História Red - Capítulo 16


Escrita por: ¢

Postado
Categorias Elizabeth Olsen, Harry Styles, One Direction, Zayn Malik
Personagens Harry Styles, Liam Payne, Louis Tomlinson, Niall Horan, Personagens Originais, Zayn Malik
Tags Charlie Dawson, Drama, Elizabeth Olsen, Guerra, Harry Styles, One Direction, Starlotus2017, Terrorismo
Visualizações 1.219
Palavras 5.534
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Hentai, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Suicídio, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Eu voltei!
E ai, galerinha do bem e do meu coração? Antes de começar as notas iniciais, que vão tá um pouco grandes, quero muito agradecer pelos comentários maravilhosos e pelos favoritos mais lindos que me deram. Pode parecer exagero, mas juro que cada um deles me fazia tremer de emoção. Muito obrigada por darem uma chance para Red e por acompanharem a história <3 <3 Recebam meu abraço muito apertado e meu beijo.
Agora, vamos ao que preciso muito falaram antes que leiam. São algumas informações que vão ajudar na leitura do capítulo, garanto procês.
- A primeira coisa é que a Irmandade realmente existe e tals. Com exceção da suposta ameaça e de quem é líder, todas as informações dadas no capítulo são reais;
- O capítulo de hoje é mais político e menos cheio de ação. Se ajudar, pensem no contexto geral da situação, beleza?
- O DEVGRU é a elite da elite, beleza? É uma das equipes de Seal, também chamada de Team 6, que é considerada a mais soda. Os cara são barra pesada.
- Perdão pelas citações preconceituosas ao longo do capítulo. Eu não compadeço dessa situação e nem me disponho a favorecer qualquer lado. Por favor, tenham isso em mente ao ler o capítulo, sim?
Antes de darem início a leitura, me perdoem por todos os erros ortográficos ao longo do capítulo. Espero que apreciem e nos vemos lá embaixo.

Capítulo 16 - Red puce


Fanfic / Fanfiction Red - Capítulo 16 - Red puce

Mantenho uma mão recobrindo a outra e ambas escondidas sob a mesa na expectativa de que isso baste para esconder o tremor. Todavia, ao fazê-lo, meus pés assumem a responsabilidade de extravasar o nervosismo e, quando dou por mim, as solas de meu sapato criaram um ritmo desagradável com o chão e não consigo interromper o     som por espontânea vontade.

— Tem certeza de que está bem? —Charlie pergunta, virando o rosto sobre os ombros com as sobrancelhas franzidas para me encarar.

— Tenho. — respondo.

Sorrindo de lado e mostrando certa descrença em minhas palavras, Charlie vira-se para a pia e ergue a leiteira com água ainda fervente. Ela derrama o líquido sobre o pó do café, fazendo com que o cheiro forte da bebida recém passada incendie o pequeno ambiente.

Charlie se estica sobre os pés, pegando um par de xícaras completamente diferentes no armário sobre sua cabeça. Ela inclina o bule na direção do centro delas, permitindo que o quase se encham até a borda. Então, traz para a mesa. Empurra uma sobre o tampo até que me atinja enquanto a outra leva direto aos lábios e assopra, bebendo um rápido gole logo em seguida.

— Não precisa mentir para mim. — sussurra ela.

Charlie criou o constante hábito de supor quando eu estou mentindo. Usualmente, considero-me bom em disfarçar como me sinto e em contar mentiras que sejam suficientemente convincentes. Todavia, de algum modo, minha habilidade em trapacear e iludir não atinge Charlie e, de maneira assustadora, ela consegue perceber todas as vezes.

Isso, é claro, nunca é o bastante para me fazer dar meia volta e dizer a ela tudo que tanto quer ouvir.

— Não estou mentindo. — afirmo, esperando que minha convicção baste para convencê-la.

— Mentindo outra vez. É por causa do médico? Está nervoso com a ideia de ter de ser honesto com alguém?

Encaro as bolhas escuras sobre o café preto. Sinto o olhar de Charlie cair sobre mim, a mesma constante preocupação mixada a pena que ela, de alguma forma, não consegue evitar. O tipo de olhar que evitei minha vida toda e que tem se tornado um dos pontos mais regulares em meu cotidiano.

Tento ignorar a sensação de incomodo que aquilo me traz. Tenho em mente que Charlie não imagina o quão desagradável é uma situação como essa, pois, se soubesse, jamais me encararia de tal forma.

— Deve ser isso. — Charlie supõe tão logo meu silêncio passa a lhe ser um tormento. — O que mais seria?

Parecendo um tanto quanto irritadiça, Charlie se levanta. Seus pés descalços tocam o chão com tamanha força e fúria que eu chego a esquecer do movimento incontrolável que domina os meus próprios.

