História Uma dose violenta de qualquer coisa - Capítulo 34


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Adolescente, Amizade, Assassinato, Colegial, Drama, Lgbt, Romance, Tragedia
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Palavras 2.372
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 34 - Nenhuma de nós merece isso


33 dias antes.

Rafaela tinha uma sensação de desconfiança cada vez mais crescente com Luciana. A mãe adotiva vinha se ausentando bastante nos últimos tempos, até mais do que era normal para uma pediatra. Rafa suspeitava que isso tinha a ver com sua mãe biológica mas não podia afirmar com certeza então tudo que fazia era cruzar as pernas e roer os dedos. Até que recebeu uma ligação...

Pegou o celular na mesa de cabeceira e viu o nome da mãe adotiva aparecer no identificador de chamadas. Suspirou e atendeu.

-Alô? – a garota começou desanimada.

-Sei que não temos conversado muito ultimamente mas temos uma coisa pra resolver e você sabe o que é... – a médica disse sem rodeios, os barulhos do fundo sugeriam que ela estava em um lugar movimentado. Talvez o hospital ou algum outro lugar, de repente com alguma outra pessoa...

-Mãe, nós já conversamos sobre isso... – a garota tentou se defender, não tinha a mínima vontade de falar com a mãe biológica, por que esse seu desejo não era respeitado?

-Não é comigo que você tem que conversar – Luciana a interrompeu –Ela vai pra casa amanhã conversar com você. Se nunca mais quiser olhar para a cara dela, tudo bem, mas você tem que dar uma chance para ela se explicar.

Então o telefone foi desligado e Rafa ficou com dezenas de palavras presas na garganta.

***

Marina observava de longe enquanto seu pai conduzia a mãe para a saída do hospital. Ele sorria para os médicos e enfermeiras que estavam no caminho e paravam para cumprimenta-lo, a mãe tinha um olhar vazio apesar do sorriso que ostentava. A loira não conseguia parar de pensar que estava cedo demais, sua mãe não estava nem perto do que poderia ser considerado estável e a garota não queria nem parar para pensar no que poderia acontecer caso ela tivesse outro surto.

Mas se limitou a ficar calada olhando seus pais de longe, torcendo para que tudo desse certo.

Marina sentou no banco de trás e esperou enquanto a mãe se ajeitava desconfortavelmente no banco e o pai dava a partida no carro. O silêncio que se seguiu foi torturante, milhares de coisas não ditas estavam entre eles.

-Acho que deveríamos ir à praia, faz muito tempo que não vamos... – seu pai comentou com um sorriso no rosto mas isso não animou Marina. A última vez que tinham ido à praia sua mãe estava grávida, foi algumas semanas antes do aborto, onde todos os problemas começaram. Antes dela perder o emprego, de parar de sair de casa e depois parar de sair do quarto, antes da sua mente quebrar em um milhão de pedaços confusos... Não sabia se o pai pensara nisso mas teve a impressão que não. A garota, entretanto, percebeu a mãe estremecer levemente, provavelmente se lembrando.

-Talvez, eu não sei – ela respondeu virando o rosto para a janela, seu pai encarou-a com preocupação mas procurou manter o sorriso no rosto.

-Bom, não vamos fazer nada que você não queira – ele pegou a mão dela e apertou –Vamos relaxar um pouco e com o tempo decidimos o que pode ser feito...

Marina observou sua mãe concordar sem encarar o pai, apenas com um aceno de cabeça. A garota se sentia mal em ver o quanto o pai estava se esforçando, era tão doloroso. Era tão difícil amar tanto uma pessoa mas não poder fazer nada para diminuir o sofrimento dela. Se perguntassem à ela o que faria para ajudar a mãe ou qualquer uma das pessoas que amava a resposta seria óbvia: qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa.

E o silêncio continuou enquanto a loira procurava ao máximo bloquear seus pensamentos negativos sem conseguir se livrar da sensação de que ainda era muito cedo para a mãe ter saído do hospital.

***

Luana encarava o pai que mexia os pés nervosamente. Ela não viu nada de estranho quando ele a chamou na sala para conversar, às vezes ele gostava de fazer essas coisas mesmo, mas agora que via o nervosismo em que ele se encontrava começava a se perguntar o que havia de errado.

-Então? – a loira tentou encorajá-lo, seu pai passou as mãos pelos cabelos grisalhos e suspirou.

-Sua mãe vai vir aqui em alguns dias – a loira imediatamente sentiu o ar ser sugado da sala e o ambiente pareceu escurecer um pouco, Luana abriu a boca para responder mas o pai continuou –Sei que você não está feliz com isso mas ela vai embora, filha...

A loira ficou sem palavras. “Isso não pode ser real”, pensou, “ela já foi embora uma vez e agora vou ter que ver ela ir embora de novo?”. O pai a encarava com um misto de hesitação e preocupação.

