História Red - Capítulo 20


Escrita por: ¢

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Categorias Elizabeth Olsen, Harry Styles, One Direction, Zayn Malik
Personagens Harry Styles, Liam Payne, Louis Tomlinson, Niall Horan, Personagens Originais, Zayn Malik
Tags Charlie Dawson, Drama, Elizabeth Olsen, Guerra, Harry Styles, One Direction, Starlotus2017, Terrorismo
Visualizações 1.060
Palavras 7.223
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Hentai, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Suicídio, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Olá, meus amores!
Voltei em um tempo bem mais razoável dessa vez, né? Estou tentando ser melhor.
Bem, quero muito agradecer pelos favoritos e comentários. Inclusive, não respondi todos ainda, mas responderei logo e, independente disso, quero que saibam que fiquei extremamente grata por cada um deles. Muito obrigada também pelas MP, menções e outras formas de falarem sobre isso comigo. Eu fiquei numa felicidade extrema por cada uma dessas coisas e só posso lhes agradecer pelo carinho e pelo tempo dedicado. A alegria que cês me dão é impossível de ser posta em palavras.
Um obrigada especial à Nanda, que leu e avaliou este capítulo, e ao Cezinha, que ouviu algumas ideias que eu tinha pra história e me deu conselhos (a reescrita é um processo constante mesmo).
Acredito que o capítulo vá deixar algumas dúvidas e quero muito ouvir a teoria de vocês sobre isso haha Então, procurem-me para falar. E se não quiserem falar sobre isso, sobre qualquer coisa, estou constantemente na TL. Peço perdão por todo e qualquer erro ortográfico, pois não mandei o capítulo para a betagem. Me avisem quando os encontrarem, para que eu possa arrumar, por favor
Mais uma vez, obrigada pelos favoritos, comentários e pelo tempo. Boa leitura e nos vemos nas notas finais.

Capítulo 20 - Red pink


Fanfic / Fanfiction Red - Capítulo 20 - Red pink

Charlie

 

Harry me encara com a boca entreaberta. Parte de mim supõe que ele está tentando juntar as peças desse quebra cabeças e compreender o que houve. A bebedeira com certeza criou uma bela confusão em sua cabeça.

Dou-lhe esse tempo. Percebo que estou brincando com meus dedos em una fraca tentativa de conter toda a energia acumulada;  é como se eu precisasse falar, botar aquilo para fora e tentar entender. Eu me controlo como posso, dando o tempo que Harry parece precisar para conseguir se encontrar e dizer o que precisa.

— Como você..? — questiona,abanando a lista na frente de meus olhos.

— Um pouco você me contou e de resto eu acabei descobrindo. — dou de ombros, menosprezando a importância disso. — Mas, honestamente, acho muito mais importante você me ajudar a entender tudo isso do que ouvir minhas justificativas.

— Você mexeu nas minhas coisas? Sem que eu soubesse ou deixasse?

Não engulo em seco. Eu o encaro, não mais torcendo a mão porque isso é mais insegurança do que nervosismo. Tenho plena consciência de que o que fiz não foi exatamente o mais correto. Mas isso não é exatamente o ponto mais importante em minha mente.

— Acho que a gente tem coisa mais importante para falar do que isso. — digo. — Você sabe que temos. Que tal começar pela suas consultas com a psicóloga? Gosta dela? Tem achado que te faz bem? Eu tenho que ser honesta e dizer que acho que é a mesma merda. Na verdade, suspeito que você esteja quase que até pior. Como se nem fosse nela.

Harry fica em silêncio. Permanece com o olhar baixo, no papel, na minha pequena listinha. Cruzo os braços sobre o peito, surpresa demais com meu auto controle. Na minha mente, pensei que já estaria berrando a essa hora, presa em um ataque de pânico ou histérico. Talvez uma mistura dos dois, eu não sei bem. Só que estou surpreendentemente contida, o que me assusta muito mais.

Debaixo da calma aparente, sou um vulcão pronto para explodir. E me assusta o momento da explosão.

— Não vai dizer nada? — pergunto. — Uma justificativa, uma resposta estúpida ou qualquer coisa do tipo? Tudo bem. A gente pode olhar outra coisa para falar. Que tal Fallujah? Vai para lá logo? Mês que vem, talvez?

Pela segunda vez, tudo que tenho é silêncio. Silêncio profundo, como a calmaria que vem antes da tempestade e destrói a plantação. Eu sou a tempestade e as nuvens estão cada vez mais cheias. Não sei nem se realmente sou capaz de conte-las.

O silêncio de Harry prossegue e a irritação que há em mim cresce. Sinto como se agora estivessem removendo a capa que me deixava em aparente calma. Minha mente começa a se descontrolar, pensamentos vibram rápidos demais para serem compreendidos e é una questão de tempo até que eu exploda, deixando sair tudo que há travado em minha garganta.

— Você não vai falar nada? Via ficar ai, olhando para merda desse papel e esperando que as respostas simplesmente surjam? Que você descubra o que deve me dizer para resolver as coisas? Vou dar uma dica: suas opções são muito limitadas.

— Desculpe por ter feito você passar por isso.

Fico ainda mais irritada. Talvez Harry ainda não tenha visto o óbvio: não quero um pedido de desculpas dele. Longe disso. Essa ideia nem havia passado por minha mente até aquele instante. Eu só queria que ele falasse. Queria que me contasse o que causou aquilo e como eu poderia ajudar. Se não poderia, então precisaríamos buscar uma solução diferente.

— Não quero que me peça desculpas. — digo.

— O que você quer, então? — Harry berra, esticando as mãos e arregalando os olhos.

— Que você me conte! — respondo no mesmo tom.

