História Preto e Branco - Capítulo 10


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Ficção, Mistério, Mulheres, Novela, Orange, Policial, Romance, Saga, Sexo, Violencia
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Mistério, Orange, Policial, Romance e Novela, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


O 10º capítulo é especial, sendo assim, para facilitar a leitura, ele foi dividido em duas partes, das quais a primeira você pode ler agora. Boa leitura!

Capítulo 10 - Capítulo X - 1713 - Parte I


Fanfic / Fanfiction Preto e Branco - Capítulo 10 - Capítulo X - 1713 - Parte I

A lua sorria em meio ao manto azul estrelado no céu, tão baixa que parecia tocar as colinas que cercavam o vilarejo, iluminando os camponeses que ainda se dedicavam a preparação dos últimos detalhes para a festa de primavera que aconteceria no dia seguinte. Na torre oeste do castelo de Belfast, a luz fraca de um candelabro denunciava a curiosidade do pequeno par de olhos castanhos de uma menina que não conseguia dormir naquela noite, ansiosa para a chegada dos raios do primeiro amanhecer da nova e mais florida das estações.  Ela inspirou fundo quando uma lufada de ar tocou os cachos de seus cabelos, sentindo no vento fresco o perfume de rosas que ele trazia, como um doce cortejar para alguém que tanto se orgulhava das flores que desabrochavam em seu jardim. O evento mais esperado do ano significava para a filha do Senhor Prefeito algo muito diferente do resto dos camponeses, encontrando nos longos vestidos rendados e as porcelanas nunca usadas, assim como as carruagens que traziam novos rostos e a música animada que perdurava pela noite, uma magia capaz de levá-la para um mundo completamente novo, contrário a rotina de seus dias em um lugar com contrastes tão distintos entre a nobreza e a plebe. Naquele dia e somente naquele dia, ela via a alegria preencher os corações de quem conhecia apenas sofrimento durante todas as outras estações, uma felicidade tão repentina quanto necessária, que trazia o poder de igualar todos os homens, os ricos e os pobres; tocando cada um deles com a magnitude de sorrisos que eram esculpidos em rostos de todas as idades, esbanjando o doce soar de gargalhadas por todo aquele pedaço de terra.  
O condado de Belfast é um território em ascensão na Irlanda do Norte do século XVIII, com uma pequena população que abrigava cada dia mais imigrantes que chegavam de todas as partes da Grã Bretanha. E embora ainda fosse uma região que vivia além da política em constante mudança que envolvia seus reis e rainhas, havia certo poder emaranhado em seus campos e tesouros escondidos; um poder do qual apenas alguns dos homens mais influentes era permitido desfrutar. Christian Gibbon era o Senhor Prefeito pelo seu terceiro ano consecutivo, reeleito pelos nobres fieis que visavam apenas o aumento de suas riquezas e a permanente separação da miséria ainda tão evidente que existe além dos altos muros do castelo. Mas do topo da colina, os casebres de tijolos com seus telhados de madeira, pareciam lares aconchegantes que acolhiam famílias rodeadas pela plenitude de uma felicidade absoluta, onde cada chama das centenas de velas acesas nas janelas, percorriam seus becos como vagalumes no meio da noite, enquanto Sarah Gibbon aguardava pela chegada do sono. Ainda no auge de sua tenra idade, a herdeira da fortuna de um nome poderoso, via apenas injustiça nas limitações que a sua vida impunha, onde era sempre obrigada a permanecer distante de toda a liberdade que existia entre os habitantes do vilarejo, imunes a todas as regras e obrigações que lhe eram ditadas diariamente feito orações. Quando parte da lua cheia havia sido engolida pelas arvores do Bosque Nough, Sarah entregou-se contrariada ao sono que chegou de repente, deixando que a janela do seu quarto permanecesse aberta, permitindo a entrada do murmúrio distante do vilarejo que nunca adormecia.

O sol ainda não havia despertado quando a mãe entrou sorrateira no pequeno cômodo de madeira, agarrando a longa saia nas mãos antes de se ajoelhar entre as duas camas feitas de amontoados de tijolos e palha, prestes a entregar um novo dia aos dois filhos adormecidos em meio a suas velhas colchas remendadas. “Acordem, meus anjinhos”, ela sussurrou enquanto lhes afagava os cabelos, deixando um demorado beijo sobre suas testas, aguardando que os costumeiros lamentos começassem. Katrina foi a primeira a arregalar os olhos, soltando um profundo suspiro que abriu caminho a seu largo sorriso falho, iluminando um rosto rosado que lutava para que seus olhos dourados não voltassem a se entregar ao sono. Ayla se sentou na beirada da cama de sua menina, colocando-a em seu colo com ternura a fim de prendê-la em um abraço apertado, o qual foi retribuído com uma pergunta que era feita todas as manhãs.
— O que temos para o desjejum? —, disse ela apoiando seus pequeninos pés sobre o chão frio, enrolando-se nos próprios braços.
