História Mellonella - Capítulo 9


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Tags Bill Skarsgård, Entomofobia, Kiernan Shipka, New York, Síndrome Do Pânico
Visualizações 53
Palavras 3.891
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Lemon, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror
Avisos: Álcool, Drogas, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Desculpem a demora! Tem umas coisas que vou começar a desenrolar nos próximos capítulos... Prometo!

Capítulo 9 - Alguém Que Se Lembra


Pela manhã o despertador do celular de Laura toca novamente muito discretamente sobre a mesinha de cabeceira. Está adiantado. Dois minutos adiantado para um orgasmo não tão discreto. Mais um. Em mais um dia que começava na cama grande, limpa e baixa do loft de Julian. Em algum momento durante a noite que passou deve até ter dormido naquela cama, mas tinha a impressão de que até em sonhos fora beijada, tocada e fodida maravilhosamente por aquele homem tão complicado.

Estava ainda mais fechado desde que ela havia tentado entendê-lo. Pouca conversa, muita ação, algumas descobertas silenciosas ainda assim. Ficava selvagem quando notava que ela estava absorvida pelo momento. Laura gostava de vê-lo entrar e sair de dentro dela. Gostava demais. Sempre que pudesse olharia. Essa era a onda dela, para usar uma expressão que aprendera com ele. Nem mesmo sabia que tinha esse hábito peculiar, mas ele logo percebe e passa a facilitar para ela. A onda dele era outra: gostava demais de vê-la perdida em si mesma.

- Preciso te pedir um favor. - ela diz depois de finalmente se desgrudar do parceiro, pegar o celular e desligar o alarme. O cabelo bagunçado e o rosto ainda ruborizado de todo o prazer que acabara de ter.

- Faço. Só me dá dez minutinhos... - ele responde de olhos fechados 

- Não é... esse tipo de favor. É um bem sem graça. - ela pousa a mão sobre o peito dele e contorna suavemente o mamilo com o dedo - Entregar a chave do meu apartamento pra Mary, minha amiga, que deve chegar aqui no prédio hoje um pouco antes de mim.

- Tá.

- Eu não disse nada pra ela... sobre... estar dormindo aqui… com você… - ela diz depois de uma breve pausa em silêncio

- Tá.

- Acha que eu deveria?

- Não.

- Por que?

- Porque ela é estúpida e você não confia nela.

- Que? Não, ela é legal...

- Tá.

- Eu vou contar depois. É que eu conheço a minha mãe, ela deve estar enchendo o saco da Mary, perguntando de mim.

- Faz o que você quiser. Só vou entregar a chave. Não se preocupe.

- Não tô preocupada.

- Não vou nem falar com ela.

- Pode falar.

- Se ela me perguntar qualquer coisa vou responder com linguagem de sinais. - ele mostra o dedo do meio com as duas mãos

- Paraaaa… - ela sorri quando percebe que ele está bem humorado. Beija o peito dele algumas vezes depois pede suave   - Você vai tratar a minha amiga direitinho, né?

- Hmmmmm… - ele se espreguiça e finalmente abre os olhos. Acaricia os cabelos dela em silêncio, depois prossegue com olhos sorridentes  - Não tá na hora da sua aulinha, não? Eu já tô ficando meio a fim de te comer de novo. Se você não sair dessa cama logo eu vou te atrasar.

E assim ela vai. Tentando não pensar demais. Tem a impressão de que o Buick com painel de madeira está estacionado próximo ao depósito encobertos por alguns outros carros, mas decide ignorar.

“Você é uma adulta agora, Laura. Adultos tem relacionamentos complexos. Julian não é aquele bocó do Luke Smith que não sabia nem usar os dedos sem te machucar ou te matar de tédio.”

No caminho para o instituto ela manda mensagem para Mary avisando que deveria procurar pelo “meu vizinho do 4A” quando chegasse, para apanhar com ele a chave do apartamento. Conhecia a amiga o suficiente para saber que era melhor lhe contar pessoalmente sobre o rolo que estava tendo com o músico.

Mary não era estúpida. Muito pelo contrário. A jovem sardenta, dona de uma juba castanha cacheada e profusa que contrastava com sua personalidade direta e centrada era do tipo que sacava rápido as pessoas. E geralmente acertava em suas primeiras impressões. Especialmente quando negativas. Laura estava sim, preocupada com o que a moça acharia do rapaz.

É por isso que, quase ao final da aula fica mortificada ao pegar a primeira mensagem do dia da amiga. Apenas a palavra “SIM” seguida de um emoji de carinha espantada e três de seringa para responder uma simples pergunta: “Já pegou a chave?”

