser postado. Escrevi para mim há algum tempo, pois estava bem depressiva por causa de um incidente, o qual ainda não passou e acho que jamais passará. Enviei para uma amiga quando me pediu e ela gostou. Por insistência, estou postando este enredo para presenteá-la e agradecer por tudo.

São quatro pessoas homenageadas nesta história: minha amorinha Helena, meus dois pais que partiram para o céu e outro que direi apenas no último capítulo. Sem mais enrolação, notas finais são importantes.

Boa Leitura!
Desculpem os erros'

Capítulo 1 - First Show: Okuribi


Fanfic / Fanfiction Iridescente - Capítulo 1 - First Show: Okuribi

“Você riu tão brilhantemente até ontem.

Estava bem e tinha dito isso para mim”.

*

“Por quê...?”

Eis a interrogação que o garotinho de cabelos negros perpetrava à mulher que comboiava-o na extensa viagem, dentro de uma carruagem anosa. Escassas horas antes, vira repousar o consanguíneo mais novo debaixo de sete palmos de terra e sequer lagrimou ou compreendeu o que incidira tão abruptamente, tampouco despediu-se de seus amigos quando fora coagido a embarcar na carruagem para ser levado a outro vilarejo.

‘Tente seu melhor’.

‘Não perca’.

Uma voz que parecia ser quebrada.

A mulher puxou o braço para impedir que o menininho persistisse conchegando suas mangas e importunando-a com dúvidas que não valeriam à pena revides. A expressão era apática e o garotinho cansou de segredar seus “ei, moça” com a voz pueril e manhosa. Virou-se à janela e ali aleitou a cabecinha para observar as árvores retorcidas correrem na direção contrária da carruagem. Talvez sequer a natureza desejasse ir para onde ele ia.

O dia amanhece.

Cidade decorada com flores de funeral: vejo-te partir.

O carmesim de seu rosto repousando ainda permanece vagamente.

Era complicado iniciar uma nova e incógnita vida, sobretudo sem qualquer aclaração do que incidia. Uma semana antes, ele brincava de esconde-esconde com o irmãozinho mais novo, enquanto os pais anotavam coisas à mesa. Não carecia de alento repleto de regalias se pudesse saborear e repartir um pão com sua família, bebendo água que buscava no rio. Até ontem, o garotinho confuso na carruagem continha uma família e uma boa vida, mesmo sem muito dinheiro.

Hoje, vira o irmãozinho, sempre lívido, abrigar-se no chão com o subsídio de homens com pás. Vira os pais lagrimarem e discorrerem com a mulher elegantemente exótica em suas vestes emplumadas, auferindo pequenas porções de papéis e centavos. Assim que embolsaram o dinheiro, ele auferiu uma mão rude e frígida da moça franzida – que agora jazia sentada ao seu lado naquela carruagem sacudindo freneticamente ao passar pelas ruas deformadas de pedregulhos.

Quando eu olhar para trás, você estará rindo e chorando como sempre...

Pôs a cabecinha para fora e analisou o pó que voejava abandonado para trás. Era temível e indigno arrazoar que fugia de tudo: dos pais, do irmão, do passado, da monotonia e da vida. Reparou aquele infindo empíreo azul, cujas nuvens semelhavam algodões-doces de tão fofinhas e cândidas. Estava faminto, mas não por doces ou comida: o vácuo no estômago titulava-se “saudade” ou “tristeza” – ainda não definira, refletindo em tudo que repudiara forçosamente para trás.

A verdade é que tudo sobre você é tão doloroso...

Volveu a fitar a estrada que deixava para trás, idealizando os derradeiros meneios de seus pais com lábios tremulantes e descorados. Embora ele estendesse as mãos na despedida, por não cobiçar partir com aquela estranha, os progenitores uniram as deles e baixaram as cabeças. Não houve meneio para despedir-se dele ou do irmãozinho, entretanto, ele acenou à poeira com as pequeninas mãos, imaginando se regressaria um dia.