— Frutas e mingau, Kat. — respondeu com um aperto no peito quando o olhar decepcionado da menina não apresentou nenhuma surpresa.
— Você disse que teria pão. — cruzou os braços em sinal de protesto, com a sobrancelha franzida em um rosto irritado que ainda assim não perdia o sua delicadeza.
— Eu sinto muito, querida. — colocou-lhe uma mecha de seu cabelo atrás da orelha, entregando-lhe uma peça de roupa limpa para que pudesse se trocar. — Amanhã, quem sabe. — sorriu gentilmente já certa de que outra promessa seria quebrada.
— Não se preocupe com ela, mãe. — Samuel esfregava os olhos afastando a colcha de sobre as pernas, acendendo uma vela sobre o caixote de madeira que ficava ao lado da cama, criando luz suficiente capaz de iluminar todo o quarto. — Posso conseguir alguns pães na barraca do velho Eldric.
— Não quero que deva favores àquele homem, Sam. —, foi em direção a janela que se abriu com um leve toque de seus dedos, permitindo a passagem para o vento frio de uma noite que já se dispersava no vasto céu de Belfast. — Não quero que deva favor a ninguém, entendeu?
Samuel assentiu surpreso com o tom exasperado que surgiu de repente, algo que contradizia a amabilidade pela qual a mãe era conhecida entre o povo daquele vilarejo. Mas após a morte de seu pai um ano atrás, muito daquela mulher havia se perdido entre manter um teto sobre suas cabeças e comida na mesa para os dois filhos ainda tão pequenos. Por meses ele ouviu o seu choro durante a noite no quarto ao lado, aguardando sempre até que ela adormecesse exausta por lamentos dolorosos que invadiam o silêncio da noite. Na madrugada em que a primeira nevasca após a partida do marido cobriu os campos com seu manto branco, o choro foi levado pelos ventos, que uivaram por todo o inverno como se a dor da viúva tivesse sido arrancada de seu peito. Desde aquele dia nenhuma lágrima parecia brotar de seus olhos negros, e a mulher que ele antes conhecia estava adormecida, concedendo o seu lugar a alguém completamente novo, embora vislumbres de sua mãe ainda surgissem vez ou outra. O livro antigo de poções e encantamentos, esquecido há tanto tempo, reapareceu como se sempre estivesse em posse de Ayla, e do seu poder ela se serviu para sobreviver com os filhos durante todo o ano que se seguiu. A prática de magia não era bem recebida por todas as pessoas e logo os rumores começaram a se espalhar pelo vilarejo, tornando aquela família despedaçada um alvo de vandalismo e preconceito. Mas ainda havia bondade nos corações dos pobres, e quem era capaz de enxergar além de toda a superstição, adotou as curas de sua mãe como uma benção que chegou para abrandar as dores de um povo sofrido e esquecido pelo resto do mundo. Tudo o que ela pedia em troca de poções contra dores de cabeça, febres que dominavam os mais pequenos, urticárias que surgiam com a exposição constante ao sol e aqueles ferimentos devido ao trabalho duro, era um pouco de comida e roupa para que sobrevivessem a todas as crueis estações do ano. Com um pouco de sorte e o sucesso no salvar a vida de um recém-nascido, um pequeno campo fértil deu a possibilidade de uma nova atividade para aquela mãe de dois filhos; logo, verduras, frutas e legumes, tão belos quanto suculentos, foram cultivados e vendidos em bancas espalhadas pelo vilarejo, chegando até mesmo a enfeitar as mesas dos ricos que viviam no castelo.
Para a festa de primavera daquele ano, ela havia reservado toda a sua colheita, trabalhando noite e dia para proteger dos insetos e dos ladrões tudo o que havia conseguido plantar, certa de que a venda seria suficiente para trazer uma mesa farta para a sua família por algum tempo. Quando Samuel terminou o seu mingau, o carrinho, repleto de verduras e com um cheiro doce que exalava das frutas, já estava a sua espera. O menino ficou encarregado da importante tarefa de levar até o castelo o pedido feito pelo próprio Senhor Prefeito, por quem todas as pessoas daquele povoado trabalhavam sem descanso há várias semanas a fim de tornar a sua festa tão perfeita quanto ele exigia.
— Tenha muito cuidado, Sam. —, a mãe alertou cobrindo o grande carrinho com um pedaço de pano, sussurrando estranhas palavras em uma língua desconhecida, esperando que os bons espíritos lhe fizessem companhia em sua viagem.
— Pegaremos a Estrada dos Pescadores a fim de evitar o tumulto das barracas no centro do vilarejo. —, disse ficando nas pontas dos pés tentando enxergar por entre os casebres do lado leste. — Levaremos mais tempo, mas também é mais seguro por lá.
Ayla assentiu com uma mão sobre o peito, incerta em deixar os dois filhos com a responsabilidade de tudo de mais valioso que possuíam, mas não podia mais adiar a visita a uma velha amiga, quem estava doente já alguns dias, apenas esperando que suas poções milagrosas pudessem lhe salvar a vida. Então um beijo sobre a testa de cada um deles ela deu, olhando mais uma vez para o carrinho coberto, apenas aguardando pelo seu adeus.
