História Toda Sua -Ruggarol - Capítulo 7


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Categorias Karol Sevilla, Ruggero Pasquarelli, Sou Luna
Personagens Karol Sevilla, Personagens Originais, Ruggero Pasquarelli
Tags Karol Sevilla, Ruggarol, Ruggero Pasquarelli, Sou Luna
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Palavras 5.178
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Famí­lia, Festa, Romance e Novela
Avisos: Adultério, Álcool, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 7 - Capítulo 7


Não me lembro bem do que aconteceu depois que chegamos. Os flashes dos fotógrafos espocaramam ao nosso redor enquanto andávamos pela área de imprensa, mas eu mal me dei conta disso, estava sorrindo apenas por inércia. Na verdade, estava retraída e ansiosa para me livrar da tensão que Ruggero exalava na minha direção.

No momento em que entramos, alguém chamou seu nome e ele se virou. Saí de fininho, olhando ao redor, para os outros convidados, que lotavam a entrada acarpetada do evento.

Quando cheguei à recepção, apanhei duas taças de champanhe da bandeja de um garçom que passava e virei uma delas enquanto procurava por Michael. Quando o vi do outro lado do salão junto com minha mãe e Rey, fui direto até lá, descartando a taça vazia sobre uma mesa no caminho.

“Karol!” A expressão da minha mãe se iluminou ao me ver. “Esse vestido ficou maravilhoso em você!”

Ela me cumprimentou beijando minhas bochechas sem tocá-las. Estava linda em um vestido longo e justo, azul e brilhante. Suas orelhas, seus pulsos e sua garganta estavam adornados de safiras, ressaltando a cor de seus olhos e o tom de sua pele.

“Obrigada.” Dei um gole na segunda taça de champanhe, lembrando que havia planejado expressar minha gratidão pelo vestido. Enquanto agradecia pelo presente, não estava mais tão contente com sua conveniente abertura na perna.

Michael tomou a frente, pegando-me pelo cotovelo. Só de olhar para meu rosto ele percebeu que eu estava chateada. Balancei a cabeça, mostrando que não queria falar sobre o assunto naquele momento.

“Mais champanhe, então?”, ele perguntou, gentil.

“Por favor.”

Senti que Ruggero se aproximava antes mesmo de ver o rosto de minha mãe se iluminar como a Times Square em noite de Ano-Novo. Rey também pareceu se ajeitar e se empertigar todo.

“Karol.” Ruggero apoiou a mão na parte inferior de minhas costas nuas, e uma onda de choque percorreu meu corpo. Com seus dedos grudados em mim, perguntei-me se ele sentia a mesma coisa. “Você fugiu.”

Fiquei gelada com o tom de reprovação que ouvi em sua voz. Eu o fuzilei com um olhar que dizia tudo aquilo que eu não podia falar em público. “Rey, você conhece Ruggero Pasquarelli?”

“Sim, é claro.” Os dois se cumprimentaram.

Ruggero me puxou mais para perto. “Temos a sorte de acompanhar as duas mulheres mais bonitas de Nova York.”

Rey concordou, abrindo um sorriso para minha mãe.

Virei o restante do meu champanhe e troquei com gratidão a taça vazia pela que Michael havia me trazido. O álcool produzia uma leve queimação no meu estômago, e ajudava a desatar um pouco o nó que havia se formado lá dentro.

Ruggero se inclinou na minha direção e cochichou em um tom áspero: “Não se esqueça de que você está comigo”.

O cara era maluco? Que conversa era aquela? Meus olhos se estreitaram de raiva.

“Olha só quem fala.”

“Aqui não, Karol.” Ele acenou com a cabeça para todos e me levou dali. “Agora não.”

“Nem nunca”, murmurei, concordando em ir com ele só para poupar minha mãe daquela cena.

Virando taças de champanhe, eu me coloquei no piloto automático e passei a agir num modo de autopreservação ao qual não recorria havia muitos anos. Ruggero me apresentou a algumas pessoas, e acho que minha atuação foi boa — falando nos momentos certos e sorrindo quando necessário —, mas não estava prestando a mínima atenção. Eu estava mais preocupada com a parede de gelo que se ergueu entre nós, com minha raiva e minha mágoa. Caso eu ainda precisasse de alguma prova da determinação de Ruggero em evitar interações sociais com as mulheres com quem dormia, tinha acabado de obtê-la.

