História Meu Romeu - Capítulo 16


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Categorias Karol Sevilla, Ruggero Pasquarelli
Personagens Karol Sevilla, Ruggero Pasquarelli
Tags Ruggarol, Sou Luna
Visualizações 24
Palavras 7.014
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Mais capítulo para vocês e espero que gostem...

Capítulo 16 - Negação


 

Seis anos antes

Westchester, Nova York

Grove

 

— Sevilla, só enfia na boca.

— Não me apresse. Nunca fiz isso antes.

— Bom, a melhor forma de aprender é fazendo.

— Não sei que droga estou fazendo!

— Para de desculpa. É só colocar os lábios em volta e chupar. Não é física quântica.

— Ai, meu Deus, Karol. — Emília revira os olhos. — Vai logo ou passa adiante. Outras pessoas estão esperando, sabe?

Ela fecha a cara para mim quando eu olho o baseado aceso na minha mão. Estou tentada a passar adiante, mas não quero ser vista como a garotinha ingênua que na verdade sou, então coloco o cigarro entre os lábios e chupo com força. Termino inalando uma baforada intensa e abrasadora de fumaça.

Todo mundo ri quando tenho uma crise enorme de tosse.

Pasquarelli dá tapinhas leves nas minhas costas.

— Deixa a boca um pouco aberta quando tragar — ele ensina, tentando não rir. — Assim você pega um pouco de ar com a fumaça, mas queima menos.

— Você não podia ter me dito isso antes? — chio enquanto ele me passa sua garrafa de água.

Ele dá de ombros e sorri.

— Onde estaria à diversão nisso?

Bato no braço dele quando bebo a água.

— Tente novamente. — Michael acena para mim. — Faz como o Ruggero disse e inspire mais ar, daí segure nos pulmões pelo máximo de tempo que der. É a melhor forma de ter um barato decente.

Faço tudo isso. A fumaça ainda queima, mas consigo segurar por uns dez segundos.

— Legal — Michael me aprova, e todo mundo dá uma leve rodada de aplausos.

Agustín pega o baseado.

— Vamos deixar você chapada como uma profissional antes do que pensa.

— Maravilha — respondo honestamente enquanto agarro a água do Pasquarelli de novo e tomo um longo gole.

— Ainda não consigo acreditar que essa é sua primeira vez —Emília  comenta com desdém. — Que americana que se respeita chega aos dezenove sem ter fumado pelo menos uma vez?

Dou de ombros.

— A filha do Pai Mais Rígido do Mundo?

Emília torce a cara.

— Karol, isso não é desculpa. Não viu Footloose? A filha do pastor quase se prostituía depois dos cultos. Ter um pai hiperprotetor deveria ter deixado você mais louca, e não menos. Afe.

Por algum motivo, Agustín e Michael acham a declaração dela hilária e caem na gargalhada. Eu sorrio para eles. Emília nota, e seu rosto faz uma dança bem estranha entre ficar puta ou feliz. Ficar feliz acaba ganhando. Ela sorri para mim e eu passo a ela o baseado.

Uau. Maconha tem um jeito mágico de fazer inimigos mortais gostarem um do outro? Por que mesmo não é legalizada?

Pasquarelli pega o baseado de Emília e aperta os olhos enquanto traga. Seus longos dedos formam um funil que ele suga fazendo um bico.

Ao meu lado, Emília geme.

— Puta merda, Ruggero, você tem os melhores lábios.

Ele sorri para ela, com a boca fechada segurando a fumaça. Quase engasgo tentando não rir da cara de tesão que ela faz.

Ela está tão na dele.

Sei como ela se sente.

— Jesus, Pasquarelli — Agustín resmunga —, você tem de pegar todas as garotas? Que tal deixar umas aí pra gente?

Pasquarelli passa a ele o baseado e dá de ombros. Então se vira e se inclina para segurar minha cabeça. Inicialmente, fico chocada porque acho que ele vai me beijar. O que é esquisito porque nas últimas semanas fomos extremamente cuidadosos em não deixar transparecer nada na frente do pessoal. Mas, no último segundo, ele paira sobre minha boca e solta o ar. Aí me dou conta de que ele quer que eu inspire a fumaça.

Eu inspiro. Meu corpo todo se arrepia enquanto ele me observa e sorri, roçando o dedo superlentamente na minha bochecha.

Uau. Fogos de artifício incendiando minha pele. Me estremeço toda.

Definitivamente, posso sentir que a maconha está fazendo efeito agora. O mundo fica em câmera lenta, ganhando um foco mais definido. Por um longo tempo, tudo o que posso ver é o rosto de Pasquarelli na minha frente. Ele pisca vagarosamente, e consigo ouvir seus cílios se chocando. Então ele lambe os lábios bem devagar, sua língua é rosada. O baixo pulsante de uma música de Barry White começa a tocar no meu cérebro.

— Beija ela! — Agustín grita e imita sons atrevidos de beijo.

Pasqaurelli pisca, mas, quando afasta o olhar, meu rosto está queimando e outras partes minhas mais lá embaixo estão ainda mais quentes.

— Então o que rola exatamente entre vocês dois, afinal? — Agustín pergunta, sua voz apertada quando ele inspira. — Vocês estão mesmo trepando?

Pasqaurelli lança a ele um olhar atravessado antes de pegar o baseado e passar para mim.

— Você é mal-educado pra cacete, Benasconi. Não, não estamos trepando.

— Então o que estão fazendo? Divida os detalhes sórdidos com a gente.

— Não estamos fazendo nada — Pasquarelli responde. — Muda a droga do assunto.