— Cuide de sua irmã. — apertou levemente o ombro de Samuel, olhando-o em seus olhos esverdeados com profunda seriedade. — E você, mocinha, obedeça-o. — tocou a face de Katrina com a ponta do polegar, fazendo com que a menina franzisse o nariz.
Samuel segurou nas duas hastes laterais de madeira que pendiam do carrinho e o levantou com grande esforço, certificando-se de que nada havia caído antes de dar os primeiros passos. Katrina seguia distraída ao lado do irmão, embora a sua missão fosse a de avisá-lo caso alguma coisa desse errado com o transporte improvisado, admirada com tudo o que acontecia ao seu redor. Ayla permaneceu na porta da sua casa, olhando para a estrada por onde os filhos seguiam lentamente, até que eles desapareceram no meio de toda aquela gente, implorando aos céus que retornassem sãos e salvos.

 

Protegido pelos muros do castelo, no ponto mais afastado do território nobre do condado, havia o Palácio de Linho, como era popularmente conhecido, que abrigava a segunda família mais rica da região. Lorde Rickard Locke, o único produtor de linho de Belfast, havia duas faces distintas, tais como as moedas que emprestava para o Prefeito da cidade, seu caro amigo. Apesar de ser o homem a empregar boa parte das pessoas do vilarejo na tecelagem do valioso tecido, enganava poucos pela sua generosidade aparente. Muito diferente da bondade que seus gestos pudessem demonstrar, era a ganância que o caracterizava, cobrindo com um nevoeiro de terror todos aqueles que a sua estrada cruzavam. Não era desconhecido o seu fascínio pela vida do Prefeito daquele pequeno pedaço da Irlanda do Norte, quem, até aquele momento, ainda era considerado a pessoa mais importante. E por trás de toda a aparência distinta e diplomata, a família Locke escondia terríveis segredos que gemiam entre as paredes de seu enorme palácio. Ao lado de Lorde Rickard estava sempre a sua esposa, Eleanor, quem havia imigrado para as colinas de Belfast da antiga cidade de Londres, seguindo apenas o seu coração apaixonado, que se viu despedaçado logo nos primeiros anos de sua nova vida naquele pedaço de terra que parecia estar bem além do fim do mundo. O sorriso que carregava sempre estampado em um rosto ainda tão jovem desapareceu completamente com a chegada de seu primeiro filho, e aquela doce esposa que iluminava os bailes e era motivo de inveja entre as mulheres mais belas, logo se transformou em uma carcaça sem vida, com os olhos frios e o coração petrificado. Era para ela que o pequeno Addam fazia uma coroa de flores para lhe enfeitar os cabelos negros, escolhendo as margaridas mais perfumadas, apenas aquelas com as pétalas intactas, a fim de tornar o singelo presente um agrado digno de sua mãe. Mas por mais que se esforçasse, nada do que fazia parecia ser o suficiente para ganhar a aprovação de Eleanor, que evitava a todo custo a presença do próprio filho, destinando a sua criação desde o seu primeiro dia a  sua ama de leite, quem era responsável desde a sua alimentação até os cuidados médicos. No ano que precedeu o nascimento do herdeiro de Lorde Rickard, rumores viajavam pelas estradinhas de Belfast, chegando aos ouvidos dos pobres e dos ricos, carregando a mesma impactante mensagem; o ser que Eleanor, tão adorada por todos, trazia em seu ventre, era fruto de um estupro causado pelo próprio marido, quem teria trocado o marido amoroso por quem ela havia se apaixonado, mostrando a sua verdadeira natureza. Mas o rumor logo se dispersou quando a classe mais alta, agraciada pela luxuria do Palácio de Linho e as promessas de ouro de seu senhorio, passou a atribuir tais conversas aos invejosos e inescrupulosos, reforçando a aparente bondade e generosidade de um homem que não hesitava em eliminar os inimigos ou qualquer um que ousasse acabar com a sua reputação. A esposa, no entanto, nunca negou tais acusações, isolando-se cada dia mais em um mundo somente seu, do qual ninguém havia a permissão de entrar. E ainda que fosse capaz de forjar o amor pelo marido, ela não fazia nenhum esforço em esconder o ódio que sentia pelo filho, deixando as marcas da repugnância que sentia pelo menino em sua pele, matando pouco a pouco a alma daquele pequeno ser inocente.
