História O segredo de Suna - Capítulo 84


Escrita por: ~

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Categorias Naruto
Tags Drama, Gaara, Hentai, Matsuri, Naruto, Romance
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Palavras 6.908
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, Ficção, Hentai, Luta, Mistério, Romance e Novela, Suspense, Violência
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Mutilação, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


"E todas aquelas coisas que eu não disse
Bolas demolidoras dentro do meu cérebro
Vou gritar bem alto hoje à noite
Você pode ouvir minha voz?

Desta vez este é o meu grito de guerra
Pegue de volta o meu grito de vida
Vou provar que este é o grito certo
Meus poderes estão ligados
À partir de agora eu vou ser forte
Eu vou cantar o meu grito de guerra
E eu realmente não me importo
Se ninguém mais acredita
Porque eu ainda tenho
Muita força em mim" (Fight Song - Rachel Platten)

Capítulo 84 - Desbravando a política


Eu despertei de súbito, me pondo sentado na cama. Sobressaltado, respiração ofegante e descompassada. Literalmente suando frio.

Matsuri já estava nessa posição antes de eu acordar, então acabou sendo fácil para ela me amparar.

— Ei, calma! Pode abrir os olhos, está tudo bem agora, você está aqui comigo... – Ela me envolveu em seus braços, praticamente me colocando em seu colo até que eu começasse a puxar o ar de forma mais regular. Estendeu-me um copo d'água e uns comprimidos, que reconheci sendo analgésicos, logo em seguida. 

Nem precisei dizer nada, para ela entender que conforme a adrenalina abaixava e "meu sangue esfriava", a dor começava a me lembrar que ainda tinha sua força. 

— Pesadelos, não é? — Dormindo comigo ao longo de todos aqueles dias, não me espantei que ela já tivesse notado que eu os tinha frequentemente. Sua pergunta não me surpreendeu, era óbvio que eu sabia que tinha um sono perturbado. 

Com a vida que tive até ali, como poderia ser diferente? 

— Me conta o seu que eu te conto o meu. – Perguntei direto, ciente do quão mais grave que o normal minha voz saia quando eu acabava de acordar. Pulando toda a parte de questionar o porquê ela parecia já estar acordada há mais tempo que eu e porque sua feição tinha tanta preocupação e talvez até tristeza. 

Já tínhamos confiança e intimidade o suficiente para saber que líamos com certa facilidade, muitas coisas um no outro. Ela sequer chegou a demonstrar surpresa por minha proposta. 

— Meus pais. — Resumiu. – Acho que pensar tanto em como nós vamos nos sair nessa tarefa, tem me deixado nervosa. Sua vez. — Determinou dando sua resposta por encerrada. 

"Tudo bem se ela não quis se estender muito. Ainda deve ser desconfortável falar sobre. Talvez em algum outro momento ela descreva melhor". Calculei aceitando sua resposta. 

— O casamento... Eu acho que eu não quero... — Falei ainda tão perdido na sensação do pesadelo, que estava com olhar vazio, encarando o nada. 

Ela se ajeitou erguendo-se, apoiada sobre o braço direito, ficando a minha frente de um modo que me forçasse a olhá-la, tentando manter a expressão impassível. 

— Segunda chance querido... - "Hum, droga... Errei na escolha das palavras de novo", compreendi meu erro, 

— Ah, não é "isso"... — Comecei a tentar me explicar. – É a festa, a cerimônia... Não tenho uma boa sensação. Na verdade... Eu realmente... Estou com medo. — Confessei abaixando a cabeça e passando a mão nos cabelos, ainda descomposto da habitual postura. 

— Gaara, tenho certeza de que consegue se expressar melhor do que isso. – Ela disse suspirando, já quase perdendo a paciência. Quando viu que eu me mantive calado, com a expressão franzida permanecendo carregada de tensão, ponderou chegando ainda mais perto, quase se sentando em meu colo, o que acho que só não o fez de fato, porque eu ainda não estava totalmente bem. – Ah, não... Por favor, diz que eu não estou entendendo isso... Não é só porque você acertou da última vez que... – Eu não a deixei terminar, sabendo que ela finalmente havia compreendido o que eu dizia e estava citando o fato de eu ter previsto, de certa forma, que algo aconteceria no dia do casamento da Mayumi. 

O que acabou culminando na morte do Yaoki... 

— Não foi "só" da última vez. – Fiz uma pequena pausa antes de continuar, decidindo se valia a pena ou não arriscar, uma vez que ela parecia permanecer incrédula sobre esse tipo de coisa. – Eu te contei como foi que achei o espião da Akatsuki, naquela noite em que me levaram, não contei? 

— Sim. Foi por causa do pássaro. Não existem aves daquele tipo aqui em Sunagakure. – Eu já imaginava que ela fosse dizer isso. 

— Acha que simplesmente dei sorte, de estar olhando pra janela no exato momento em que ele passou? – Ela conteve a custo o riso ao me ouvir. – Qual é a graça? – Perguntei quase ofendido. 

— Não acredito que ficou a noite inteira olhando pra janela, esperando alguma coisa. Céus, como você é paranoico! Você me surpreende todos os dias, sabia? Quem olha pra você de fora, jamais imaginaria algo assim. – Bufei irritado, cruzando os braços e virando o rosto de lado para não ter que olhar pra ela. Claro que não foi isso que eu fiz... Só olhei de vez em quando... Com certa frequência... Besteira... A quem estou tentando enganar? – Ei, desculpa... — Ela começou a me puxar pra si e beijar cada parte do meu rosto, até que eu desfizesse a expressão emburrada. – Só é muito estranho te ver desse jeito, sendo que é justamente a figura que inspira segurança ao país do Vento. Tem que admitir que a sua postura é completamente diferente do seu interior. – "É, talvez isso seja verdade", foi minha vez de ponderar. – Mas eu entendo, está bem? Eu entendo tudo. Acho que eu também seria receosa e paranoica se fosse uma espécie de alvo a vida inteira e estivesse prestes a formar uma família. Na verdade pensando assim, isso exalta o quão forte você é, por ainda fazer tudo que faz e ostentar toda esse porte. – Foi minha vez de tentar conter o riso. – Ah, lá vamos nós... O que eu falei de errado agora? – Ela perguntou exasperada, o que só me fez querer rir mais. 