Quando o jantar foi anunciado, fui com ele para a mesa e mal toquei na comida. Bebi algumas taças de vinho tinto que serviram junto com a refeição e ouvi Ruggero conversar com as demais pessoas à mesa. Não prestei a menor atenção às palavras, apenas à cadência e o tom sedutor e equilibrado da sua voz. Felizmente, ele não tentou me integrar à conversa. Acho que eu não diria nada que prestasse. Só voltei a demonstrar interesse quando, em meio a uma salva de palmas, ele subiu até o palco. Eu me virei na cadeira e o observei enquanto caminhava em direção ao púlpito, incapaz de deixar de admirar sua elegância natural e sua beleza impressionante. A cada passo que dava ele impunha atenção e respeito, o que era uma proeza, considerando suas passadas tranquilas e sem pressa.

Ruggero não lembrava nem um pouco aquele sujeito vulnerável depois da nossa foda desmedida na limusine. Na verdade, parecia outra pessoa. Ele havia voltado a ser o homem que conheci no saguão do Crossfire, absolutamente controlado e naturalmente poderoso.

“Em nosso país”, ele começou, “o abuso sexual na infância é uma realidade para uma a cada quatro mulheres e um a cada quatro homens. Dê uma boa olhada ao seu redor. Alguém da sua mesa pode ter sido uma vítima, ou então conhece uma. Essa é a inaceitável verdade.”

Fiquei vidrada nele. Ruggero era um grande orador, e seu tom de barítono era hipnotizante. Mas era o tema de seu discurso, tão pessoal para mim, e sua maneira apaixonada e às vezes surpreendente de abordá-lo que me emocionou. Comecei a amolecer, sentindo minha fúria injuriada e minha autoconfiança ferida dando lugar ao deslumbramento. Minha visão sobre ele mudou quando me vi apenas como mais um membro de uma plateia atenta. Ele não era mais o homem que tinha acabado de magoar meus sentimentos; era apenas um palestrante habilidoso falando sobre uma questão importantíssima para mim.

Quando terminou, eu me levantei e aplaudi, surpreendendo tanto Ruggero como a mim mesma. No entanto, os demais logo se juntaram a mim naquela ovação, e comecei a ouvir as conversas que zuniam ao redor, desmanchando-se discretamente em merecidos elogios.

“Você é uma menina de sorte.”

Virei-me para ver de quem era a voz que havia dito aquilo, e me deparei com uma bela ruiva que parecia ter pouco mais de quarenta anos. “Somos só... amigos.”

Seu sorriso sereno fazia de tudo para me desmentir.

As pessoas começaram a abandonar as mesas. Eu estava prestes a pegar minha bolsa e ir para casa quando um jovenzinho se aproximou para falar comigo. Seus cabelos castanhos rebeldes despertavam uma inveja imediata, e seus olhos de um tom de verde acinzentado eram gentis e amistosos. Bonito e ostentando um sorriso jovial, ele arrancou de mim o primeiro sorriso sincero desde que saí da limusine.

“Olá.”

Ele parecia me conhecer, o que me deixou na desconfortável posição de fingir que fazia alguma ideia de quem ele era. “Olá.”

Ele deu uma risada, despreocupada e charmosa. “Meu nome é Christopher Vidal, sou irmão de Ruggero.”

“Ah, é claro.” Senti meu rosto esquentar. Eu não conseguia acreditar que estava tão mergulhada na autopiedade que não fui capaz de fazer essa associação de imediato.

“Você ficou vermelha.”

“Desculpe.” Ofereci a ele um sorriso envergonhado. “Não sei muito bem como dizer que li uma reportagem sobre você sem que isso soe meio esquisito.”

Ele riu. “Fico feliz que tenha lembrado. Só não me diga que foi na coluna social.”

“Não”, eu me apressei em esclarecer. “Na Rolling Stone, talvez?”

“Isso eu consigo aceitar.” Ele estendeu o braço para mim. “Quer dançar?”

Dei uma olhada para Ruggero, parado diante da escada que levava ao palco. Estava cercado de pessoas ansiosas para falar com ele, em sua maioria mulheres.

“Como você pode ver, meu irmão vai demorar um pouco”, disse Christopher, parecendo se divertir com a situação.