Enquanto Addam subia as escadas, carregava com cuidado a coroa de flores em suas mãos, seguindo apressado até a varanda do quarto de seus pais na esperança de encontrar a mãe costurando uma de suas belas criações, como era de costume fazer nas primeiras horas de todas as manhãs. Ele passou pela porta entreaberta e pôde ouvi-la cantarolando com longas agulhas em seus hábeis dedos, dando forma ao que parecia ser mais um xale de linho que em breve se juntaria a sua extensa coleção. Addam caminhou a passos lentos até a varanda, permanecendo em silêncio há alguns metros de distância de Eleanor, deixando-se levar pela melodia doce que vinha ao seu encontro, contemplando aquele raro momento de serenidade da mãe. Antes que tivesse a chance de se anunciar, um dos carretéis de madeira rolou pelo chão na direção do menino parado atrás da porta de vidro, que olhou assustado para o rosto de novo amargurado da mulher que tecia o linho. O canto parou no mesmo instante, como se dela tivesse sido arrancada a voz, e o olhar frio e penetrante que ele tão bem conhecia reapareceu quebrando o encanto daquela manhã que marcava o início da primavera.
— Venha. —, ela disse inclinando levemente a cabeça, colocando sobre uma pequena mesa o xale inacabado.
Addam se aproximou com as mãos atrás das costas, para que a surpresa que havia preparado pudesse ser mantida em segredo por mais alguns segundos. Diante da mãe ele sempre se sentia aturdido, tão frágil e indefeso como um pequeno filhote de passarinho que ainda não podia bater as asas. Olhando para o chão ele aguardou até que ela lhe desse a permissão para falar, sentindo o coração bater forte no peito e o suor das mãos começarem a brotar.
— Já lhe disse que não pode entrar aqui. — levantou o queixo do menino com a ajuda da ponta da agulha, fazendo com que os seus olhos amedrontados encontrassem nos seus a fúria. — O que queres?
O filho hesitou por um momento, apertando entre os dedos as margaridas que começavam a murchar em meio a uma beleza que esvanecia pouco a pouco. Mas em um ato de coragem repentino, eis que o menino lhe entregou a coroa, segurando-a no ar voltando a olhar para o chão.
— Fiz para a se-senhora. — respondeu gaguejando com uma voz retraída. — Para usar hoje à noite na-na festa de primavera.
Eleanor o olhou surpresa com aquele gesto, embora não fosse de todo inusitado receber um novo agrado de Addam, que se esforçava continuamente para ganhar a admiração da mãe.
— O que seria isso? — tomou nas mãos o seu modesto presente, tentando compreender como um bando de flores murchas pudesse servir como adorno em uma noite tão importante como aquela.
— Uma coroa de margaridas. — respondeu entusiasmado, olhando orgulhoso para algo em que havia depositado muito de seu tempo e tanto carinho. — Su-suas preferidas.
— Não vou usar uma coisa horrível como esta. — estraçalhou as flores em pedacinhos, jogando no rosto do menino o que sobrou de todo o seu trabalho. — E saia já daqui!
Seus olhos acinzentados estavam agora arregalados, incrédulos por ter falido mais uma vez em agradar a mãe. Ele tirou do casaco as pétalas esmagadas enquanto as lágrimas surgiam e a vergonha por ter criado o que claramente era algo inadequado para a mãe o sufocasse.
— São as-as suas preferidas. — disse com o rosto banhado, olhando para ela ainda sem entender onde havia errado.
— Odeio margaridas. — retrucou com escárnio, empurrando o menino para longe de si. — Agora saia daqui, infeliz.
— Posso fazer outra. — sugeriu secando as lágrimas com a manga do casaco. — Com-com rosas desta vez, se-se assim preferir.
O tapa no seu rosto o pegou de surpresa, derrubando-o no chão com uma ardência que cobria toda a sua bochecha, deixando a pele quente sobre o toque de sua mão. Ela se levantou deixando que as agulhas caíssem em meio aos carretéis de linho, cobrindo com a sua sombra o menino atordoado pelo golpe recebido, com um ódio cada vez mais visível.
— Eu disse para ir embora. — deu um passo na sua direção, esticando uma de suas mãos. — O quer que eu te arraste para fora daqui? 
Addam lançou-se desesperado pela varanda e cruzou o quarto aos tropeços, descendo as escadas pulando os degraus, sem nunca olhar para trás. Ele correu até que seus pulmões começaram a doer, e ele rolou pelo chão tentando puxar o ar para respirar. Somente então notou o quanto estava distante do palácio, sentindo sob o corpo trêmulo a relva ainda úmida que demarcava toda a propriedade do pai. O menino se encolheu em seus braços e permaneceu ali, paralisado, até que o sol apareceu com seus infinitos raios no céu e os sinos começaram a cantar, anunciando a chegada de mais uma primavera.

