História Uma dose violenta de qualquer coisa - Capítulo 32


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Adolescente, Amizade, Assassinato, Colegial, Drama, Lgbt, Romance, Tragedia
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Palavras 2.177
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 32 - Por que não me beija agora?


48 dias antes.

-Essas provas estão acabando comigo, não vejo a hora de nos formarmos logo e nunca mais termos que resolver uma questão de física! – Rafa reclamou enquanto olhava as apostilas na escrivaninha de Marina. Enquanto a garota folheava distraidamente as questões, Luana checava o celular e Marina estava distraída com a janela ou algo que estava do lado de fora, Eli sentava no chão e fingia não estar prestando atenção em nada mas olhava discretamente Marina.

-Concordo – Luana jogou o celular na cama e suspirou passando as mãos pelos cabelos loiros rebeldes –Todo mundo sabe que o último ano não é fácil mas não achei que ia querer tanto que acabasse logo... As matérias, as pessoas, é tudo um grande monte de merda...

Rafa abafou um risinho, Luana parecia verdadeiramente chateada. Marina desviou o olhar da janela e focou sua atenção na discussão das duas amigas. Ela afirmou:

-Vamos sentir saudade quando tudo acabar.

-Ah, claro – Luana riu ironicamente –Vou morrer de saudade dos nossos colegas filhos da puta e dos professores mau humorados...

-É sério – Marina sorriu apesar do ar reclamão que a outra loira tinha –Aposto tudo que ano que vem você vai estar morrendo de saudades da nossa cidadezinha quando estivermos em São Paulo!

-Tudo é muita coisa para apostar, Marina – rebateu Luana –Tem certeza que quer apostar tudo isso?

-Ora, você sabe do que eu estou falando...

-Ei – Eli chamou a atenção das três amigas, ele tinha um sorriso travesso no rosto e parecia verdadeiramente animado com algo, a mudança fora tão súbita que as meninas estranharam –Tive uma ideia!

As garotas se aproximaram curiosas, os olhos fixos nele e prestando atenção em cada palavra que saía de sua boca.

-Estamos todos estressados e tal, então acho que não há nada melhor do que irmos relaxar um pouco. De preferência em um lugar afastado e calmo, longe de todo esse pessoal.

-E você tem algo em mente? – Luana perguntou indiferente mas Rafa conseguia ver a excitação contida nos olhos dela, se tinha alguém que adorava fugir para um lugar isolado era a loira.

-Sim, tem o sítio da minha família – o garoto continuou, dessa vez olhando para Marina –Você disse que queria dar um tempo de todas as coisas horríveis que estavam acontecendo, essa é sua chance, vamos lá!

Marina sentiu seu rosto corar. Rafaela e Luana encaravam os dois sem saber do que estavam falando mas não pareciam ver malícia na fala dele, elas estavam apenas curiosas. Por outro lado, a loira sabia que Eli estava certo, ficar um fim de semana longe da cidade era exatamente o que eles precisavam. Todos eles.

-Quer saber? Por mim podemos ir agora mesmo – Marina respondeu com um sorriso que Eli devolveu timidamente.

-E vocês? O que dizem? – o garoto voltou sua atenção para as outras duas.

-Vocês sabem o quanto eu adoro essas coisas, é óbvio que estou dentro... – os três logo se voltaram para Rafaela, a garota hesitava – E você, Rafa?

-Eu não sei... Luciana nunca ia me deixar ir – ela respondeu.

-É só falar que vai dormir na minha casa ou na de Luana – Marina tentou ajudar –Vai ser divertido, vamos só relaxar, nada demais.

-Não acho que seja uma boa ideia mentir para ela, ainda mais do jeito que estão as coisas entre a gente nos últimos tempos... – Rafa continuava em dúvida.

Luana se levantou da cama e caminhou até onde a amiga estava. Tocou levemente no ombro dela enquanto falava fazendo a garota ter a sensação de que seu braço formigava:

-Vamos encarar as coisas de outra perspectiva, certo? Você mente pra Luciana, vamos pro sítio, descarregamos todo o estresse que sentimos nas últimas semanas e você volta pra casa totalmente relaxada pronta pra fazer as pazes com sua mãe adotiva e esquecer toda essa história de adoção, abandono e mãe biológica. O que acha?

Talvez tenha sido a fala dela, talvez a sensação das mãos dela no seu ombro ou talvez a simples noção de que era Luana e Rafa queria estar onde ela estaria mas o fato é que a garota logo se viu balançando a cabeça levemente, concordando em ir com eles. Eli e Marina começaram a gritar em comemoração enquanto Luana dava um beijo no rosto da garota. Rafa sorriu e seu coração bateu mais forte por alguns momentos.

