História O Terceiro Travesseiro - Capítulo 15


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Categorias Originais
Tags Drama, Lesbicas, Orange, Políamor, Romance, Yuri
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Palavras 1.694
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Orange, Romance e Novela, Yuri
Avisos: Adultério, Álcool, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 15 - Aniversário - Parte I


Em poucos meses, meus pais puderam finalmente perceber que a filha deles continuava sendo a mesma garota de sempre – aos seus olhos, o que eu fazia na cama com quem quer que fosse, não deveria ser levado em conta – que a minha nova orientação sexual não havia me transformado em nenhum Frankenstein. Mesmo com toda a limitação que o meu mundo continha - várias foram as vezes em que contornamos situações um tanto quanto delicadas - felicidade era um estado de espírito quase constante no meu dia-a-dia.

Uma dessas situações aconteceu no meu aniversário de 23 anos quando, a pedido de meus avós, foi feita uma grande festa na casa deles no interior. Por tradição de família - meu avô acreditava nisso - uma boa comemoração tinha que durar no mínimo três dias. O que mais chamava a atenção neste tipo de festa é que, a certas horas da noite, os convidados - exceto parentes - iam embora para suas casas e voltavam no dia seguinte para prosseguir com a festa, e assim sucessivamente até acabar. Angélica não gostou nada de só poder comemorar meu aniversário quase uma semana depois.

Por um problema na editora, meu pai iria se atrasar e só poderíamos seguir para o interior às 21h. Eu curtia um CD do Caetano Veloso e minha mãe arrumava a cozinha quando a campainha tocou e era a Lílian.

Enquanto meu pai não vinha, ficamos as três durante quase duas horas relembrando e contando histórias engraçadas. Não fosse Lílian ser mulher e minha noiva, seríamos uma família perfeita. Por vezes, tive a nítida impressão de que, de alguma forma, a cena de nós três conversando na sala já havia acontecido em outra época. Isso é muito louco.

Saímos de casa às 21h em ponto e nem bem entramos na BR 324, meu pai disse:

___Não esqueçam que, para os outros, vocês são apenas amigas.

Conversar no carro é bom por isso. Meus pais no banco da frente e Lílian e eu no de trás não nos sentimos envergonhadas, já que ninguém conseguia se olhar de frente.

___Pode deixar, pai. Nós não daremos nenhum fora.

___É isso mesmo senhor Paulo. Pode ficar tranquilo – Lílian continuou por mim.

Minha mãe comentou que meu avô já devia estar na calçada nos esperando. Dito e feito: quando avistamos a casa, lá estava o senhor Francesco. Meu pai ainda manobrava o carro para estacionar e meu avô já reclamava:

___Como vocês demoraram! A festa começou às 19h.

___Pai, sexta-feira é um dia complicado para o Paulo. É dia de fechamento da revista – minha mãe tentava se explicar.

___Mas ele não é o diretor-geral?

___Por isso mesmo pai.

___Não trouxe o namorado Mari? – meu avô perguntou antes de me dar os parabéns.

Juro por Deus que tive vontade de responder a ele: E o senhor acha que Lílian é o quê? Mas me contive e, abraçando-o.

___Problemas com os pais dele vô.

Perguntas como essa já não me incomodavam mais, porém, para meus pais isso não era verdade: eles sempre choravam.

Ao contar da hora em que desci do carro, só voltei a falar com a Lílian muito tempo depois. A casa estava cheia de gente e, além de meu avô não desgrudar de mim, apresentou-me a todos os seus amigos. O pior de tudo é que cada um tinha uma história diferente para contar.

Quando consegui me livrar de todos, apanhei duas taças de vinho e saí à procura de Lílian. Ela estava sozinha no canto de uma das salas e eu, já meio alta dos copos de vinho que havia tomado, não resisti e brinquei:

___Que tal um beijo, boa moça?

___Nem pensar garota. Eu tenho nojo.

Muitos, muitos risos.

___Você está demais Lílian.

___Demais em quê?

___Em tudo

___Marina? Lílian?

___Oi mãe.

___Vocês não acham que estão bebendo demais?

___Claro que não mãe, porque você diz isso?

___Vocês não param de rir.

___É felicidade mãe.

___Seu avô está procurando você Mari – ela disse sorrindo.

Mais risos.

___A quem ele vai me apresentar agora mãe?

___Não é isso Mari. Seu avô quer você na outra sala para cantar os parabéns pra você.

___Mas mãe, o vô está louco, eu vou fazer 23 anos e não 3.

___Marina!

Após reunir as pessoas, meu avô comandou a música de parabéns, como se eu fosse uma criança, com direito a “pic” e tudo mais; teve também o:

“É vatapá, é caruru, ô Mari eu vou comer... seu bolo;

A chuva cai, a rua inunda, ô Mari eu vou comer... seu bolo;

É cambalhota, é pirueta, ô Mari eu vou comer... seu bolo."

O bolo era enorme e minha avó tinha feito o meu predileto, que era de chocolate com recheio de leite condensado com coco e cobertura de brigadeiro.