 

O castelo estava cheio de vida naquela manhã, banhado pela luz ofuscante de um sol que se erguia alto entre as nuvens brancas, disposto a expulsar qualquer sombra que ousasse tocar seus altos muros naquele dia. Pelos corredores, odores distintos se cruzavam a todo instante; ora trazendo o forte cheiro de especiarias que envolviam as dezenas de patos e perus sendo assados no pátio do castelo, ora o aroma de flores recém-colhidas que distribuíam por todos os cantos suas cores intensas e formas magníficas. Aos olhos de Sarah tudo parecia ganhar um leve toque de mágica, como nos contos que sua mãe sempre lhe contava. “Bom dia, Ginny”, “Bom dia para você também, Stefan”, ela dizia enquanto seus pequenos pés percorriam apressados o Grande Salão, de onde mesas longas estavam sendo alinhadas sob gigantescos candelabros de ouro pendurados por todo o teto decorado com faixas de seda. Aquele era o dia do ano em que o castelo recebia todo o tipo de gente, estrangeiros e nativos, que traziam em suas línguas estranhas e suas roupas espalhafatosas uma alegria contagiante e um pedaço do mundo que ela jamais tinha visto. Quando chegou até a porta do arsenal, ouviu de longe a velha ama gritar pelo seu nome, andando apressada com as saias nas mãos e um olhar zangado à procura da filha do Senhor Prefeito, quem deveria estar reclusa em seu quarto a fim de iniciar mais uma de suas lições antes de se preparar para a festa que iniciaria dali algumas poucas horas. A menina olhou em volta em busca de um esconderijo que a abrigasse até que a fera passasse, mas antes que pudesse tentar a sorte por trás de uma pequena estátua despojada do outro lado do corredor, a porta do arsenal se abriu fazendo com o que o seu coração saltasse.
— Entre! Rápido! ­—, uma voz grave sussurrou por trás da porta, aguardando que por ela Sarah passasse.
O arsenal era o único lugar de todo o castelo onde ela jamais havia entrado, tendo sempre recebido ordens duras de sua mãe para que ficasse longe de tudo o que aquele grande cômodo guardava. E apesar da sua grande curiosidade tê-la tentado a quebrar a promessa algumas vezes, os soldados que ficavam de vigília na porta sempre a mantiveram bem longe do alcance das armas que permaneciam dia e noite ali trancadas. Muitas vezes ela se imaginou como uma daquelas longas espadas de lâmina de aço, tão preciosas ao seu pai, mas as quais eram permitidas ver a luz do sol somente em ocasiões especiais, retornando sempre para aquela prisão fria e escura do lugar mais afastado do castelo. Tal como as armas da Guarda de Belfast, ela raramente podia deixar as espessas paredes de pedra que há oito anos a mantinham longe de todo o restante do mundo, ouvindo cada vez que se lamentava o quanto o seu pai era um homem importante e quantas pessoas estariam dispostas a feri-lo através daquilo que lhe era mais caro. Ela não compreendia o perigo que acompanhava tal poder, nem mesmo se lembrava de qualquer ocasião em que tivesse se deparado com um risco contra a própria vida, mas via nos olhos dos pais um medo constante e isso bastava para que ao menos esse fosse um pedido que ela respeitasse.
Quando ela viu a figura por trás da porta do arsenal, mal pôde acreditar em quem estava diante de si. Havia apenas a luz de uma pequena janela no alto da parede ao norte, que refletia suavemente nas lâminas penduradas como troféus por toda a dimensão daquele cômodo, entre longos rifles de madeira e machados de todos os tamanhos. Havia uma quantidade imensurável de armas espalhadas por todos os cantos, onde até mesmo canhões e inúmeros barris de pólvora eram armazenados. Era assustador ver a quantidade de armas mortais em um único lugar e Sarah esperava que o momento em que fosse necessária a abertura do arsenal nunca chegasse.
— Está fugindo de novo? —, ele perguntou com uma leve risada, encostando levemente a orelha contra a porta de madeira a fim de ouvir os gritos da ama que se tornavam cada vez mais fracos.
— Não, claro que não. — o seu rosto angelical se iluminou com um largo sorriso. — Ela anda muito devagar.
— Sarah, não deveria brincar assim com a velha ama. — Christian Gibbon ajoelhou-se e segurou com ternura a mão da filha, mantendo a voz séria embora o olhar divertido o desmentisse.
— Peço desculpas, pai. — suspirou olhando para os sapatos. — Não irá mais acontecer.
— Ah! Irá sim. — deu uma gargalhada rouca, levantando o queixo da menina com a ponta do dedo. — Você sempre olha para os sapatos quando mente.
Sarah pareceu surpresa com aquela afirmação e ele riu novamente, dando uma breve olhada para o lugar onde se encontravam, notando a curiosidade nos olhos da filha. Ele segurou a sua mão e caminhou com ela em torno da grande sala, concedendo-lhe tempo suficiente para que descobrisse tudo o que lhe estava ao redor. A menina não disse uma palavra sequer, mas os olhos pareciam distantes e confusos, com as perguntas que lhe martelavam a garganta prestes a eclodir. Quando chegaram diante de uma grande armadura de metal, eles pararam enfim, e Christian explicou em uma história curta e pobre em detalhes que aquela vestimenta estava na sua família há muitas gerações, mas que ele esperava nunca precisar de uma proteção como aquela em Belfast e que tudo o que Sarah conseguia enxergar naquela sala era apenas uma exagerada precaução.
— Hoje é um dia especial. —, ele mudou de assunto sentando-se em um grande baú de madeira. — Você sabe por quê?
— Sim. Hoje é o primeiro dia de primavera. — respondeu com confiança.
— Exatamente. Mas por que festejamos a primavera e não fazemos uma grande festa para o inverno, o verão ou o outono?
