História Um Ano - Capítulo 2


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Fantasma, Horror, Lobisomem, Possessão, Slasher, Terror
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Palavras 2.651
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Mistério, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Canibalismo, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - Fevereiro


A fila que virava a esquina das ruas de Salvador continuava a aumentar. Centenas de pessoas para entrar no bloco de Carnaval “Ao Amanhecer” nesta terça-feira de Carnaval. O Bloco não tem esse nome por acaso: é conhecido por começar tarde e somente terminar de 10 da manhã. É um bloco diferente de todos: localizado a beira mar da praia de Salvador, tudo para as pessoas terem a melhor experiência do nascer do sol possível. Esse tipo de coisa não é muito comum em blocos de carnaval.

No início da fila, aproximadamente no 10º lugar, estavam Ricardo e Lídia. Casal de namorados apaixonados e românticos dignos de qualquer filme de romance clichê. E esse casal seria o típico casal baiano que ama carnaval. Não perderam nenhum dia de festejo esse ano.

A diferença é que, dessa vez, uma faixa branca envolvia o braço de Ricardo. Um rapaz bonito, alto, malhado, digno de qualquer capa de revista. E o arranhão que ele havia enfaixado não havia sarado ainda, mesmo que ele tenha adquirido ele no domingo de carnaval.

- Ai! – exclamou Ricardo, sentindo uma leve queimação na região do arranhão enfaixado do seu braço.

- Ainda está ardendo? – perguntou Lídia, alisando o antebraço de seu namorado. – Eu disse que poderíamos deixar de vir nesse bloco. Seu braço está piorando mais a cada dia. Você tem que ficar de repouso.

- Que nada! – falou Ricardo, disfarçando. – É um arranhão de cachorro. Nunca vi ninguém ter que ficar de repouso por isso.

- Você sabe se foi um arranhão de cachorro? – pergunta Lídia, encarando o namorado de baixo para cima. – Estávamos os dois muito bêbados naquele bloco. Você não tem certeza.

- Amor. – fala Ricardo, segurando o rosto leve e doce de sua amada. – É só um arranhão. Não é nada. Eu prometo que estou bem. Vamos aproveitar muito esse bloco hoje. Arranhão nenhum vai ficar no caminho. Tá bem?

Lídia olha para o rosto lindo de seu namorado, e vê o quanto tem sorte de ter um homem desses em sua vida. Nunca pedira por nada além disso. Ele é o homem de sua vida. Consegue enxergar seus filhos com ele brincando pela sala, suas noites de amor inexplicáveis, tudo que um perfeito filme de romance pode proporcionar.

- Ok. Eu te amo. – falou Lídia, dando um beijo no amor de sua vida.

A fila anda. Dentre aqueles sapatos andando freneticamente para beber, dançar e pular naquele open bar do carnaval de Salvador, estavam o do casal apaixonado. Das portas o casal passou, e adentro eles festejaram.

A melhor época do ano. Ao menos, é o que muitos brasileiros acham. Carnaval é feito para entrar na esbórnia e pecar pelo resto do ano inteiro. E em Salvador é onde muitos julgam localizar-se o melhor do país. Carnaval faz muitos esquecerem dos problemas, deixar para lá, para simplesmente entrar num festejo sem nenhum motivo aparente. E não é diferente do casal apaixonado.

Rapidamente Ricardo e Lídia esquecerem desse arranhão adquirido no bloco do domingo, e entregaram-se à festa. A sensação de estar no meio daquela gente era algo inexplicável. O arranhão para de arder, e Ricardo entrega-se ao álcool. O álcool que sempre fora seu amigo, estava ali para acabar com a ardência de seu arranhão no braço.

A noite passou despercebida. A festa, a sensação dos corpos colados uns aos outros deixando que sua alma entrasse na onda, entrasse na música, e seu corpo fosse feito somente daquilo. Daquela festa. Daquela bebida. Daquela amada.

Mesmo estando bêbado, Ricardo conseguia apreciar o amor de sua vida como nunca. Era algo real. Algo inexplicável. Apenas sentia o amor florescer em sua pele. Era uma ardência maior do que a de qualquer arranhão.

Lídia não bebeu nesta noite. O trauma de domingo ainda estava presente em sua mente. Mas se divertiu como nunca na sua vida. Aquilo a alegrava como nada antes, e estando ao lado de Ricardo, ela se sentia em casa.