Nós nos calamos. Todo o ambiente entra em um silêncio profundo e depressivo. A pior parte é a sensação de que há muito para se dizer. Tenho argumentos preparados e palavras de conforto para pronunciar. Harry tem seu passado, escondido debaixo da terra e longe da vista de qualquer um. Estamos cheios e não há motivo para nos calarmos.

No entanto, é exatamente desse modo que permanecemos. E dói como uma ferida aberta. Incomoda como uma coceira na sola do pé. Sinto lágrimas começaram a se acumular em minhas pálpebras — a tempestade vem ai — e as seguro como bem posso. Digo a mim mesma que posso chorar depois, agora não é o momento.

Harry puxa uma cadeira e se senta. Seu telefone está na mesa e ele o usa de peso para prender a folha ali. Suspira. Parece cansado. Talvez esteja. Penso em dar-lhe um tempo mas me convenço argumentando o óbvio: também estou cansada. Exausta. Casa deixe pars depois, o depois nunca vai chegar.

— Eu parei de ir na psicóloga. — Harry confessa. — Mas isso é algo que você obviamente já sabe.

— Já.

— Fiz isso porque eu... Acho que não faz diferença. Não funciona. Estou muito ocupado fazendo outras coisas.

— Como ir para Fallujah?

Harry ergue os olhos para mim. Vejo algo diferente passar por eles e não consigo identificar com certeza o que é. Medo, mentira, outro segredo? Eu já nem sei mais.

— Eu estava bêbado, Dawson. Completamente bêbado. Nem tudo que eu disse tem algum sentindo.

— Ia perguntar se devo me preocupar com a parte do mentiroso, mas acho que já tive minha resposta. Não quer terminar de falar da psicóloga?

Harry inspira e sopra o ar pesadamente.

— No começo, eu realmente estava indo. Em todas as consultas. Depois de um tempo, eu só me sentia um idiota. Um idiota de ficar lá e falar dos meus problemas ridículos. Ouvir só os tornava ainda mais patéticos, sabia?

Reviro os olhos.

— Como poderia saber? Você não me conta muita coisa, conta?

— Charlie, eu... Tem certas coisas que eu posso e consigo falar sem absolutamente nenhum problema. Outras, e você pode acreditar em mim quando eu digo isso, é melhor simplesmente deixar quieto. O tempo arruma o que precisar arrumar e todo esse blah blah blah.

Solto um riso esganiçada. Não é o que esperava ouvir de Harry porque ele não é muito crente de que o tempo é a cura de todos os males.

— Sério? — digo, sentindo a cabeça quente de raiva.

— Você também não precisa ouvir toda essa merda. — ele ergue o papel, exibindo-o a mim. — Não vai fazer bem.

— Você achou que isso pudesse ser bom de ser dito ou ouvido? É realmente patético, Harry. Patético e nada heróico ou bonito. Você não é mártir. Eu não sou santa. Acho que nós dois temos uma experiência razoável com coisas ruins para não nos assustamos.

— Charlie...

Bato na mesa. A tempestade começa. Uma quantidade minúscula, verdadeiramente insignificante de raiva, sai pelos meus dedos quanto acertei a mão com força na madeira. Mas ainda há muito mais para sair. Aquilo é a minúscula ponta de um enorme iceberg. Estou tão cansada que cansei de tentar ser gentil ou de fingur ter paciência; já esgotei ambos.

— Eu te carreguei por toda essa entrada enquanto você estava bêbado, depois de quase ter dado a merda de um tiro na cabeça. Eu rodei a droga dessa cidade toda com o coração quase saindo pela boca só para conseguir te encontrar. Eu quase morri na noite passada quando não te achei e quase morri de novo quando te achei com a porra de uma arma, que eu nem sabia que você tinha, apontada para a sua cabeça. Eu não quero nenhum papo melodramático sobre como isso é um problema seu, não meu, sobre como não mereço nenhum tipo de sofrimento assim ou sobre qualquer uma dessas merdas que você fala porque acha que é o melhor a ser feito. Estou cansada, Harry. E eu queria pelo menos achar que você se importa.

Harry não diz nada nada. Ele não falou um milésimo do que eu pensei que falaria, coisa que só me deixa mais frustrada. Tem algo vibrando no meu peito, pedindo uma chance para sair. Não sei o que é. Gritos, palavrões, lágrimas. Qualquer coisa que está travada em mim e que parece ter crescido nas últimas doze horas. Algo sobre Harry, isso é óbvio.

Cruzo os braços sobre o peito e espero. Meus lábios estão franzidos em uma linha fina e dura. Meu cérebro zumbe, mergulhado em um caos rígido e gelatinoso que obstrui a maioria de meus movimentos.

Fico em silêncio porque ainda tenho uma pontada de esperança, um sentimento mínimo e cada vez menor, de que Harry vai falar. Uma porcentagem de mim está contando os segundos para que ele mova os lábios e diga qualquer coisa que ajude a tirar o peso das minhas costas. Qualquer coisa serve. Não ganho nada — esse é o problema.

Harry demora a fazer algo. Está parado, com braços esticados e brincando com as próprias mãos. De repente, ele ergue o rosto e me encara. Dá de ombros, como se isso o livrasse de qualquer culpa ou fosse a resposta.

Inspiro profundamente enquanto o misto de raiva, cansaço, preocupação e tristeza fazem lágrimas se acumularem sobre minhas pálpebras inferiores. Destravo os lábios e estalo a língua. De repente, percebo que estou cansada demais para recomeçar uma discussão.

— Tudo bem. — sussurro, sem realmente acreditar nisso.

Dou meia volta. Subo as escadas correndo e bato a porta do quarto com força atrás de mim. Eu desabo sobre a cama, sentando na beirada em um baque pesado. Então faço o que provavelmente é a coisa mais patética que posso fazer: eu choro.