- E aí? Vamos até Chelsea comer snowball rosa e roubar umas ideias da vitrine dos outros?  - Diego pergunta na saída da aula.

- Hoje não. Minha amiga Mary tá lá em casa. - Laura responde absorta guardando o celular.

- Fala pra ela encontrar com a gente, ora! - o rapaz prossegue animado

- Acho melhor não...

- Por que? Você tem vergonha dela? Ela é muito jeca, né?

- Não! Ela é bem descolada até... Mais que eu com certeza. - Laura aperta os olhos como se estivesse cansada da sua própria falta de esperteza, depois tenta se situar perante os amigos e disfarça -  Ela tá só meio chateada comigo porque não comprei ingresso pro show do Jay Z e esgotou.

- Ah, que Jay Z o que?! - Diego corta - Vamos com a gente amanhã no show do Their Highness no The Box! Muito melhor! Eu e Megan passamos por um cartaz do show ontem depois que você foi embora e resolvemos comprar o ingresso. Vai ser bafônico! Se quiser ir com a sua amiga melhor comprar logo porque deve esgotar também.

- Não faço idéia do que você está falando, Diego.

- É a banda que toca a música de abertura daquele seriado dos robôs sexuais do Netflix! - Megan explica e começa a cantarolar a música

- Ah, tá… - Laura não se anima nem um pouco - Nunca vi essa série também...

- Jura?! - Diego se surpreende - É a melhor série de suspense todos os tempos!

- Não… Acho sinistra, não gosto daquele ator...

- Chance Crawford?! - o rapaz corta horrorizado - Ah, que é isso?! Ele está maravilhoso como o robô gay que só sabe falar 10 frases!

Eles pegam o metrô juntos, mas se despedem de Laura poucas estações depois e ela segue viagem de volta para Long Island City. Sozinha no metrô até pensa em checar no celular do que se trata o tal show, mas há tantas mensagens da mãe não lidas que depois de responder a todas nem se lembra mais do nome da maldita banda e deixa pra lá.

Mary abre a porta do apartamento trajando seu visual New York City: jeans preto muito justo de cintura alta, botinha preta e um top cropped de lã mostarda com mangas compridas e gola alta, tão curto mas tão curto que a primeira coisa que Laura faz é perguntar se aquilo é roupa de verão ou inverno. A garota levanta os braços, revelando um sutiã de renda preto transparente. “Não reclama não que eu tiro!”, ela ameaça balançando os peitos. Logo que adentra a sala, a loura percebe uma mudança na decoração. No parede antes ocupada pelos quadros de borboleta, agora há um jogo de luzinhas de natal pendurado pelos pregos dos quadros.

- Que é isso, Mary? -  ela se aproxima da nova decoração sem entender - Já chegou redecorando a minha casa?

- Sim! - a amiga responde animada - Não ficou ótimo? Se a gente pintar umas letras os fantasmas podem falar com a gente tipo Stranger Things! - ela ri, ligando as luzinhas. Laura responde com um suspiro profundo. - Ah, qual é? Foi só uma brincadeira. Você disse que odiou os quadros. Poxa, eu venho de tão longe e você me recebe nesse mau humor?

Laura se desculpa e finalmente abraça a amiga. Elas se sentam no velho sofá e conversam um pouco. Mary se mostra totalmente positiva, diz que não achou o apartamento tão ruim assim, que gostou da rua, que está animada para conhecer o museu de arte moderna que fica ali  próximo…

- Por que mandou aquela mensagem com as seringas quando te perguntei sobre a chave? - Laura finalmente toma coragem de tocar no assunto depois de um tempo

- Porque você deixou a chave do seu apartamento com um junkie, ora! - a garota  ri com desprezo - Podia ter me avisado. Tomei um susto.

- Ele não é um junkie, Mary.

- Tá brincando, né?! O cara parece um zumbi do Walking Dead fantasiado de roqueiro fracassado…  - ela imita uma voz de homem bem rouca - “Você é a amiga da garotinha? Rá! Quem poderia imaginar? Outra garotinha! He-he-he!”

- Esse não é ele! - Laura fala quase para si mesma muito aborrecida - Inacreditável...

- Ahn?

- Esse não é o Julian! Esse é um amigo dele que eu odeio!

- Tá, calma! - a garota dá de ombros - Não aconteceu nada demais também. O cara só tossiu uma tosse nojenta meio na minha cara, mas me entregou a chave numa boa. Até me ajudou depois. Eu não tava conseguindo abrir essa porta de jeito nenhum. Já ia te ligar, mas ele tava descendo, me viu enrolada com a porta e se ofereceu pra abrir pra mim. Tem um macete, né? Essa porta podre…

- Cheapster sabe o macete da minha porta?