Os beijos, as línguas entrelaçadas, tudo entrava em sintonia nesse carnaval. A noite estava perfeita.

Mas precisavam de um momento a sós. A sintonia entre os dois era tanta que até eles mesmos tinham a hora de seu descanso: a sua hora era ali, naquela meia-noite, para recarregar as energias na parte próxima à beira-mar, onde poderiam sentir a brisa entrando por suas peles enquanto se sentavam no chão e se beijavam como se fosse o último dia que fossem ficar vivos.

- Eu te amo. – disse Lídia. A luz do luar iluminava seu rosto branco, denotando seus traços finos e delicados como uma pétala. Ela é linda. E isso não passava de se pensar na cabeça de Ricardo.

- Eu te amo mais. – fala Ricardo, abrindo um sorriso, e olhando para a fonte da luz que ilumina o rosto de sua namorada: a lua cheia.

O fato de olhar para aquela lua pouco depois da meia-noite, de alguma forma inexplicável, reavivou a ardência do arranhão de Ricardo. Ele ardia como nunca. Parecia uma chapa quente. Ricardo urrava de dor. Um urro que ele jamais havia feito antes. Um urro enorme, digno de um leão.

- Amor! – gritou Lídia, desesperada ao ouvir o urro que estourara seus tímpanos. – O que houve?

- Ai! – gritava Ricardo, chamando a atenção das pessoas próximas a ele. O urro ainda continuava a sair de sua boca. – É... O... Arranhão!

Ricardo puxou o esparadrapo que havia cuidadosamente colocado em seu braço, revelando o arranhão escancarado o máximo possível, reavivando o sangue que estava ali, escorrendo pelo seu braço até pingar no chão.

- Amor, precisamos ir a um médico! – gritou Lídia, levantando-se do chão e dando a mão para Ricardo conseguir levantar-se.

Ao sentir a mão de seu namorado segurar a sua, Lídia sentiu uma dor tremenda. Era como se ele estivesse enfiando facas em seus pulsos. Não aguentou. Soltou a mão de Ricardo, e conseguiu visualizar um arranhão semelhante ao que seu namorado tem no braço, mas em seu pulso.

- AI! – gritou Lídia, olhando o pequeno arranhão em seu pulso. – Ricardo, o que houve?

Lídia olha as mãos de Ricardo. Parecem garras. Garras de um animal selvagem. Unhas afiadas como agulhas. Os pelos da mão de seu namorado pareciam crescer em uma velocidade imensa. Pelos negros iam crescendo gradativamente na mão e no braço de Ricardo, assim como seus músculos. Os membros de Ricardo iam ficando mais longos. Ele não parava de urrar de dor no chão.

As pessoas ao redor corriam apavoradas. Não conseguiam distinguir bem o que acontecia, mas era visível que algo estava errado.

Lídia estava paralisada. Seus únicos movimentos foram uns poucos passos curtos para trás, enquanto via as roupas de seu namorado se rasgarem por conta do crescimento rápido de seu corpo. Os pelos estavam por toda parte. Os olhos de seu namorado estavam ficando completamente negros. A boca ia se estendendo para frente, como se o crânio estivesse expandindo. Era como um... Um...

- Lobo. – Exclamou Lídia, pensando alto e ainda paralisada olhando a transformação gradativa de seu namorado.

Conseguiu ver o homem lindo e charmoso por quem se apaixonara transformar-se nesse monstro horrendo. Olhou para os olhos negros dele enquanto ouvia as pessoas da festa correndo para fora, desesperadas gritando sobre um lobisomem na área beira-mar do local do bloco. Lídia tentava enxergar Ricardo por trás daquela criatura. E, o pior, é que conseguia. Conseguia enxerga-lo. Conseguia ver por trás daquela face horrenda de um lobisomem o homem que sempre amou.

A criatura estava parada, em pé, como focinho apontado para baixo, dando pequenos uivos de dor, enquanto o bloco ia se esvaziando quase que por completo. Lídia não saiu de onde estava. Mantinha os olhos vidrados. Sabia que Ricardo estava lá. Sabia exatamente que era ele. E queria contata-lo. Queria tê-lo de volta. Por isso, em baixinho, de forma inofensiva, falou:

- Ricardo?