No começo, não percebo o quão ridículo isso é. Conforme as lágrimas escorrem e os soluços se tornam mais audíveis, percebo que isso é idiotice. Chorar não resolve meus problemas. Chorar nunca foi realmente uma solução. Mas é bom. Começo a sentir a vibração em meu peito murchar. Ela fica cada vez menor, em contrapartida as lágrimas saem cada vez em maior quantidade.

Dobro os joelhos e me encolho. Passo ums dos braços ao redos das pernas, mantendo meus membros inferiores colados à minha barriga. Seco as lágrimas e percebo que isso é ridículo e inútil. No instante seguinte, o lugar que sequei já está completamente molhado.

Fico sentada ali, parada daquele modo por não sei quanto tempo. Eu não olho para o relógio e nem para nada. Minutos ou horas. Que diferença isso faz? Acho que não muita. Então, não é minha prioridade. Simplesmente não importa. Mas depois de um tempo, eu preciso me mexer. Chorar é bom, ajuda a tirar o peso do peito. Mas não posso ficar assim para sempre. Preciso me mover e tomar decisões, atitudes. Chorar é bom, mas não resolve problema nenhum.

Eu me ergo e vou direto ao banheiro. Tomo um longo banho. Fico um pouco mais relaxada debaixo da água quente. Minha cabeça não pafece tão pesada ou tão cheia. Saio enrolada na toalha e pingando água no chão. Vejo as caixas de Harry sobre a cama. Ele as pôs ali, não eu. Ele esteve no quarto.

Apresso-me para fora do cômodo, deixando um rastro úmido para trás.

— Harry? — chamo. — Harry?

Não ganho nada. Ele não está ali. Suspiro e volto ao quarto. Enquanto me visto, começo a pensar. E não paro de me perguntar se ultrapassei a linha, se peguei pesado demais. Talvez o tenha feito.

Deixar Harry sem reação imediata não é muito difícil; é só colocar em pauta qualquer assunto que ele odeie e pronto. Mas ele geralmente se recupera e diz algo chulo e inapropriado. Dessa vez, ele não disse nada. Foi só silêncio. Acho que peguei tão duro que arranquei todas as palavras de sua boa. Isso é ruim, é péssimo.

A frustração cresce um pouco, dessa vez acrescida pela minha falta de paciência. Eu me sinto envergonhada e incomodada. Fico muito perto de desejar uma máquina do tempo apenas para conseguir fazer as coisas funcionarem. Fazê-las de um jeito melhor do que fiz.

Depois de me vestir e pentear o cabelo, eu desço. A casa está num tipo mórbido de silêncio. Não encontro Harry em lugar nenhum. Na cozinha, paro com a mão a centímetros da porta da geladeira. Minha atenção vai para a folha de papel, com novos rabisco em uma letra bem diferente da minha. Puxo-a.

"Eu realmente matei gente para caramba. Não sou exatamente um mentiroso, só que é difícil falar sobre essas coisas.  Edwards: ex comandante. Os únicos convites que ele manda são para seus churrasco. Mas tem um oceano entre nós e eu não gosto de aviões. Acho que nunca aceitei. Matthew e eu treinamos juntos. Ele saiu um pouco antes de mim. Trudy é a esposa. Eles tem dois filhos. Jenna, a mais nova, é minha afilhada, só que não a vejo porque, repito, tem um oceano e eu odeio aviões."

Eu suspiro. Consegui minhas resposta. Por que não me sinto melhor agora? Por que meu peito simplesmente não se enche de alívio porque tenho o que quero e tudo está mais encaminhado?

Não dá para me sentir aliviada. Suspiro, incomodada pelo fato de que ainds falta algo.

Deixou o papel sobre a mesa e vou para a sala. Espio da janela e reconheço a silhueta de Harry sentada na praia. Seus pés são tocados pela marola o tempo todo. Quando percebo, já sai da casa e estou indo na direção dele com o meu casaco em mãos. Está frio hoje. Muito frio.

— Venham, senhores da guerra. — digo, repetindo o que escutei poucas horas atrás.

Harry vira o rosto e me encara. Está cansado, mas acho que a minha cara é pior. Devo estar cheia de olheiras e com olhos caídos. O que lhe destrói é a ressaca estampada em seu rosto. Com sorte, algumas horas de sono, podemos dar uma melhorada na situação.

— Oi. — murmuro.

— Oi.

Ele não parece com raiva. Só parece cansado. Eu visto meu casaco e meto as mãos nos bolsos, tentando esquentá-las. Sento ao lado de Harry. Venta frio e o mar parece muito mais agitado quando olho de perto.

De repente, Harry puxa minha mão esquerda para fora do casaco e a envolve com as suas próprias.

— Está com frio? — pergunta. — Claro que está. Parece que meteu a mão em um balde de gelo. Vamos, me dê a outra.

Eu desencaixo a mão direita do bolso e levo na direção de Harry. Ele as junta, uma sobre a outra, e cobre com as suas próprias. Afasta os dedos minimamente por uma fração de segundos apenas para despejar uma lufada de ar quente sobre elas. Depois, atrita sua pele sobre a minha.

— Neve não é tão frio. — comenta Harry. Subo meu rosto para encará-lo. — Melhor?

— Estou. Harry, me descul...

— Esquece isso, Charlie. Deixa para lá.

— Deixar para lá?

— É, deixar para lá. A gente guarda. Para quando a coisa for pior.

— Vai ter pior?

Harry dá de ombros e se remexe. Sim, vai ter pior.

— Nunca se sabe. Só acho que não é bom gastar as nossas cartas agora.

Meus ombros relaxam e o ar sai de meus pulmões com muito mais facilidade.

— Você é um castelo de cartas, sabia? — sussurro.

Dessa vez, Harry que ergue o olhar. Suas mãos permanecem envoltas na minha e o espaço entre suas sobrancelhas ganha uma ruga.