- Bom, eu consegui entrar graças a ele.

- Você deixou ele entrar aqui?!

- Não! Caramba, acha que virei uma idiota só porque tô sozinha numa cidade grande? Não sou você não! - Mary repara que Laura está muito absorta e aborrecida afundada no sofá e estala os dedos na cara da amiga. -  Qual o seu problema? Sempre foi meio mal humorada, mas nossa…

- Não gostei, Mary! - ela corta muito irritada - Não gostei de nada disso. Pedi um favor pro Julian e ele me apronta essa. Qual é?! Minha mãe está vindo semana que vem. Ele vai botar o Cheapster pra falar com ela também?!

- Laura, você tá precisando me pôr a par das novidades, né? - a garota pergunta depois de fitar a amiga um tempo. Laura concorda com mais um suspiro profundo - Não podemos fazer isso comendo em algum lugar não, hein? Tô azul de fome! Aquele restaurante com o garçom gatinho que você falou não é aqui perto?

Elas vão para o restaurante de Tito. Mary devora um cheeseburger artesanal gigante enquanto Laura conta, entre garfadas não muito animadas numa fritada de aspargos com parma, sobre seu romance com o vizinho que não sai de casa. As duas adoravam comida, mas só Laura perdia o apetite quando estava aborrecida.

- Não vai ficar toda chata enquanto eu estiver aqui por causa de um cara que não tem nada a ver, né? - Mary pergunta displicente enquanto posta uma foto que tirou do hambúrguer no Instagram

- Não ouviu nada do que eu disse? Ele tem a ver comigo, Mary!

- Ele não tem a ver com ninguém, Laura… Ele não sai de casa!

- Você já gostou de caras piores.

- Sim, mas todos em algum momento me levaram pra tomar um café, pra ir ao cinema…

- Aquele Tony do bigodinho ridículo nunca te levou a lugar nenhum. Você só transou com ele dentro do carro.

- Ele tava trabalhando pro meu pai, tinha que ser escondido, né? E não era ridículo, ele parecia o James Franco...

- Argh! - ela olha Tito servindo vinho numa outra mesa - Você não trouxe sua identidade falsa não? Tô precisando beber!

- Uau! Tá sério assim? - a garota arqueia as sobrancelhas - Deixei minha identidade falsa na mala. Não achei que fosse precisar a essa hora do dia. Mas vi que tem umas bebidas lá na sua casa... Rum, Sambuca, licor de menta…

- Ah, é verdade. Tinha esquecido. Deve ter tudo uns cem anos e estar envenenado. Do jeito que tudo naquele apartamento é cagado...

Tito se aproxima e pergunta se pode retirar os pratos.

- Como vai a Kione, Tito? - Laura pergunta séria e bem de repente ao garçom

- Kione? - ele sorri um pouco surpreso - Vai bem! Você é... conhecida dela?

- Sou cliente.  Você me indicou a loja dela quando eu cheguei na cidade, esqueceu?

- Ah, sim! Você foi lá? Ela resolveu o problema?

- Ela deu uma olhada super rápida no aparelho e disse que não tinha nada.

- Puxa… - ele balança a cabeça - Essa Kione… Tem dia que ela tá meio…

- Não, tudo bem. Não tinha nada que ela pudesse fazer mesmo não. - a garota corta  voltando a mexer no celular - Meu apartamento é mal assombrado. Os aparelhos eletrônicos não funcionam direito lá.

O rapaz ri meio sem graça sem ter certeza se Laura está sendo irônica ou se é maluca.

- Tito, qual sobremesa você recomenda para mim que tô muito chateada porque vou perder o show do Jay Z, hein? - Mary pergunta simpática

- Torta de pecan com certeza!

- Eu quero uma. - Laura diz seca mexendo no ceular

- Eu também. - Mary segue fofa olhando bem pro garçom

- Ok! Duas tortas de pecan. - o rapaz prossegue falando com Mary enquanto escreve no papel -  Poxa, você vai perder o show do Jay Z? Que pena… Eu também!

- Sério? Que coincidência. - ela ri marota - Você tem alguma coisa mais interessante pra fazer amanhã? Tô aceitando dicas…

- Trabalhando aqui até às dez. - ele responde no mesmo tom levemente flertivo dela - Tô aceitando dicas também pra depois…

- Eu vou num show de rock. - Laura corta novamente seca com a cara enfiada na tela do celular

- Ah, vai, é?! - Mary arregala os olhos sem entender  - Que show?! A gente quer ir também, né, Tito?