— Sinto muito Matsuri, mas acabou de descrever exatamente o que você é agora, às vezes eu não sei se percebe isso. – Eu posso ter dito com um ar risonho, porém também era claro, que havia uma boa dose de dor contida ali. – Eu tentei te avisar desde o primeiro dia. Infelizmente, agora já é tarde demais pra você sair correndo... — Concluí com pesar. 

— E quem disse que eu gostaria de fazer isso? Ninjas da Areia, não correm. Nós suportamos e enfrentamos. E ser lembrada por estar relacionada a você é uma honra... Vale a pena o risco. – Ela disse isso com um sorriso tão iluminado, que como sempre, conseguiu desvanecer minhas trevas. 

Matsuri realmente era a pessoa perfeita para estar ao meu lado. Ela sempre consegue fazer eu me sentir completo e equilibrado. Talvez por ser meu total oposto. Ao longo da vida eu me tornei uma pessoa pessimista, fechada, desconfiada... E ela conseguia mandar tudo isso embora com sua alegria. Claro que não resisti em beijá-la. O que mais eu deveria fazer, com alguém assim parado bem na minha frente? 

— Assim está bem melhor... — Ela comentou quando paramos e eu a observava talvez com um olhar tão brilhante quanto seu sorriso. 

Às vezes era difícil acreditar que o que estava vivendo era mesmo verdade. Depois de todos os meus erros, achava que nem merecia receber tanto amor, algo tão... Incondicional. Definitivamente, eu não podia mais reclamar de não ter isso. Não com o sacrifício dos meus irmãos, do meu tio, com a vontade da minha mãe me acompanhando... Não com Matsuri dizendo que valia a pena todos os riscos que corria, apenas para permanecer ao meu lado. 

— E dessa vez você pode ficar tranquilo, eu tenho uma ideia que com certeza nos deixará seguros. – Ela anunciou com o mesmo ar de orgulho próprio de quando acertava algum exercício durante o treinamento, ou respondia alguma pergunta antes mesmo de eu terminar de falar. Cheguei a me erguer melhor para ouvir, totalmente interessado. – Vamos pedir a Tsunade para apostar que tudo dará errado. Como ela vai perder mesmo... 

Nem a deixei terminar e já estava rindo. A virei e joguei com as costas na cama, lhe calando com um beijo rápido. 

— Quanta dor você está sentindo agora por esse movimento? – Ela perguntou com os olhos franzidos, como se tentasse imaginar. 

— Não interessa. Vale a pena. — Devolvi usando o argumento dela, ganhando seu melhor sorriso malicioso em resposta.

— Sabe, eu sei que já está amanhecendo e que você geralmente começa a se movimentar por essa hora, mas... Você está de licença, Kankuro disse que a minha missão era cuidar de você... Não temos motivos para sairmos da cama tão cedo. Temos? — A fingida despretensão em sua voz era hilária e instigante ao mesmo tempo.

— Não vejo porque sairíamos daqui. – Respondi deixando-a tirar minha camisa e sentindo o calor dos primeiros raios de Sol, banharem minhas costas, enquanto mergulhava o rosto na curva entre seu pescoço e o ombro. 

— Me lembre de agradecer a Sara de novo, pela sua melhora. — Ela sussurrou percorrendo as unhas em minha pele, fazendo-a se arrepiar ao seu chamado, antes de continuarmos nossa folga a partir dali. 

                                                                                    ~~~ **** ~~~

— Lee, por favor, levanta daí! Eu já disse, está tudo bem! Já estou até melhorando... A menos que você seja ou tenha alguma "relação oculta" com meu pai, não foi culpa sua. – Dizia revirando os olhos, pelo que já devia ser a décima vez, uma variação da mesma afirmação. 

— Claro que foi! Eu não devia ter insistido com a luta e... – Ele recomeçava, e eu o interrompi, não querendo ouvir tudo aquilo de novo. 

— Eu insisti tanto quanto você. E achei que foi válido. 

— Válido? Nem conseguimos terminar, não sabemos quem venceu. – Ele rebateu. 

— Sério? — Perguntei com um sorriso pequeno meio de lado, quase não se podia notar com certeza. Percebendo que sem querer, acabei usando o mesmo tom que usei ao lhe perguntar a mesma coisa, durante nosso encontro na luta contra o Kimimaro. Um que parecia deboche, algo que devo ter pego da convivência com Kankuro. Porém mesmo sem querer, acabou servindo bem. Ele guardou esse tom na memória, reconhecê-lo fez com que ele finalmente me desse toda sua atenção. – Essa é a única resposta que consegue encontrar daquela luta? Que pena pra você então... 

Ele finalmente se calou por uns segundos e se ajeitou melhor no chão, passando a sentar-se de pernas cruzadas, encarando-me pensativo, absorvendo a questão, até por fim sorrir e admitir. 

— Não... Com certeza não. 

— Ótimo... Quero que faça uma coisa pra mim então. Estou melhorando, mas ainda não posso me exceder. – Claro, que omiti o fato de que já o havia feito, por isso agora estava maneirando. – Tem uma caixa na última prateleira do armário, pega pra mim. 