— Eu sou?

— É sim. Bom, nós somos. Cada carta é um momento que faz a gente ser a gente. Às vezes, as cartas amassam, rasgam, somem ou são tiradas. Ficamos mal por isso. Até alguém ajudar e doar uma para resolver o problema. Como meu avô. Ele perdeu dezenas de cartas e minha avó doou quantas pôde. Meu pai também. E meu avô ficou bom. Roubaram várias cartas de você, Harry. Por issi está tão esburacado e caindo o tempo todo.

Harry suspira. Ele move a cabeça inúmeras vezez, refletindo sobre o assunto. Depois, vira-se para encarar o mar, soltando minhas mãos. Retorno com elas para os bolsos, tentando conservar o calor que se acumulou em meus dedos. As mãos de Harry caem entre suas pernas. Por algum tempo, ele apenas observa as ondas se quebrarem muito antes da praia.

— Você tem razão. Acho que eu posso ser um castelo de cartas. Do tipo bem fudido, mas ainda sim... É, talvez eu seja.

 

Harry volta à frequentar a psicóloga. E essa é de longe a melhor notícia que eu poderia ter. Ele até me deixa marcar as consultas quando eu quero. Nas duas primeiras semanas, até o faço. Mas logo percebo que isso é tolice. Dou um voto de confiança, mais um, e digo a mim mesma que um raio não atinge duas vezes o mesmo lugar. Se o fizer, ainda temos alguns pedidos de desculpa guardados.

Harry me convida e me convence a participar do jantar e leilão beneficente que a I.N.C. organiza todos os anos. Apesar de ficar razoavelmente satisfeita pelo convite, não tenho a menor vontade de participar. Ou ao menos acho que não tenho. Conforme os dias passam, Harry se mostra muito aplicado em me convencer a lhe acompanhar. Ele vai se eu for e, ao que tudo indica, ele quer muito ir.

No final, eu nem sei qual a razão exata, acabo aceitando. E isso deixa Harry muito satisfeito. Acabo me convencendo de que não tem como ser ruim; o propósito é bom e a família de Harry não é das piores, apesar do que ele sempre diz. Gasto parte do meu dinheiro poupado para comprar um vestido que seja condizente com o que está escrito no convite: traje de gala. Harry não parecia se preocupar tanto. Ele ia usar o terno do cunhado, como sempre. Eu não deixo. Se vou fazer isso por ele, é melhor que ele faça algo por mim. Harry compra um terno, um que é do tamanho adequado e com o corte certo. Algo que fica bom nele, especialmente quando comparado com o visual anterior.

Antes de sairmos da casa da praia no começo da noite de sexta, peço uma coisa para Harry: sem surpresas hoje. Nada delas, ainda mais se forem as desagradáveis. Harry ri e seus olhos brilham. É uma promessa, Dawson, ele me diz.

Vamos para o Alexandra Palace. Harry hesita em entregar a chave do Toyota para o manobrista. Quer resolver o problema da vaga por si próprio, sem a menor preocupação com a fila crescente e irritadiça de carros atrás de nós. Preciso convencê-lo de que sua atitude não é nada lógica e ele só cede depois do homem atrás de nós buzinar várias vezes e Harry o mandar para o inferno junto com a buzina.

Atravessamos a rua e eu encolho quando o vento me atinge. Pensei que as mangas três quartos e a noite aparentemente quente bastavam para me manter aquecida. Primeiro erro da noite. Deveria tee trago um casaco.

Harry não entrega convites como vi outros fazerem. Ele dá o nome e então nós entramos. Acho que, dê alguma forma, isso nos coloca num nível diferente. Somos até acompanhados por uma mulher de roupa preta. Ela nos guia salão a dentro, onde música suave toca ao fundo, encoberta por muitas conversas.

Essa mulher nos aponta a mesa onde a família de Harry está. É onde duas cadeiras esperam por nós, para onde devemos ir. Mas Harry não gosta. Não foi o que ele pediu, escuto-o dizer. Então, no meio do salão, os dois começam uma curta discussão: Harry tenta barganhar para conseguir qualquer outro lugar para nós e a mulher tenta lhe explicar que todas as mesas já estão marcadas ou reservadas. Só temos uma opção.

Os dois se entretém em uma discussão que a moça faz tentar ser discreta e Harry tenta vencer. É então que vejo Gemma e ela me vê. Acena, sorridente em seu vestido dourado. Imediatamente, vem em nossa direção.

— Vocês vieram. — comemora. — Achei que fosse uma das piadas de Harry. Estão na nossa mesa, não é? Papai que arranjou isso.

— Não, nós... — Harry começa.

— Estão, sim, senhorita. — a recepcionista avisou, afastando-se de nós.

Harry bufou, irritado.

— Você faz o seu trabalho muito mal. — ele berrou para as costas dela, mas duvido que tenha escutado.

Por alguma razão, eu quis rir. Olhei para Gemma. Ela também parecia estar muito perto de gargalhar. Harry, por outro lado, estava irritado. Isso para dizer o mínimo. Deveria tomar isso como um sinal ruim: quando as coisas começam mal, elas tendem a terminar de um jeito ainda pior.

— Vamos, Charlie. Tem lugar para vocês. Para vocês dois.

Eu sigo Gemma através do salão, contornando as pessoas em nosso caminho. Por um instante, olho para trás. Harry nos segue, com uma distância muito grande e ainda parecendo estar bem contrariado. Eu paro e lhe espero. Escuto a voz de Gemma ficar muito aguda quando ela diz ter encontrado nós dois. Só dou mais um passo para frente quando Harry chega ao meu lado.

Eles não disfarçam tão bem quanto Gemma provavelmente fez. Ficam surpresos, realmente surpresos. Trocam olhares rápidos em um dinal claro de que não esperavam por nada disso. Suponho que, em nenhum momento, passou pela cabeça deles que Harry quisesse tanto vir quanto fez parecer para mim.