Ela pensou por um instante e deu de ombros, frustrada.
— Veja bem, Sarah. Há muito tempo atrás, no lugar dos vastos campos verdes que vemos hoje, a terra de Belfast era crua e manchada por um vermelho que percorria quilômetros. — fez uma pausa observando a reação da menina. — Muito antes de você nascer, quando eu mesmo era ainda um menino, o mundo que você conhece hoje era bem diferente. O bosque escondia exércitos no lugar dos pássaros que agora somos capazes de ouvir cantar, as colinas abrigavam corpos sem vida ao invés da vasta relva verde que hoje é uma belíssima característica. O céu sempre tão claro era banhado pela escuridão que traziam as bolas de canhão, arrasando famílias inteiras quando caíam no chão. Era apenas mais uma guerra entre tantas outras pelo país e no final ninguém sabia dizer exatamente quem a tinha trazido para Belfast ou o motivo por trás de tantas mortes. Mas como tudo na vida, até mesmo a destruição chega ao seu fim e isso aconteceu logo no primeiro dia de primavera, quando a primeira flor em tantos anos foi forte o suficiente para abrir o seu caminho entre todo o sangue derramado nesse pequeno pedaço de terra. Assim como ela chegou, a guerra também se foi e desde então os homens de Belfast lutam incessantemente para que as nossas crianças não tenham que vivenciar dias tão duros como nós.
— Eu sinto muito, pai. — a menina pulou em seus braços e o envolveu em um abraço apertado, sentindo os olhos banhados pelo o horror que aquela história havia trazido. — Ninguém nunca havia me contado.
— Sua mãe achava que você fosse ainda muito nova para saber da verdade. — pegou a filha em seu colo, segurando levemente a ponta do seu nariz até que um sorriso aparecesse. — Mas você não é uma criança qualquer, Sarah. Você é minha filha; filha do Senhor Prefeito de Belfast e isso significa algo por aqui.
— Eu sei. Eu preciso me comportar e nunca sair do castelo sem você ou a mamãe. — disse apática, como se estivesse repetindo algo que ouviu muitas vezes.
— Sim, mas isso não é tudo. — inspirou lentamente olhando para o teto a procura das palavras. — Você tem certa responsabilidade sobre esse povo, especialmente sobre a nossa família. É esperado que você dê continuidade ao nosso nome e mantenha todo o legado que o seu avô e eu construímos. Portanto, ainda que seja muito jovem, está na hora de você assumir o seu papel como herdeira de tudo o que possuo e garantir um futuro para você e todas as gerações que te seguirão.
— E o que eu preciso fazer? — franziu a sobrancelha confusa. — Eu posso parar de fugir da velha ama e seguir as minhas lições. Eu juro, pai. Eu posso!
— Faça isso. — deu uma risada deixando um leve beijo na testa da filha. — Mas hoje à noite preciso que você faça algo ainda mais importante para mim.
— Sim, qualquer coisa. — concordou ansiosa.
— Receberemos um convidado muito especial e espero poder fechar um grande negócio com ele esta noite. A família do Lorde Rickard voltou recentemente de Londres e todos eles estarão presentes na festa de primavera que daremos no castelo. Não conheço a sua senhora, mas sei que eles têm um filho na sua idade e gostaria muito que vocês se tornassem amigos.
— Amigos? — repetiu envergonhada. — Eu não sei se posso fazer isso.
— Por que não, querida? — perguntou encabulado.
— Eu não tenho amigos. — deu de ombros. — Não saberia o que fazer. E se eu disser alguma coisa errada e ele não gostar de mim?
— Não se preocupe com isso, Sarah. — sorriu gentilmente. — Não existe uma pessoa sequer em todo o mundo que seria capaz de não gostar de você. Basta ser você mesma e tenho certeza de que se tornarão grandes amigos.
Ela concordou ainda que relutante, sentindo o nervosismo formigar nas pontas dos dedos. Havia poucos momentos dos quais se lembrava do pai com tanto entusiasmo e sorrisos fáceis que surgiam a todo instante. Aquilo definitivamente era algo que ela gostaria de manter em sua vida para sempre e daria o melhor de si para não decepcioná-lo.
— Antes que você comece a correr novamente pelo castelo... —, apoiou a mão na sua cabeça e a fez olhar para cima. — Não conte para a sua mãe que esteve aqui ou sou eu quem terá que fugir.
— Prometo. — e a sua risada se espalhou pelos corredores mais uma vez.