Ele foi rindo e comentando. 

— Já reparou que é autoritário, até pra pedir uma coisa simples? – Me lembrava de já ter ouvido queixas assim antes, muitas vindas do Kankuro e do Shukaku, principalmente. 

— Não. – Respondi com a maior simplicidade do mundo, fingindo não ter dado importância a pergunta, enquanto ele depositava a caixa ao meu lado e eu começava a vasculhar seu interior.

Torcia para que Matsuri não tivesse trocado tudo de lugar quando arrumou o quarto da última vez, até que enfim, achei o que queria, observando com certo remorso por meu último pensamento, que ela tomou um cuidado especial para não remexer nas minhas coisas. 

— Eu prometi a mim mesmo que lhe daria uma coisa, independente do resultado da revanche. Sei que não prometemos, nem apostamos nada nesse sentido, mas... Eu só realmente queria fazer isso, aproveitando a oportunidade de que está aqui. – Disse lhe estendendo um hitaiate de Suna, muito velho e gasto, de cabeça baixa. 

— Gaara-Sama... — Ele falou espantado, quase como se apenas pensasse alto. 

— Sem o "Sama" Lee. – Repreendi quando ele pegou o objeto de minhas mãos e eu ergui novamente o rosto. 

— Isso é... Seu? — Ele perguntou ainda abismado, com meu ato. 

— Sim, é a minha primeira bandana. Eu a usei durante todo aquele tempo em Konoha, antes disso e inclusive nos nossos "encontros posteriores", até virar Kazekage e por fim dispensá-la. – Minha história não fazia sentido com o resto dos objetos que espiava na caixa, ele devia estar ponderando, então a fechei para retomar sua atenção. 

— Por que está fazendo isso? Pode dar isso a um ninja da Folha? Mesmo com a aliança eu acho que... – “Céus, como Lee gosta de falar...”, pensava me apressando para interrompê-lo, antes que se perdesse numa infinidade de questionamentos e como de costume, acabasse sozinho, encontrando respostas absurdas.  

— É significativo pra mim. Por favor, apenas acredite e aceite. No fundo, independente do resultado técnico, nós dois vencemos toda vez que nos encontramos. Mas a primeira foi realmente... "Especial". – As vezes até eu mesmo me espantava, com a capacidade estranha que tinha, de fazer qualquer coisa soar indiferente. Não importava o quanto fosse emocionante o que eu estava dizendo, a pessoa tinha que me conhecer muito bem, para não se confundir entre o sentido das minhas palavras e meu tom distante e inexpressivo. 

— E "o que" significa? – É claro que ele iria rebater isso. Só que talvez eu devesse ter me preparado melhor pra responder. Depois de eu ter ficado uns belos segundos em silêncio, ele começou. – Tudo bem, não precisa dizer se for algo muito difícil... 

— Não, não é. – Menti descaradamente. - É só chato ficar repetindo, “quantas vezes meu pai tentou me matar”. – Disse o final numa rapidez tão automática, que quase saiu cantarolado e meus olhos reviraram automáticamente.  

— Ah... — Ele suspirou compreensivo. – Tem a ver com isso... Bom, eu já ouvi essa história, então, só pula essa parte. 

É, facilitou bastante... Graças a isso eu comecei no melhor resumo que consegui. 

— Com isso em mente, digamos apenas que por um tempo ele ficou tão focado em arrumar um jeito de se livrar de mim, que deixou de lado o fato de que sempre vai haver algum tipo de oposição a qualquer governo, seja qual for o Kage, ou a aldeia. 

— É, mais uns atraem mais atenção negativa do que outros... – Ele comentou durante a pausa que fiz para tomar um remédio, depois de analisar as horas no relógio. Claramente se referindo a mim. 

Não foi uma provocação, uma indireta ácida, nem nada do tipo. Se fosse, eu não estaria falando com o Rock Lee. Não existiam espaços espaços na pessoa dele para esse tipo de obscuridade. Num total oposto de mim, ele parecia ser somente luz, da forma mais pura que já havia visto num ser humano. Ele superava até mesmo o Naruto nesse sentido. 

Por isso eu sabia que o único sentimento envolvido em sua frase, era preocupação. A mais real e sincera preocupação. 

Engoli em seco e disfarcei optando por não demonstrar minha comoção a respeito.

— De fato. – Só me restava concordar e prosseguir. – Então uma noite eu estava no meu quarto, treinando o quanto eu conseguia expandir minhas habilidades sensoriais, querendo conseguir prever se haveria alguma de suas tentativas naquele dia e acabei realmente sentindo pessoas entrando na casa. Chakras muito diferentes do que se costuma encontrar em Suna, mas eu não liguei pra isso na hora, não relacionei nada. Só saí do quarto, tomando cuidado, sem fazer barulho... Eu estava pensando em "me" defender, porém quando passei pelo quarto do meu pai, percebi que era "ele" quem deveria fazer isso. Deve ter passado apenas um minuto que eu fiquei parado ali na porta, observando a situação. Eram três ninjas, muito fortes e que com certeza se preparam bastante antes de enfrentá-lo, já o haviam impedido rapidamente, de invocar o pó de ouro. Eu podia aproveitar que não tinha sido visto ou sentido, e sair dali discretamente, deixar que eles acabassem com o que não fim das contas, era uma ameaça pra mim. Mas aquele homem que eu julgava horrível, ainda era meu pai. Um péssimo pai, porém não deixava de ser pai. Eu não consegui simplesmente deixá-lo morrer, apesar de tudo. Por mais que ele estivesse fazendo o mesmo comigo quase que diariamente, aquele tipo de ataque era covardia, eu não aguentava mais ver aquilo... 