— Gemm disse que tem — Harry pigarreia, encaixando as mãos no bolso. — que tem lugar na mesa de vocês.

Eu me sinto constrangida com o silêncio que se estende por alguns segundos antes que alguém finalmente tenha coragem para quebrá-lo. É Will quem o faz.

— É, nós temos. Só que precisa prometer que não vai deixar todo o lugar fedendo a cigarro antes do fim da noite.

As cadeiras já estavam lá, apenas esperando por nós apesar de ninguém mais sentia a mesma vibração.

Harry puxa a cadeira para mim e se senta ao meu lado. Fico um pouco melhor ao perceber que Gemma está do meu lado, apesar do contato mínimo que tivemos até o momento. É melhor estar perto dela do que de Amélia, que não parece gostar muito de mim. Isso é gentileza. Eu realmente acho que ela me odeia e não consigo imaginar a razão.

Servem champanhe, vinho e canapés por algum tempo. Mantenho-me quase que completamente focada em Gemma e ninguém se preocupa muito em perguntar quem eu sou. Eles não parecem estar interessados nisso. Talvez eu seja apenas a "garota do casamento da mais velha" ou já tenham fofocado sobre mim durante o almoço de domingo, de modo que sabem muito mais do que eu realmente sou capaz de imaginar.

Harry está travado ao meu lado. É quase literal quando digo que posso sentir o desconforto emanando dele. Acho que já se arrependeu de ter vindo. Com certeza, ele se arrependeu. Em contrapartida, apesar da minha oposição inicial, sinto-me quase bem por ter vindo. Até o momento, tenho tido um saldo mais positivo do que negativo.

Estamos suficientemente próximos ao palco. Posso ver a maioria dos itens que vão a leilão hoje, organizados de uma maneira quase artística. Vasos, esculturas e todo o tipo de quadro. Inclusive um cujo os traços me parecem extremamente familiares. Quando Gemma e George se levantam e saem, eu consigo reconhecê-lo.

Viro-me para Harry.

— Ei! Aquele quadro é seu. — constato.

O líquido para dentro da taça quando Harry simplesmente trava a mão. Ele arregala os olhos e vira as pupilas na minha direção. Eu espero enquanto sua surpresa se dissolve e ele termina com a champanhe em um único gole.

— Não tenho a menor ideia do que está falando, Dawson.

Reviro os olhos.

— Engraçadinho. Conheço seus desenhos. Acho que consigo reconhecer ao menos alguns traços dele. Aquilo é seu. Eu tenho certeza.

Harry dá de ombros. Não sei se, para ele, realmente não importa ou se ele só está tentando mostrar isso.

— John e Will que pediram. Mais o Will. Disse que eu poderia fazer qualquer coisa menos uma mulher nua.

— Então você respondeu o óbvio, certo? Disse que só fazia pinturas de mulheres nuas.

Consigo fazê-lo rir. Então eu mesma sorrio, satisfeita pela diminuição da tensão do ambiente. Eu olho para trás, reconhecendo o quadro que Harry fez. Não é uma mulher nua. É um casal de idosos, abraçados sobre uma cama velha e com roupas roídas por traças. A cabeça da mulher está sobre o peito dele e o homem segura sua mão com força, como se essa fosse a única forma de manter perto. Eles não tem alianças, só olhares vazios.

— É bonito. — elogio. — Mesmo sem ter peitos aparecendo. Foi por isso que quis vir?

— Como é?

— Queria ver se iriam comprar? Quem seria e quanto pagaria? Eu ficaria curiosa no seu lugar.

Harry só dá de ombros. Ele coloca a taça vazia na sua frente e a gira inúmeras vezes sobre a toalha branca e rendada. Eu suspiro. Acho que sua ficha finalmente caiu e ele percebeu que, no final das contas, não queria tanto estar aqui.

— Eu não sei. — responde-me.

Mordo a parte interna da bochecha.

— Vem. — levanto-me.

— Onde?

— Uma dança. Não está me devendo uma?

Agarro sua mão para ter certeza de que ele virá. Harry me segue aos tropeços e eu não me importo tanto quando vejo que somos uns dos poucos casais em pé na enorme pista de dança. A música que toca no piano é bonita e eu não entendo porque todos os outros estão sentados ainda.

Coloco meu corpo próximo ao de Harry. Quando toco suas costas, percebo os nós e a tensão. É puro estresse e nervosismo. Engulo em seco e afasto-me para olhá-lo. Estamos perto de outro surto? Esse é o sinal? Ou é apenas uma demonstração clara de que Harry não tem muito preparo para lidar com toda essa pressão social?

Eu não sei. A única coisa que tenho em mente é que o que vem a seguir não pode ser pior do que tudo que enfrentamos. Minha mente se esgota ao tentar encontrar coisas mais graves e destruidoras. É uma sorte que seja apenas uma ciclo vazio: sem mais respostas. Posso lidar com o que vier. Nós dois podemos.

— Precisa relaxar, cowboy. — sussurro em seu ouvido. Nós nos movemos em círculos lentos sobre o salão.

— Não sei se isso foi uma boa ideia. — Harry confessa. — Eu nunca participei. Nem quando era novo. Sempre ignorava os convites e o fato de que o meu nome estava na lista se eu quisesse vir.

— Esse ano você tinha que descobrir quem ia comprar seu retrato politicamente correto, não é? Foi por isso que viemos. Eu também diria que é pela comida também, apesar de supor que são aquelas porções mínimas. A quantidade de comida servida em cada prato durante um jantar é inversamente proporcional ao tamanho da conta bancária dos organizadores.

— Vamos passar fome, então.