“Pois é.” Eu estava prestes a me virar quando reconheci a mulher ao lado de Ruggero

— Magdalene Perez.

Apanhei minha bolsa e me esforcei para sorrir para Christopher. “Eu adoraria dançar.”

De braços dados, fomos até a pista. A banda começou a tocar uma valsa, e seguimos naturalmente o ritmo da música, com movimentos suaves. Ele era um dançarino habilidoso, ágil e seguro quanto à sua capacidade de conduzir.

“Então você é amiga de Ruggero?”

“Não exatamente.” Acenei com a cabeça para Michael quando ele surgiu ao meu lado com uma loira escultural. “Trabalho no Crossfire, e nós nos encontramos nos corredores uma vez ou outra.”

“Você trabalha para ele?”

“Não. Trabalho como assistente na Waters Field & Leaman.”

“Ah.” Ele sorriu. “Publicidade.”

“É.”

“Ruggero deve estar muito a fim de você para passar dos encontros casuais nos corredores para um evento como este.”

Praguejei em silêncio. Sabia que as pessoas iam tirar conclusões, mas não estava nem um pouco disposta a ser humilhada. “Ruggero conhece minha mãe, que foi quem me convidou para vir, então era só uma questão de duas pessoas irem ao mesmo lugar no mesmo carro ou em carros separados.”

“Então você está desacompanhada?”

Respirei fundo, sentindo-me desconfortável, apesar da fluidez com que nos movíamos na dança. “Bom, comprometida eu não estou.”

Christopher abriu seu carismático sorriso de menino. “Minha noite acabou de mudar pra melhor.”

Ele preencheu o restante do tempo da dança com piadinhas divertidas sobre a indústria musical, que me fizeram rir e esquecer um pouco Ruggero.

Quando a música terminou, Michael estava a postos para a próxima dança. Nós dançávamos bem, tínhamos feito aulas juntos. Relaxei em seus braços, agradecia por ter seu apoio moral.

“Está se divertindo?”, perguntei.

“Fiquei bobo durante o jantar quando percebi que estava sentado ao lado da principal organizadora da Semana de Moda de Nova York. E ela deu em cima de mim!”

Ele sorriu, mas seus olhos pareciam assustados. “Toda vez que apareço em lugares como este... vestido deste jeito... é inacreditável. Você salvou minha vida Karol. E depois a mudou completamente.”

“E você é a salvação da minha sanidade mental. Estamos quites, pode acreditar.”

Ele apertou minha mão e me olhou bem nos olhos. “Você não parece estar nada contente. O que foi que ele fez?”

“Acho que a culpa é minha. Depois a gente conversa sobre isso.”

“Você está com medo de que eu arrebente a cara dele na frente de todo mundo.”

Suspirei. “Acho melhor não, por causa da minha mãe.”

Michael deu um beijo de leve na minha testa. “Ele já estava avisado. Sabe o que vai ter pela frente.”

“Ah, Michael.” O amor que eu sentia por ele me provocou um nó na garganta, apesar de meus lábios sorridentes demonstrarem um divertimento relutante. Eu deveria saber que Michael daria uma de irmão mais velho para cima de Ruggero. Era a cara dele.

Ruggero apareceu ao nosso lado. “Agora é minha vez.”

Não foi um pedido.

Michael parou e olhou para mim. Eu concordei. Ele se afastou fazendo uma reverência, com os olhos grudados em Ruggero.

Ele me puxou para perto e partiu para a pista de dança da mesma maneira como fazia tudo na vida — com uma confiança absoluta. Dançar com Ruggero era uma experiência completamente distinta em relação aos meus dois parceiros anteriores. Ele possuía ao mesmo tempo a habilidade de seu irmão e a intimidade com meu corpo que Michael demonstrava, mas seu estilo era ousado, agressivo, de uma sensualidade inerente.

Não ajudou muito o fato de, apesar da minha infelicidade, eu me sentir seduzida por aquele homem do qual tinha me sentido tão íntima pouco tempo antes. Seu cheiro era magnífico, recendendo a sexo, e o modo como ele me conduzia, com passos ousados e arrebatadores, fez com que eu sentisse um vazio dentro de mim, no lugar que ele havia ocupado pouco tempo antes.