-Ela quer ficar um dia ou dois aqui para se despedir. O marido dela recebeu uma boa proposta de emprego no exterior e ela não quer dividir a família...

-Mas ela não se importou em dividir a nossa, não é? Ou será que não éramos família para ela? – a garota rebateu furiosa, a raiva só não era maior do que a tristeza que sentia e estava tentando esconder. Já fora abandonada uma vez, não precisava passar pela mesma coisa de novo.

-Lu, sei o quanto isso é difícil pra você. Acredite, pra mim também é – seu pai a encarava com uma tristeza evidente nos olhos, isso só serviu para inflamar ainda mais os sentimentos da loira. Mais uma vez a mãe destruiria seus sentimentos e os do seu pai. Simplesmente não era justo.

Luana se levantou abruptamente e caminhou com passos pesados em direção à escada mas parou na base dela. Encarou o pai novamente e disse:

-Manda ela enfiar as despedidas no rabo dela.

E subiu para seu quarto.

***

32 dias antes.

Rafa estava sentada na sala enquanto Luciana andava de um lado para o outro furiosa. A mãe adotiva disse com um tom de voz que deixava transparecer toda a raiva contida:

-Eu disse que você tinha que conversar com ela, Rafaela! Que direito você acha que tem de ter feito ela de palhaça como fez hoje?

-Você disse que ela vinha aqui, eu não disse que ia sair do quarto... – a garota respondeu mas foi logo interrompida.

-Eu disse que ela vinha aqui pra conversar! Não tem como conversar com alguém que está trancado no quarto! Por que está agindo feito uma criança? Não era isso que você queria até um tempo atrás? Não foi você que me perguntou se sua mãe biológica ainda pensava em você? Então arrumo uma oportunidade pra você conhece-la e, quem sabe, entender os motivos dela ter feito o que fez pra você jogar tudo no lixo?!

A garota afundou no sofá. Tinha vontade de dizer que já tinha desistido dessa ideia há muito tempo e Luciana sabia, mas não tinha coragem de responder para ela, a médica parecia irritada demais e Rafa não tinha nenhuma vontade de piorar o humor dela.

Luciana suspirou e se encostou na parede. Passou as mãos pelos cabelos antes de finalmente dizer:

-Tudo bem, você quer bancar a rebelde então assim vai ser. Mas não venha me pedir por respostas mais tarde, não vou mexer um dedo pra te ajudar... E você ainda vai se arrepender dessa infantilidade quando ficar mais velha.

Ambas ficaram em silêncio por um longo tempo. Luciana pareceu desistir de brigar e subiu para seu quarto, deixando Rafaela com a sensação de que realmente poderia estar sendo imatura e cometendo um erro ao agir assim.

“Eu não me importo, vivi quase 18 anos sem respostas. Não é agora que preciso delas”, refletiu enquanto ia em direção ao seu quarto.

***

Marina escutava o pai conversando baixinho com sua mãe no quarto, algumas palavras eram possíveis de serem entendidas. Ela escutava ele pedir para ela comer, ouvia ela se esforçando para fazer o que ele queria mas logo pedia pra que ele a deixasse em paz. A tristeza na voz dele era tão palpável que parecia machucar a garota.

Seus pensamentos foram interrompidos quando seu celular começou a tocar, viu o nome de Luana aparecer na tela e atendeu rapidamente.

-Preciso encontrar você – a loira mal esperou Marina atender e já foi despejando as palavras –Rafa também, a gente pode se encontrar no lago?

-Já estou indo – ela respondeu saindo depressa de casa, a vontade que tinha era de ficar o mais longe possível de tudo aquilo.

***

Rafa chegou ao lago e avistou o carro de Marina logo na entrada. Luana estava deitada no banco de trás com todas as portas abertas enquanto a outra loira caminhava na beira do lago. A garota apenas sentou no banco do motorista e ficou em silêncio, logo sentiu a mão de Luana apertando a sua e viu pelo espelho retrovisor que a loira agora estava sentada.

-Ouvi dizer que não foram dias bons para nenhuma de nós...

-Ouviu certo – Rafa respondeu sem se virar, apenas apertou de volta a mão da amiga –O que Marina está fazendo?

-Não sei – Luana voltou o olhar para a outra loira –Acho que ela só está tentando se acalmar, a mãe voltou pra casa, sabe? E ela acha que foi muito cedo, que ela não está bem ainda...

-E você? O que aconteceu com você? – Rafa perguntou mas antes que obtivesse uma resposta, Marina se juntou a elas e sentou no banco da frente que estava vazio. Luana soltou a mão de Rafa e se inclinou para frente ficando com o corpo entre as duas amigas.