— Também quero saber — Emília se manifesta. — Depois do Romeu e Julieta, todo mundo achou que vocês estavam transando, mas agora não temos certeza. Acabem com os boatos. Contem o que está rolando.

Pasquarelli suspira e balança a cabeça.

— Não tem nada rolando. Sevilla e eu somos amigos. Nada além disso.

Mesmo sabendo que ele está mentindo, ouvi-lo ainda me deixa desconfortável.

— Uma ova que são só amigos — Agustín protesta e pega o baseado de mim. — Tenho uma vaga lembrança de vocês dois se pegando na minha cama na noite da estreia. Pelo menos, acho que eram vocês.

Pasquarelli ri antes de se encostar contra uma árvore grande e cruzar os braços sobre o peito.

— Benasconi, você estava bêbado e chapado pra caralho aquela noite. Por uma

hora você falou com as pessoas só na língua dos Smurfs. Foi smurfirritante. Está imaginando coisas.

— Você fala muita merda, Pasquarelli — Agustín retruca. — Karol? Você se importa de confirmar ou desmentir que está smurfando com o Pasquarelli pra valer?

Estou muito vermelha.

— Agustín, posso dizer com a mais completa sinceridade que não estou smurfando com o Pasquarelli. Espera, smurfar significa transar, certo?

Como diabos os Smurfs sabem o que estão falando na maior parte do tempo? Isso é um substantivo? É um verbo? Estou confusa.

— Sim, Sevilla. Estamos falando de sexo.

— Bem, então não. Definitivamente não estamos fazendo isso.

Infelizmente, Smurfs infernais.

Suspiro e olho para Pasquarelli. Uma de suas mãos está no bolso enquanto ele toca a casca de uma árvore com a outra. Estou hipnotizada pela ponta dos dedos dele tocando a textura áspera. Nunca tive tanto ciúme de uma árvore na minha vida.

— Mas você gostaria, né? — Agustín pergunta com um sorrisinho malandro. — Você gostaria de smurfar bonito com ele, hein? Smurfar longa e lentamente? Ou talvez rápido e pesado?

Pasquarelli olha feio para Agustín, que cala a boca na mesma hora.

— Só sei que eu gostaria — Emília murmura. — Adoraria smurfar com ele até a porra da cabeça dele explodir. — Ela parece estar chocada com o que acabou de falar. — Ai, merda. Vocês ouviram mesmo isso, né?

— Eu não — Pasqaurelli responde, galantemente fingindo ignorância.

— Ai, é que eu disse que quero foder com você — Emília explica, providencialmente cobrindo o rosto. — Ai, merda. Não tem como você não ouvir isso, tem?

Pasquarelli sorri e balança a cabeça.

— Temo que não.

— Emília, pode montar em mim — Agustín sugere, apontando para seu colo. — Sobe aí. Um pau decente, sem espera.

Emília levanta a sobrancelha.

— Decente quanto?

— Vinte centímetros — Agustín responde, orgulhoso.

Emília assente.

— Legal. Vou te dizer, Agustín, da próxima vez que eu estiver caindo de bêbada, me procura. Posso aguentar trepar com você se não me lembrar no dia seguinte.

— Rá, rá, rá — Agustín devolve. — É você que sai perdendo. Eu podia te dar os melhores dois minutos e meio da sua vida, moça.

Todos morrem de rir com essa.

Nossa risada é alta no silêncio dos bosques, e olho para Pasquarelli. Ele está sorrindo, mas olha para mim de uma forma que faz um jorro de calor me invadir. Minha risada morre quando eu balanço os joelhos para tentar diminuir a dormência nas pernas.

Se eu soubesse que maconha me deixaria ainda mais excitada que o normal, eu teria dispensado.

— Cara, estou morto de fome — Agustín comenta ao meu lado.

— Eu também — acrescento, falando com o volume saliente nas calças do Pasqaurelli.

— Se sairmos agora, podemos passar na cantina a caminho da aula — Michael sugere.

Ficamos todos de pé e saímos pelas árvores do lado oeste da escola, caminhando em direção ao prédio central. Os três caminham na frente e eu e Emília, atrás. Quando percebo que ela está olhando para a bunda do Pasquarelli, não fico com ciúme nenhum. A bunda dele é incrível. Deve ser apreciada.

— Então, você nunca trepou mesmo com ele? — ela cochicha enquanto continua olhando para a bunda dele.

— Não.

Quero morder a bunda dele. Não forte. Só umas mordidinhas naquelas bandas durinhas. Realmente não tenho certeza se isso é coisa da maconha ou se é um fetiche esquisito meu de morder bundas. Talvez seja um pouco dos dois.

— Aposto que ele é incrível na cama — Emília sussurra. — Imagina só: toda aquela intensidade e paixão que ele vem atuando.

Droga, Emília, dá para parar? Como se eu já não tivesse problemas demais só por não estar trepando com ele. Pare de me fazer desejá-lo mais ainda.

Afasto meus olhos para longe da bunda dele e observo meus pés em vez disso.

Uau. Olho para a grama. Tantas folhas. Tão lindo. Tão verde. Eu me pergunto qual seria o gosto

— Então, qual foi a melhor transa que você já teve?

Emília faz a pergunta me dando uma cotovelada.

Bem, até agora? As coxas do Pasquarelli. E dedos...

— É...

— Tem alguém em Washington?

Não, a não ser que a minha bicicleta conte. Ela costumava se esfregar em mim de formas estranhas e não totalmente desprazerosas.

Ah... é...

— Porque escutei que alguns desses caras do interior podem ser uns completos pervertidos.