“Você não para de fugir”, ele murmurou, provocando-me.

“Mas pelo jeito Magdalene soube ocupar meu lugar rapidinho.”

Ele ergueu as sobrancelhas e me puxou para mais perto. “Está com ciúmes?”

“Fala sério...”

Olhei para o outro lado.

Ele fez um ruído de frustração. “Fique longe do meu irmão, Karol.”

“Por quê?”

“Porque estou mandando.”

Fiquei irritada com aquilo, o que era uma coisa boa depois de toda a recriminação e de todas as dúvidas com que vinha lidando após treparmos como dois coelhos no cio.

Decidi pagar para ver se virar a mesa era uma opção viável no mundo de Gideon Cross.

“Fique longe da Magdalene, Gideon.”

Ele cerrou os dentes. “Ela é só uma amiga.”

“Isso quer dizer que você não dormiu com ela...?”

“Claro que não. Nem quero. Escute...” A música desacelerou e diminuiu de volume.

“Preciso ir. Eu trouxe você aqui e gostaria de levá-la para casa, mas não quero estragar a diversão. Você prefere ficar por aqui e ir embora com Stanton (Rey) e sua mãe?”

Minha diversão? Ele estava de brincadeira ou tinha perdido totalmente a noção? Ou pior. Talvez estivesse tão desinteressado que nem prestava atenção em mim. Eu o afastei um pouco, precisava criar certa distância. O cheiro dele mexia com minha cabeça. “Vou ficar bem. Me deixe.”

“Karol.” Ele tentou me tocar, mas dei um passo atrás.

Um braço aparou minhas costas, e eu ouvi a voz de Michael. “Pode deixar que eu cuido dela, Pasquarelli.”

“Não complique as coisas, Ronda”, alertou Ruggero.

“Pelo que estou vendo, você já fez isso muito bem sozinho”, ironizou Michael.

Engoli em seco, superando o nó que havia na minha garganta. “Você deu um belíssimo discurso, Ruggero. Foi o ponto alto da minha noite.”

Ele respirou fundo diante do insulto que aquilo implicava e depois passou a mão pelos cabelos. De forma abrupta, soltou um palavrão, e eu entendi o porquê quando ele sacou o telefone do bolso e olhou para a tela.

“Preciso ir.” Seu olhar capturou o meu e o manteve prisioneiro. Seus dedos passearam por meu rosto. “Mais tarde eu ligo.”

E ele foi embora.

“Você quer ficar?”, Michael perguntou em voz baixa.

“Não.”

“Eu levo você pra casa, então.”

“Não, não precisa.” Eu queria ficar um tempo sozinha. Afundar-me em uma banheira quente com uma garrafa de vinho e sair daquele estado de agitação. “É melhor você ficar. Pode ser bom pra sua carreira. A gente conversa quando você chegar. Ou amanhã. Quero ficar o dia inteiro em casa sem fazer nada.”

Ele me lançou um olhar inquisitivo. “Tem certeza?”

Confirmei com a cabeça.

“Certo.” Mas ele não parecia muito convencido.

“Se puder mandar buscar a limusine de Stanton, preciso dar uma passadinha no banheiro.”

“Tudo bem.” Michael passou a mão pelo meu braço. “Vou pegar seu xale no guarda-volumes e encontro você lá na frente.”

A visita ao banheiro demorou mais do que deveria. Para começar, um número surpreendente de pessoas me parou para conversar, e o motivo disso só podia ser o fato de eu ter chegado acompanhada de Ruggero Pasquarelli. Além disso, evitei o banheiro mais próximo, que tinha um grande fluxo de mulheres entrando e saindo, e encontrei um mais distante.

Tranquei-me na cabine e fiquei ali um pouco mais de tempo do que tinha levado para fazer o que era necessário. Não havia mais ninguém ali além da funcionária responsável, não havia motivo para me apressar.

Eu estava tão chateada com Ruggero que mal conseguia respirar, e estava absolutamente perplexa com suas mudanças de humor. Por que ele havia acariciado meu rosto daquele jeito? Por que tinha se aborrecido por eu não ter permanecido ao lado dele? E por que tinha tratado Michael daquele jeito? Ruggero dava um novo significado à velha descrição de uma pessoa “de lua”.