É o meu silêncio que tanto a irrita e incomoda. A falta de respostas que lhe é mais do que apenas angustiante e que tem criado um certo impasse entre nós, algum tipo de muro invisível que se torna mais grosso a cada dia perdurado de silêncio.

A solução parece ser morbidamente simples: eu apenas precisaria ser sincero. Abrir-me com Charlie com a profundidade de detalhes que ela tanto deseja e com as narrativas mais obscuras que eu possa ter sobre tudo que já enfrentei. Isso seria o bastante para dar fim às brigas e ao seu humor inconstante — e uma parte de mim também tema que seria o bastante para dar fim a qualquer sentimento bom que ela possa ter.

Imagino que Charlie não tenha em mente a quantidade de massacres pelos quais fui responsável. Acredito que, na mente dela, minha história seria similar a algum belo filme hollywoodiano e o sangue não seria mais real do que suco de morango. É claro que não é assim. Matei mais pessoas do que sou capaz de contar e destrui mais vidas do que sou capaz de lembrar. Verdade seja dita, eu não sou muito puro. Posso lidar com a infamidade e perversidade de meus atos, mas duvido muito que Charlie tenha sanidade o bastante para permanecer após descobrir que atirei em qualquer um que pudesse representar um risco, sem me importar com sua idade, sexo ou opiniões.

Encaro o pequeno espaço que leva até o quarto de Charlie. Ainda escuto seus passos pesados e a porta de seu guarda roupas se abrindo e se fechando com frequência. Confiro as horas em meu relógio e me ergo.

Paro na porta e tombo a cabeça, olhando Charlie subir uma saia pelas pernas.

— Não está brava, está? —pergunto, ciente da resposta óbvia. — Não por algo tão idiota. Já não estou indo na droga do médico?

— Quer uma medalha por isso ou está satisfeito com as que ganhou pelo exército? — Charlie bufa, nervosa. — Eu nem fiz uma pergunta muito profunda dessa vez. Só tinha que dizer sim ou não.

— Tudo bem. Você está certa. Eu estou nervoso. Não gosto de psicólogos porque odeio a sensação de julgamento. Gosto menos ainda de ter de contar sobre a minha vida para um desconhecido que não entende muita coisa das minhas escolhas.

Charlie tomba a cabeça e direciona seus enormes olhos para mim.

— Foi muito difícil ser sincero? — inquire, ainda dando sinais de que sua irritação não passou por completo. — E eu não sou uma desconhecida. Estou tentando entender suas escolhas, mas você não me dá muito espaço para isso.

Charlie remexe nas blusas em seu armário. Ela ainda usa minha camiseta e agora parece extremamente disposta a trocar. Sinto a irritação que antes pertencia somente a ela chegando até mim. Não deveria ser tão complicado entender que, por hora, eu preciso muito mais de espaço do que de suas cobranças constantes.

— Pode me dar só algum tempo? — peço.

— Eu estou te dando tempo, Harry. — ela se vira para me encarar. — Sabe o que eu sinto na maioria das vezes sobre você e eu? Parece que estamos presos na primeira marcha e não conseguimos sair de jeito nenhum. Quando saímos, é apenas para andar de ré. Tem ideia do quão frustrante isso é?

Sugo os lábios, incapaz de lhe responder isso. Sinto que voltamos ao nosso típico impasse porque, se é frustrante para Charlie não obter respostas é igualmente frustrante para mim ser constantemente cobrado.

— Quer saber? Dá a minha blusa, por favor. Antes que aquela sua amiga muçulmana chegue e tenha uma síncope por ver um ateu semi nu na casa dela.

Charlie revira os olhos e bufa. Ela tira a minha camiseta com agilidade e entrega a mim. Imediatamente, coloca outra no lugar.

Pela sua expressão, vejo que sem a menor das intenções posso ter dado início a outra brigada com Charlie, uma que temo não ser tão fácil de resolver.

— Qual seu problema com Cheydan? Ela é legal.

— Eu não tenho problemas com Cheydan. O povo dela tem problemas comigo. Com a gente. Esqueceu para quem eu apontei minha arma nos últimos anos? Esqueceu do 11 de setembro?

Charlie torna a revirar os olhos. Ela passa por mim, seguindo em direção à sala e eu a sigo.

— Pelo amor de Deus, Harry. Não quero te falar o óbvio, mas nem todo muçulmano é um radical que nos vê como infiéis.

— Você eles vêem como uma infiel. Para mim é um pouquinho pior.

Charlie se vira para me encarar. Ela mantém os punhos travados ao lado do corpo, como se estivesse se segurando para evitar uma agressão física ou coisa do tipo.