Um garoto da minha escola fez um vídeo dele transando com uma melancia. E um pepino. Simultaneamente.

— Pois é...

— Então, quem foi?

Olho de volta para a bunda de Pasquarelli e tento imaginar o que dizer, porque aposto que, se eu olhar bem fixamente, os segredos do universo serão revelados para mim.

Eu conto e arrisco ser zoada por ela? Quero dizer, ela está sendo legal comigo agora, mas o que pode acontecer quando o barato passar?

— Vai, Karol — ela diz, me provocando. — Se me contar o seu, eu te conto o meu.

— Então... — Não, ninguém precisa saber. Apenas invente um nome Qualquer nome. — O nome dele era...

Bob, Sam, Cletus, Zach, Jake, Joanne! Qualquer nome serve! Espera, Joanne não... Nem Cletus.

Emília agarra meu braço e me para.

— Ai, meu Deus...

— Emília.

— Não me diga que você é...

— Não, não fale a pala...

Ela se inclina e sussurra:

— Você nunca fez sexo, fez? — Ela usa o mesmo tom de solidariedade que usaria se tivesse descoberto que eu estava morrendo de câncer. Fico vermelha e puxo o braço para longe dela, para poder continuar andando.

— Ai, Karol, não fique irritada — ela diz, vindo atrás de mim. — Não vou contar para ninguém que você é virgem!

Os meninos à nossa frente param e se viram, e Agustín e Michael olham para mim incrédulos. Pasquarelli me olha nervoso antes de enfiar as mãos nos bolsos e baixar a cabeça.

— Merda — Emília murmura atrás de mim. — Desculpa. Foi mal.

— Sevilla — um sorriso largo se abre no rosto de Agustín —, me diga que não. Ninguém plantou uma bandeira em seu território virgem ainda? Isso não está nada certo.

Michael olha para mim genuinamente chocado.

— Isso é impossível. Como aconteceu? Você namorou cegos?

Coloco as mãos na cintura.

— Podem parar de me tratar como se eu tivesse uma doença rara e incurável? Não sou leprosa, pelo amor de Deus.

— Não, claro que não — Agustín concorda, solidário, enquanto caminha e esfrega meus ombros. — Mas, Sevilla, sério... que diabos você está esperando? É uma dessas meninas que só fazem depois do casamento? Porque, vou te dizer, minha mãe fez isso e foi uma péssima tática. Aparentemente, meu pai é meio devagar. Por isso sou filho único. Estou bem certo de que eles só transaram aquela vez.

Fico vermelha.

— Não estou me guardando, tá?

— Então por que você ainda é virgem? — Emília quer saber.

— Por que... — começo, incapaz de não olhar para Pasquarelli —... acho que não encontrei ainda um cara que queira dormir comigo.

Com essa declaração, ele perde todo o interesse nos sapatos e olha direto para mim, franzindo a testa mais que o normal.

— Tá, agora vou ter de falar que isso é uma bobagem. — Agustín dá uma risada. — Porque bem sei que tem pelo menos uma dúzia de caras em Grove que dariam a bola direita para trepar com você, incluindo eu.

Como um raio, Pasquarelli bate no braço dele.

— Ai, cara! — Agustín esfrega o braço e fecha a cara para Pasquarelli. — Por que essa porra?

— Tenha só um pouco de respeito, caralho. Pode ser?

— Deixa de merda. Eu respeito. Foi um elogio. Além do mais, quero que ela saiba que tem opções.

Parece que a cabeça de Pasquarelli está pronta para explodir.

— Trepar com você não é opção, seu puto neandertal. Seria um castigo cruel e bizarro.

Agustín abre as mãos.

— Por que diabos todo mundo fica desprezando minhas habilidades sexuais? Por acaso sou um cara bem sensível e completo na cama. — Ele olha de volta para mim e cochicha: — Tô vendendo bem o meu peixe? Porque, se quiser matar a aula de semiótica esta tarde para eu te livrar do seu fardo de virgem, eu estaria mais do que disposto. Só estou dizendo...

Todo mundo ri, exceto Pasquarelli, que chia algo para si mesmo e parece que vai

socar Agustínde novo.

Eu me movo sutilmente entre os dois.

— Valeu pela oferta, mas eu passo.

Agustín dá de ombros.

— Ah, tudo bem, mas estou aqui se precisar.

Eu arrisco uma olhadinha para Pasquarelli, e, a julgar pelo seu olhar, ele está imaginando todas as formas como poderia matar Agustín e esconder as evidências.

— Na verdade, estou meio que saindo com uma pessoa, e espero que possa ser com ele.

Uau. Não pretendia mesmo dizer isso.

Ou pretendia?

Tá, o que vou fazer aqui será completamente brilhante ou incalculavelmente idiota. Por favor, Deus, permita que seja brilhante. Pasquarelli está me olhando com uma expressão de cautela.

— Espera, o quê? — Emília está surpresa. — Está saindo com uma pessoa? Quem? Há quanto tempo? Como ele é? Pasquarelli, você sabia disso?

Os olhos de Pasquarelli se enchem de pânico por um segundo antes de lançarem um olhar duro.

— Sei, acho que ela falou alguma coisa sobre o cara. Ele me parece um idiota, mas ao que tudo indica ela gosta dele. Estou surpreso de ela contar para vocês. Achei que ela ia manter segredo.

— Bom, não vejo muito por que eu não deveria falar sobre ele. Quer dizer, gosto dele e não acho que ele seja um idiota. Ele só é... complicado.

Pasquarelli pisca várias vezes e sua expressão suaviza.