Fechei os olhos e retomei a compostura. Minha nossa. Eu não precisava passar por tudo aquilo. Tinha exposto os meus sentimentos naquela limusine e estava extremamente vulnerável — uma sensação que tinha me custado infinitas horas de terapia para aprender a evitar. Eu só queria ir para casa e me esconder, libertar-me da pressão de agir como se estivesse tudo bem.

Você entrou nessa porque quis, lembrei a mim mesma. Agora aguenta.

Respirando fundo, saí do banheiro e dei de cara com Magdalene Perez parada de braços cruzados. Ela estava claramente à minha espera, procurando o momento certo para me pegar com a guarda baixa. Hesitei; depois me recuperei e fui na direção da pia para lavar as mãos.

Ela se virou para o espelho, observando-me. Eu também a observei. Era ainda mais bonita pessoalmente do que nas fotos. Alta e magra, com grandes olhos escuros e cabelos castanhos lisos. Seus lábios eram carnudos e vermelhos, e os ossos de sua face eram pronunciados e harmônicos. Seu vestido era sexy e modesto, uma leve camada de cetim cor de creme que contrastava lindamente com sua pele morena. Ela parecia uma supermodelo e exalava sex appeal por todos os poros.

A funcionária do banheiro me entregou a toalha de mão, e Magdalene falou com ela em espanhol, pedindo para nos deixar sozinhas. Reforcei o pedido: “Por favor, gracias”. Magdalene arqueou as sobrancelhas e me olhou mais atentamente, um olhar que retribuí com igual frieza.

“Ah, não”, ela murmurou assim que a funcionária se afastou. Fez também um estalo com a língua, um barulho que me irritava tanto quanto o som de unhas numa lousa. “Você já deu pra ele.”

“E você não.”

Isso pareceu surpreendê-la. “É verdade, eu não. Sabe por quê?”

Tirei uma nota de cinco da bolsa e depositei na bandeja de gorjetas. “Porque ele não quer.”

“E eu também não quero, porque ele não consegue assumir um compromisso. Ele é jovem, bonito, rico e está aproveitando a vida.”

“Ah, sim.” Concordei. “Com toda a certeza.”

Ela estreitou os olhos, e a expressão de contentamento sumiu do seu rosto. “Ele não respeita as mulheres que come. Depois que enfia o pau em você, acabou a conversa. É assim com todas. Mas eu ainda estou aqui, porque é a mim que ele quer no futuro.”

Mantive a frieza, apesar de ter acusado o golpe, que me acertou justamente onde mais me doía. “Isso é patético.”

Saí pisando duro e só parei ao chegar à limusine de Stanton. Apertei a mão de Michael ao entrar, e consegui esperar o carro virar a esquina para começar a chorar.

“Oi, gata”, cumprimentou Michael quando saí do quarto na manhã seguinte. Vestido apenas com uma calça velha, ele estava deitado no sofá com os pés cruzados em cima da mesa de centro. Estava lindo, todo largado, despreocupado com a própria aparência e confortável. “Dormiu bem?”

Fiz sinal de positivo com o dedo e fui pegar um café na cozinha. Parei no meio do caminho, com uma expressão de surpresa diante do enorme buquê de rosas vermelhas no balcão. O aroma era divino, e respirei bem fundo para senti-lo. “O que é isso?”

“Chegou faz mais ou menos uma hora. Entrega dominical. Uma beleza, mas não sai nada barato.”

Desgrudei o cartão do papel celofane e o abri.

AINDA ESTOU PENSANDO EM VOCÊ.

RUGGERO

“Foi Pasquarelli que mandou?”, Michael perguntou.

“Foi.” Passei o dedão por cima do que imaginei ser sua caligrafia. Era sexy e masculina. Um gesto romântico de um cara que não tinha o romance em seu repertório. Larguei o cartão no balcão como se estivesse queimando meus dedos e enchi uma caneca de café, rezando para que a cafeína me desse forças e restaurasse meu bom senso.

“Pelo jeito você não gostou muito.” Ele baixou o volume do jogo de beisebol a que estava assistindo.

“Ele não faz bem pra mim. É um gatilho pra coisas não muito agradáveis. Preciso ficar longe dele.” Michael havia feito terapia comigo, então sabia do que eu estava falando.

Não estranhou quando apelei para o jargão da psicanálise e não se furtou a responder na mesma moeda.