Um cheiro doce de uma grande fornada de pão de mel que ainda exalava a sua fumaça pelo balcão de pedra da cozinha, fez com que Sarah desacelerasse de repente, indo furtivamente em direção as delícias que estavam sendo preparadas para a importante noite que se seguiria. As mulheres, atarefadas com suas receitas, discutiam calorosamente sobre o quanto ainda faltava para terminar a longa lista do banquete da festa, e o quanto a entrega das verduras e legumes, que já deveriam estar cozidas, estavam atrasadas. Enquanto pareciam perdidas em seus sacos de farinhas e grandes caldeirões que ferviam sobre espessos pedaços de lenha, Sarah pegou todos os pães de mel que suas mãos miúdas conseguiram carregar e saiu em disparada pela porta lateral da cozinha, fazendo com que uma das mulheres soltasse o avental onde carregava alguns ovos de galinha quando se assustou com a menina. “Desculpe-me”, ela disse enquanto corria, agarrando contra o peito a primeira refeição que faria naquela manhã. Quando alcançou a primeira arvore em meio aos campos de flores, se sentou sobre a sua sombra acolhedora e respirou fundo recuperando o fôlego antes de mordiscar o primeiro de quatro pães. Estavam mornos, ela notou, sentindo ainda a adrenalina de seu pequeno furto inofensivo correr por suas veias enquanto o seu estômago resmungava agradecido. Não foi preciso muito para que ela logo os devorasse, mas resolveu permanecer sob a proteção daquela arvore por mais alguns minutos, sentindo a leve brisa refrescar a sua pele ainda quente pela aventura. De longe tudo parecia ainda mais entusiasmante, com tantas pessoas dedicadas a completar suas tarefas a tempo, cada um se esforçando no melhor que sabia fazer. Uns gritavam nervosos, com o suor escorrendo pela fronte, enquanto outros seguiam calados, embora parecessem tão cansados quanto qualquer outro. Havia rostos novos pelo castelo, homens e mulheres que ela jamais havia encontrado, mas que, como aqueles com quem convivia, não pareciam notar a sua presença. A velha ama era a única que se importava, embora a sua atenção fosse parte necessária do trabalho pelo qual havia sido contratada, e ficar sempre atrás da filha do Prefeito não passasse de uma obrigação, pensou acariciando as pétalas de uma jovem margarida que brotava em meio a grama alta. Quando se recostou no tronco da arvore e fechou os olhos para um breve descanso, um grito quebrou o ritmo tranquilo do murmúrio ao seu redor e fez com que ela levantasse com um salto. Seus olhos procuraram apressados por alguém que estivesse em apuros e após um minuto inteiro de silêncio ela se convenceu de que havia apenas imaginado. Mas antes que pudesse retornar para o castelo, outro grito, desta vez mais alto e mais urgente, chamou a sua atenção novamente. Vinha da parte baixa da colina, logo percebeu, embora ainda não conseguisse ver quem estava por trás daquela súplica. Cautelosamente, alguns passos ela deu em direção daquela voz, sempre olhando para trás a fim de se certificar de que ninguém a visse ultrapassar os limites de onde ela poderia ir. Quando se inclinou para ver quem estava seguindo na estradinha de terra que levava aos fundos do castelo, avistou um menino que puxava um grande e pesado carrinho de madeira, com uma garotinha com metade do seu tamanho que tentava salvar algumas verduras que rolavam pelo chão.
— Eu disse que era melhor chamar ajuda. —, ela ouviu a menina dizer enquanto se abaixava para recuperar outro tomate que haviam perdido pelo caminho.
— Não preciso de ajuda, Katrina. —, retrucou furioso o garoto que puxava com grande esforço o carrinho pela estrada. — Estamos quase lá.
— Já perdemos metade das cebolas, Sam. —, parou para recuperar o fôlego, colocando os tomates amassados de volta sob o abrigo de um espesso tecido esfarrapado. — Se continuarmos assim não irão nos pagar todas as moedas.
— Falta pouco. Vamos, ande. Não pare agora. — ele insistiu com uma voz melancólica que parecia estar tentando convencer a si mesmo.
— Precisam de ajuda? — Sarah gritou enquanto descia apressada a colina, segurando entre as mãos a longa saia rodada de seu vestido. — Eu posso ajudar a empurrar.
— E quem é você? — Kat perguntou curiosa, olhando para o irmão que parou no mesmo instante, surpreso com a oferta de uma menina tão bem vestida.
— Meu nome é Sarah. — fez uma leve reverência a qual arrancou uma risada dos irmãos.
— Não será necessário, minha senhora. — agarrou firmemente os troncos de madeira nas mãos e levantou o carrinho do chão, preparando-se para dar mais um puxão. — Eu posso fazer isso sozinho.
— Não seja idiota, Samuel. — a irmã segurou a parte de trás de uma de suas rodas e ele parou bruscamente. — Quanto antes ela ajudar, mais cedo voltaremos para casa.
— Que seja. — fungou irritado, fazendo um ligeiro gesto com a cabeça. — Você empurra e eu puxo.
— Eu empurro e você puxa. Entendi. — repetiu animada esfregando as mãos uma nas outras antes de contar até três.