- Sente-se direito. – ordenou a mulher ranzinza e o garotinho dos cabelos e olhos negros acatou assombrado, evitando lagrimar. – Shiroyama Yuu não existe mais. Não é mais seu nome e não possui família, entendeu? A partir de hoje, será do meu jeito.

O menininho encostou as pálpebras num movimento sutil e vagaroso, içando as mãozinhas para juntá-las e rezar: “querido Deus... Jamais permita-me perder o símbolo da alegria que fora viver com minha família e verdadeira identidade. Rezo para que cuide de meus pais e irmãozinho quando eu não estiver perto... Quando estiver muito longe...”

Todos juntam as mãos e despedem-se das pessoas que não retornarão.

*

Absorto em adágios, repousava o rosto em uma das mãos, fitando o empíreo azul pela janela da carruagem. As nuvens plúmbeas apostavam corrida, bem como os domicílios do novo vilarejo em que residiria para escapar de suas consternações. O amigo, sentado à frente, era seu protetor e carregava uma espada na bainha – marco de um nobre soldado condecorado na Guerra Civil de dois anos atrás. Empregava uma faixa no nariz para acobertar o estigma que auferira em uma de suas batalhas para resguardar o amigo alheio com as nuvens.

Assistido por amigos e familiares, que defrontam-se com seus últimos momentos, você caminhará em direção a novos dias novamente.

- Kou. – avocou o nobre de espada, sem revide. – Kouyou. – nada. – Kouyou... – mesmo cantarolando, o olhar do amigo de cabelos cobre e longos jazia perdido nas nuvens. – Takashima Kouyou! – e estalou o dedo na face do outro, que enfim saiu do transe sobressaltado, rendendo uma risada do soldado. – Perdeu-se no caminho do firmamento?

- Não, só imaginei como seria voar e imergir nas nuvens... – suspirou cabisbaixo. – Ainda dói? – sinalizou com a cabeça. – A cicatriz?

- Não mais, porém, melhor escondê-la para evitar olhares tortos. – Kouyou baixou a cabeça. – Sobretudo evitar seu olhar culpado.

- Perdoe-me, Akira... – estalou os dedos em apreensão, fitando suas roupas simples em tons de sépia. – A culpa foi minha...

- Não foi, já falei. – Akira ergueu o queixo de Kouyou com a ponta da bainha, obrigando-o a olhá-lo. – Mais do que o guarda-costas do filho dos Takashima, sou seu amigo de puerícia, não sou? Ofereceria minha vida para protegê-lo.

- Não gosto de pensar que a família Suzuki é nosso vassalo, Aki. Deveria resumir-se em ser meu amigo e confidente, não meu protetor. – levou uma mão aos cabelos, enrolando-os nos dedos: sinal de ansiedade. – Não anseio sua vida em troca da minha. Desejo-te ao meu lado, porém, significa que sou egoísta e você poderá falecer a qualquer momento... Como seu pai feneceu pelo meu...

- Como seu pai pereceu por nós. – Akira franziu o cenho. – Como nossas mães deram as vidas para que viéssemos para cá ter paz. – suspirou. – A guerra já passou, Kou, entretanto, a política está mudando. Ricos enlouqueceram: é mais seguro se mudarmo-nos enquanto a poeira não baixa. Sei que não está afeito a uma vida simples, contudo—

- Sempre almejei simplicidade, esqueceu-se? – Akira sorriu, encostando os olhos e anuindo. – Não sirvo de herdeiro e não sou inteligente ou bom em algo, como você. – volveu a encarar as nuvens no firmamento azul. – Sou o garoto estúpido que sonhava em voar ao invés de prestar atenção nas aulas de violino.