***

44 dias antes.

Eli olhava atentamente a beira da estrada procurando a entrada para o sítio. A noite já começara a cair havia algum tempo e os quatro amigos estavam exaustos. A viagem fora mais complicada do que o previsto, tiveram que trocar um pneu e quase ficaram sem gasolina na metade do caminho, mas no final tudo dera certo e estavam a menos de cinco minutos de um banho revigorante e uma cama quente.

-Sejam bem-vindas ao meu paraíso secreto, longe do mundo e de pessoas desagradáveis – Eli anunciou com um sorriso quando vislumbrou a entrada do terreno e a casa vitoriana que se erguia não muito a frente.

As três garotas encararam o lugar encantadas, paraíso era a descrição perfeita para aquele lugar. A casa tinha dois andares e lembrava aqueles chalés ingleses do século XIX, era tudo muito rústico mas ao mesmo tempo elegante. O caminho até a casa era indicado por árvores formando uma trilha e as folhas caíam no caminho fazendo parecer que choviam cores: roxo, amarelo, verde e azul se misturavam no ar e encontravam o chão ou o carro fazendo com que se sentissem como se estivessem vivendo em um filme de princesas da Disney. E, para completar, não havia muro algum ao redor do sítio. Mais árvores cercavam o lugar e pareciam tornar tudo impenetrável e um lago natural cercava os fundos do local.

-É lindo – Marina comentou, Rafa e Luana apenas balançaram a cabeça concordando.

-Eu sei – o garoto sorriu, elas perceberam o quanto ele amava tudo aquilo –Tem tanta beleza aqui que às vezes acho que eu vou passar mal se passar muito tempo olhando...

Rafa olhara para o amigo com a intenção de dar uma resposta mas percebera que ele olhava Marina cuja atenção ainda estava na casa à frente, a garota então fechou a boca e continuou calada pensando no que ele dissera.

“Tanta beleza que eu mal consigo suportar”, Rafaela pensou enquanto olhava discretamente para Luana. A loira sentiu o olhar da amiga nela e se virou sorrindo.

-Aposto que está feliz por ter decidido vir com a gente, não é?

Rafa desviou o olhar envergonhada mas logo começou a sorrir também.

-Sim – respondeu –Bastante.

***

Depois de entrarem na casa e arrumarem tudo, incluindo cada um escolher seu quarto e colocarem os alimentos na geladeira, os quatro se reuniram na sala de estar para aproveitar o restinho da noite. Escolheram um filme qualquer mas ninguém parecia prestar muita atenção, especialmente Rafa.

A garota logo percebeu que Marina estava levemente apoiada no ombro de Eli e o garoto fingia estar prestando atenção na televisão mas era possível perceber que, com o canto do olho, seus olhos estavam o tempo todo em Marina. A loira também parecia, vez ou outra, dar uma olhada discreta para o amigo.

“Esses dois...”, Rafa riu internamente. Olhou para o lado e viu Luana sentada na janela cutucando a tela de proteção distraidamente. “Queria saber por um momento o que se passa pela sua cabeça, você parece sempre tão longe o tempo todo”.

Depois de algum tempo, o filme acabou e Eli anunciou que ia dormir. Marina logo concordou e todos foram se dirigindo para os respectivos quartos. Quando os dois amigos sumiram do corredor, Rafa sentiu seu braço sendo puxado e virou-se para ver Luana sorrindo.

-Quer dar uma volta?

Rafa sorriu de volta enquanto respondia:

-Com certeza.

***

Marina olhava para o teto sem conseguir dormir, não compreendia o que estava sentindo. Havia algo na ideia de Eli estar dormindo no quarto ao lado que era inquietante demais. A loira estava mais do que acostumada com a presença dele por algumas horas mas a ideia de terem passado o dia juntos e saber que só iriam embora na noite do dia seguinte era muito para ela processar de uma vez só.

Tentava se lembrar se sentira algo assim com Guilherme no início do namoro mas fazia tempo demais, não conseguia lembrar com certeza. Existe algo de estranhamente perturbador em sentimentos novos, o medo de que acabem te destruindo ou que sejam coisas boas demais pra você, mas com Marina era diferente. Não era medo ou receio, pela primeira vez não queria esperar para que algo acontecesse, ela mesma queria fazer alguma coisa. Durante toda sua vida tivera tudo pronto pra ela: a faculdade dos sonhos, o namorado que todas queriam, a família perfeita que se amava mas agora havia algo totalmente inédito. Tinha um garoto imprevisível mas doce, promissor mas sem um futuro programado, carinhoso e indiferente na mesma intensidade e eram todas essas contradições que a faziam achar Eli alguém totalmente diferente e especial.