“O telefone ficou tocando a manhã toda. Eu não queria causar nenhuma perturbação, por isso deixei no silencioso.”

Sentindo um formigamento entre as pernas, eu me aninhei no sofá e lutei contra a vontade de ver se Ruggero havia deixado alguma mensagem. Queria ouvir a voz dele, e alguma explicação para o que tinha acontecido na noite anterior. “Boa ideia. Pode deixar assim mesmo o resto do dia.”

“O que aconteceu?”

Soprei a fumaça do meu café e tentei dar um gole. “Fiz com que ele perdesse a cabeça na limusine e depois disso ele se fechou como uma porta.”

Michael me olhava com seus olhos castanhos e expressivos, que já haviam visto muito mais do que deveriam. “Você abalou as estruturas dele, então?”

“Pois é.” Fiquei irritada só de pensar. A gente tinha se dado bem. Eu tinha certeza. Eu o queria mais do que tudo na noite anterior, e agora nunca mais queria vê-lo. “Foi intenso. O melhor sexo da minha vida, e ele estava totalmente na minha. Dava pra ver. Era a primeira vez dele num carro, e ele pareceu meio reticente no começo, mas depois ficou com tanto tesão que não conseguiu mais resistir.”

“Sério mesmo?” Ele passou a mão na barba por fazer. “A maioria dos caras risca isso da lista antes de entrar na faculdade. Na verdade, não conheço ninguém que nunca tenho feito isso, a não ser os nerds e os feiosos, e ele não é uma coisa nem outra.”

Dei de ombros. “Acho que ele me considera uma piranha depois dessa.”

Michael ficou imóvel. “Foi isso que ele disse?”

“Não. Ele não disse porra nenhuma. Quem falou isso foi a ‘amiguinha’ dele, Magdalene. Aquela morena das fotos da internet, lembra? Ela decidiu pôr as asinhas de fora e foi atrás de mim no banheiro.”

“A vaca está com ciúmes.”

“Puro recalque. Ela não consegue dar pra ele, porque ao que parece ele descarta todas as mulheres com quem trepa.”

“Ele disse isso?” Mais uma vez, a pergunta saiu carregada de raiva.

“Não com essas palavras. Só disse que não dormia com as amigas dele. Ele não consegue suportar a ideia de que as mulheres queiram outras coisas além de ir pra cama, então faz uma separação entre as mulheres com quem trepa e as mulheres com quem conversa.” Dei mais um gole no café. “Avisei que comigo isso não ia funcionar, e ele disse que daria um jeito, mas acho que era só uma forma de conseguir o que queria.”

“Ou então você assustou o sujeito.”

Olhei fixamente para ele. “Nem tente arrumar desculpas pro cara. De que lado você está, afinal?”

“Do seu, gata.” Ele se inclinou e deu um tapinha no meu joelho. “Sempre do seu.”

Agarrei seu antebraço musculoso a deslizei suavemente os dedos por ele em sinal de gratidão. Não consegui sentir as inúmeras cicatrizes de cortes que ele tinha nos pulsos, mas nunca esqueci onde ficavam. Eu agradecia todos os dias por ele estar vivo, com saúde e ser tão importante para mim. “Como é que foi sua noite?”

“Não posso reclamar.” Seus olhos ganharam um brilho de malícia. “Peguei aquela loira peituda na salinha da limpeza. Os peitos dela eram de verdade.”

“Olha só.” Eu sorri. “Ela teve uma noite inesquecível, pode ter certeza.”

“Pelo menos eu tentei.” Ele pegou o telefone e piscou para mim. “O que você quer comer? Sanduíche? Comida chinesa? Indiana?”

“Não estou com fome.”

“Você está sempre com fome. Se não escolher nada, vou cozinhar e você vai ter que comer o que estiver na panela.”

Levantei as mãos em sinal de rendição. “Tudo bem, tudo bem. Você escolhe.”

Cheguei ao trabalho vinte minutos adiantada na segunda, em uma tentativa deescapar de Ruggero. Consegui ir até minha mesa sem nenhum incidente e me senti tão aliviada que percebi que ele era um assunto muito mais sério para mim do que poderia imaginar. Meu humor era instável e flutuante.