- Isto não faz-te “estúpido”, Kou. Faz-te interessante. – Kouyou encostou as pálpebras e sorriu com o comentário de Akira. – Também não sou o melhor soldado e demorei a aprender manejar uma espada quando o amigo de meu pai, o piloto Matsumoto, ensinou-me. Denota que nossas chances de sobrevivência, agora completamente sozinhos, serão questionáveis.

- Se durarmos uma semana sem incendiarmos a cozinha, será um triunfo.

Gracejaram com os comentários. Perderam os pais numa tentativa de golpe perpetrado pelos moradores locais, que eram muito mais abastados que as famílias Takashima e Suzuki juntas. Como as famílias de Akira e Kouyou prezavam pelo bem da população geral, incluindo a classe menos afortunada, constituíram um perigo maior aos demais ricos e, portanto, foram dizimadas. Somente restaram os dois amigos, que agora residiriam juntos num povoado pacato, além dos cernes urbanos mais mobilizados.

Quando a carruagem sustou, Akira, fardado em azul-marinho, desceu primeiro para auxiliar Kouyou, que estava com o tornozelo torcido por causa da fuga. O soldado ofereceu alguns trocados ao cocheiro antes dele partir com os cavalos, volvendo seu olhar à morada simples que repartiria com Kouyou: tons de sépia, como qualquer civil mais pobre e como todo o vilarejo – afinal, aquele lugar não era bem cuidado pelo governo por ser área de transição de tropas militares, não servindo propriamente para moradias.

Fitou Kouyou de soslaio, percebendo-o perdido na ausência de nuanças daquele local precário, porquanto sempre esteve afeiçoado à vivacidade e multiplicidade de gradações em sua vida, que representavam suas dessemelhantes emoções. O soldado pousou a mão no ombro de Kouyou, que piscou três vezes para ausentar-se de seus devaneios e baixar a cabeça, volvendo o olhar a Akira.

- Tudo bem? – Kouyou assentiu, percebendo que a excepcional nuança que sobressaía-se no meio da sépia era o azul celeste do empíreo e o marinho da farda de Akira. Gostava do entretom, bem como gostava do gris permutando-se com o branco das nuvens, todavia, não era o matiz mais alegre para si. – Vamos entrar e conhecer nossa nova moradia?

Sorriu de canto e assentiu, sendo auxiliado a caminhar. A dona da morada era uma senhora sorridente, cuja saia longa acobertava os tornozelos inchados de tanto subir escadas. Amigável com os novos inquilinos, acompanhou-os ao aposento do terceiro e derradeiro andar do edifício anoso, discorrendo sobre a precariedade do local, mas como era confortável se fossem bem adaptativos. Kouyou quase pendurava-se em Akira para conseguir subir, sorrindo quando a mulher enalteceu seus cabelos compridos.

Adjudicando a chave do apartamento a Akira, a simpática senhora viúva alertou-os de que as malas já haviam sido postas ali dentro, visto que chegaram primeiro. Ademais, confortou-os quando dispôs-se a retirar qualquer dúvida ou suprir qualquer necessidade.

- Meu filho e eu poderemos auxiliá-los a adaptarem-se ao povoado. – sorriu quando destrancou a porta e permitiu-os ingressar. – Não é grande coisa, porém, farei de tudo para acomodá-los da melhor maneira.

Kouyou manquejou sozinho, ingressando primeiro para avaliar a pequena alcova: duas camas em paredes distintas e uma cômoda no meio, embaixo da singular vidraça. Viam-se apenas outros edifícios em tons de sépia e o azul celeste do firmamento. No canto esquerdo existia uma portinha, excepcional toalete do local, e, no direito, uma pequena pia e uma boca de fogão com um canecão para esquentar água. Não havia nenhuma tonalidade díspar de sépia: tudo era da mesma nuança, inclusive seus cabelos e novas roupas.

- O chuveiro não esquenta muito à noite, então aconselho banharem-se durante à tarde, se gostarem de uma temperatura mais cálida. Não temos aquecedores, então dependemos do calor do sol. – a senhora rescindiu o sorriso, macambúzia. – Perdoe-me não poder oferecer um ambiente mais cômodo a vocês, cujas famílias sempre ampararam-nos tanto...