— Acho que agora é um ótimo momento para você se calar. — ela aconselha.

Na sala, Charlie se senta na beira do sofá. Ela puxa as sapatilhas com os próprios pés e começa a calçá-las. O silêncio perdura por alguns segundos antes que diga:

— Você é mais preconceituoso do que pensei que fosse. — murmura, sem nem mesmo tentar esconder o desapontamento.

— Não sou preconceituoso. — defendo-me às pressas. — Eu vi coisas que você não viu e nunca nem sonhou em ver. Fiz coisas que assombrariam suas noites.

— O mesmo tipo de coisa que você sempre se recusa a me contar? — Charlie balança a cabeça e um sorriso irônico desponta em seu rosto. — Voltamos ao mesmo lugar. O que foi que eu disse? Marcha ré, Harry.

Charlie se ergue. Ela pega a bolsa e coloca a alça sobre o ombro. Seu rosto é a personificação da decepção e eu não sou capaz de julgar quão momento da nossa conversa foi o maior responsável por isso. Mas com Charlie é quase sempre assim: quando as coisas não saem exatamente do jeito que ela almejava, a frustração chega extremamente ligeira.

— Preciso ir estudar. — avisa-me. — E não posso te deixar aqui sozinho.

Compreendo o que ela quer dizer e rapidamente passo a blusa sobre o pescoço e encaixo no tronco. Saio na frente e espero no corredor enquanto Charlie tranca a porta. De despedida, ela não faz muito mais que desejar-me boa sorte na consulta e sumir.

É exatamente no momento que ela some que me sinto um tolo por não ter cedido facilmente ou por não ter sido criterioso em minhas falas. Coço a cabeça, incomodado com minha própria impaciência e inflexibilidade. Não obstante, as coisas seriam mais simples se Charlie afrouxasse seu lado da corda ao invés de apenas me exigir isso.

Desço até o carro. No meio do caminho, resisto ao desejo maciço de telefonar para Charlie e evitar que essa bola de neve se tornasse ainda maior. Não é o momento e não sei se é justo que eu seja o primeiro a ceder.

Havia deixado o endereço da clínica e o horário no porta luvas. Ao verificá-los, percebi que estou muito tempo adiantado e que me atrasar por acidente já é praticamente uma ideia fora de cogitação. Espero que o trânsito possa me ajudar dessa vez, estando ruim demais e me obrigando a levar algumas horas além do normal para chegar.

Mas não acontece. Não é horário de pico e não há nenhuma boa razão para as pessoas botarem o pé na estrada. Nenhum acidente na estrada cria caos pelas rodovias. Devo ter demorado menos tempo que o comum. Quando chego, tenho tempo suficiente para fazer a ficha e beber uma xícara de chá enquanto aguardo na sala de espera.

A clínica e particular. Isso reduz em uma proporção ideal o número de pessoas ao meu redor. Entretanto, o relógio se mantinha girando e o barulho causando pelo movimento de cada ponteiro dificulta a minha concentração. Fico muito tempo sentado naquele quadrado.

Os muitos sons se misturam. Não é só o relógio de parede. A televisão segue ligada em um canal culinário. A movimentação externa se infiltra pela janela aberta. A secretária fala ao telefone e digitava de modo brusco, fazendo o teclado ranger a cada toque. A mulher atrás de mim tenta contém o filho, mas a criança é inquieta demais para isso e não para de balbuciar palavras e pular sobre o banco.

Todos esses fatores se acumulam com o fato de a sala ser menor do que aparentava. E isso tornava impossível pensar e avaliar cada situação. Sinto que minha mente é tragada para um furacão muito forte e que meus neurônios se desestabilizam enquanto são forçados a girar pela espiral de ar.

É difícil manter o controle e permanecer sentado. Eu só gostaria de sair. A porcentagem do meu cérebro que desejava isso cresce exponencialmente e eu apenas tentava contê-la, lembrando-- me de quais razões me fizeram aceitar isso.

Minhas mãos se agarram ao jeans de meu joelho, puxando o tecido e o fazendo enrrugar. Tentando aliviar a tensão presente em meu corpo, meus pés permaneciam em movimento continuo, tocando o chão e se afastando em uma velocidade cada vez maior.

A porta do último consultório e aberta e uma mulher pula para fora, despedindo-se do homem que sai com um sorriso. Ele parece tão contente e satisfeito que sou capaz de supor apenas duas coisas: a primeira é de não precisa realmente dessa terapia ou o tratamento tem feito um efeito estupendo.