Em pouco tempo foram capazes de alcançar o topo da colina, soltando o peso do carrinho logo quando se aproximaram a entrada da cozinha, deixando escapar com grande alívio um longo suspiro ecoado pelos três. Samuel olhou de soslaio para Sarah, que balançava de um lado para o outro contente por ter sido capaz de cumprir a sua palavra, aguardando com um sorriso que o garoto admitisse que sem a sua ajuda não teria de fato conseguido chegar ao seu objetivo. Um curto e seco “obrigado” foi o que ela recebeu quando Katrina lançou um olhar ameaçador para o irmão, o qual ela aceitou de bom coração. O garoto ajeitou os cabelos molhados pelo suor que ainda escorria sob a boina antes de levantar o pedaço de tecido que cobria suas verduras, esfregando o queixo claramente decepcionado quando viu o que restou da sua viagem até o castelo de Belfast.
 — Espero que não precisem de cebolas. —, deu de ombros jogando o tecido pelo chão. — Vá chamar a cozinheira, Kat. Não temos o dia todo.
A menina obedeceu no mesmo instante, correndo em direção ao cheiro de maçãs caramelizadas que agora invadiam boa parte do jardim em ondas de fumaça que brotavam da cozinha. Sarah pensou em deixar aquele menino de roupas esfarrapadas com a sua própria sorte, decidida em finalmente se encontrar com a velha ama para que pudesse tomar uma de suas diárias lições antes da festa. Mas o olhar penoso que aquele desconhecido trazia fez com que uma pontada de pena a obrigasse a concedê-lo um pouco mais de seu tempo, aproximando-se lentamente até que ele notasse novamente a sua presença.
— Vocês virão para a festa? —, ela perguntou com forte entusiasmo, algo que ele pareceu não apreciar.
— Não fomos convidados. —, respondeu recostando-se sobre a lateral do carrinho, voltando os olhos para a porta da cozinha sem dar mais ênfase aquela pergunta.
— Bem, eu posso convidá-los. — pareceu aborrecida com a sua falta de interesse. — Você e sua irmã serão bem vindos.
Samuel olhou para ela curioso, tentando entender se aquela era uma brincadeira de mau gosto.
— Tenho certeza de que o Senhor Prefeito ficaria muito feliz em reservar dois lugares a sua mesa para Kat e eu. —, retrucou com um leve tom de sarcasmo. — Mas temo que já tenhamos confirmado presença em outra festa esta noite, minha senhora.
— Sarah. Pode me chamar de Sarah. — corrigiu rispidamente. — E você estará perdendo a Grande Festa de Primavera de Belfast, uma noite memorável para os habitantes do condado, organizado pelo próprio Prefeito. Seria grande honr-
— Não, obrigado. — a interrompeu cruzando os braços, ficando nervoso com a demora da irmã. — Como disse, já temos uma festa para ir.
— E o que teria essa sua festa de tão especial a ponto de você recusar o meu convite? — questionou irritada. — Aposto que não terá um banquete como o nosso.
— Oh, disso eu tenho certeza. — deu uma risada que tremeu todo o seu peito. — Mas ainda que não tenha o seu farto banquete, a sua música chata e sua bebida cheia de bolhas, a nossa festa será melhor.
— Como ousa? — colocou a mão sobre a cintura, desafiando-o com o olhar. — Nada pode superar a Festa de Primavera da família Gibbon.
Samuel se assustou com a fúria exagerada, mas logo deu de ombros esperando encerrar o assunto.
— Posso ir a sua festa? — ela perguntou um pouco mais calma depois de um breve momento. — Preciso de um convite?
— E por que você iria querer comparecer a minha festa se a sua é tão melhor? — perguntou provocativo, se aproximando de um passo. — Você não iria gostar, senhora. São mundos completamente diferentes, o seu e o meu.  
— Acho que posso decidir por mim mesma, muito obrigada. — o tom arrogante arrancou um leve sorriso de Samuel. — Ou tem medo de que a minha festa seja de fato melhor que a sua?
— Tudo bem. — aceitou o desafio. — É livre para comparecer se assim desejar. Mas não quero trazer problemas para o vilarejo, então é melhor que ninguém saiba onde você estará.
— Pensarei em algo, não se preocupe. — aceitou a condição alegremente, ainda sem saber como escaparia mais uma vez das garras da velha ama.
— Sarah! — a sua voz parecia tão irritada quanto a sua cara enrugada no momento em que avistou a menina do outro lado do jardim. — Aí está você!
— Preciso ir. — disse acenando desajeitadamente para a velha ama, voltando os olhos ansiosos para Samuel. — Te encontro na estrada da colina ao anoitecer.
— Ao anoitecer. — repetiu pouco confiante. — Minha senhora.
Seus olhos reviraram e ele abriu de novo um sorriso, desta vez mais largo, mostrando um rosto iluminado que ela ainda não conhecia. A pequena Sarah segurou em suas mãos o tecido fino do vestido bordado, correndo desta vez ao encontro da velha ama, a fim de evitar que ela descobrisse o seu mais novo amigo. E enquanto as suas orelhas ficavam vermelhas com o sermão da velha irritada, ela pensava em um novo plano de uma fuga que a levaria para além dos muros do castelo pela primeira vez. 


Notas Finais


~Qualidade requer tempo~
confira o trailer do livro em:
https://goo.gl/4tw75W


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