— Tudo bem se quiser ir embora. Eu não me importo. Podemos voltar para a casa da praia. E seremos só nos dois. Podemos fazer isso. Ou podemos ficar. Desde que você me garanta que está confortável aqui e que consegue sobreviver a noite.

— Tentar não seria ruim.

Mordo o lábio inferior, segurando um sorriso.

— Tentar já é um ótimo começo para mim.

Harry e eu passamos mais algumas músicas em pé, afastados da mesa onde estávamos com a família dele. Ficamos juntos, balançando-nos em uma pseudodança que não engana a muitos. Ou andamos de um lado para o outro, ficando próximos das enormes janelas que dão vista ou para a rua ou para o gramado de trás do hotel.

Quando o jantar começa a ser servido, nós voltamos. Tento calcular quanto tempo até o leilão e qual a duração dele. Não podemos gastar mais do que duas horas. Parece uma ideia improvável. Na verdade, nem precisamos ver tudo. Só o quadro de Harry. É isso que ele quer ver, não é? Não entendo muito sua curiosidade, mas acho que nós dois conseguimos aguentar até que ele seja leiloado.

Nos servem salada como entrada. É um pouco desanimador ver a forma como Harry empurra os tomates de um lado ao outro no prato, quase como uma criança que detesta legumes. Ele não gosta muito, isso eu sei bem.

Pego parte da salada dele quando a maioria dos olhares não estão em nós. Quando trazem o prato principal, eu transfiro pelo menos metade do meu peixe para o prato dele. Quase rio da surpresa. Dou uma piscadela.

A sobremesa demora mais. No meio tempo em que esperamos, Will sob ao palco com pequenos cartões em mãos. Ele fala, sempre recorrendo aos papéis em suas mãos para ter certeza de que o discurso está no rumo certo. Eu o escuto, completamente entretida em suas palavras sobre a importância do que fazem aquela noite. Talvez realmente seja.

Os garçons surgem pela direita, colocando pequenos pratos em nossa frente de uma forma rápida e discreta. Eles são quase invisíveis enquanto se movem na meia luz, passando de mesa em mesa com bandejas lustrosas de prata.

Will retorno ao seu lugar enquanto outro homem assume a posição diante do microfone. Espeto meu garfo no petif gato, escutando anunciarem o primeiro dos itens. Pergunto para Harry de onde vem todas as peças e ele me diz que são de todo lugar: pessoas financiadas pela I.N.C., doações de sócios, o arcevo da empresa.

Harry não compra nada. Vejo-o levantar a mão várias vezes durante os lances e ser sempre identificado como o filho do chefe. No começo, fico preocupada. Depois, acabo percebendo que Harry não tem o verdadeiro intuito de levar algo. Ele só está atiçando os outros compradores, fazendo com que seus lances aumentem. Funciona. Em todas as vezes, ele blefa e alguém acredita. Mais dinheiro entra.

É quase irônico que o quadro de Harry seja a última peça. Ninguém diz quem é o artista, e ninguém nem se preocupa em saber. Começam com lances baixos e eu coço a palma da mão para não erguê-la. Durante os lances iniciais, vejo Amélia, com a mão travada no braço do marido, sussurrar algo no ouvido de John. Ele concorda e lhe responde. Não sei o motivo, mas os dois riem. Quando o leiloeiro pergunta se alguém dá um lance maior, John ergue a mão.

Eu me pergunto se ele sabe ou se Amélia sabe. Ambas as alternativas são igualmente plausíveis e minha intuição não acha uma resposta. Eles poderiam saber, e estão tentando comprar mão só pela parte beneficente ou pela estatística. É porque é de Harry, e isso joga tudo para uma perspectiva muito diferente. Eles também poderiam não saber, e só estariam levantando a mão porque acharam a estética agradável e um investimento válido.

Amélia e John permanecem de braços dados todo o tempo e a mão dele não se abaixa. O quadro vai ser deles, isso é óbvio. Os lances crescem e os compradores se  extinguem aos poucos. No final, resta apenas John e um senhor de cabelos e barba brancos. Ele cobre a oferta se John e, quando John dá mais, apenas dá de ombros e encolhe o braço. Dou-lhe uma, dou-lhe duas e o prêmio da noite é dos pais de Harry. Amélia bate palmas em comemoração e John sorri.

Quase acho que eles sabiam.

Olho para Harry e percebo que ele já não está mais interessado nisso. Está comendo o que resta da sobremesa. Não tenho a menor idéia se ele prestou atenção no que aconteceu ou não. É provável que sim.

— Compraram seu quadro. Por um valor bem alto. — conto.

— Eu sei. Isso é ótimo para as crianças na África, certo? Essa palhaçada toda é para elas.

Balanço a cabeça.

— Quer saber? Eu sei onde vamos conseguir um pouco de álcool e nós dois estamos precisando de uma boa dose. Você principalmente.

Seguro Harry pelos ombros e o arrasto para o outro lado do salão. As pessoas agora estão em pé, invadindo outras mesas e ocupando espaço na pista. Dançam de um jeito engraçado, entorpecido, cansado talvez.

Pedimos para um garçom que nos traga duas taças de vinho, champanhe ou qualquer coisa com álcool. Ele se ofereceu para levar até a mesa e eu digo que isso não é necessário. Harry e eu estamos a um passo de irmos. Acho que a bebida é a única coisa entre nós e a saída.

John chega logo depois das taças. No momento em que reconheço sua silhueta, estou prestes a falar com Harry que me orgulho da forma como se portou essa noite. No entanto, a súbita aparição de John muda tudo. Não duvidaria se Harry e o pai acabassem tendo uma discussão por algo idiota. Eu já vi acontecer. Não queria ver de novo.

— Por favor, não fique zangado ou algo assim, mas você tem uma visita agora. — digo.