Não sei se aquela é minha médica. Sei que se trata de uma mulher, porém são inúmeras portas e qualquer uma delas pode se abrir e revelar quem vai me atender. Duvido até que Charlie saiba qual é a aparência da psicóloga que marcou.

Todavia, minha concentração se foca na doutora. Estou tentando desviar a atenção do amontoado barulhento que é a sala de espera e me concentrar em apenas uma coisa, de modo que o furacão reduza de velocidade e pensar racionalmente se torne plausível outra vez. Meus olhos ficam nos saltos altos, que fazem toc a cada passada. Enquanto os acompanho cortando o piso até desaparecerem atrás do balcão, parece que os sons se reduzem moderadamente.

Mesmo a mais mínima das alterações me faz ficar melhor. Eu me sinto menos perto de pular de um penhasco agora, embora ainda esteja muito perto de gritar com Michael, o garoto hiperativo atrás de mim, e mandá-lo ficar quieto.

A doutora sorri de trás do balcão ao receber um comentário da secretaria. Seus dentes são tão brancos que chegam ao ponto de brilhar e causar desconforto. Com uma prancheta em mãos, ela consulta o papel e olha para toda a sala de espera. Chama o meu nome. Suspiro, aliviado porque Michael finalmente não vai mais poder chutar o meu banco e terei encontrado um abrigo seguro para a tempestade que me desequilibra, e levanto.

Stafford. Acho que esse é o sobrenome da médica. Estava no papel que Charlie me deu, mas essa parte das informações foi destruída pelo meu jeans molhado. Tento ler ao passar por ela, mas o crachá está virado e impossibilita a minha leitura.

Não é uma sala muito grande. Até modesta. O tamanho parece reduzido por causa das muitas estantes cheias de livros. O espaço menor, no entanto, não se torna um obstáculo tão grande quando percebo o silêncio que perdura pelo loca.

— Posso sentar? — questiono, apontando para o divã azul.

— Claro! Ou deitar. O que for mais confortável para você.

Deitar nunca é confortável. Os divãs nunca são grandes o suficiente ou macios o suficiente. Não que o último fator ainda fizesse muita diferença para mim nesse ponto da vida.

Eu apenas me sento. Na borda, de modo que sair seja uma atituderápida e fácil. Apoio os meus cotovelos nas pernas e inclino o tronco para frente levemente. A mulher sorri e puxa a cadeira branca um pouco mais para frente, sentando--se nela. Segura um bloco de notas e uma caneta.

Escreve algo no papel e, com um suspiro, encara-me. Sua prancheta fica apoiada na mesa logo atrás, fácil de ser alcançada.

— Senhor Styles... — ela começa.

— Não me chame assim. — peço, apertando os olhos com os dedos. — Esse é o meu pai. Você pode me chamar apenas de Harry.

Ela sorri e imediatamente anota algo mais.

— Tudo bem. Eu o chamarei apenas de Harry e você pode me chamar apenas de Rosalie. O que acha? Está bom para você? — concordo com a cabeça, incomodado com sua necessidade de criar alguma proximidade entre nós. — Então, Harry, o que o traz aqui? Como eu posso ajudá-lo?

Não tenho resposta conheço as palavras que deveria falar para responder tais perguntas. É complicado falar sobre meus problemas, especialmente quando trata-se de um que tento manter enterrado e o mais longe do olhar público.

Gemma marcou psicólogos para mim. Na maioria, eram amigos de George. Ela apenas lhe enviava minha ficha médica e um bilhete explicando a situação. Tudo estava resolvido. Mas Charlie provavelmente não pensaria nisso. Ela queria me fazer falar e não tomaria qualquer atitude para facilitar isso.

Meu silêncio é constrangedor. Não há forma de dizer que minha perspectiva é praticamente nula sem que as circunstâncias tornassem a fala muito ridícula. É a única coisa que penso agora. Vou acabar o ano tendo gastado muito dinheiro com terapia e sem qualquer alteração no meu estado. Mas não seria funcional dizer isso, especialmente porque uma parte de mim ainda tenta de manter aberta para essa experiência.

— Podemos tentar outra pergunta. — Rosalie continua, não dando indícios de que meu silêncio a frustra. — No que trabalha?

— Armas. Eu faço armas. — respondo, confiante por ser capaz de falar dessa vez. Rosalie anota tudo.

— E há quanto tempo faz isso?

— Alguns meses. Não sei quantos.

— E antes?

— Exército norte americano. Nesse caso, foram alguns anos.

— Alguns?

— Eu comecei o treinamento em janeiro de 2002 e fui dispensado em 2010. Só precisa fazer as contas.

Rosalie anota mais uma série de coisas. Ela escreveu tanto enquanto eu respondia suas perguntas que não consigo entender como dividiu o foco tão bem e absorveu as minhas palavras. Abaixa a caneta e vira o olhar para mim. Um vinco se forma entre as sobrancelhas finas.