- Para mim está perfeito. – sorriu Kouyou, virando-se a dona do local. – Não carecemos de mais nada além de cama e carinho. Isso a senhora já ofereceu-nos no momento em que dispôs-se a abrigar-nos.

- Exatamente. – Akira reverenciou militarmente. – Agradecemos a hospitalidade.

A senhora encabulou-se com o belo sorriso de Kouyou e a linda reverência de Akira, um nobre militar. Rindo, agradeceu-os pela gentileza e deixou-os a sós para acomodarem-se melhor e desfazerem as bagagens – quem sabe serenarem da extensa viagem de três dias numa carruagem nada confortável. Akira retirou sua espada e deitou-a na cama esquerda, quando Kouyou sentou-se no leito direito, já revelando qual lado elegera para ser seu. Akira fitou a rua pela janela, volvendo o olhar a Kouyou, cravando suas botas marrons.

- Sépia o vilarejo, não? – comentou e Kouyou assentiu. – Isso que incomoda-te?

- Tolice de minha parte, não se preocupe. – encostou as pálpebras. – Nada deveria incomodar-me, entretanto, a carência de gradações consterna-me... Sei que me afeiçoarei, porém, preciso de um tempo para que meus olhos harmonizem-se a esta mutação drástica que é não observar qualquer emoção pelas esquinas.

- Há o azul do firmamento... – comentou Akira e Kouyou volveu seus olhos sérios aos do soldado. – É um princípio.

- Um triste princípio. – corrigiu, enquanto Akira viandava a si e ajoelhava-se a sua frente, fitando-o silenciosamente com um sorriso nos lábios. – Que foi?

- Pensei que amasse todas e quaisquer nuanças, afinal, é sinestésico e não execra as emoções.

- Amo. Se não amasse ou conhecesse a tristeza, por exemplo, jamais entenderia o que é felicidade. – esclareceu. – Apenas não é minha predileta.

- Devo desfazer-me de minha farda então? – brincou e Kouyou abriu um sorriso pueril. – É azul-marinho.

- Como o oceano, que aqui não há... – suspirou, negando com a cabeça. – Fique com ela, Aki. – sopesou os traços físicos do semblante do amigo, cravando na faixinha branca que escondia o estigma do nariz. – Há amarelo em seus cabelos...

- Constitui qual emoção? – Akira indagou propositalmente, fazendo Kouyou refletir e abocanhar o lábio inferior por alguns segundos.

- Se juntar com as demais nuanças quentes, é deleitável como um sol no inverno.

- E se não juntar?

- Cega-me se houver veemência, portanto, incomoda. – riu com a expressão abespinhada de Akira.

- Titulou-me de “incômodo”? – a risada de Kouyou acresceu com a suposição de Akira, negando com a cabeça ao perceber o que insinuara sobre o amigo. – De qualquer forma, tonto, você também possui uma nuança desigual em ti.

- Ah, é? – sobresteve de gracejar pausadamente, observando suas próprias vestes. – Estou vestido como todos: tons de sépia. Inclusive meus cabelos de cobre não diferem da multidão, desigual dos louros cabelos da família Suzuki... – os olhos tornaram-se cabisbaixos. – Onde há essa nuança, Aki?

Akira sorriu e baixou seus olhos às botas de Kouyou, desamarrando vagarosamente o cadarço do sapato esquerdo e retirando-o delicadamente. Posteriormente, induziu seus dedos corteses à atadura que ali havia, desfazendo-a calmamente até revelar o hematoma do local. Alçou seus olhos aos de Kouyou, que prosseguia sem compreender.

- Violeta, como uma fina flor que desabrochou em seu tornozelo. – Kouyou encostou os olhos e sorriu, reabrindo-os quando Akira retirou, com os dentes, a luva que empregava na mão direita, igualmente manifestando um hematoma. – Desigual deste meu, que nasceu numa explosão de fúria...