— Acho que ele tem sorte de você enxergá-lo desse jeito.

— Tá, vamos lá — Michael diz, inclinando a cabeça. — Conta quem é o sortudo?

Emília dá um passo à frente, seus olhos brilhantes e vidrados.

— Isso, nós o conhecemos?

Tá, cérebro, sei que você está chapado, mas me ajude aqui. Me dê algo plausível.

— Eu o conheci quando fazíamos Romeu e Julieta.

Tá, bom. Não é exatamente mentira, mas é vago o suficiente para satisfaze- lós. Bom trabalho, cérebro chapado.

Todo mundo troca olhares, e Emília diz:

— Ah, um fã, hein? Ele te viu no palco e simplesmente teve que ficar com você?

Eu concordo.

— Hum, é... tipo isso.

— Então, conta mais — Pasquarelli sugere, e cruza o braço sobre o peito. — Você me disse outro dia que acha ele gostosão. Quão gostosão? Seja específica.

Um vermelho feroz ilumina meu rosto, porque ele sabe exatamente quão gostosão eu acho que ele é.

— Credo, Sevilla, olha só seu rosto! — Agustín ri. — Esse cara misterioso deve saber como apertar todos os seus botõezinhos. Você está vermelha como a bunda de um babuíno. E ainda assim ele não faz sexo com você?

Eu respiro fundo e balanço a cabeça. Agustín bufa.

— Que puta idiota.

— Talvez ele tenha suas razões. — Pasqaurelli diz baixinho.

— Tá zoando? — Agustín pergunta, descrente. — Você beijou a Sevilla, cara. Você sabe como ela é gostosa. Que tipo de otário recusa isso? — Ele se vira para mim e cochicha: — Ah, espera. Ele é... você sabe... limitado? É um desses caras religiosos bizarros? Ui, ou ele tem disfunção erétil? Ele não fica de pau duro?

— Ele não tem nenhuma disfunção erétil. — Pasquarelli responde enfaticamente. — E ele não é limitado, pelo amor de Deus.

Todo mundo olha para ele.

Ele dá de ombros.

— Estou supondo que Sevilla não iria sair com alguém com essas deficiências, certo?

— É, eu não sei. Deve ter algo errado com ele. Como o Agustín disse, que tipo de otário recusaria isso? — Eu rebolo e faço uma carinha sexy, e todo mundo ri, menos Pasquarelli. Ele apenas me encara sem piscar e não consigo descobrir se ele está bravo ou excitado. É meio perturbador o quão similares são essas expressões nele.

— Uma vez eu saí com um cara que não trepava comigo — Emília comenta enquanto caminhamos novamente. — Ele disse que não queria que eu pensasse que sexo era tudo o que ele queria de mim. Disse que me achava especial, e que podíamos ter mesmo algo.

Sorrio para ela.

— Que fofo. O que aconteceu?

Ela dá de ombros.

— Dei um pé na bunda dele. Poxa, tenho necessidades, né? Se ele não vai me dar isso, então eu me arrumo com outro.

Pasquarelli faz um ruído depreciativo, mas não diz nada.

— O bizarro é que provavelmente foi o único cara com quem namorei que deu a mínima para mim — Emília continua quando seguimos para a cantina. — Mas só percebi isso depois que ele estava bem longe. Talvez ele fosse um desses caras raros que não querem sexo sem amor.

Meu estômago revira. Será esse o problema do Pasquarelli? Ele não me ama, então não dorme comigo? Faz sentido. Talvez ele não tenha sentimentos por mim além de puro tesão animal.

A ideia desliza por meu cérebro, se enrolando sinuosamente e deixando meu rosto quente de vergonha e raiva.

— Desisti de tentar entender os homens — Emília completa, examinando a prateleira de chocolates. — São esquisitos.

Amém, irmã.

Ela pega três chocolates e vai ao caixa. Michael e Agustín estão com os braços cheios de batatinhas e chocolate, eu opto por um sorvetinho para ajudar a esfriar meu rosto em chamas.

Saio e me sento à mesa com os outros. Quando Pasquarelli se junta a nós, eu evito olhar para ele. Então, me concentro no sorvete, correndo a língua pelo canto do cone e sugando os pingos antes que possam ir muito longe. Fecho os olhos e engulo um pouco do creme, e quase posso ver o frio quando desliza pela minha garganta, com uma reluzente viscosidade azul, fazendo meu estômago e minha pele formigarem.

Sinto algo roçar meu pé de leve e levanto o olhar para ver que Pasquarelli está me encarando, observando minha boca enquanto tomo sorvete. Ele olha para os meus olhos, e o castanho reluzente no meu corpo é imediatamente substituído por um calor laranja incandescente e fumegante, que arde em todos os lugares que quero que ele me toque. Então, conforme meu corpo se contorce e esquenta desconfortavelmente, me dou conta de que talvez isso seja tudo o que tenhamos: fogo. Que vai queimar nós dois até estarmos chamuscados e vazios. Napalm sexual que não combina com amizade ou intimidade.

Ele roça o meu pé novamente, a ponta de seu sapato passeando entre meu tornozelo e minha panturrilha, e é ridículo que eu sinta esse toque em cada célula do meu corpo.

Ah, vou queimar mesmo. Ele vai me incinerar de dentro para fora.

— Preciso ir — murmuro enquanto jogo o resto do sorvete no lixo e fico de pé. — Vejo vocês na aula.

— Sevilla?

Jogo a bolsa no meu ombro e não olho para trás quando cruzo o pátio para o bloco de teatro.