- Esqueci o nome da banda... - Laura responde azeda e Mary a cutuca com o pé por baixo da mesa. - Vão tocar em Greenpoint no...  Box?

- The Box? - o rapaz ajuda, Laura faz sinal de positivo - Lá é só rock diferentão. Nunca fui, mas dizem que é legal.

- Hmmmmm… The Box... - Mary pisca para o garçom - Fica a dica!

O rapaz ri e sai pra buscar as sobremesas.

- Que show é esse, doida?

- Sei lá, me chamaram hoje lá no curso… - ela joga o celular sobre a mesa e segue emburrada - Claro que não vou. Só falei pra te ajudar com o Tito.

- Falou porque tá aborrecida com o seu… Sei lá o que ele é seu...

- Meu vizinho, Mary. A droga do meu vizinho que não sai de casa e volta e meia tá com aquele zumbi do walking dead enfiado lá!

- Pois é… - a garota pega o celular para conferir os likes que seu hambúrguer ganhou - Esquece esse homem, Laura! Vamos passear lá no museu depois da sobremesa? Eu tô curtindo esse teu bairro. - ela diz usando a câmera do celular pra conferir se o cabelo tá direito.

Laura atende o pedido da amiga e depois da sobremesa segue para o Museu de Arte Moderna. O passeio serve para melhorar um pouco seu humor. Mary estava mais interessada em tirar selfies e ver e ser vista do que nas obras, mas ela sabia ser divertida. Laura também se distrai fotografando obras que acha que conseguiria reproduzir em pasta americana. Está justamente tentando enquadrar uma instalação enorme cheia de cubos coloridos, quando o telefone toca. É Vanessa. Laura atende e sai da sala para conversar melhor com a proprietária.

- Desculpe a demora para retornar, Laura. - a mulher fala com sua tradicional voz enfadada -  Tô cheia de problema aqui. Você resolveu alguma coisa afinal?

- Eu queria ficar, mas tem acontecido umas coisas estranhas lá no apartamento, Vanessa… Eu queria saber se… sei lá… você já recebeu esse tipo de reclamação antes?

- Que tipo, Laura?

- Fantasma, assombração, atividade paranormal... - ela resolve ser direta

- Você andou falando com aquele infeliz? - a mulher pergunta muito aborrecida depois de uma pausa em silêncio

- Quem?

- Barnes, claro! Não liga para as sandices que ele fala, ele faz essas coisas porque não gosta de inquilino de aplicativo!

- Ele não me falou nada, Vanessa. Eu tive... algumas experiências estranhas…

- Que experiências?

- Barulhos, coisas se mexendo, aparelhos eletrônicos que não funcionam… Alguém reclamou disso alguma vez?

- Não. Ninguém.

- Eu vi que teve gente com problema na TV antes...

- Tá, mas acontece! TVs às vezes dão problema, Laura. Minha mãe resolveu tudo rápido. Tá escrito isso lá na avaliação também…

- Sua mãe? Edith é sua mãe?

- Sim. - ela responde depois de um longo suspiro

- Ela morava lá antes?

- Sim. - ela segue lacônica

- Se mudou?  

- Ela morreu, Laura. Minha mãe morreu há um tempo atrás.

- Ah… Meus sentimentos… - a garota fala muito sem graça. Depois de um breve silêncio incômodo não resiste - Ela morreu de que?

- Ela tinha 70 anos, minha querida. Adoeceu. Escuta, se você quiser se mudar porque você está vendo o fantasma da minha mãe, fique a vontade. - ela fala com desprezo - Só faça logo porque eu tô precisando de dinheiro.

Vanessa desliga praticamente na cara de Laura. Uma mistura de embaraço e apreensão toma a garota de assalto. A imagem da figura pintada pedindo ajuda volta a assombrar seus pensamentos.

- Laura? - Mary segura a mão da amiga e a sente gelada - Nossa, quem era pra te deixar assim? O vizinho?

- Não, mas… - ela fica um tempo em silêncio segurando a mão da amiga depois prossegue de olhos baixos - Eu queria falar com ele, Mary. Você se importa se eu voltar?

- Você se importa se eu ficar? - ela suspira resignada - Tá meio cedo pra DR pros meus padrões.

(…)

Julian abre a porta comendo uma maçã. Está vestido dessa vez e descalço como sempre.

- Você por aqui? - ele pergunta levemente irônico antes de morder a maçã. Percebe que ela não está com a cara muito boa, mas não muda o tom enquanto fecha a porta   - O que houve? A amiguinha já foi embora?

- Ela tá dando uma volta no museu...