— Você o salvou... — Lee pensou alto novamente e eu apenas assenti com a cabeça. 

— Mas não pense que isso é algo do qual me orgulho, apesar de parecer que foi uma boa ação. Eu fui longe demais, podia não ter matado aqueles homens. - Suspirei e sacudi de leve o rosto ajeitando o cabelo, antes de retomar. Lee me olhava extremamente compreensivo. – O caso é quando ele enfim olhou pra mim e se deu conta do que tinha acontecido, no fundo por mais que não quisesse admitir, eu esperava alguma coisa. Um olhar diferente que fosse. Eu não tinha a pretensão de que ele fosse grato, eu era uma criança. Eu só que queria ao menos uma vez, um olhar que não tivesse decepção, rancor ou indiferença. Mas ele parecia estático, eu não consegui decifrar aquilo, então me conformei e virei às costas pronto pra ir. Só que pra minha surpresa, ele me chamou de volta, enquanto se recompunha, pediu para que eu pegasse esse hitaiate, nessa mesma caixa e disse o mais próximo que já chegou de ser algo bom pra mim. O máximo que conseguiu. "Obrigado por mudar minha opinião". No dia seguinte ele me promoveu a gennin e mudou de ideia sobre me ver como uma falha. Ele desistiu de tentar me matar. 

— Então... Está me entregando isso por que... — Lee tentava organizar os pensamentos, analisando o objeto nas mãos com toda a atenção. Novamente eu resolvi me adiantar, receando que sozinho ele chegasse a alguma conclusão errada.  

— Porque todos acham que só o Naruto é responsável pela minha redenção, mas na verdade, foi com você e sua persistência, sua relação até então estranha pra mim, com o Gai, que começou tudo. Você foi a primeira pessoa capaz de me tocar e eu sei que isso vai muito além da cicatriz que eu ganhei naquele dia. Acho justo te dar isso e deixá-lo saber. Considere um troféu, já que eu considero sua a vitória técnica. – Lee é tão emotivo... Não julgava ter dito nada demais e ele já estava murmurando meu nome e enxugando os olhos marejados. Eu ri e completei, sentindo como se dizer aquilo me tornasse mais leve. – De verdade Lee, "obrigado por mudar minha opinião". 

— Eu sei o que você já falou sobre isso, mas... Posso te dar um abraço? — Sei que franzi a testa ponderando. Ele me chamou de você de repente, então... Acho que entendi a referência... 

— Tudo bem, só um abraço rápido. — Assenti suspirando, sentindo minhas bochechas esquentarem num constrangimento nostálgico, revirando os olhos e estendendo os braços pra ele que se jogou no abraço com tanta força que me deixou sem ar, ainda pelas lesões.

Ah, que desnecessário...

Ele me soltou ao notar o quanto estava me doendo, porém permaneceu sentado na cama, por perto. 

— Sabe... Desculpe tocar no assunto, porém... Seu pai é um homem muito confuso. Toda vez que eu penso que entendi a relação de vocês, aparece uma informação nova que bagunça tudo o que eu achava que havia entendido. 

Deixei escapar um doloroso sorriso de lado.

— Bem vindo a minha vida... Mas falando em pais... – Comecei a mudar de assunto, finalmente vendo oportunidade de tentar sanar essa dúvida. – Naquele dia da luta, por um segundo eu achei que o Gai... – Cortei a frase me perdendo por uns segundos em meus próprios pensamentos, relembrando estar pensando sobre isso quando perguntei ao Gai no final da luta, “por que salvá-lo?”, comparando a cena com minha própria história. Aquilo foi o oposto mais chocante que eu já havia visto até então. – Lee, quem é a sua família? 

— Ah... — Ele se levantou, passando a mão na parte de trás da cabeça, bagunçando um pouco os cabelos que por serem tão escorridos, voltaram num segundo para o mesmo lugar, nitidamente sem graça. – Minha família é... 

“Ele está me respondendo!? Céus, mal posso acreditar que vou saber isso...”, me remoía em minha ansiedade.

Mas é claro que estava tudo indo bem demais pra ser verdade. 

Matsuri entrou no quarto de repente, furiosa, batendo a porta na parede com um estrondo, arrancando as sandálias com tanta violência que até parecia que elas lhe haviam feito alguma coisa. 

Pela primeira vez desde que a conheci, não havia ficado tão feliz assim em vê-la. "Tudo bem, até o dia da partida dele eu tento perguntar de novo...", procurei me conformar. 

Ela permaneceu em silêncio, sem nos dirigir a palavra ou sequer um olhar. Era como se nem estivéssemos ali, Matsuri só via a própria fúria. Saiu jogando em cima da escrivaninha, uma série de coisas que não carregava consigo, quando deixou o quarto mais cedo. Entre elas uma bolsa de tamanho razoável e uns envelopes do hospital.

Como ela havia saído para cumprir o acompanhamento com a Tsunade, seu comportamento agora que voltara, me deixou preocupado.

Começou a resmungar murmurando, tirando a bandana do pescoço... Já estava indo em direção ao banheiro, quando a chamei firme, quase como se a repreendesse. Qualquer coisa mais baixa e menos enfática do que isso, e ela provavelmente não teria escutado.

Quando ela finalmente se virou para nós, seu rosto estava escarlate, realmente possessa. Os olhos piscando na tentativa de não chorar. 

— O que aconteceu? – Perguntei enquanto Lee a envolvia num abraço meio de lado, que ela prontamente aceitou, apoiando a cabeça em seu ombro. 