Harry imediatamente olha para trás e bufa ao perceber do que se trata. Eu bato sobre seu ombro duas vezes e dou um meio sorriso, como se lhe dissesse que é melhor não se meter em nenhuma discussão hoje. Ninguém quer isso.

— Srta. Dawson. — John me cumprimenta com um simples movimento de cabeça e eu fico surpresa ao constatar que ele sabe meu nome. — Harry, posso falar com você?

Por mais que esteja disposta a evitar qualquer tipo de confusão, sinto que essa conversa não me diz respeito. Parece muito mais apropriado dar privacidade para os dois, não importa o assunto que vão tratar. Eu inclusive faço menção de me retirar, jogando um pé na frente dos outros e abrindo a boca para pedir licença. Mas Harry segura o meu pulso e impede que eu me mova.

Parece até impensado. No instante seguinte, ele está afrouxando o aperto e deslizando um pouco a mão para baixo, até que a ponta dos seus dedos toque na palma de minha mão. Não sei o motivo, mas ele não quer que eu vá. Talvez porque outra pessoa envolvida seja a única coisa capaz de fazer a conversa render bem. Não sei lamento ou agradeço por ser essa pessoa.

— Você pode falar, John. — Harry avisa. — Charlie ouvir não é um problema, eu suponho. Ou é?

— Não, claro que não. É sobre sua mãe. Ela gostaria de dançar e eu não sou muito indicado para isso.

Encaro a bengala de madeira sobre a qual John se apoia. Um derrame, Harry me disse uma vez. Mas nunca falou o que causou. Estresse e trabalho deveriam ser as indicações mais óbvias. Minha mente, no entanto, continua trabalhando com alternativas paralelas a essa.

Harry faz careta. Eu olho para mesa e vejo Will e George sentados ali, bebericando champanhe e conversando animadamente. Então tento entender porquê Harry. Ele é o filho, mas todos nós sabemos que qualquer tipo de cerimônia social não é seu forte. Tenho certeza que George não se importaria, e Gemma muito menos.

— Eu sou péssimo dançando e também não estou exatamente querendo isso. — Harry prossegue. — Mas agradeço a boa vontade e o convite.

Harry se vira para mim para não ter de encarar o pai. Eu vejo pela cara de John que ele não vai apenas deixar isso de lado. E acho que, em grande parte, é isso que me motiva a colocar as mãos sobre o peito de Harry e dizer:

— Vai lá.

Harry engasga e esbugalha os olhos. Ele não esperava por isso. Acho que nem realmente esperava. É difícil de explicar se estou apenas me precavendo de algum problema ou se estou seguindo um sexto sentido. Não consigo tirar da minha mente o fato de que toda essa situação é no mínimo suspeito.

— Como é?

— Vai lá, Harry. Dance com a sua mãe. Enquanto isso, eu pego minhas coisas. E poderemos ir embora.

— Charlie, eu...

— Não vão ser mais do que cinco minutos. E sua mãe vai ficar feliz. Não é bom?

Nem duvido que ele pense que não. Independente do que há em sua mente, Harry move a cabeça em concordância. Ele me beija e diz que não vai demorar, e eu nem tenho muitas dúvidas sobre isso. Depois se afasta, caminhando até a mesa de sua família. Vejo-o oferecer a mão para Amélia e, mesmo a distância, consigo identificar certa surpresa em seu rosto.

Pelo menos ele está tentando.

Pigarreio ao olhar para John. Ele ainda está ali. Por alguma razão que não conheço, ele ainda está ali.

— Eu vou pegar as minhas coisas. Com licença. — aviso, passando por ele.

— Não, srta. Dawson. — paro no meio do caminho. Um frio percorre minha espinha. — Preciso falar com a senhorita. É uma urgência.

Engulo em seco. Parte de mim grita que sabia que uma situação estranha dessa deveria trazer algo mais. Outra se apavora um pouco. Quantas vezes vi John? Quantas vezes nos conversamos de fato? O que ele sabe sobre mim e o que eu sei sobre ele além de especulações ou informações de terceiros? Somos basicamente desconhecidos. Eu não posso imaginar uma boa razão para que ele precise, e com urgência, falar comigo. E a falta de hipóteses só aumenta meu nervosismo.

Lentamente, eu me giro. Cruzo os dedos e depois começo a apertá-los uns aos outros de maneira aleatória, tentando se livrar do nervosismo crescente. Meu estômago se revira e eu começo a morder a parte interna de minha bochecha, tentando diminuir o nervosismo.

— Precisa? — pergunto.

— É sobre o meu filho.

Meu coração entra em um ritmo diferente. Harry sempre me fez crer que John fosse um homem ruim e de repente tenho a cômica cena dele sendo o vilão dessa história. Mas não acho que essa seja bem a verdade. Talvez John não seja um vilão, só seja um pai com uma série de problemas em ser paternalista.

Todavia, não sou capaz de fazer nada para evitar o aumento de meu nervosismo. Se John aceita falar com alguém que é uma desconhecida na prática, a situação deve ser realmente séria.

— O que tem Harry? — questiono e percebo o meu medo crescente.

— Aqui não é um bom lugar. Venha comigo.

John me ultrapassa e segue mancando em minha frente, apoiando-se sobre a bengala e sobre a perna boa. Eu hesito, pensando nas inúmeras vezes que Harry me fez crer que o pai era um homem ruim. Um homem ruim não pode estar tentando fazer nada bom.  Ou pode?

No final, sou vencida pela curiosidade. Digo a mim mesma que sou bem capaz de separar o útil do inútil e que posso filtrar tudo que John me disse. Posso excluir o que não for realmente significativo. E já começa a se tornar jma necessidade descobrir do que se trata.

Vejo as costas de Harry e que Amélia lhe diz algo. Nenhum dos dois percebe John ou eu saindo de fininho e com pressa. A multidão nos camufla e parte de mim nem acharia estranho se isso fosse parte dos planos de John.