Gaston chegou todo animado, ainda motivado pelo sucesso da semana anterior, e partimos logo para o trabalho. Eu tinha feito uma pesquisa sobre marcas de vodca no  domingo, e ele foi gentil o bastante para repassá-la comigo e ouvir o que eu achava. Gaston também era responsável pela conta de um novo fabricante de leitores eletrônicos, então demos o pontapé inicial nessa campanha também.

Com uma manhã tão ocupada, o tempo passou voando, e eu não tive tempo de pensar na minha vida pessoal. Fiquei muito feliz por isso. Mas então o telefone tocou, e ouvi a voz de Ruggero do outro lado da linha. Não estava preparada para isso.

“Como está a sua segunda?”, ele perguntou, e sua voz me deixou toda arrepiada.

“Ocupadíssima.” Olhei para o relógio e me assustei ao constatar que faltavam só vinte minutos para o meio-dia.

“Ótimo.” Ele fez uma pausa. “Tentei ligar pra você ontem. Deixei umas mensagens. Queria ouvir sua voz.”

Fechei os olhos e respirei fundo. Precisei recorrer a toda a força de vontade que tinha para resistir à tentação de ouvir as mensagens dele. Até Michael se envolveu na causa — eu disse a ele para me segurar caso a tentação falasse mais alto. “Queria ficar sozinha, e aproveitei para trabalhar um pouco.”

“Recebeu as flores que mandei?”

“Sim, são lindas. Obrigada.”

“Elas me lembraram do seu vestido.”

O que ele estava fazendo? Eu estava começando a pensar que ele sofria de algum distúrbio de múltiplas personalidades. “Algumas mulheres diriam que você está sendo romântico.”

“Só me importa o que você diz.” A cadeira rangeu quando ele se levantou. “Pensei em passar na sua casa... Senti vontade.”  

Suspirei, já desistindo de tentar entender. “Ainda bem que você não fez isso.”

Ele fez outra longa pausa. “Eu mereci essa.”

“Não falei isso pra castigar você. É a verdade.”

“Eu sei. Olha... Eu providenciei um almoço aqui no escritório, pra gente não perder tempo com deslocamentos.”

Depois que nos despedimos no evento, fiquei pensando se ele queria mesmo me encontrar depois de se recuperar de sabe-se lá que processo desencadeado pela nossa relação. Era uma possibilidade que eu vinha remoendo desde sábado à noite, ciente de que precisava afastá-lo de mim, mas ao mesmo tempo torturada pelo desejo de estar com ele.

Queria sentir de novo aquele momento puro e perfeito de intimidade que compartilhamos. Mas aquele único momento não justificava todos os outros em que ele fez com que eu me sentisse um lixo.

“Ruggero, não temos por que almoçar juntos. Acabamos confundindo as coisas na sexta à noite e... bom, o assunto foi resolvido no sábado. É melhor deixar tudo como está.”

“Karol.” Ele baixou o tom de voz. “Eu sei que estraguei tudo. Me deixe explicar.”

“Não precisa. Está tudo bem.”

“Não está, não. Preciso ver você.”

“Eu não quero...”

“Podemos fazer isso do jeito mais fácil, Karol, ou então dificultar as coisas.” Sua voz endureceu e meu coração disparou. “De qualquer forma, você vai me ouvir.”

Fechei os olhos e aceitei o fato de que não ia me livrar tão facilmente, com uma simples conversa ao telefone. “Tudo bem. Eu subo aí.”

“Obrigado.” Ele soltou um suspiro bem audível. “Mal posso esperar pra ver você.”

Pus o telefone no gancho e fiquei olhando para as fotos na minha mesa, tentando elaborar o que precisava dizer e me preparando para o impacto de rever Ruggero. A ferocidade da minha reação física à presença dele era impossível de controlar. De alguma forma, eu precisava acabar logo com aquilo e seguir em frente. Mais tarde eu pensaria em como lidar com o fato de ter que cruzar com ele no prédio ao longo dos dias, meses e anos seguintes. Por ora, eu só precisava pensar em como sobreviver à hora do almoço.

Optando por ceder ao inevitável, voltei para o trabalho comparando o impacto visual de algumas amostras de folhetos a serem encartados em jornais e revistas.

“Karol.”