— E como foi a experiência no exército?

Eu poderia definir de muitas formas. A teoria de um ideal patriótico, mesmo que aquela não fosse a minha pátria de nascença, e de minha decisão fora certa eram boas. Eu me sentia confortável e imponente sendo posto para guiar um grupo e me sentia muito forte segurando uma arma carregada.

Mas eu não poderia deixar de fora um detalhe: a arma sempre era pesada demais. Depois de algum tempo, percebi que o peso de todas as almas que matei deveria ter se acumulado ali. A certeza que eu tinha de que minha escolha era justamente a correta se tornava cada vez menor.

Todos têm objetivos escusos. E é muito mais fácil perceber isso estando de dentro. Eu logo descobri que não era uma chance de redenção para nenhum de nós. Era política, território e supremacia. Que dissessem o que bem queria só povo; nós sabíamos exatamente o que estávamos fazendo e vendo.

Dou de ombros.

— Nada demais. — minto.

— Ainda tem amigos de lá?

— Alguns estão mortos.

É irônico pensar nisso porque eu estava sempre lá. Às vezes, a meio centímetro de distância e isso não foi o suficiente para evitar que uma catástrofe se tornasse real. Tentei até salvar um deles, mas eu só consegui deixar minhas mãos ainda mais sujas de sangue. E os outros se dividiram em alguns grupos: um deles representava os que seguiam lutando, o outro representava os que já haviam terminado o período ou sido dispensados, mas que não se importavam em nada comigo e, por fim, haviam os que já haviam sido dispensados e que me acham, de alguma forma, significante ainda e por isso mandavam um cartão no meu aniversário e em todos os natais.

— Mas nem todos. — tento converter minha resposta pessimista e desagradável em algo que sinalize um futuro mais promissor.

— E esses que estão vivos? Mantém contato, visitam-se?

— Existe um enorme oceano entre aqui e lá. Qualquer vôo leva horas e me deixar em um ambiente pressurizado cheio de gente não é uma boa ideia.

— Por quê? Teria um surto ou coisa do tipo? — meu silêncio é a maior confirmação que ela pode ter. — Eu posso entender. Já teve algum?

Minha mente entra em modo de defesa. Eu me calo enquanto tento entender o que ela indica para mim. São todas respostas que comprovariam minha sanidade e que não me fariam voltar aqui com frequência. Mas também são afirmações falsas e que, a longo prazo, não trariam qualquer benefício.

Meu cérebro dita o que devo fazer. É como se ele sentisse que estou em situação de perigo e preciso me defender imediatamente. Cada movimento deve ser calculado para evitar a exposição, porque me expor é a pior coisa que posso fazer.

As instruções são claras.

Diga: não.

— Sim. — respondo

— Você tem algum tipo de dificuldade em se adaptar a sua realidade atual?

Diga: não.

— Sim.

— E pesadelos? Tem algum?

Diga: não.

— Sim.

— Tem flashbacks ou visões ao longo do seu dia que atrapalham a convivência com outras pessoas?

Diga: não. É de extrema importância que diga não.

— Sim.

 

Antes

Jalalabad, província de Nangarhar, Afeganistão

Suspirei pesadamente ao passar a alça do fuzil pelos meus ombros, tirando a arma das minhas costas. Deixei o objeto escorado ao lado de sofá fino e velho e levei a mão imediatamente ao bolso do uniforme, puxando o que ainda sobrava do maço de cigarros. Tirei um dele e coloquei entre os dentes.

— Sua mulher não queria que parasse? — Kyle questionou, parando ao meu lado.

Com a língua, empurrei o filtro para cima e para baixo.

— Ela queria. — respondi. — Mas ela nunca fumou, então não sabe como é difícil largar. Tem fogo?

Kyle tateou os próprios bolsos até encontrar um pequeno isqueiro. A embalagem transparente me permitiu ver a quantidade quase nula de fluído lá dentro. Torci para que fosse o bastante para disparar uma centelha.

Inclinei o rosto para frente. Kyle apertou o disparador duas vezes antes de produzir uma faísca. A chama se espalhou pelo filtro e eu dei uma tragada.

— Quer um? — ofereci, mostrando a embalagem quase vazia.

— Não. Estou quase voltando para casa, Harry. — tirei o cigarro da boca e expirei a fumaça. Olhei para cima, observando as nuvens cinzas. — Roxxy vai me querer o mais saudável possível.