Dez minutos depois, quando deixo o banheiro do primeiro andar, Pasquarelli está lá encostado contra a parede e franzindo o cenho.

— Ei. — Ele confere em volta antes de dar um passo à frente e tocar meu rosto. — Você está bem? Às vezes, na primeira vez fumando, pode te dar vontade de vomitar.

Ele me olha preocupado, jogando meu cabelo para trás dos meus ombros. Mas logo que escuta alguém descendo as escadas ele recua e pesa o corpo sobre uma perna, a imagem perfeita de indiferença.

Eu o observo enquanto ele oscila de um lado para o outro, desconfortável, esperando os alunos passarem. E me pergunto se imaginei o olhar de preocupação. Talvez todo esse não relacionamento nosso tenha sido apenas eu o pressionando ingenuamente, forçando-o a algo que ele não queira de verdade. Ou talvez algo que ele queira, mas não o suficiente.

— Sevilla? — Ele se aproxima de novo. — Você não me respondeu. Está tudo bem?

Eu pisco e balanço a cabeça.

— Tudo bem, sim.

Caminhamos em direção à sala de leitura onde a turma de semiótica está. Há tensão entre nós, mas desta vez não me importo que fiquemos assim. Sempre fui a garota que vê as coisas ruins e tenta melhorá-las.

Não acho que eu possa melhorar isso.

— Agustín está chamando um pessoal para comer pizza esta noite — Pasquarelli comenta quando subimos as escadas. — Quer ir?

Para eu poder fingir a noite toda que você é apenas meu “amigo”?

— Não, valeu.

Deus nos livre de você me pedir para sair de fato, para um lugar onde as pessoas possam ver a gente se tocando.

Pasquarelli bufa, frustrado, e agarra meu braço.

— Tá, Sevilla, já deu. Você está quieta demais, e sem contestar nada. O que tá rolando?

Dou de ombros.

— Acho que não tenho nada a dizer.

— Isso é impossível.

— Temos aula.

— Então está me dizendo que está tudo bem?

— Faria diferença se não estivesse?

Ele franze a testa quando começamos a andar novamente. E sei que estou sendo passivo-agressiva, mas ele teve quase um mês para me mostrar que me quer em sua vida como mais do que uma simples distração sexual. Ainda assim ele está tão distante emocionalmente quanto sempre. Já chega.

Quando nos sentamos, eu afundo na cadeira e fecho os olhos. Há uma dor que me corta. Apesar de não ter notado antes, eu imagino que já esteja lá há um tempo. É a parte de mim que deseja algo especial; alguém que me queira o suficiente para ter coragem de assumir. Alguém que queira se envolver comigo a um ponto que fique impossível de saber onde começa um e termina o outro.

Alguém que achei que pudesse ser Pasquarelli, mas já não estou mais certa. O restante da aula passa de maneira confusa, e mesmo que eu sinta Pasquarelli olhando para mim de tempos em tempos, eu o ignoro. Não sei por que hoje bateu essa percepção de que não estou mais satisfeita em ter apenas parte dele. Talvez a maconha tenha ajudado a clarear minha mente, que estava tão anuviada pelo tesão o tempo todo. Ele me disse que seria assim, e que eu ia querer mais do que ele estava disposto a dar, mas, por alguma razão, eu fui burra de achar que seria capaz de mudar isso.

Obviamente, não sou.

Quando a aula termina, eu murmuro algo sobre vê-lo amanhã e sigo para fora da sala em direção ao pátio, não querendo nada além de um banho quente. O tempo aberto da hora do almoço deu lugar à chuva forte, e me protejo na marquise dos prédios pelo máximo tempo possível antes de sair no aguaceiro.

— Ei, Sevilla, espere!

Em poucas passadas ele está ao meu lado, segurando sua mochila sobre a cabeça debaixo da chuva cada vez mais forte.

— Não quer fazer alguma coisa esta noite?

— Na verdade, não.

— Por que não?

— Só não quero. É crime querer ficar um tempo sozinha?

Um quê de mágoa cruza o rosto dele.

— Não, não é crime. É só que... geralmente passamos um tempo juntos nas noites de quarta e, a julgar pela forma com que você estava me olhando hoje, pensei...

— Pensou o quê?

— Ué, parecia que você queria me jogar no chão e montar na minha cara. Imaginei que você provavelmente queria ficar comigo ou sei lá.

Esse é o problema, Ruggero. Você acha que a gente está só ficando.

— Não, hoje eu passo. Mas valeu pela oferta.

Meus sapatos se encharcam enquanto caminho mais rápido. A sensação ruim de pé molhado me deixa ainda mais irritada. Ele mantém o passo comigo e joga a mochila sobre o ombro, desistindo de evitar a tempestade.

— Karol, o que está rolando? Está puta comigo?

Bufo, frustrada.

— Não, estou puta comigo mesma. Não se preocupe. Saia da chuva.

Ele agarra meu braço e me puxa para eu encará-lo.

— Não vou a lugar nenhum até você me dizer o que diabos está havendo.

Não quero ter essa conversa agora, e especialmente não quero ter nessa chuva fria, mas ele não me dá escolha.

— Ruggero, só estou cansada dessa nossa dança. É sempre um passo à frente, dois passos atrás com a gente. E mesmo que você tenha me dito que seria assim, por algum motivo eu escolhi não acreditar em você. Só estou cansada de te pressionar a fazer as coisas que você não quer fazer. Então... é... é isso que está rolando. Te vejo amanhã.

Eu me viro e saio andando, tentando vencer a chuva, o que é inútil, e tentando superar os passos dele, o que é impossível.