Marina ficou sentada olhando para frente sem dizer nada, as outras duas garotas também ficaram em silêncio. Sabiam que Marina começaria a falar quando se sentisse segura e isso não demorou muito:

-É muito cedo, dá pra ver no rosto dela que ela ainda não está bem... Como os médicos puderam liberá-la quando é tão claro que ela não está bem?

Luana tocou o ombro dela e disse:

-Pode ser cedo, mas você precisa estar lá por ela. Não iria adiantar de nada ela ficar naquele lugar sem você e o seu pai, sabe disso, certo? Ela precisa da família dela mais do que precisa de médicos e remédios, entende isso?

Marina olhou para trás e encarou a amiga, seu rosto era uma mistura de angústia e dúvidas. Uma parte dela sabia que Luana estava certa mas o medo de que algo pudesse fazer sua mãe ficar pior não permitia que a loira processasse as coisas como deveria.

-Tem certeza disso? Tem certeza que eu não vou fazê-la ficar pior sem querer? – ela perguntou desesperada, em busca de qualquer coisa que pudesse tranquilizar seu coração.

-Eu tenho certeza absoluta – Luana se aproximou sem deixar de segurar o ombro dela com delicadeza –Você sempre conseguiu fazer a coisa certa, vai conseguir fazer dessa vez também. Esqueceu quem é a racional do nosso grupo? Foi você quem sempre cuidou de mim e da Rafa, pode cuidar da sua mãe também...

Os olhos de Marina se encheram de lágrimas e ela baixou a cabeça mas por dentro se sentiu melhor, sentiu que Luana tinha razão. Rafa segurou a mão de Marina e disse:

-Sabe que Luana está cem por cento certa, não tem com o que se preocupar. Você sempre conseguiu resolver tudo e, se dessa vez não conseguir, estamos aqui por você...

A loira concordou com um aceno de cabeça enquanto lutava para não deixar as lágrimas caírem. Quando seus olhos secaram, se virou para a Luana e perguntou:

-Já contou pra ela por que você quis que viéssemos pra cá?

-Ainda não – Luana respondeu se jogando pra trás e afundando nos bancos.

Rafaela se virou para olhá-la nos olhos e esperou que começasse, Marina fazia o mesmo.

-Então? – Rafa tentou encorajá-la.

Luana respirou fundo e começou:

-Minha mãe vai vir aqui daqui a alguns dias, pra se despedir... Aparentemente o novo marido cuzão dela arrumou um emprego melhor no exterior e ela quer que a “família” dela fique unida...

Rafa não conseguiu esconder sua surpresa, sabia o quanto isso era horrível para Luana. O abandono da mãe marcara ela tão profundamente que nunca conseguiu deixar de ter raiva e agora ela faria isso mais uma vez, a mãe dela a abandonaria novamente e não sobraria nada além de mais raiva para consolá-la.

-É como se eu e meu pai não fossemos a família dela, sabe? Como se não tivéssemos valor! Ela não se importa, nunca se importou porque agora a vida dela é toda perfeita enquanto eu e meu pai ainda estamos tentando arrumar o que sobrou. Que tipo de mãe é essa? Às vezes acho que ela não pode ser real, ela não pode ser desse jeito, ela tem que estar fingindo, certo? Ela não deveria abandonar sua família assim, me abandonar...

Rafaela estendeu a mão e tocou o joelho da amiga.

-Nós somos sua família agora. Cuidamos de você e não vamos te abandonar, ok? Você não precisa dessa mulher, nunca precisou, você tem a gente...

Marina tocou o outro joelho de Luana e balançou a cabeça concordando. Luana apenas ficou quieta por um tempo. Em alguns segundos, o telefone de Marina tocou e ela se virou para atender enquanto Luana começou a encarar Rafa fixamente.

Rafaela não conseguiu compreender o que a loira perguntava com os olhos mas sabia que havia algo em sua mente. A garota se virou para a frente e afastou as mãos do joelho da amiga. Mas logo escutou a voz de Luana perto da sua orelha:

-E o que aconteceu com você? – Rafa estremeceu mas não quis adicionar mais uma preocupação à lista da amiga e, pra falar a verdade, ela nem saberia por onde começar: pela mãe adotiva? Ou pelo fato de cada vez mais sentir-se atraída por Luana? A garota começou a balançar a cabeça enquanto respondia:

-Nada, estou bem... – sentiu que Luana ia comentar alguma coisa mas Marina saiu do telefone e começava a voltar a atenção para elas.

-Acho melhor eu voltar, meu pai quer que eu tente ficar um pouco mais em casa – Marina anunciou. As outras concordaram e Rafa trocou de assento para que Marina pudesse dirigir de volta.

A garota sentiu o olhar de Luana na sua nuca durante todo o caminho.



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