— Com certeza, alguém “disse alguma coisa que não devia”. Me fala o que aconteceu e... – Ele começou em disparado, já tramando toda uma estratégia de ação. 

— LEE! – Tive que gritar com ele também, por sua atenção. – Se não deixá-la falar, nunca saberemos. 

— Ah sim, tem razão... – Ele assentiu em tom de desculpas.

Ela respirou fundo, tentando se acalmar antes de abrir a boca, apenas para nos deixar mais confusos. 

— O que tem de errado com meu cabelo? 

— O que!? — Eu e Lee questionamos perdidos quase que ao mesmo tempo.

— É... – Ela retomou a palavra, com uma fúria crescente em seu tom de voz. – O que tem de errado com meu cabelo, minhas roupas, meu jeito... O que tem errado comigo!? Você sabia que existe um "segundo conselho" em Suna? – Contive a vontade de rir ao finalmente entender a situação, porque ela provavelmente só ficaria com mais raiva ainda. Porém o tom de quem estava fazendo uma queixa ou delatando uma informação preciosa que ela usou, me era hilário. 

— Ah, então é isso... — Soltei o ar que segurava involuntariamente, aliviado. – Por um minuto achei que Tsunade tivesse dado mais uma notícia ruim. E me desculpe por não ter falado sobre "elas" antes, aconteceu tanta coisa e... Sinceramente, não achei que elas seriam tão "ousadas". Mas não se preocupe, elas falam alto, porém não tem poder efetivo. Não é oficial. 

— Você que pensa! Eu não as subestimaria se fosse você... Isso não é no que elas acreditam. Faz ideia das coisas absurdas que elas me disseram? Que tipo de ser desprezível segue aqueles conselhos? – Ela rebateu se soltando de Lee e se aproximando de mim gesticulando irada. 

— Espera... Não querendo me meter, mas... Do que estão falando? Quem são "elas"? — Lee questionou desentendido. 

— São as esposas, filhas, enfim... As mulheres dos membros do conselho oficial. – Expliquei. 

— E pra que a Matsuri-Sama precisa de um conselho, se não tem um cargo político? – "Sábia pergunta", pensei, olhando pra ele, já começando a não conseguir disfarçar meu ar de riso. 

— É exatamente esse o problema! – Matsuri exclamou batendo uma mão na cintura. – Elas acreditam que “por debaixo dos panos” eu tenho sim um compromisso político. Elas acham que eu posso te influenciar, que tenho o dever de te manter estável e dentro dos interesses de Suna. Ou seja, dos interesses do conselho, é claro... — Ela parecia estar realmente se esforçando para me alertar e a essa altura eu já estava rindo verdadeiramente. Era muita inocência da parte dela, achar que eu não fazia a mínima noção de nada disso, já sendo Kazekage há tanto tempo. – Não gostam de mim, porque não fui escolhida pelo conselho, então não me comprometi antecipadamente com eles em nada. E elas estão com uma maluquice na cabeça de tentar reverter à situação e aproveitar o fato de você não gostar muito do tradicionalismo, para me dar poderes de forma oficial, e assim a elas também sucessivamente. É uma tramoia tão suja! No final ninguém está pensando de verdade na aldeia, que se dane que ainda existem pessoas que passam fome, sede e outros tipos de necessidade por aqui. Que se dane que ainda somos a nação mais pobre das cinco grandes potências. O importante são as aparências, as tradições, encher os bolsos de dinheiro enquanto o povo definha, elas estão loucas se acham que vou me prestar a ser usada pra isso... Quer saber, do que você está rindo? — Ela enfim se desligou do próprio desabafo e olhou pra nós. – E você também Lee! — Por estar mais perto, ele levou um tapa no ombro, que me fez comemorar estar de cama. 

— Nada... Só... Estou orgulhoso. — Admiti apesar de saber que Lee estava ali, sentindo meu rosto corar. 

— Vocês combinam mesmo. Que bom que se acharam. — Ele comentou sorrindo com admiração pra nós, o que foi realmente nobre da parte dele. Não precisava ter dito isso. Ela ainda respirava acelerada e com raiva. 

— Isso tudo é tão desprezível... Gaara, como consegue lidar com esses demônios, todo dia? Na verdade, chamá-los de demônios é até ofensivo com o Shukaku. E as pessoas achando que ser um Kage é só viver sentado sobre a glória... Que glória!? Tô aqui com você todo esse tempo procurando e ainda não achei a tal dessa gloria! — De repente ela parou, como se subitamente chegasse a uma conclusão e retomou num tom muito determinado. – Mas sabe... Acho que numa coisa elas têm razão. A esposa do Kazekage também devia ter compromissos... Pois eu vou apoiar seu trabalho todo santo dia, do nosso jeito. Vou fazer aquelas velharias engolirem as palavras. "Se você não se importar de dividir "a glória" com uma mulher, é claro...". — Ela disse sarcástica, provavelmente porque aquilo devia ser referência a algo que ouviu das anciãs. Lee me olhava sorrindo, incentivando-me a tomar uma posição favorável. 

Definitivamente, não existe ser humano mais nobre que o Rock Lee... 

— Se eu me importo? Seria um prazer, uma honra, mas... Você por acaso gosta de política? O seu sonho não era... Se superar e ser uma grande kunoichi? – Precisei expressar essa preocupação. 

Ela sorriu maliciosa, sacudindo a cabeça reprovando minha desinformação. 