— Espera! Karol, conversa comigo.

Ele me puxa para eu encará-lo novamente, e seu cabelo está colado à cabeça fazendo a água escorrer pelo seu nariz.

— Não há nada para falar. Você é você, e eu sou eu. E você estava certo quando disse que não deveríamos começar uma história. Queremos coisas totalmente diferentes, e acho que por fim estou percebendo que não estou bem com isso.

— Que diabos? Isso é por causa do que Emília e Agustín disseram?

Resmungo, irritada, e resisto à vontade de bater forte no peito sem noção dele.

— Não, isso não tem nada a ver com Agustín ou Emília, ou ninguém mais! É a gente! Sou eu esperando coisas de você que eu não deveria! Eu querendo romance, namoro, intimidade, que vem de mais do que amasso e orgasmos. E eu querendo contar aos nossos amigos que o cara misterioso com quem estou saindo, que me excita só com um olhar ou toque, é você. E, principalmente, sou eu puta comigo mesma por me apaixonar por um cara que me disse descaradamente para não me apaixonar por ele! Essa que é a coisa! E agora é tarde demais e me sinto a pessoa mais idiota do mundo porque você nunca vai me dar o que eu preciso, e eu devia saber que não devia esperar isso de você.

Ele me encara por um segundo, piscando conforme a água corre por seus cílios.

— Achei que você queria que eu fizesse uma tentativa. É o que estou fazendo. O que mais você quer?

Tiro a água do meu rosto, odiando a sensação dela correndo por minhas bochechas.

— Deus, você é um idiota sem noção às vezes! Quero mais. Tudo. Qualquer coisa. Alguma coisa, pelo amor de Deus! Isso é o que quero de você. Pode me dar isso?

Ele me encara, os músculos da mandíbula estão pesados. Ele não responde.

— Foi o que imaginei.

Tento me afastar, mas ele segura meu braço quando seu rosto fica tão tempestuoso quanto o céu.

— E daí? É assim? É tudo ou nada com você? Se eu não te entregar minhas bolas numa caixinha forrada de veludo não podemos ficar juntos? De onde vem toda essa merda? Achei que você curtisse ficar comigo. Que estava feliz com o jeito que as coisas estavam.

— É, mas não estou! Odeio ficar me escondendo como uma criminosa, agindo como se estivéssemos fazendo alguma coisa errada. Não tenho vergonha de gostar de você, Ruggero, mas parece que você não pode dizer o mesmo. Só aceitei manter nossa história em segredo porque achei que você precisava de tempo para perceber que queria mais. Mas parece que eu estava errada. Você me dá o mínimo possível de você, esse tempo todo me fazendo te querer feito uma louca.

— Você acha que também não te quero? Caralho, Sevilla, você está brincando comigo?

— Acho que você me quer, mas não o suficiente para admitir para todo mundo!

— Por que diabos os outros importam? Você sabe que gosto de você! Porque eu praticamente não consigo esconder o que você provoca em mim.

— Não estou falando sobre gostar sexualmente de mim, Ruggero! Estou falando sobre querer estar comigo. Não tenho ideia do lugar que ocupo na sua vida. Não sei nem se você sente de fato alguma coisa por mim, ou se sou apenas um corpinho disponível. Conveniente, mas não tão necessário.

— Acha que é conveniente?! — Ele me encara por longos segundos, tão irritado que não consegue formar as frases. — Não é conveniente porra nenhuma! Conveniente seria não conhecer uma menina que me deixa louco pra caralho! Conveniente seria poder me concentrar no curso que levou três merdas de anos para eu entrar sem ficar pensando a cada minuto o quanto eu te desejo! Sevilla, você é tudo, menos conveniente!

— Então o que eu sou, hein? Me diz de uma vez! Abra essa boca e diga algo que me faça entender o que você sente! Acho que fui bem honesta com você sobre o que eu quero, mas tudo o que ganho em troca é o que você não quer.

— Quer saber o que eu quero? — ele diz, jogando a mochila no chão. — Ótimo. Quero isso.

Ele agarra meu rosto e me puxa para ele. Me pega de surpresa colocando os braços ao redor de mim e me beijando como se estivesse se afogando, como se eu fosse oxigênio. Não há nada cuidadoso nesse beijo, nada remotamente vago ou desonesto. É apaixonado e sufocante, e seu desespero é quente, me queima apesar do frio e da chuva. Por longos minutos ele me beija tão vigorosamente que o mundo dá voltas e quando se realinha está girando de novo ao redor dele. Ele beija meu pescoço, sua voz áspera e intensa.

— É isso o que quero, Sevilla. Não consigo deixar mais claro. Nem tente negar que você não quer isso também. Por que você complica tanto as coisas? Ele me beija novamente e tudo se torna uma confusão de línguas e lábios. Não é justo que essa seja sua explicação, porque não consigo discutir com isso. É grande demais para descrever ou intenso demais para negar. Apesar de não ajudar em nada a melhorar nossa situação, me faz querer esquecer todas as coisas que estão ruins.

Mas é o que ando fazendo o tempo todo. Deixando passar e aceitando, tão cega de desejo que não consigo dar atenção às minhas necessidades. Não posso mais fazer isso.

Ele grunhe e se afasta. E pelo olhar em seu rosto ele sabe que o que está oferecendo não é o suficiente.

Recuo. Nós olhamos um para o outro, ambos estão sem fôlego e encharcados.

— Não posso mais fingir que isso é o suficiente para mim — digo baixinho. — Não estou enganando ninguém. Nem você, nem nossos amigos, e especialmente não a mim mesma. Quando e se você estiver preparado para fazer isso acontecer de verdade, me avisa.