- Violeta constitui cólera para você, Aki? – indagou Kouyou, observando como o amigo fitava desgostoso seu hematoma.

- Apenas quando jaz em mim, pois sei que esta gradação surge quando perco a autoridade de minha agressividade. – suspirou. – E para você?

- Gostei de sua acepção pertinente às flores, contudo, arrazoo numa galáxia quando vejo hematomas. – riu. – Você possui vários universos fantásticos em seu corpo, que abrolham numa detonação que titula de fúria. Apelidaria de “explosão de afeto”, porque você somente perde o domínio quando alguém que gosta está em perigo ou fora ofendido de alguma maneira. É um belo universo que possui na mão, Aki. – Akira sorriu. – Violeta é tempestade e ímpeto...

O silêncio alojou-se, todavia, aquela serenata era deleitosa e servia para que os pensamentos confusos dos meninos localizassem um local para abrigarem-se e organizarem-se. Naquele mundo – que parecia não concernir a eles e vice-versa – as nuanças eram onerosas e, portanto, somente os mais ricos cidadãos gozavam da sorte de conviver e degustar das díspares emoções trazidas ao imo e aos olhos.

Os miseráveis do vilarejo contentavam-se com tons de sépia.

Kouyou tinha de acostumar-se a adornar aquele entretom, afeiçoar-se à ausência das demais cores, porquanto agora não mais pertencia a uma família abastada e viveria fora de sua remota e colorida mansão: seria outro miserável, residente de uma área de travessia de tropas militares, que não auferia qualquer respaldo governamental – era olvidada, assim como os cidadãos.

Compreendia que, agora, não haveria mais nada colorido. Não haveria ninguém emotivo o bastante, sequer ele. Alisou os cabelos louros de Akira, auferindo os olhos sérios e quase azuis do amigo: era só o que restava-lhe de emotivo e colorido da vida que abandonou para trás. Aquele soldado era só o que sobrara e, subitamente, ponderou como seria incendiar tudo, apenas para observar gradações rubras e sentir o calor de uma emoção abrasadora.

Eram pensamentos perdidos, digno de quem possuía déficit de alguma coisa...

Alguém interessante.

Queimado até que seja reduzido a ossos.

Não estará quente...?

*

Na manhã seguinte, Kouyou despertou em sua cama nova, não tão macia quanto a antiga, rendendo-lhe quaisquer dores no corpo. Quando sentou-se, observou de um lado ao outro, buscando a excepcional corporatura colorida que ainda existia em sua vida: Akira não jazia naquele cubículo. Com dificuldade, pisou no chão e sentiu como se a “flor” perdesse suas pétalas ao tentar sustentar seu corpo todo – afinal, o hematoma no tornozelo jazia grande e dolente.

Mancando, apoiou-se na parede até chegar à acanhada pia da cozinha, que não computava sete passos de sua cama. O bule gris soprava o vapor branco no ar de sépia do apartamento, cujo café persistia quente desde o preparo de Akira. Kouyou serviu um pouco numa xícara trincada, observando um pequeno pedaço de papel preso ao armário. A caligrafia de Akira, mediana e marcante, expunha o seguinte:

“Saí para comprar mistura. Logo estarei de volta, portanto, não esforce-se.

Bom dia, aliás”.

Kouyou sorriu e levou a xícara à boca, olvidando-se da temperatura elevada do líquido. Queimou os lábios e celeremente soltou-a, espatifando-a no momento que colidiu com o plano. O líquido amarronzado espalhou-se contíguo aos cacos, que Kouyou, com seu coração acelerado e culpado, admirou como se constituíssem estrelas num firmamento quase negro. Quase, afinal, inclusive ali o tom de sépia conservava-se.

Doía.

Alguma coisa doía muito ali.

Ele só não entendia o quê.