— Querido... Eu sequer queria ter que tocar numa arma, por mim eu viveria dançando. Mas depois daquele dia em que me tornei sua aluna, meu sonho passou a ser honrar o seu caminho ninja, porque você foi a primeira pessoa a quem eu verdadeiramente admirei. Você me deu um propósito pelo qual lutar pra sobreviver todos os dias, quando eu tinha acabado de perder meus pais e achava que nunca fosse ter isso. Tinha razão o tempo todo Gaara, “não ter um propósito é o mesmo que estar morto”. Significou tanto pra mim ter aceitado me treinar naquele dia, quanto significou pra você ter sido escolhido. – Ela notou que eu a olhava feio e antes que eu dissesse algo, justificou. - Não eu não estou "me anulando" como pensa. Isso é só uma evolução do nindo que eu aprendi como você. Por acaso você deixou de ser um shinobi, por ter virado um político? Isso te impede de lutar quando é preciso? Eu achei que o Kazekage fosse justamente, o maior shinobi do país do Vento. Você mesmo disse, que não queria que eu "andasse atrás de você", lembra? Não estou te entendendo, está com medo de que eu te supere? - Ela tinha que terminar me desafiando... 

De tudo o que eu poderia dizer ou fazer, nada cabia na presença do Lee então me limitei a sorrir rendido e encantado pra ela, de uma forma que jamais fiz, ou faria para mais ninguém. Lee me observava com nítido orgulho, corroborando para me deixar ainda mais sem graça. No fim, não consegui sustentar o olhar e abaixei a cabeça, esfregando a testa, ciente do quanto estava corado. Droga, por que ela sempre tinha que vencer tão majestosa? Acabava com a minha postura... Por que Lee tinha que me encarar daquele jeito, piorando tudo?  

Acho que algum deles pretendia dizer algo, mas isso foi completamente esquecido, quando Kankuro entrou como um furacão quarto adentro, fechando a porta com cuidado antes de falar, como se estivesse se escondendo ou fugindo. Aquilo já estava começando a se tornar a “tendência do dia”.

— Gaara, eu quero MATAR VOCÊ! – Ele veio andando pesadamente até mim contendo as mãos para não envolvê-las no meu pescoço.

— Por Kami, o que ele fez agora!? — Matsuri perguntou assustada e desentendida, olhando de mim para ele, como se isso lhe fosse dar alguma dica. 

— Ele, simplesmente esqueceu de me avisar o quão chato, é ser o Kazekage! Eu não aguento mais fazer “cara de paisagem”. Você é realmente perfeito pro cargo, já não tem expressão naturalmente mesmo! – Óbvio que estávamos rindo largamente a essa altura. Até que ele mudou para um tom mais enfático, quando terminou a água que Matsuri havia lhe servido. – Mas sério, você está com problemas. Levanta daí, da seu jeito. O Daimyo e aquele sobrinho ridículo dele, que pelo visto ainda te odeia, acabaram de chegar. Esse papo de "licença", não pode nem chegar perto do ouvido deles.

— Por que se adiantaram tanto? Faltam três para o casamento. Por que não nos avisaram para reforçar a segurança? – Perguntei com a voz tranquila, totalmente oposto a Kankuro. 

— Eles trouxeram uma guarda própria, acredita nisso? É uma desfeita! "Nós" somos o poderio militar do país do Vento, o que eles querem dizer com isso, que não confiam na gente? Mas vai por mim, o Daimyo em si te adora, ainda te acha muito parecido com o filho dele que morreu, sorte a sua. Agora, aquele sobrinho dele... Com certeza está mexendo os pauzinhos pra te atrapalhar. – Meu irmão alertou e Lee passou a me olhar preocupado. Eu apenas dei de ombros. 

— Sejamos honrados com nosso oponente, deixe ele tentar Kankuro. – Debochei. 

Ele ia abrir a boca pra me contestar, mas Matsuri passou sua frente. 

— Ei! Esperem vocês dois. Não acham que estão deixando muitas perguntas no ar? Gaara... – Ela se virou pra mim com as duas mãos apoiadas nos quadris, questionando maternalmente, me fazendo sentir que devia tomar cuidado com a escolha de minhas palavras. – Primeiramente, por que o sobrinho do Daimyo te odeia? 

Respirei fundo, incomodado. Não queria ter que falar sobre isso. Kankuro começou a rir, o que só fez Matsuri ficar mais curiosa e insistir para receber uma resposta. Eu argumentei que não tínhamos tempo pra essa conversa, que era uma longa história e ela devolveu que não conseguiria me ajudar como tinha acabado de se propor, se eu não fosse sincero. 

Porém quando eu dei por mim, eles estavam conversando sobre a nova resolução de Matsuri e seu encontro com as anciãs, até Lee participava do assunto animado. Revirei os olhos e falei alto, recuperando a atenção.

— Estamos nos perdendo do foco! 

— Tem toda a razão, querido. – Matsuri virou-se a mim. – Que tal começar a responder minha pergunta? 

Soltei o ar com força vencido pelo cansaço. 

— Tudo bem, vamos encerrar logo isso. – Kankuro estava fazendo um péssimo trabalho em conter o riso. Estava nitidamente adorando me ver embolado pra responder. – Eu, meio que... Destruí uma coisa da qual ele gostava muito... – Falei rápido e sem olhá-los diretamente nos olhos. 

— O que? Como assim? — Matsuri questionou piscando os olhos dezenas de vezes, enquanto Kankuro se continha tentando parar de gargalhar para dizer. 

— Que jeito sutil de descrever... 

— Olha, acho melhor alguém começar a explicar direito e rápido! — Ela parecia ter perdido de vez a paciência. 

— Eu explico! Adoro essa história... – Meu irmão se candidatou e eu me resignei apenas em revirar os olhos pela décima vez naquela metade de dia e ouvir.