Encarei Kyle. Ele parecia feliz. Já sabia que estava contando os dias para o seu período acabar e voltar para casa. A namorada estava esperando e a filha nascida a pouco tempo também. Ele nem a conhecia ainda. Tudo bem se ele quisesse interromper o hábito de fumar. Era justo.

Guardei o maço em meu bolso. Balancei o cigarro, permitindo que algumas cinzas se espalhassem pelo chão de madeira. Pisei sobre elas, deixando farelos cinzas ao meu pé.

— Que merda! — murmurei, tentando parecer verdadeiramente sério. — Vou perder o meu melhor ajudante.

— Vai se virar muito bem sem mim, sargento.

Interrompi a tragada para encarar Kyle. O meu amigo sorria, extremamente satisfeito e orgulhoso. Acreditar que aquilo tipo de admiração fosse destina a mim foi uma tarua difícil. Parecia impossível que, no momento, qualquer pessoa sentisse fascínio por mim.

Meu casamento com Miranda começava a entrar em uma frase muito ruim. Estava longe há muito tempo, mas ainda conseguia ver nas entrelinhas e perceber o quanto ela mudara nos últimos tempos. Eu já começava a não reconhecê-la mais e temia no que isso poderia acabar. Minha irmã já não me escrevia há meses. Temia que estivesse frustrada e magoada, já que não fui a pessoa mais gentil em nossa última conversa. Quase mandei um soldado raso para a enfermaria na última semana quando, frustradamente, pediu-me que mostrasse alguma técnica em combate corpo a corpo e apenas serviu como um saco de pancadas.

Eu já não era mais tão digno de admiração. Minha promoção veio devido a desgraça alheia. Só consegui me sobressair porque, em uma rápida oportunidade, alguém decaiu. A concepção do meu novo título fazia com que eu mesmo questionasse sua validade. 

— Harold, Kyle! As duas mocinhas ficarão ai para sempre ou vem aqui ajudar?

Kyle deu tapinhas de companheirismo em minhas costas e se retirou para mais dentro da base. Dei mais duas tragadas em meu cigarro, livrando-me do filtro consumido pela metade. Joguei a cigarrilha sobre o chão sobre o chão e comprimi com a ponta de minhas botas, fazendo o tabaco extravasar para fora do papel. Deixei minha arma no caminho, juntando ao grupo de soldados que esperava por instruções.

Sentei-me entre Kyle e Rodriguez, um dos poucos lugares ainda vazios. Se Kyle mostrava a mesma camaradagem firme diante do desmoronamento de minha frágil carreira, Rodriguez tinha o seu próprio jeito de lidar com a situação. Suas piadas cheias de segundas intenções e falas mal ditas já eram costumeiras, mas se tornam ainda mais cotidianas conforme minha ascensão se tornava mais clara. Uma vez, cheguei ao ponto de lhe socar a cara e fazer com que fraturasse o nariz. Ao contrário do que se pode esperar, as piadas se tornaram ainda mais constantes.

Edwards traça o planejamento do dia. Sua apresentação é curta e concisa, deixando muito claro quem são nossos alvos. A animação elegante do exército corre diante dos nossos olhos e logo nos indicam os pontos de ação.

— Ótimo power point, chefe. — Rodriguez murmurou com um leve tom de ironia na voz, erguendo-se. — Achei muito esclarecedor.

— Não deveria estar conferindo os carros?. — Edwards respondeu. — É melhor que os hammers já estejam prontos e abastecidos ou você vai estar mais do que ferrado.

Rodriguez ergueu as mãos no melhor sinal de defesa que poderia fazer e correu para fora da tenda. Eu encarei Edwards momentaneamente, vendo-o reunir os inúmeros papéis soltos sobre a mesa redonda e acumulá-los em uma pilha.

Começo a andar para fora.

— Preciso falar com você, Harry. — avisou-me.

Permaneci parado em meu lugar. Eu temia as palavras que Edwards pudesse vir a me falar agora.

Algumas vezes desabafei com Edwards, confessando que não tinha confiança no título que recebera. Ao meu ver, não era exatamente justo que eu fosse proclamado dessa forma. Cada vez mais impaciente com minha insatisfação, Edwards tornava a repetir que eu apenas fizera por onde e que não deveria me arrepender desses detalhes. Temia que, mais uma vez e, nessa caso, um pouco menos paciente, ele viesse falar sobre isso comigo. 

Girei meu corpo. Ao virar, percebi que Edwards agora tinha companhia, dois sujeitos engravatados que, pelo porte e aparência, só poderiam pertencer à CIA. Qualquer que tenham sido os meus erros, eu não havia chegado à um ponto tão desagradável que precisarmos apelar para esse tipo de recurso.

— Sim, master chief? — falei.

— Eu e esses senhores precisamos ter uma conversa com você.