Saltou os cacos e, celeremente, mancou à porta do apartamento, destrancando-a com as mãos trêmulas. Mesmo com dor e enfrentando muita dificuldade, desceu os três lances de escada e saiu sem ver ou saudar a dona da morada em que hospedara-se. Algo doía em seu coração ao testemunhar a xícara espatifar-se, como se visse-se estilhaçando-se com a queda e adormecendo no estranho mundo em tons de sépia. Tudo era sépia. Tudo.

Edifícios e lojas.

Trajes e pessoas.

Naquela manhã, onde estaria a angústia do empíreo azulado?

Dera espaço à sépia.

Precisava de um ensejo para prantear desde que fugira com Akira há pouco mais de três dias, contudo, não podia fazê-lo na frente do amigo, tampouco por um pretexto que dizia não importar, já que era bobo: a ausência de nuanças, emoções. Mancando pelas esquinas e pessoas empoeiradas, que pareciam um borrão aquarela por conta das lamúrias presas nos olhos, Kouyou conduziu-se a uma árvore solitária em cima de um outeiro qualquer, um pouco longínquo do cerne nada mobilizado do povoado.

Sentou-se, sentindo a dor latente no tornozelo que esforçara negligentemente. Alocou as mãos no rosto e lagrimou, martelando em seus pensamentos que pranteava pela xícara que estilhaçara e que Akira brigaria consigo. Que soluçava cada vez mais veementemente pelo espanto e dor que tomara ao queimar os lábios. Alocava em sua reflexão que suas mentiras bobas eram mais dignas de lamento do que sua conjuntura atual.

Eu provavelmente estava magoado, mas você ficará em paz.

O punhado de fumaça branca que ascende ao céu é você, porque está sendo levado ao paraíso.

Um barulhinho de guizo fez Kouyou sustar os soluços e içar os olhos infimamente, quando retirou as mãos do rosto. Inicialmente, não vira nada, porém, em menos de dois segundos, uma máscara colorida e sorridente apareceu em sua vista, acarretando-lhe um pequeno sobressalto.

- Quem...? – engoliu em seco, analisando as nuanças avivadas das vestes do garoto mascarado como um jogral de circo.

Sapatos e suspensórios negros, meias listradas em azul e branco, calça pouco abaixo dos joelhos em tom rosado, camisa levemente esverdeada e máscara com um sorriso fofo de ponta a ponta: era branca na totalidade, embora o sorriso fosse avermelhado, os olhos negros e as lágrimas abaixo deles azuladas como as roupas de um bebê. Os cabelos daquele “Pierrô”, que abrolhara subitamente detrás da árvore, eram negros com tons rosados nas pontas.

Kouyou piscou três vezes, sem nada compreender. A boca entreaberta saboreava a derradeira lágrima que dimanara de seu olho esquerdo, analisando a reverência desengonçada do garoto a sua frente, que quase encostou-se ao chão ao improvisá-la. Este estalou os dedos e uma bola redonda como a lua, amarela como o sol ausente, apareceu inexplicavelmente ao lado dele – que, desengonçadamente, equilibrou-se nela por escassos segundos.

Um desequilíbrio e ele fora ao chão.

A queda fizera Kouyou cerrar os olhos, todavia, ao reabri-los, no intuito de ver se o jogral estava bem, arregalou-os ao avistar inesperadas bolhas de sabão içando-se ao zéfiro – como pétalas de cerejeira que voejavam na brisa primaveril. Kouyou abriu mais a boca, abismado e maravilhado com o sabão que delineava bolhas iridescentes, constituindo pequenos e livres arco-íris a cintilar com raios solares, que agora ausentavam-se por detrás das nuvens conspurcas de sépia.

- Que lindo...! – jamais, em toda sua vida, Kouyou testemunhara tantas gradações permutadas umas nas outras sem desenvolver um tumulto negro.