Apresso-me por entre as pessoas. Sigo John para fora do salão, por um caminho que é diferente do que todos fizemos ao entrar. Vamos parar numa área minúscula e externa. Pelas luzes acesas, o cheiro e a barulheira, suponho que estamos perto de uma cozinha.

— O que tem para me dizer? — pergunto.

John leva a mão dentro do paletó. Ele saca um envelope branco e grosso e imediatamente me entrega. É endereçado a Harry, embora eu desconheça a casa que fica naquele logradouro. O que me faz gelar é o carimbo, uma águia pousada sobre um tridente, carregando uma arma na pata livre e usando uma âncora como escudo, e o remetente.

Engulo em seco:

— O que é isso? Por que tem o nome do Harry aqui?

— Srta. Dawson, meu filho recebe entre duas e quatro cartas dessa por ano desde que se aposentou. Quando a primeira delas chegou, ele ainda estava se recuperando na minha casa e, desde então, sempre mandam para o mesmo endereço. É um erro, suponho. Na maioria das vezes, Harry sabia quando uma dessas estava para chegar e a recolhia antes de qualquer outro.

— Mas..?

— Acho que dessa vez eu fui mais rápido. Srta. Dawson, acho que se lembra de que Harry foi parar no Oriente Médio nesse primeiro semestre, certo?

Meu coração bate com rapidez e enche meus ouvidos de eco. Começo a sentir meu corpo se congelando, mergulhando em uma paralisadora sensação de ineficiência. Não gosto disso.

— Eu que o levei e busquei no aeroporto. Foi por causa do emprego dele. Tinha que mostrar alguma coisa ou algo assim.

John sorri, desapontado e cansado. Meu coração bate mais rápido.

— Certo, srta. Dawson. Vou lhe contar certas coisas que não podem sair daqui, entende? Que dizem respeito à nós três: você, Harry e eu. E só estou lhe contando porque não posso mais resolver sozinho. A senhorita é a minha última aposta.

— Tudo bem.

— No começo do ano, eu vi quando a primeira carta dessas chegou. Eu abri, eu li e fiquei tão surpreso quanto você ficará. Harry só veio buscá-la uma semana depois e eu já tinha dado meu jeito de disfarçar tudo. Eu honestamente preferi acreditar que isso era um equívoco, e que meu filho não aceitaria a proposta do ex comandante... Essa é a expressão? Eu não tenho certeza. De qualquer modo, imaginava que ele não aceitaria. Então, eu realmente lhe pedi que fosse para o Afeganistão para mim, demonstrar algumas armas. Ele disse que não e que eu era louco de pedir isso.

"De certa forma, foi um alívio, srta. Dawson. Naquele momento, na minha cabeça, eu estava comprovando que todas essas cartas chegaram por engano ou vacilo do comando deles. Retirei a proposta alguns dias depois. Mas nunca foi algo real. Não sei o que pensa de mim, o que Harry lhe disse, porém posso lhe garantir que não sou assim tão relapso ou ruim."

Balanço a cabeça, torcendo para que isso baste e ajude a colocar meus pensamentos em ordem. As ideias, porém, prosseguem misturadas umas as outras. Minha mente é um emaranhado confuso, com detalhes preciosos que se perderam no tempo. Ou que não são reais.

Alguém mente. John oh Harry. Pela situação, pelo quanto conheço de cada um deles, deveria tender a John. Deveria supor que nada do que ele me diz a verdade pelo simples fato de que conheço Harry muito mais do que o pai. No entanto, lembro-me de que ele já mentiu inúmeras vezes. Por qualquer que fosse a razão, ele mentiu. Meu estômago se embrulha de apenas considerar a possibilidade, mas o que o impediria de ter mentido na ocasião sa viagem?

— Espera... — peço. — O senhor não... Não mandou Harry para o Afeganistão?

John esbugalha os olhos.

— Deus do céu, srta. Dawson. É claro que não! Eu realmente pedi isso, mas só o fiz porque queria saber de uma coisa. E quando eu ouvi o "não" pensei que tivesse tido uma comprovação.

— Mas..?

— Mas as cartas nunca foram um engano, srta. Dawson. Nenhuma delas. Duas semanas depois da minha falsa proposta, eu descobri que Harry havia comprado uma passagem no nome da I.N.C. Era para um região do Egito e não para o Afeganistão. Só que nem eu e muito menos Will autorizamos isso. E eu investiguei mais. Não foi a primeira vez. Harry fez isso outras vezes.

Pisco repetidas vezes.

— Por que ele faria isso?

— É um disfarce, srta. Dawson! Eu nunca autorizei meu filho a viajar para fora da Inglaterra por nenhum motivo que fosse relacionado à nossa empresa. E nunca deixei Will fazer o mesmo. Mas Harry compra passagens no nome da I.N.C. porque, se alguém lhe perguntar, ele pode dizer que está fazendo uma viagem a trabalho.

— Então Harry mentiu para mim? Ele não foi para o Oriente Médio como me disse que iria?

— Ah! Ele foi sim, srta. Dawson. Mas não pelos motivos que lhe disse. 


Notas Finais


Muito obrigada por terem dado uma chance e lido. Quem quiser falar comigo, pode me chamar na TL ou no TT (https://twitter.com/rachel_pego). Independente do lugar, saibam que eu vou adorar que me chamem pra uma conversa ou coisa assim.
Vou aproveitar o espaço para indicar algumas fics que leio e gosto muito. Espero que possam dar uma chance:
- https://spiritfanfics.com/historia/terapia-8747836
- https://spiritfanfics.com/historia/constante-silencio-9588792
- https://spiritfanfics.com/historia/lembrancas-9432398

Muito obrigada e até a próxima!
xoxo


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