Surpreendi-me com a imparcialidade de Edwards. De lá, seguimos para uma sala pequena, onde não há qualquer chance de sermos espionados. Eu me sentei, tendo o master chief ao meu lado. Os dois homens engravatados permaneceram de pé, parados ao lado de um retroprojetor com iluminação direcionada à parede.

Cheguei a me preocupar. Pensei que poderiam ter forjado todo o tipo de provas sobre mim e que, nesse momento, eu estivesse a um passo de ir parar na corte marcial.

— O que está havendo? — perguntei, incapaz de conter minhas preocupações.

— Esses dois sujeitos são da CIA, Harry. — Edwards explicou, sentando-se de modo mais confortável na cadeira. — Aquele é o agente Morgan — apontou para o homem mais gordo e baixo e, em seguida, para aquele que tentava disfarçar a barriga usando uma camisa maior — e aquele é o agente Dashwood. Querem falar com você.

— Por que a CIA está interessada em mim?

Edwards conteve um suspiro e se virou para encarar os dois agentes a nossa frente, como se lhe desse a devida permissão para falarem. Também virei o rosto em sua direção, esperando que explicassem o que se passava.

Dashwood parecia menos bem humorado e permaneceu atrás enquanto seu colega barrudo dava um passo para frente.

— Fomos mandados em nome da Diretoria Operacional. — diz-me. Tudo que sei sobre esse departamento é que são responsáveis por ações no território inimigo.

— O que tem? — questionei.

Morgan hesitou, engolindo em seco e fazendo careta. Aproveitando a titubeação do colega, Dashwood deu um passo à frente e iniciou uma apresentação de fotos pelo retroprojetor. A primeira delas mostra um círculo verde, com o desenho de um livro em vermelho e espadas cruzadas logo abaixo. Uma escrita em árabe vem logo ao final.

— Sargento Styles, imagino que já tenha ouvido falar sobre a Jamiat al-Ikhwan al-Muslimun, ou Irmandade Muçulmana. — começou ele.

— Não tanto quanto você supõe.

— São um grupo de radicais. O objetivo deles é retomar os ensinamentos do Corão sem qualquer tipo de influência ocidental. Querem tornar a sharia como base dos governos, além de unir alguns países islâmicos em uma nação apenas. Como se não bastasse, ainda objetiva libertar os islâmicos de qualquer influência não islâmica, desde o controle de infiéis e estrangeiros.

— Posso estar enganado, mas eles querem muita coisa.

Ignorando meu comentário, Dashwood aperta um botão que troca de imagem. Imediatamente, eu me remexo sobre a cadeira, sentando-me mais ereto. A nova imagem mostra Bin Laden em uma das mais famigeradas fotos: sentado sozinho, com a roupa branca e um casaco camuflado.

— A Irmandade Muçulmana inspirou a o surgimento da Al-Qaeda e dos Talibãs. — quem fala agora é Morgan. — Não são assim tão famosos agora, mas tem muita influência e tem nos causado grandes preocupações.

Dashwood pigarreia. O som faz com que Morgan aja rapidamente, mudando a imagem outra vez. No slide, quem surge é um homem de estatura mediana e um grosso bigode cinza. Usa um tarbush e calças largas listradas. A minha visão de seu rosto é obstruída pelos óculos escuros que cobrem parcialmente a face.

— Esse é Rashid El Majzoub. É o atual líder da Irmandade. E aqui — Morgan embolou-se com os controles do retroprojetor, mas tratou de mudar de imagem com rapidez. Agora, ao lado de Rashid, havia uma jovem mulher, trajando um abaya preto e um hijab roxo. — a esposa dele, Yamileth.

— E por que eu estou aqui, sentando em uma sala infernal sobre esse sol quente ouvindo vocês falarem dessas pessoas?

— A influência de Rashid tem crescido cada vez mais e mais. Alguns meses atrás, ele mandou um vídeo diretamente para o Secretário de Defesa. Na gravação, Rashid jurou que ele e seus seguidores iriam destruir cada tijolo que erguera a nação norte americana. E que queimariam nossos restos para que nunca mais podessemos levar ninguém para o caminho da condenação.

— Parece muito incisivo.

— Depois disso, tornou-se minha missão pessoal encontrar Rashid e findar a ameaça que ele impora sobre nós. E encontramos.

A imagem torna a se alternar, mostrando um mapa do Oriente Médio. Com mais um clique, a foto ganha zoom até uma área entre Matrun e Siwa, na beirada da fronteira do Egito com a Síria.

— Na próxima semana, Rashid e a esposa passarão por aqui. Eles serão seguidos de perto por um pequeno comboio, facilmente eliminável. Especialmente tendo sido avisado previamente.