Dei um pulo na cadeira ao perceber que Ruggero estava na minha baia. Fiquei desconcertada ao vê-lo, como sempre, e meu coração quase explodiu dentro do peito. Uma olhada rápida no relógio revelou que quinze minutos haviam se passado num piscar de olhos.

“Rugg... Senhor Pasquarelli. Não precisava ter descido até aqui.”

Seu rosto parecia calmo e impassível, mas seus olhos fervilhavam. “Está pronta?”

Abri a gaveta e peguei minha bolsa, aproveitando a oportunidade para respirar bem fundo. O cheiro dele era fenomenal.

“Senhor Pasquarelli.” Era a voz de Gaston. “Que bom vê-lo aqui. Posso ser útil em...?”

“Estou aqui por causa de Karol. Vamos almoçar juntos.”

Fiquei de pé a tempo de ver a expressão de surpresa no rosto de Gaston. Ele logo se recompôs, e seu rosto retomou a beleza e a simpatia que lhe eram naturais.

“Volto à uma hora”, garanti.

“Até lá, então. Bom almoço.”

Ruggero pôs a mão na parte inferior das minhas costas e me guiou até os elevadores, fazendo com que Malena erguesse as sobrancelhas de espanto quando passamos pela recepção. Continuei inquieta enquanto esperávamos o elevador, desejando que fosse possível passar um dia sem ver aquele homem cujo toque despertava meu desejo como uma droga.

Ele se virou para mim enquanto o elevador não chegava e percorreu com os dedos as mangas da minha blusa de cetim. “Toda vez que fecho os olhos, vejo você com aquele vestido vermelho. Escuto seus gemidos de tesão. Sinto você descendo pelo meu pau, apertadinha, me fazendo ficar tão duro que chega até a doer.”

“Pare com isso.” Virei o rosto para o outro lado, incapaz de suportar o olhar de intimidade que ele lançava em minha direção.

“Não consigo evitar.”

A chegada do elevador foi um alívio. Ele me pegou pela mão quando entramos. Depois de pôr a chave no painel, ele me puxou mais para perto. “Eu vou te beijar, Karol.”

“Eu não...”

Ele calou a minha boca com a dele. Resisti o quanto pude, mas no fim acabei me desmanchando ao sentir sua língua acariciando lentamente a minha. Eu queria esse beijo desde o momento em que transamos. Precisava de uma garantia de que ele dava valor ao que tínhamos vivenciado, que aquilo significava para ele o mesmo que para mim.

A sensação de abandono voltou quando ele se afastou.

“Vamos lá.” Ruggero tirou a chave do painel e a porta se abriu.

A recepcionista ruiva não disse nada dessa vez, apesar de ter me olhado de um jeito estranho. Já o secretário, Scott, levantou-se quando chegamos e me cumprimentou simpaticamente pelo nome.

“Boa tarde, senhorita Sevilla.”

“Oi, Scott.”

Ruggero se limitou a um leve aceno de cabeça. “Não passe nenhuma ligação.”

“É claro.”

Entrei no escritório luxuoso de Ruggero e já procurei com os olhos o sofá onde tinha acontecido nosso primeiro contato mais íntimo.

O almoço estava servido no bar — dois pratos cobertos com tampas de metal.

“Quer que eu guarde sua bolsa?”

Olhei para ele e percebi que havia tirado o paletó e que o mantinha pendurado no braço. Estava ali parado, com sua calça e seu colete feitos sob medida, uma camisa e uma gravata impecavelmente brancas, seus grossos cabelos negros ao redor do rosto de tirar o fôlego, seus olhos selvagem e deslumbrante. Em resumo, ele me fascinava. Eu não conseguia acreditar que tinha transado com um homem tão lindo.

Foi quando lembrei que aquilo não havia significado nada para ele.

“Karol?”

“Você é muito bonito, Ruggero.” As palavras saíram da minha boca sem que eu me desse conta.

Ele pareceu surpreso, e amenizou um pouco a intensidade de seu olhar. “Fico feliz que goste do que vê.”

Entreguei minha bolsa a ele e me afastei. Precisava manter distância. Ele pendurou o paletó e a bolsa no cabide e se dirigiu ao bar.

Cruzei os braços. “Vamos acabar logo com isso. Não quero mais sair com você.”



Notas Finais


Espero que tenham gostado ❤
O que acham de mais um capítulo hoje?


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