___Agora a minha netinha vai oferecer o primeiro pedaço do bolo – minha avó disse passando a faca para as minhas mãos.

Vovó estava super entusiasmada. Parti o primeiro pedaço do bolo e, com ele já no pratinho, pedi silêncio a todos na sala:

___Eu precisaria de vários primeiros pedaços de bolo para oferecer às pessoas importantes na minha vida, mas como eu tenho que escolher apenas uma… Eu…

___Oferece logo!

___O primeiro pedaço de bolo vai para…

___A Ana desmaiou! A Ana desmaiou!

Minha mãe havia desmaiado. A correria foi geral para socorrê-la, mas de tanto que esfregaram álcool em seu nariz logo ela recobrou os sentidos. Com dificuldade - havia uma roda de pessoas à sua volta - consegui me aproximar do sofá onde ela estava:

___Mãe! O que aconteceu?

___Não é nada Mari. Sua mãe deve ter comido demais. Depois ela fala com você. Agora seu pai e eu a levaremos para descansar no quarto. Vamos Paulo! – Vovô respondeu por ela.

___O que aconteceu com a sua mãe Mari?

___Ela desmaiou Liu, mas está melhor.

A festa continuou normalmente e acabei não oferecendo o primeiro pedaço do bolo a ninguém. Inconformada por não acompanhar minha mãe até o quarto, resolvi subir. Com algumas batidas suaves na porta, a chamei:

___Mãe? Mãe? Posso entrar?

___Pode filha.

Meu pai estava ao seu lado.

___Você está melhor?

___Estou minha filha.

___Foi a comida que fez mal à você?

___Não foi a comida Marina. Posso fazer uma pergunta a você? – meu pai respondeu por ela.

___Claro pai, o que é?

___Para quem você ia oferecer o bolo?

___Não estou entendendo pai...

___Responda filha. Para quem você ia oferecer o bolo?

___Eu ia oferecer a você. Por quê? – eles começaram a rir – do que vocês estão rindo? Não estou entendendo!

___Sabe como é filha, você fez tanto suspense para oferecer o primeiro pedaço de bolo, que sua mãe - sabendo que você havia bebido um pouco demais - imaginou que o primeiro pedaço iria para a Lílian – novamente meu pai tomou a frente.

___Mãe! Você desmaiou por causa disso?

___Sua mãe não suportou a pressão dessa possibilidade e desmaiou. Isso é mais comum do que você pensa Mari – meu pai disse puxando-me para um abraço.

___Mãe, eu jamais colocaria você e o papai numa situação como essa! – Abraçamo-nos os três – Você me desculpa pelo suspense que criei mãe?

___Não pense mais nisso minha filha. Eu é que fui muito boba em pensar que você pudesse fazer isso na frente de todos.

Beijei-a.

___Agora é melhor você voltar para a festa filha.

___Vocês não vão descer?

___Seu pai ainda vai.

Voltando à festa, encontrei Lílian num dos jardins externos da casa. Sentada no banco próximo às roseiras da minha avó, parecia admirar o céu, quando em silêncio me aproximei:

___No que você está pensando?

___Mah! Nem a vi chegar. A dona Ana está melhor?

Sentei-me ao seu lado.

___Ela está bem. E você por que está sozinha?

___A sua família é legal, mas eles gritam muito.

Rimos.

___Liu? Que tal um delicioso pedaço de bolo com muito chocolate?

___Você ainda não comeu?

___Não. Você pegaria para mim?

___Pego Mah.

___Coca-cola também?

___Claro!

A felicidade que sentia era tão intensa, que às vezes me deixava assustada. Sempre ouvia meus pais se referirem à felicidade como algo distante e sempre, sempre como alguma coisa do passado.

___Pronto. Bolo de chocolate e coca-cola.

Peguei apenas o copo.

___O bolo quero que você me dê na boca Liu.

___É perigoso Mah. Alguém pode nos ver.

___Não precisa se preocupar, ninguém vem aqui.

Depois de comer o meu bolo predileto do melhor jeito possível, subimos ao quarto para descansar. Lílian nem quis tomar banho e, acomodando-se no colchonete, adormeceu quase que imediatamente. Não sei se havia algo estratégico no quarto preparado pela minha mãe, mas além dos três colchonetes serem bem distantes entre si, no meio dormia a minha prima Érica.

Precisando muito de um banho, peguei meu pijama e fui para o banheiro. Já me enxugava quando Érica entrou.

___Oi Mari.

___Oi Érica. Ainda é muito cedo para levantar.

___Eu ainda não dormi – achei estranha a resposta, pois quando eu e Lílian entramos no quarto, ela estava dormindo – posso te fazer uma pergunta, Marina?

___Pode. O que é?

___O que rola entre você e a Lílian?

___Não entendi Érica.

___Eu gostaria de saber o que rola entre vocês…

Imaginei que Érica desconfiava de alguma coisa, mas me fiz de morta.

___Nós somos amigas, por quê?

___Amigas não fazem o que vocês fizeram Marina.

Percebi que era sério. Respirei fundo e parei de me enxugar.

___Não entendi Érica.

___É estranho uma mulher ficar dando “bolinho” na boca de outra mulher daquela forma que vocês fizeram. Você não acha?

Fiquei alguns segundos em silêncio e, antes de dizer alguma coisa, fechei a porta do banheiro:

___Olha Érica, esse é um assunto muito sério e pessoal.

___É o que estou pensando, não é?

Enrolando a toalha no corpo, e sem olhar nos seus olhos, disse:

___Já faz algum tempo que eu gosto da Lílian, só que ninguém sabe de nada e isso deve continuar assim – silêncio – e tem mais Érica, acho que a gente pode falar sobre isso mais tarde, ok?

___Ok prima.

Demorei mais de meia hora para voltar ao quarto e quando entrei, Érica dormia ou fingia estar. Ela representava um problema a ser resolvido com o amanhecer do dia.



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