Seus pensamentos foram interrompidos com o barulho da porta abrindo devagar, preparava-se para fingir que estava dormindo quando, tomado por um impulso súbito, levantou a cabeça para ver quem estava ali a essa hora. Era ele.

-Me desculpa, te acordei? – o garoto perguntou no escuro.

-Não consigo dormir – ela respondeu.

-Também não – ele entrou no quarto e fechou a porta, a loira não fazia mais ideia de onde ele poderia estar.

-De repente, eu posso... – hesitou com medo de parecer ousada demais –Posso te ajudar a dormir, e você me ajuda também...

Ouviu passos se aproximarem devagar e um vulto próximo do pé da cama, sua vista começava a acostumar-se com a escuridão.

-E como fazemos isso? – ele parecia inseguro, sempre descobria sentimentos inéditos em Eli, coisas que ela pensava que nunca o veria sentindo.

-Você pode... Deitar do meu lado – ela falava baixinho, não sabia se ele estava pensando nela como uma puta ou algo do tipo porque não era essa sua intenção, só queria ficar o mais próximo dele possível.

Viu o vulto se aproximar mais e se afastou para dar espaço a ele. O garoto deitou ao seu lado e ficou olhando pra cima, ela estava deitada de lado tentando enxerga-lo. Ficaram em silêncio pelo que pareceram vários minutos mas ele logo se virou ficando com o rosto voltado para ela no escuro.

Marina pensava em qualquer coisa inteligente para dizer mas estava completamente congelada, nada passava pela sua cabeça, apenas a consciência de quem estava perto dela. Ela sentiu os braços dele na sua cintura e foi puxada para perto, enterrou seu rosto no pescoço dele e deu um leve suspiro de surpresa. Eli percebeu.

-Desculpa, eu não queria... Sabe? Você não precisa... – Marina riu e ele parou de falar, não havia nada mais doce do que um garoto sério e durão ficar sem graça enquanto tenta dizer algo agradável.

-Tudo bem, você só me pegou de surpresa – ela falou na esperança de que ele se sentisse melhor e foi o que aconteceu, Eli logo soltou uma risadinha nervosa.

Continuaram abraçados no escuro em silêncio e Marina nunca sentiu nada parecer tão certo e bom como aquilo, o coração dele batendo contra o seu e a percepção de que ele estava tão nervoso quanto ela, de que ele afinal não era tão desprovido de emoção quanto parecia ser.

A loira levantou a cabeça e beijou o queixo dele sem pensar. Ela sentiu os músculos dele se contraírem, talvez de nervosismo ou surpresa, e logo sentiu a cabeça dele se inclinando em direção a ela. Deixou que os lábios dele encontrassem os seus.

O que sentiu foi doce.

E mágico.

E continuou beijando-o a noite toda.

***

Rafa seguia Luana pelo caminho de terra, os seus chinelos começavam a pesar com o barro que estava ficando preso na sola e desejou que chegassem logo onde precisassem, estava começando a ficar muito difícil caminhar.

Suas preces pareceram ter sido atendidas pois a loira logo parou e apoiou-se em uma cerca de madeira. Luana ficou olhando para o céu, não falou nada nem deu uma explicação, apenas limitou-se a encarar as estrelas e a lua. Rafaela ficou de pé ao seu lado e a imitou.

-Eu adoro isso – Rafa encarou curiosa a amiga –Essa sensação de que somos as únicas pessoas que existem no mundo.

A garota sorriu, adoraria viver em um mundo em que apenas ela e Luana existissem. Imaginou que poderiam finalmente ficar juntas, sem ninguém que pudesse julgá-las, repreende-las ou dizer que estão erradas. Mas era tudo sua imaginação, nunca aconteceria e sabia disso.

-Seria um mundo melhor – ela respondeu.

Estranhamente, não houve mais conversas entre as duas naquela noite. Elas apenas encararam o céu sem dizer uma palavra até ele ficar laranja com a iminente chegada do sol e caminharam de volta para o sítio. Cada uma entrou no seu quarto quando chegaram lá e Rafaela se amaldiçoou mais uma vez pelas palavras que tinha medo de dizer.

“Você poderia ter me beijado naquela hora, eu teria deixado”, pensou enquanto afundava a cabeça no travesseiro.



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