— O que quer dizer? —preocupo-me.

Ao meu lado, Edwards suspira e eu imediatamente me viro para encará-lo. Ele diz:

— Queremos que você o elimine, Harry. Elimine Rashid e Yamileth.

— Para outro radical louco assumir e levar a promessa que ele fez a cabo?! Isso é loucura!

— Sargento, pensei que sua função fosse cumprir ordens e não questioná-las. — Dashwood fala, com um tom rígido que deveria me lembrar de meu lugar.

Engulo em seco, frustrado.

— A morte de Rashid é um aviso tão claro para eles quanto é para nós. — Dashwood prossegue. — Se somos atrevidos o bastante para dar cabo de um dos homens mais poderosos do Oriente Médio, o que não faremos com seus seguidores?

Contenho um suspiro, sendo forçado a concordar com a observação de Dashwood. O retroprojetor e instantaneamente desligado e as luzes da sala se acendem, fazendo-me piscar repetidas vezes.

Olhei para o lado, vendo a forma insatisfeita como Edwards encarou os dois agentes da CIA. Seu olhar desaprovador e o leve balançar de sua cabeça me fizeram ter certeza de que ele não concordava com a missão proposta.

— Chefe, posso falar com o senhor a sós por um segundo? — pedi.

Sem se preocupar com qualquer desculpa esfarrapada, Dashwood e Morgan sairam. Encaro a porta por alguns segundos, certificando-me de que eles não retornariam e nem interromperiam os inúmeros questionamentos que desejo fazer.

— O que acha, chefe? — inquire.

A princípio, Edwards não disse absolutamente nada. Ele apenas suspirou profundamente e virou o rosto, encarando o maquinário montado para exibir os slides de minutos atrás. Eu apenas aguardei, consciente de que seu silêncio era uma simples protelação para todas as palavras que viriam a seguir — palavras que provavelmente não gostaria de ouvir.

— Acho que deve aceitar. — Edwards falou, por fim, surpreendendo-me por completo. — Eu que o indiquei para essa missão, Harry. Não tenho mais idade para isso e você foi a primeira pessoa que veio em minha mente.

— Por quê?

— Por que vai cumprir as ordens sem qualquer discussão. Não por causa do meu país ou porque acha esses homens gentis e quer ser útil por eles. Não. Mas porque sabe muito bem o que esses malditos fizeram e não vai permitir que façam algo parecido com outra pessoa novamente. O envolvimento do DEVGRU já era óbvio. Ninguém realiza missões desse tipo como a gente.

Balanço a cabeça.

— Então por qual razão o senhor me parece tão avesso à essa missão?

Um novo suspiro saiu dos lábios de Edwards.

— Os agentes não lhe disseram tudo. — a omissão de informações não me agradou e levantou suspeitas. — Não contaram porque eu pedi para fornecer esses dados. A primeira coisa que precisa saber é que estará sozinho. Haverá um Black Hawk por perto, mas apenas para levá-lo embora ao fim da missão. Jamais poderá contar qualquer coisa sobre isso para ninguém. O último detalhe é o mais importante de todos. É algo que me impediria de aceitar essa missão porque eu acredito em Deus e em Céu e Inferno e acho que não é algo que Ele aprovaria.

— Mas como eu não acredito mais já não faz diferença, certo? O que é, chefe?

— A mulher de Rashid… Ela está grávida, Harry. As fontes da CIA disseram que Rashid acredita ser um menino. Ele automaticamente assumiria o lugar do pai e não deixaria o reinado de terror cair por terra.

— Por isso que a mulher precisa ser morta também. — murmuro, embora se tratasse de uma conclusão óbvia.

— Exato. Mas a pergunta que não quer calar, sargento, é se você vai aceitar essa missão ou deixar para outro soldado a dor e a glória.


Notas Finais


Espero muito que tenham gostado do capítulo. Se tiveram alguma dificuldade com o entendimento, leiam as notas iniciais ou venham falar comigo (vira e mexe tô na TL haha) que vou amar responder todas as dúvidas.
Criei uma playlist pra fic no Spotify. Quem quiser ler, fique à vontade: https://open.spotify.com/user/rachel-wilde/playlist/1CBplfKMweyZi2p8n4o8Mt
Também comecei a postar Red no Wattpad. A versão de lá é um pouco diferente da que está sendo postada aqui e, se tiverem um tempinho, são mais do que [email protected] a ler. O link é esse: https://www.wattpad.com/story/98503905-red
Por hoje é tudo, pessoal! Muito obrigada por terem chegado até aqui. Se quiserem falar, basta chamar que vou amar bater um papo com ocês. Até loguinho!
xoxo


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