A criatura levantou sua cabeça horrenda, e olhou com os olhos diretamente apontados para os olhos daquela que, em algum momento, já foi uma pessoa que amou. Os olhos negros profundos da criatura fizeram com que Lídia parasse de enxergar o homem que ela já amou. E enxergasse o monstro. A fera que está ali não é Ricardo. É alguém que já fora Ricardo, mas agora é essa criatura horrenda. Uma coisa grotesca e horrível que Lídia jamais pensaria que poderia ser Ricardo caso não tivesse o visto transformar-se. Aquilo apavorou-a. Mas não tanto quanto o que estava por vir.

O focinho da criatura apontou para cima. E um uivo estrondoso se fez. Um uivo de lobo que fez com que Lídia tapasse seus ouvidos e corresse para longe. Teria que se salvar. Teria que sair dali.

Os passos apressados dela iam parando aos poucos à medida que ela ia ficando entalada na multidão de pessoas que queria sair pela pequena porta de entrada. Não conseguia passar. Era muita gente. E, então, algo fez com que ela mudasse de ideia com relação a querer fugir:

Uma mulher, aproximadamente de sua idade, estava pressionada contra uma das barras de ferro que delimitavam o local de saída do bloco. As pessoas a empurravam. Ela estava sendo pressionada, presa, sem conseguir sair. Estava desesperada, tentando se soltar a qualquer custo. Foi quando Lídia visualizou um líquido grosso saindo por sua boca. Um líquido vermelho, de capacidade destrutiva jamais compreendida: sangue. A moça, que Lídia jamais conhecera ou viria a conhecer, estava cuspindo sangue por decorrência da pressão de todas aquelas pessoas em seu corpo contra a barra de ferro. Lídia não conseguia mais ver aquilo. Era uma tortura visual para ela. Por isso correu.

Correu para um lugar escondido. Algum lugar onde jamais aquilo que já fora seu namorado pudesse encontrá-la. E achou a entrada para o palco. Em meio a todas as pessoas correndo para o lado oposto, Lídia conseguiu se esgueirar pelo palco e subi-lo, indo até seu topo vazio. Afinal, a atração que estava a tocar também decidira por fugir.

Tudo era um borrão escuro. As cortinas por detrás do palco eram pretas que cegavam Lídia em meio àquela confusão mental. Talvez tivesse passado por algum lugar melhor para esconder-se, mas naquele momento não pensou nisso. Abriu a primeira porta que lhe apareceu afrente.

Tropeçou em algo. Talvez o piso estivesse desregular, talvez fosse somente tropeçar em seu próprio sapato, mas o fato é que a primeira coisa que sentiu ao entrar naquele cômodo foi uma dor imensa de seu nariz ter dado de cara no chão. O sangue escorria de seus orifícios nasais de forma rápida. Mas Lídia não tinha tempo para pensar nisso. Ainda pensava em se esconder. A dor excruciante era ofuscada por seu instinto de sobrevivência.

Mas o quarto que havia acabado de entrar parecia uma alucinação de como se ela estivesse alcoolizada. Tudo era multiplicado, as coisas pareciam estar andando em câmera lenta. Sua cabeça não parava de girar.

Sim, seu instinto de sobrevivência sobressaia a dor física que sentia. Mas seu corpo não estava acostumado com aquela dor. Aquilo a entonteceu. Estava alucinando de tanta dor em seu rosto. Tudo, de fato, era um borrão.

Tentou levantar-se, mas não conseguia. Era como se a gravidade estivesse duas vezes mais forte, puxando-a para baixo por mais que tentasse se soltar. Não conseguiu de forma alguma se manter acordada. Se sentia fraca.

Não sentiu mais nada após aquilo.

Apenas flutuou na mais alta nuvem, correu pela galáxia mais distante, explorou mundos que nunca pensou explorar. Não sentia nada. Apenas se sentia leve.

Mas a leveza ficou pesada, tão pesada que Lídia chegou a conseguir sentir as almofadas do que pareceu ser um sofá logo após. Se sentiu pesada como nunca. E então, esse peso se elevou, quando conseguiu visualizar um rosto à sua frente. Um rosto que reconheceria mesmo se estivesse à beira da morte. Era Ricardo. Olhando para ela. Seus olhos estavam avermelhados, como se ele estivesse acabado de chorar. Tinha barba, algo estranho, já que ela havia visto ele se barbear na outra manhã. Estava com olheiras, e uma expressão cansada. Haviam arranhões profundos e avermelhados em suas bochechas e em sua testa.