Ainda sentado debaixo da árvore, içou as mãos para tentar alcançá-las, levemente receoso em estourá-las por serem tão finas e frágeis. Quando encostou sua unha numa acanhada bolinha, esta estourou e fez de suas gotículas pequenas estrelas cadentes, que desabrocharam como um fogo de artifício. Kouyou arregalou mais os olhos, ouvindo elevados gritos alegres de crianças do vilarejo, que era para onde os zéfiros induziam as coloridas bolhas de sabão.

Olhei para o céu e pensei em ti como o azul.

Para sempre...

Eu acenei para sempre...

O Pierrô colorido ajoelhou-se frente a Kouyou, atraindo os olhos avelãs e sonhadores dele. Estalando os dedos, uma flor de pétalas coloridas aparecera contígua a um lenço remendado de desenhos abstratos. Oferecera a Kouyou em troca de um sorriso – que solicitou por meio de gestos ao passar seus dedos nos lábios pintados da máscara, seguindo o contorno dele.

Kouyou não somente sorriu: apanhando o caule da rosa de pétalas curiosas através do lenço abstrato e colorido, riu da queda do Pierrô e do modo atrapalhado com que movia-se. O jogral aplaudiu e, apoiando um braço no joelho, levou sua mão esquerda, cuja luva era laranja e as unhas anis, ao rosto de Kouyou para limpar a derradeira lamúria que dimanara introvertida.

Com esse mesmo gesto, num passe de mágica, desenhou uma lágrima grande e colorida como a que encontrava-se em sua máscara.

Kouyou acariciou-a, vendo-o erguer-se para ausentar-se dali.

- Espere...! – solicitou ao Pierrô colorido. – Obrigado... – sorriu, agradecendo tudo: desde a rosa até a mudança de cenário através de sua coloração efêmera. – Como chama-se...?

Num gesto de sigilo, o Pierrô reverenciou pela derradeira vez e, girando em sua própria órbita, puxou um lençol violeta e cobriu-se até ruir no chão ou esvaecer no ar – coisa que Kouyou não compreendeu, assim como as mágicas anteriores. Dificultosamente, ergueu-se e fitou o firmamento: o azul regressara, todavia, continha tons de outras gradações, porquanto bolhas de arco-íris persistiam voejando sem adresse pelo favônio fresco da manhã.

O vilarejo, como mágica, auferira películas iridescentes.

Ao cravar a rosa na mão, Kouyou teve certeza: dessa vez não sonhara desperto.

Um Pierrô trouxera gradações do nada para o nada, concretizando tudo.

*

“Quando olho para trás, você está rindo e chorando como sempre.

Senti que você estava aqui.

Não esquecerei...”.


Notas Finais


Era para ser somente Aoiha, contudo, o casal Reituki também aparecerá e será tão importante quanto. Para quem não sabe, sou a autora de "The Phantom" e este enredo seguirá o mesmo esquema do citado: serão cinco capítulos, cada um baseado numa música do The Gazette. Este foi baseado na música "Okuribi".

Ademais, curiosidade: as definições das emoções e cores do Kouyou estão citadas em outra fic minha chamada "Enterre-me". Não precisarão ler se não desejarem, porque as histórias não estão ligadas, contudo, os nomes dos capítulos de lá dirão a vocês qual emoção cada cor representa para o Kouyou aqui, para quem tiver interesse em checar.

Adianto que, como já disse, eu não estava nas melhores condições psicológicas quando escrevi este enredo (ainda não estou), portanto, a história pode ficar um pouco perdida -- exemplo: coisas tecnológicas com coisas passadas, como uma carruagem. É para ser uma fantasia mesmo e, não, não é porque eu estava muito depressiva quando escrevi que o enredo será trágico...

Aguardem, caso tenham gostado...

O que acharam? Comentem! Logo trarei mais, porque ainda estou com o projeto "Untrue Buterfly" correndo, mas tentarei não atrasar muito nenhum deles.

Obrigada por lerem!

Kissus! *3*


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