— É meio longa, vou ter que dar uma volta pra você poder entender, mas juro que vou tentar ser rápido. – Ele respirou fundo como que numa pausa dramática. Kankuro e seus “shows”... Certamente estava adorando aquilo, tanto quanto disse. Matsuri balançava a cabeça e as mãos assentindo que estava acompanhando e pedindo que ele continuasse. – O Daimyo por muito tempo não tinha uma boa relação com o filho, mas quando eles começaram a tentar se acertar, deu o azar do garoto ficar doente e acabou falecendo. Aquilo não só deu uma mexida na cabeça do velho, como deixou vago o cargo de sucessor dele, até que acabou sendo escolhido como o próximo da linha de sucessão, esse tal sobrinho. 

— Pula logo pra parte onde está o problema! – Matsuri apressou. 

— Já expliquei que o Kazekage tem que ser aprovado não só pelo conselho dos anciões e pelos jonnins, mas também pelo próprio Daimyo? – Ele deu mais uma volta de propósito. 

— Esse é o seu jeito de “ser rápido”? – Perguntei colaborando com Matsuri, ao que ele apenas riu. 

— Nossa, vocês são tão fáceis de irritar, que não tem nem graça. – Comentou se ajeitando para recuperar o tom de narrador. – Bom, como eu ia dizendo, "meu querido irmãozinho" aqui... – O deboche apesar do orgulho em sua voz era tão claro, que me fez lhe lançar o olhar mais fulminante que podia. – É o Kage mais jovem da história. Não me venham falar do Yagura, o quarto Mizukage, porque ele não tinha a idade que aparentava. – Eu ficaria emocionado do quanto ele admirava meus feitos em qualquer outro momento que não fosse aquele. Ali eu só queria que ele se apressasse. – Isso chamou a atenção do Daimyo, principalmente pelo sobrinho dele ter a mesma idade que o Gaara e ser um idiota que não leva o mínimo jeito pra nada que não seja... "Boêmio", digamos assim. 

— Ele duvidava que o Gaara realmente pudesse ser digno do cargo, entendemos... — Matsuri completou tentando agilizar as coisas e Kankuro assentiu com a cabeça, sorrindo pra sua ousadia antes de continuar. 

— Ele marcou uma reunião, queria conhecer o Gaara pessoalmente. Acho que esse jeito dele, e a maneira madura com que fala, o convenceu sobre a política, porém mais do que isso, demos a sorte de que o falecido filho do Daimyo tinha a personalidade parecida então... Alguém virou o “protegido do chefe”. – Concluiu zombeteiro.  

— Nesse caso, porque você vive reclamando que falta verba, que suas reclamações não chegam a ele e essas coisas? Isso tudo é culpa do conselho? – Matsuri questionou sabiamente e eu começava a me espantar, de ver Lee tão calado e focado. Não interrompeu em nenhum momento, o que era raríssimo. 

— É, tem dedo do conselho nisso, mas também é culpa do sobrinho do Daimyo. Enquanto se prepara para assumir o cargo no futuro, pensando em dar a ele um treinamento mais enfático, e até força-lo a ter responsabilidade, o Daimyo lhe deu uma patente abaixo, porém ainda assim, bastante influente. Nem tudo cai direto no colo do Daimyo, como acontece comigo. Essas questões burocráticas​ que eles julgam "mais simples", como por exemplo, o repasse de verba, ele assina sem sequer ler, eu já vi. – Esclareci, antes que Kankuro embolasse ainda mais isso, pensando no quanto era revoltante que eles considerassem um assunto de pouca importância algo que mantinha minha aldeia viva, consequentemente, muita gente em segurança, principalmente eles mesmos.

— Me deixa ver se entendi, o sobrinho displicente do Daimyo, te odeia e vem tentando te prejudicar desde que se conheceram, porque tem ciúme ou inveja de ser comparado contigo o tempo todo, só porque o tio dele gostou de você? – Lee finalmente se pronunciou. Que bom, seu silêncio já estava me deixando preocupado. 

— Um pouco mais... — Kankuro respondeu com uma animação maléfica na voz. – Alguém quer chutar? Não? Ninguém? — Lee queria, mas Matsuri enlaçou o braço dele com força, fazendo-o entender que não devia dizer nada. – Ah, vocês não tem senso de humor... 

— Kankuro, conta logo! — Exclamei já completamente estressado. 

— Está bem, está bem... Mesmo com esse motivo da comparação e tudo mais, o garoto tentou mesmo fazer amizade com o Gaara, durante o tempo que passamos lá. Coitado, vocês sabem que é uma tarefa "complicada" essa... 

Eu o olhei semicerrado, deixando silenciosamente claro que aquele era meu último aviso. 

— Se adianta! 

— Então. — Kankuro engoliu em seco discretamente começou a falar verdadeiramente mais rápido. – Ele resolveu levar a gente para conhecer aquele lado específico do país do Vento em que vivem, mostrar o que gostava de fazer e essas coisas. Já foi dando errado no caminho. O Gaara discordava de absolutamente tudo o que ele dizia, nem pra fingir algum interesse. O cara resolveu dar em cima da Temari, foi um desastre, por um segundo quase não consigo impedi-la de mandá-lo pra longe com o leque. Mas nada se compara, a quando ele chegou ao último lugar do tal passeio. Eu achei que já tinha visto o Gaara irritado de todas as maneiras possíveis, até entrar naquele harém e descobrir que estava errado. Eu já pensava em que desculpa ia dar para sairmos dali, ou como ia segurá-lo caso resolvesse matar o sobrinho do Daimyo, mas pra minha surpresa, "meu irmãozinho" subitamente começou a fingir que estava tudo bem e sumiu da nossa vista. O que seria aceitável se tratando de um harém, porém eu sabia que ele estava aprontando alguma coisa, logo que o vi arrumar uma desculpa pra encostar no chão, e perguntar do que eram feitos os alicerces da construção. Quando tudo começou a desabar, ficou bem óbvio “qual artista assinava a obra”. Esse cara de pau ainda saiu de herói por ter salvado todo mundo e relatado ao Daimyo a existência de ambientes como aquele de forma ilegal. – Ele me apontava com um brilho orgulhoso no olhar. – O Daimyo brigou tanto com o sobrinho por ter acobertado aquilo, ainda não esqueci as palavras dele: "Seu pai teria muito orgulho de você garoto, eu ficaria muito grato se pudesse ensinar alguma coisa ao meu sobrinho. Koji, por que não o toma como exemplo?". Nossa, achei que o moleque fosse explodir​ de raiva e tentar matar o Gaara, ali mesmo. 