- Trocou a amiga por mim? - ele sorri a encurralando contra a parede - Que feio, Laura…

- Quem trouxe essa maçã pra você? - ela retruca irritada, contendo a vontade de beijá-lo -   Aquele doente?

- Consertaram a porta, esqueceu? - ele se afasta e vai pra cozinha comendo a maçã -  Não preciso mais dele, não preciso mais de você… - ele dá uma última mordida na fruta  e joga o talo no lixo.

- Idiota. - ela resmunga

- Tá nervosa, Laura? - ele pergunta bem calmo enquanto enche um copo de água - Quer uma aguinha?

- Por que você faz essas coisas? - ela se planta na entrada da cozinha para que ele não escape

- Porque eu sou muito errado pra você. - ele responde ainda de costas para ela. Dá um gole na água antes de finalmente se virar e encarar a garota -   A sua amiguinha não te falou isso, não? Se não falou, não é sua amiga.

- Quer saber o que a minha amiga falou? - dessa vez é ela quem se aproxima com um meio sorriso nos lábios - Que o Cheapster nem é tão ruim assim!

- Ele não é mesmo… - ele encolhe os ombros sem se dar por achado - Não sei por que você está tão chateada.

- Porque você fez de propósito! Quis assustar a minha amiga mandando aquele zumbi se passar por você! Por que faz essas coisas?!

- Você odeia os meus amigos. - ele se vira e começa a lavar o copo - Por que eu não posso implicar com os seus?

- Ele é um junkie, Julian! - ela se aproxima mais dele  -  E você… tem problemas…  

- Ele não foi sempre um junkie e eu não tive sempre problemas, Laura. - ele corta pegando um pano para secar o copo -  É bom de vez em quando estar com alguém que se lembra de como a gente era antes, sabia? Alguém que não olha para a gente e só vê um zumbi, um fantasma…

- Você não é um fantasma para mim.

- Não? Por que? - ele abre a porta do gabinete suspenso e guarda o copo - Por que a gente vira a noite transando?

- Porque você está vivo e quando a gente está junto eu me sinto bem viva também! - ela o segura antes que ele saia da cozinha - Você só está doente. Por que não tenta se tratar de verdade? Ir num médico decente, tomar algum remédio a sério, sei lá...

- Ah, Laura… Tenho tantas respostas para essas suas perguntas que eu já respondi milhões de vezes na minha vida. Pra gente que me conhece desde que eu nasci, pra gente com quem eu dormi por muito mais tempo do que com você... Quer ouvir todas? Eu te mando o arquivo. Deve ter umas dez páginas! - ele se livra dela e vai andando na direção da sala de gravação.

- Tá, me manda! - ela vai atrás - Eu quero ler as dez páginas!  Vou imprimir, fazer minhas anotações do lado de cada uma delas e te mandar de volta. É o que você quer, né? Só pode ser! Que outro motivo teria para continuar abrindo aquela maldita porta para mim?!

- Você bate na minha porta, eu abro, garotinha. O que eu tenho a perder? - ele fala sem ironia nenhuma se sentando na mesa do computador do estúdio. Prossegue muito sério olhando para a tela  -  Já parou pra pensar que eu nunca vou bater na sua? 

Ela se encosta na mesa de frente para ele, cruza os braços e dá de ombros.

- Não me importo.

- Parece uma bobagem, até que um belo dia deixa de ser. 

- Vou continuar batendo na sua porta. 

- Eu tenho que trabalhar, Laura.

- Não tem nada.

- Ok. - ele estica a mão até os fones de ouvido - Vou botar isso aqui e não vou ouvir mais nada que você vai falar.

- Você é tão infantil... - ela resmunga e o observa em silêncio por um tempo trabalhando no computador com os fones no ouvido. Ela resolve continuar a falar normalmente só pra irritá-lo. - Em breve você vai se ver livre de mim. Vou me mudar, já avisei à grossa da proprietária. Aquele apartamento é assombrado mesmo. A pessoa que morava lá antes morreu. Edith, uma velhinha, mãe da proprietária. Deve estar lá no além querendo conversar com alguém, coitada. Vanessa diz que ninguém nunca reclamou disso, mas acho que ela…

Julian tira os fones repentinamente e os atira bruscamente na mesa. Se levanta, se aproxima bem da garota e a encara muito sério.

- Senta ali. - ele ordena sem tirar os olhos dela, apontando levemente com a cabeça a cadeira onde estava antes

- Por que?

- Porque sim.

Ela obedece. Ele pega o fone de ouvido e o arruma na cabeça dela. Quando ele começa a procurar por um arquivo no computador, os olhos de Laura se enchem de lágrimas.

- Fica comigo. Por favor.

- Não.



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