- Amor? Amor! – exclamou Lídia, abraçando o homem que ela ama. – Eu sabia que era um pesadelo...

Um pequeno espaço de tempo se fez, quando Ricardo empurrou lentamente Lídia, para que ela olhasse bem fundo em seus olhos avermelhados.

- Não foi. – exclamou ele.

Lídia ficou em choque. Não sabia o que fazer ou falar.

- O... O que? – foi a única coisa que ela conseguiu falar.

- Não foi, Lídia. – exclamo Ricardo, calmamente. – Foi tudo real. O lobisomem. O bloco de carnaval. Tudo.

- Mas... Mas...

- Eu acordei quando o sol raiou. – falou ele, ainda calmo, ajoelhado no chão enquanto Lídia sentava-se no sofá de couro que previamente estava deitada. – Estava pelado. Achei esse roupão aqui. Estamos no camarim. Eu acordei no palco. Sorte a minha, provavelmente não revistaram lá. Eu não sei como aquele lobisomem que me tornei não derrubou nenhum dos instrumentos que estavam no palco, mas o fato é que não me encontraram. Nem a você. E quem te encontrou fui eu. Aqui, na entrada do camarim, deitada, com o nariz sangrando. Coloquei um lenço para estancar, achei um kit de primeiros socorros, e te ajudei. Coloquei nesse sofá. E agora você acordou. Mas precisamos sair daqui. Agora.

- Espera... – Lídia ainda está um pouco grogue. – Mas... Aquilo... Aquele... – Lídia excitou ao dizer a próxima palavra. Parecia algo tão surreal e sem sentido que ela acreditou que iria soar estúpida se dissesse - Lobisomem... Como...

- Eu cheguei à conclusão... – respondeu Ricardo, rapidamente. – Que, digamos que aquele arranhão que eu apareci depois do bloco de domingo não tenha sido de um cachorro.

Lídia sente uma ardência em seu pulso. E percebe que ele está enfaixado. Com esparadrapo e um pouco de algodão. Depois de olhar para seu pulso, Lídia levantou os olhos para seu namorado, agora pálido.

- É. – falou ele, frio. – Aconteceu isso, também.

- Isso quer dizer que... – Lídia tinha medo de estar certa quanto ao que ela pensava.

- Acredito que sim. – disse Ricardo. – Sim, Lídia. É triste, eu não queria dizer isso, mas acho que você também.

Lídia não queria acreditar. Não poderia acreditar naquilo. Tinha que ser um pesadelo. Tinha que ser o pior pesadelo de sua vida. Não poderia estar acontecendo isso. Tem planos para sua vida, tem coisas que quer fazer. Não pode acontecer isso.

- Por isso temos que fugir. – falou Ricardo, olhando bem fundo nos olhos de sua amada. – É só uma questão de tempo até a polícia coletar depoimentos. E eles vão perceber que não revistaram a área do palco. Temos que ir embora, Lídia. Sair de Salvador, ir para longe, onde ninguém vai nos encontrar. Sem olhar para trás.

Lídia ainda estava absorvendo a ideia de que, de agora em diante, em noites de lua cheia, ela se transformaria em uma criatura horrenda comedora de carne humana. Mas Lídia sempre se orgulhou por ser racional. Isso poderia esperar. O que tinha que fazer é ir embora, exatamente como Ricardo falou. Fugir. A crise existencial é algo que pode ser deixado para depois. Por isso, foi curta e grossa ao dizer:

- Vamos.

E, assim, voltaram normalmente para casa, que não era longe do local do bloco. Pegaram suas roupas, e coisas extremamente existenciais. Num carro empacotaram tudo. E botaram o pé na estrada.

O arranhão no pulso de Lídia ardia como nunca. E ela sabia que, em noites de lua cheia, ele iria arder mais do que qualquer ser humano normal pode perceber. E isso a apavorava. Mas sabia que estava a salvo. Desde que estivesse com o homem de sua vida, ela sabia que estava bem.

Ricardo e Lídia jamais olharam para trás. Apenas foram embora, na direção norte, para onde, nem eles mesmos sabiam. Apenas iam. Corriam, esperando um futuro tenebroso que ninguém no planeta jamais poderia prever.


Notas Finais


Obrigado por ler! Comente suas impressões! Próximo capítulo sem previsão...


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