Mal sabia o Daimyo que meu pai não era muito convencional e não dava pra ter certeza de que ele fosse mesmo pensar assim.

Ousei levantar um pouco o rosto para olhar a reação de Lee e Matsuri. Ambos estavam boquiabertos. 

— Eu sei que vai parecer estranho "logo eu" dizer isso, mas... Como assim você no auge dos seus 15 anos, entra num harém e fica irritado, ao invés de sei lá... Aproveitar? — É, essa pergunta veio da Matsuri. 

— Aproveitar o que? Aquele lugar era um pedaço do Inferno! Aquelas mulheres não estavam ali por vontade própria, eram como escravas ou sei lá. Até o Kankuro concordou comigo nessa. – Ele balançava a cabeça afirmativamente, confirmando o que eu dizia. – Fomos criados pela Temari, não tem como nós apoiarmos uma coisa dessas, não enquanto eu viver, não no meu deserto. 

— É, exatamente... – Kankuro assentiu minhas palavras enquanto eu ganhava um beijo na testa da minha noiva e Lee me estendia o polegar, piscando o olho no seu gesto habitual de concordância, ressaltando que eu fui um herói, me deixando constrangido novamente. 

Meu irmão me estendeu a mão para dar algum tipo de “toque” específico. Eu já o havia visto fazer isso com alguns membros do esquadrão, porém apenas o olhei demonstrando que aí já era demais pra mim e ele revirou os olhos rindo. 

— Tudo bem, agora tudo fez sentido. — Matsuri comentou parecendo estar calculando alguma coisa. 

— O que? – Perguntei e Kankuro bateu a mão na testa, exasperado.

— Volta logo dessa licença Gaara, está ficando muito lento. — Ele me rebateu e Matsuri explicou. 

— Vocês ficaram sabendo por último da chegada do Daimyo, porque provavelmente aquelas “velhas capacho dos maridos”, tem interceptado as correspondências, não seria difícil delas fazerem isso, ninguém as contesta, ninguém desconfia... Agora o papo delas faz muito mais sentido, sem falar no fato de que Temari nunca disse que foi ela quem não escreveu meu nome nos convites. Para pra pensar, ela teria dito se tivesse feito algo assim, teria explicado o porquê. 

Fiquei calado ponderando o que ela explicava gesticulando, caminhando de um lado pro outro pelo quarto. 

— Ainda não entendeu? – Kankuro começou achando que precisava intervir. – Isso também explica, porque o conselho aceitou tão fácil que se casasse com uma mulher não escolhida por eles, sem nenhum clã ou tribo renomada por trás que pudesse vir a ser útil em algum interesse político. Eles só não quiseram se indispor com você, mas ainda tem esperanças de reverter à situação. 

— Quão idiota acha que eu sou, Kankuro? – Perguntei muito sério. É claro, que eu já havia entendido até ali, o que me fez ficar calado, foi o ar de Matsuri, de quem tinha uma solução. Isso me fez virar pra ela e dizer: – Não pense em fazer nada, deixa que eu resolvo isso. 

Ela me deu de ombros com um sorriso malicioso que dessa vez, só serviu pra me assustar, indo em direção à bolsa estranha que tinha trazido consigo e tirando uns panos de dentro dela. 

— Que bom que tenho aprendido a gostar de vermelho... — Comentou sugestiva me encarando de soslaio. 

— Gosto desse abuso, ela com certeza é das minhas. Sorte a sua Gaara, ela ser a única que consegue te afrontar. Você não está certo sempre, sabia?— Meu irmão me provocou e eu rosnei de leve cruzando os braços contrariado. 

Mas ele estava errado, ela não é a única que consegue me afrontar. Todo mundo parecia estar conseguindo um pouco disso ultimamente...

— Achei que tínhamos um combinado, querido... — Ela me lembrou. – Considere essa minha primeira estratégia como "a noiva do Kazekage". 

Eu não ia gostar disso, só tive mais certeza quando ela desdobrou o tecido que alisava, revelando uma roupa de festa, própria para dançar os ritmos típicos do país do Vento. Havia muito pouco pano ali, para que eu pudesse acreditar que ela pretendia ter uma simples conversa formal pra convencer o Daimyo e fazer o conselho se calar. 

Eu definitivamente, ia odiar aquilo... 


Notas Finais


Ufa, enfim saiu esse capítulo! Estou completamente quebrada pelos últimos dias insanos que tive, mas até que enfim estou aqui, com a entrega quentinha pra vocês.
Como sempre, espero que gostem e que me deixem saber disso nos comentários, com toda aquela riqueza de detalhes que só vocês sabem fazer rsrsrs
Uma ótima semana pra vocês bebezinhos e torço para que nos vejamos muito em breve. Titia vai descansar um pouco o sono dos justos e se preparar porque amanhã já vem mais pauleira. Beijos na alma! ♥


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