— Karol...

— Te vejo na aula, Ruggero.

Eu me afasto com passos pesados como chumbo enquanto o fel revira no meu estômago. Quando pego o caminho do meu prédio, olho para trás. Ele ainda está parado lá, onde eu o deixei. Suas mãos estão presas na nuca, pressionando sua cabeça para baixo. Tenho uma vontade doentia de correr de volta e dizer a ele para ignorar tudo o que acabei de falar. Que aceito qualquer parte dele que ele queira me dar.

Mas não posso fazer isso. Seria outra mentira.

Em vez disso, sigo para o meu apartamento sentindo calafrios, e destranco a porta com mãos trêmulas. Lá dentro, tiro a roupa e sigo para o banheiro, determinada a ficar sob uma ducha quente e esperar até que a compulsão de voltar para ele vá embora.

Para minha tristeza, quando a água esfria uma eternidade depois, eu ainda estou esperando.

 

Hoje

Nova York

 

Estou de pé na bancada do café do outro lado da rua do teatro quando sinto uma mão quente na minha cintura, eu me viro, esperando ver Pasquarelli, mas, em vez disso, vejo Nisco sorrindo para mim com um olhar de compreensão.

— Srta. Sevilla.

— Sr. Nisco.

— Divertiu-se na apresentação beneficente ontem?

Seu tom e sobrancelha levantada sugerem que ele viu o beijo.

Droga.

— Foi legal.

— Tenho certeza.

— Por favor, não faça grande caso disso.

— Do quê? Dos meus protagonistas se pegando num cantinho como adolescentes? Nem sonharia.

— Não foi nada.

— Minha querida, conheço o nada, e me deixe dizer que o que você e o sr. Pasquarelli estavam fazendo noite passada definitivamente não era isso. Achava que a forma como se beijavam nos ensaios era quente. Pelo que entendi, é bobagem perto da coisa real.

— Nisco...

— Tudo bem. Não estou chateado. Para dizer o mínimo, estou empolgado. Pode imaginar a imprensa que vamos ter com isso?

Eu gemo quando a barista me passa o café.

— Sério? Acha que eles viram?

— Estou certo que sim. Nossa assessora de imprensa quer nos ver antes do ensaio. Acredito que cada website da Broadway e revistinha de fofoca esteja falando disso. Vocês dois são o assunto do dia.

— Ai, Deus.

Ele ri e dá uma batidinha reconfortante no meu ombro enquanto me guia para fora do café. Quando chegamos à sala de ensaio, tiro minha bolsa e me encaminho para o banheiro feminino, tentando afastar uma onda de náusea.

Depois que Pasquarelli e eu deixamos o evento, ele me acompanhou até em casa. Lá em cima, ele me deu um beijo de boa noite. Para ser honesta, foi mais que um beijo. Foi mais como um amasso vertical contra a porta do meu apartamento. Na verdade, se o sr. Lipman, que vive no final do corredor, não tivesse espirrado enquanto nos espiava feito um tarado nojento pelo olho mágico, é provável que tivéssemos chegado a um ato que é totalmente ilegal num corredor público.

 

Quando por fim me afastei, eu estava mais confusa do que um cara hétero num concurso de beleza de transgêneros. Prometi a mim mesma que eu iria devagar com o Ruggero, de verdade. Mas, ainda assim, em uma noite, consegui beijá-lo duas vezes, chegar à segunda base bem animada e segurar o taco de beisebol dele, totalmente excitada, por cima da calça mesmo.

No livro de regras desse jogo, isso não está nem no mesmo capítulo do ir devagar.

Retorno à sala de ensaios e Pasquarelli está lá. Seu rosto se ilumina quando me vê. Paro diante dele, e ele passa os braços em volta de mim e me puxa num abraço. Ele não pretende demonstrar intimidade comigo, mas demonstra. Sinto sua respiração quente na minha orelha quando ele cochicha:

— Bom dia. Senti saudade. — Sua voz ecoa nosso momento juntos na noite passada, está cheia de tesão e um pouquinho de presunção.

— Oi. — Aminha é propositadamente insípida. Nada encorajadora.

Ele se afasta. Seu sorriso desaba e a luz se apaga em seus olhos.

— Karol?...

A sala está se enchendo de outras pessoas. Nossa assessora, Mary, entra como um tornado descabelado, com os braços cheios de papéis e iPads.

— Bem, vocês dois tiveram uma noite interessante. Tenho toda uma campanha de marketing organizada para fazer a cidade zumbir com esse espetáculo, mas vocês conseguiram nos deixar virais com uns amasso bem divulgados. Parabéns.

Ela coloca todos os materiais na mesa. Há várias fotos de mim e Ruggero com os lábios bem coladinhos. Cada iPad está pronto para exibir um vídeo diferente do beijo. Droga, quantas pessoas estavam nos gravando?

— Esperem até ver este — Mary diz quando bate uma unha cheia de esmalte numa das telas. — Este aqui tem um zoom bem artístico que permite que vejamos de fato vislumbres de língua. Aqui!

Todo mundo ri. Eu quero vomitar.

— Assim — Mary continua —, já tenho uma dúzia de pedidos de entrevista esta manhã, então precisamos traçar uma estratégia. Obviamente, são todas para publicar esse troço de “ex-namorados reunidos em nova peça sensação do momento”, porque isso vai vender ingressos. As pessoas adoram quando a paixão do palco é real. Se todos concordarmos, escrevo os releases de imprensa e os distribuo esta tarde mesmo.

Ela olha para mim, Nisco e Ruggero.

Previsivelmente, Nisco e Ruggero estão esperando por minha reação.

Tão previsivelmente quanto, minha resposta é:

— De jeito nenhum.

Mary começa a argumentar. Não fico lá para ouvir.

— Preciso fumar. Volto num minuto.

Pego cigarros e isqueiro. Ruggero encosta seus dedos nos meus braços, mas continuo o passo. Quando estou do lado de fora, tento acender o cigarro, mas meu infalível Zippo aproveita aquele momento para deixar de ser infalível. Tento sem parar, mas ele se recusa a acender.

— Porra!

Eu me jogo contra o muro e fecho os olhos. Então, escuto a porta se abrir, e sei que é ele sem nem ter de olhar.

— Karol? — Mantenho os olhos fechados. Não vê-lo é mais fácil. — Por favor, olhe para mim.

Não posso. Quero ser forte, e olhar para ele me torna a mulher mais fraca do planeta.

— Olhe para mim ou vou te beijar.

Isso funciona.

Abro os olhos e o vejo de testa franzida, os braços estão cruzados sobre o peito.

— Pode me dizer o que diabos está havendo?

Levo as mãos para o alto.

— Está em todo lugar. Fotos. Vídeos. Posts.

Ele olha para mim, confuso.

— E?

— E... as pessoas estão fofocando sobre estarmos juntos.

— Bom, como a Mary disse, é uma ótima publicidade.

A calma dele é irritante. Estou tensa e me afasto, mas ele pega meus ombros e me segura.

— Karol, pare. Por que isso a está fazendo surtar? Sem ofensa, mas você não parecia preocupada na noite passada, quando quase fomos flagrados no seu corredor.

— Para começar, o que fizemos no meu corredor foi entre mim e você...

— E o sr. Lipman.

— ... não está espalhado em cada jornal da cidade!

Empurro o peito dele e ele recua para me dar o espaço que preciso para respirar. Seu rosto ainda é irritantemente sereno. E odeio que ele não se junte a mim na revolta.

— Desde quando você se importa com o que as pessoas pensam? — ele questiona. — Não tem como esconder nossa química no palco. Quem dá a mínima se eles pensam que estamos transando fora do palco também? Porque, pra todos os efeitos, estou de fato trepando com você durante a cena de sexo.

Ele não entende, e é porque eu não estou me explicando com clareza.

Explicar vai magoá-lo. E ainda assim parte de mim está totalmente o.k. com isso.

— Ruggero, para todos que nos conhecem... que conhecem nossa história... vou parecer a maior idiota do universo por deixá-lo voltar, e o pior é que eles estão provavelmente certos. Eles sabem quão devastada eu estava quando você foi embora, e agora estou ficando com você de novo como se nada tivesse acontecido? Que idiota devo ser?

Isso o faz parar na mesma hora. Os músculos do seu rosto têm trabalho extra.

— Karol... tenho me esforçado muito para estar numa posição de pelo menos poder pensar em consertar as coisas com você. Se eu achasse por apenas um segundo que poderia magoá-la de novo, eu não estaria aqui. Você consegue confiar em mim?

Balanço a cabeça.

— Não. E esse é o problema. Não confio em você, e não sei se algum dia vou voltar a confiar. Na minha cabeça, eu sempre vou esperar pelo pior. Vou esperar você me lançar aquele olhar

O olhar dele endurece.

— Sabendo o que a gente sente um pelo outro... o que sempre sentimos um pelo outro... como não podemos? Nem tente me dizer que você vai amar alguém tanto quanto me ama, porque é uma puta mentira, por mais arrogante que isso soe. E sinto o mesmo em relação a você. Todos os outros sempre vão ser a segunda opção para nós. Você não vê isso?

Respiro fundo, com a cabeça martelando.

Estamos avançando aqui como um foguete, e não tenho ideia se vamos terminar no paraíso ou esmagados numa árvore.

— Talvez devêssemos apenas... dar um passo para trás. Estrear a peça e aí... não sei. Reavaliar.

Ele dá uma risada curta e zombeteira.

— Reavaliar. Tá.

Ele passa a mão pelo cabelo.

— Ruggero, os repórteres podem insinuar o que eles quiserem, mas, quando perguntarem se somos um casal, vou dizer a eles que “não”, e vai ser a verdade.

Vejo uma pontada de dor em seus olhos, mas ele ainda não está irritado.

Quero gritar de frustração, porque essa declaração deveria tê-lo mandado embora numa crise de raiva. Em vez disso, ele está me encarando com uma intensidade que faz até meus dedos do pé se contorcerem. Ele se move na minha direção e apoia a mão na parede ao lado da minha cabeça antes de se inclinar de modo que nossos narizes quase se tocam.

— Karol, termos concordado em dar um passo atrás é totalmente diferente de você me afastar, que é o que está rolando aqui. Deixe eu te poupar do esforço dizendo que você não pode se livrar de mim tão facilmente. Não posso viver sem você, e, mais importante, não quero. Então vá em frente e surte o quanto quiser. Ainda vou estar aqui quando você tiver acabado. Entendeu?

Ele me encara até eu demonstrar minha resposta assentindo. Então, ele me olha por outros segundos enlouquecedores e completa:

— Bom.

Com isso, ele se afasta e desaparece dentro do teatro. A porta se fecha atrás dele.

Mais tarde, naquele dia, damos uma série de entrevistas de imprensa nas quais ambos negamos estarmos envolvidos romanticamente. Baseado nas reações dos entrevistadores, é claro que ninguém acredita em nós.



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